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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O gato zumbi

Aconteceu na Flórida, nos Estados Unidos. Tudo pode acontecer nos Estados Unidos, ainda mais na Flórida. O protagonista do feito bizarro foi Bart, o gatinho. Como costumam fazer os gatos – todos os gatos, não somente os que vivem na Flórida –, Bart botou-se a passear pelas redondezas da casa em que vive, dividindo a atenção entre passarinhos que cantam, cachorros que latem, crianças que cruzam de bicicleta, chafarizes que respingam água, essas coisas. Até que (pausa para o novo parágrafo)...
Distraído como estava, Bart foi atropelado por um automóvel. Plaf! Espatifou-se o pobre Bart ali, no meio da rua, o rosto esfacelado, o corpinho sem vida. Momentos depois, Bart foi encontrado por seu dono, Ellis Hutson (sabemos até o nome do dono, o que confere maior credibilidade à narrativa), de 52 anos, que apavorou-se com o que via: Bart ali, atropelado, mortinho da silva, no meio de uma rua em Tampa Bay, na Flórida (logo na Flórida, onde acontece de tudo). E o que fez então Ellis Hutson, o dono de Bart, o gatinho que morreu atropelado? Pausa para um novo parágrafo...
Ora, Ellis Hutson, como todo o amoroso dono de bichinho de estimação, enterrou Bart nos fundos do quintal, lógico. Só que, passados cinco dias, quem é que de repente aparece na sala de jantar da casa de Ellis Hutson, o maxilar esfacelado, um olho vazado, as orelhas rasgadas, o pelo sujo de terra e até vermes comendo parte de sua bochecha? Ele: Bart, o gato-morto-vivo, o gato-zumbi, renascido dos mortos! Sim, Bart ressuscitou no quinto dia, cavou a terra e voltou à vida e aos braços de seu dono. Afinal, Bart é gato, mas vive na Flórida, onde tudo não só pode acontecer, como acontece mesmo.
O final da história é feliz: Bart está se recuperando em uma clínica veterinária, onde passou por cirurgias e estará logo pronto para gastar outras de suas vidas, já que, nos Estados Unidos, gatos têm nove vidas, e não apenas sete como aqui no ainda subdesenvolvido Brasil. Sem falar que, por aqui, quem morre, morre mesmo: gato, dono de gato, esperança, credibilidade em políticos... Ainda continuamos a estar bem longe da Flórida.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de janeiro de 2015)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Os riscos da soberba

Relacionamentos precisam ser constantemente cultivados, monitorados, acarinhados, para que perdurem e mantenham firme o laço que os sustenta. O desleixo em uma relação pode causar, a longo prazo, estragos semelhantes e tão graves quanto uma traição direta. A regra vale tanto para as relações interpessoais quanto para as institucionais. É preciso cuidar para não pisar na bola, pois a mágoa gerada por um descuido pode cobrar preços altos no futuro.
Barack Obama deve estar refletindo sobre isso, uma vez que a Casa Branca admitiu no início desta semana, por meio de um porta-voz, que os Estados Unidos erraram ao não enviar algum representante do alto escalão do governo para a passeata histórica que líderes de diversos países fizeram pelas ruas de Paris, na França, domingo à tarde, dando um recado contra o terrorismo internacional. Alemanha, Israel e vários outros países enviaram seus altos dignitários para prestar solidariedade aos franceses, representados ali também na passeata-monstro histórica por seu maior mandatário. Já os Estados Unidos se contentaram com a presença do embaixador norte-americano na França.
Contentaram a si e descontentaram geral, pois o aparente descaso norte-americano pegou mal junto ao tradicional aliado e parceiro francês. França e Estados Unidos cultivam uma parceria diplomática e estratégica há séculos. A França foi um dos mais importantes aliados das colônias americanas que se rebelaram contra o domínio inglês no século 18, movimento que resultou na independência dos EUA. Pouco depois, os Estados Unidos foram ativos apoiadores da Revolução Francesa que desbancou a monarquia e instituiu a república no país europeu, em 1789. Em reconhecimento pela amizade entre os dois povos, a França presenteou os EUA, em 1875, ano do centenário da independência norte-americana, com a Estátua da Liberdade.  Décadas mais tarde, forças aliadas capitaneadas pelos EUA invadiriam a Normandia em 1944, dando início à libertação da França do jugo nazista.

E, agora, Obama pisa na bola com os franceses, arranhando uma amizade de séculos, em um típico gesto de descuido derivado da soberba. Soberba, diga-se de passagem, é pecado capital. Exorcizemo-la sempre.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de janeiro de 2015)