Não são só as mulheres que compram por impulso e depois se arrependem. Nós, homens, também aprontamos dessas às vezes, porém, não contamos a ninguém ou disfarçamos muito bem. Eu, por exemplo, dia desses, choquei toda a minha família ao anunciar que havia adquirido um estojo de ferramentas com furadeira. “Para quê?”, queriam saber tios, primos, avós, mãe, irmã, esposa, sogro, sogra, cunhados, cunhada, gatos e galinhas. O espanto geral procede, afinal, sou reconhecidamente um redondo zero à esquerda em matéria de habilidades manuais.
Em Uvanova, a pequena, simpática e acolhedora cidadezinha situada no meio da Serra Gaúcha, vizinha a Tapariu, onde residem meus sogros e família, todos já desistiram de me botar a enxada na mão ou de me convidar para ajudar a colher uvas. “Melhor mesmo é deixar o Marcos quieto lá no canto, lendo os livrinhos dele, que não coloca ninguém em risco”, compartilham todos os uvanovenses em relação a mim. Especialmente depois daquela feita em que fui ajudar a cortar a grama do pátio manuseando a maquininha de corte com fio e, quando vi, havia aparado todas as unhas do pé esquerdo no qual acabara de rasgar ao meio o chinelo-de-quase-ex-dedos que calçava. Tiraram-me das mãos o aparador e me mandaram para a casinha ler o jornal de ontem.
Desistiram definitivamente de mim poucas semanas atrás quando, também em Uvanova, meti-me a querer ajudar o pessoal a produzir geléia de uva, com os frutos recém colhidos do parreiral e da maneira como os antigos faziam. O sogro juntou a lenha enquanto tirávamos os grãos de uva dos cachos (isso me permitiram fazer) e logo o tacho estava no fogo, recebendo as uvas e o açúcar que, magicamente, logo se transformariam em saboroso doce. Como todos, quis também mexer a mistura com a mescola (pá de madeira usada para esses fins uvanovenses), mas fui catapultado de volta para a casinha do jornal de ontem quando minha descoordenação motora me fez começar a espalhar geléia por todo o pátio.
Por que, então, afinal, a aquisição da caixa de ferramentas com furadeira? Por causa da sedução irresistível da publicidade. Trata-se de um alerta. Protejam suas crianças. E me alcancem um jornal de ontem, por favor.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de março de 2011)

Muito bom!
ResponderExcluirAgora, quando precisar colocar um quadro na parede aqui em casa vou te chamar! :)
Beijos
Rafaela