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sábado, 7 de novembro de 2015

Pedras vão rolar, tchê!

Agora parece que rola mesmo. Foi confirmado esta semana o tão esperado show da banda britânica Rolling Stones em Porto Alegre, previsto para sacudir o gramado do Estádio Beira-Rio no dia 2 de março do ano que vem. Tirando o meu aniversário e um casamento, é o primeiro compromisso que bloqueio na agenda para 2016. Não tem como perder. Eu sei que não se pode ter sempre tudo o que se quer, mas quando o sal da Terra lhe é oferecido, não dá para ignorar a chance de obter um pouco de satisfação. E eu tento, e eu tento, mas eu tento.
Os Rolling Stones, representados especialmente pela presença dos três integrantes remanescentes da formação original (Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts), significam muito mais do que a mais longeva banda de rock em atividade no mundo (surgiram em 1962), autora de dezenas de sucessos clássicos do gênero. Os Stones personificam a essência do rock´n´roll tanto nas composições quanto no comportamento de seus membros: a celebração da juventude pelo seu viés mais positivo. Que viés é esse? Ora, justamente aquele que demonstra e comprova que “ser” jovem, “sentir-se” jovem, é uma questão que definitivamente nada tem a ver com a data de nascimento registrada na carteira de identidade.
Porque iremos a Porto Alegre no dia 2 de março de 2016 para assistir, sim, a um espetáculo histórico, mas também para sermos levados às nuvens por meio de uma arte musical protagonizada ao vivo por um grupo de artistas cuja média de idade gira em torno dos setenta anos. Quando eu era criança, décadas atrás, fui à festa de aniversário de meu avô, quando ele completava 60 anos, e eu fiquei, na época, pensando que ele deveria ser muito velho. Hoje eu estou às portas dos meus 50 anos, distante apenas dez daqueles 60 de meu avô, e não me sinto nada velho. Tanto que irei ao show de rock dos Stones em Porto Alegre, e pretendo pular bastante.

Esse é um dos legados mais significativos que cenário do rock deixa à civilização: o conceito de que você pode ser um jovem de 70 anos, cheio de energia e vitalidade, ou um velho de 20, abastecido de rancores e frustrações. A escolha sempre é de cada um, mas, como diz Bob Dylan em uma de suas músicas, “que você possa permanecer para sempre jovem”. Afinal de contas, isso é apenas rock and roll, mas eu gosto.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de novembro de 2015)

sábado, 17 de outubro de 2015

O meme de Angicos

Andam rindo, aí pelas plagas das redes sociais (não, madame, eu escrevi “plagas”, mesmo, sinônimo de “região”, mas a senhora tem razão na confusão, pois, em se tratando de questão relacionada às redes sociais, poderia muito bem este metafórico cronista estar usando o termo “pragas” a fim de desqualificar alguma típica baboseira que nelas transita, mas não é o caso, apesar de, pensando bem, talvez vir a ser mesmo o caso, acompanhemos o desenrolar do texto para ver no que é que vai dar). Dizia eu, mesmo...? Ah, sim, mas no segundo parágrafo, que este aqui já ficou tijolaço.
Andam rindo, aí pelas pragas das redes sociais (opa, agora me enganei, mesmo, eu queria escrever “plagas”, mas façamos assim: cada leitor aplica o termo que achar melhor , tanto “plagas” quanto “pragas”, que ambos se encaixam no contexto do que vai ser discutido, e, de lambuja, aprofundamos o exercício da construção comunitária e democrática da crônica). Mas andam é rindo do povo da cidade de Angicos, no interior do Rio Grande do Norte, que esta semana entrou em pânico ao confundir um drone com um disco voador. Pois é, viraram meme nas prag... quer dizer, nas redes sociais os áudios de angicanos (será assim?) apavorados, testemunhando o sobrevoo da assustadora máquina desconhecida, cheia de luzinhas piscantes, certamente proveniente de outro planeta, a confirmar a chegada do final dos tempos com a descida de ETs esverdeados e repletos de más intenções. Mas o disco voador não passava de um simples drone, utilizado por uma empresa para fazer o levantamento fotográfico aéreo de determinada área. Foi o que bastou...

Só que não tem graça nenhuma a confusão e o desespero vivenciados por alguns dos moradores de Angicos. Primeiro, porque o ritmo das evoluções tecnológicas hoje é tão alucinado que ninguém está livre de, às vezes, ficar com a impressão de que é o único peixe fora d´água (conheço gente que não sabe anexar arquivo em e-mail, por exemplo) e acabar pagando mico de vez em quando. Segundo, porque, uma vez que não se tratava de disco voador coisa nenhuma e tampouco de invasão marciana, tanto os moradores de Angicos quanto o restante de nós teremos de seguir nos apavorando mesmo é com as barbaridades e descalabros cometidos pelas más intenções dos humanos daqui da Terra. E isso não tem graça nenhuma.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 17 de outubro de 2015) 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Nu sem a mão no bolso

Nós, seres humanos, somos uns bichos esquisitos. Pertenço à espécie há quase meio século e continua sendo difícil me acostumar. Fazemos coisas complicadas de explicar e, na maioria das vezes, não temos maturidade para arcarmos com as devidas consequências. Há quem defenda a tese de que errar é humano e que persistir no erro é burrice. Porém, quanto mais conheço os humanos – até por ser um típico representante deles –, mais me convenço de que o ditado carece de calibragem. O correto talvez seja: errar é burrice; persistir no erro, isso sim, é humano, infelizmente.
Mas eu falava sobre esquisitices humanas, e vamos ficar hoje na superficialidade delas mesmo, porque não estou lá muito a fim de mergulhar nas águas profundas da filosofia (anti) humanística, especialmente em uma semana como esta, mais curta devido a um feriadão tão benfazejo e tão humanitário. Pois não é esquisita essa mania que temos, nós, bichos humanos, de nos cercarmos de tantos penduricalhos e aparatos artificiais, a ponto de, quando eventualmente saímos à rua sem eles, nos sentirmos nus, pelados, como se retrocedêssemos aos tempos das cavernas? Sim, porque, na era das cavernas, reza a História e a Antropologia que andávamos nus em pelo e barba. Eu não contraponho porque tenho só quase meio século de existência, como já disse, e não me lembro de nada antes de meu nascimento e juro que só ando pelado dentro do box do banheiro.
Mas confesso que me sinto nu quando saio às ruas sem minha pasta de trabalho, por exemplo. Minha esposa sofre a mesma vertigem quando sai de casa sem a bolsa. Meu cunhado, sem o aparelho celular (smartphone, corrijo-me); minha irmã, sem as chaves da casa; minha cunhada, sem meu sobrinho; meu outro cunhado, sem a camisa do Grêmio; um amigo meu, sem seus livros; outro amigo, sem a carteira; o sogro, sem o pente. Em resumo, somos, todos, dependentes dos penduricalhos nos quais nos escoramos para justificar a nós mesmos o tamanho de nossa frágil humanidade.

Somos esquisitos, é verdade, mas esse aspecto soa mais engraçado do que qualquer outra coisa (eu avisei que hoje tenderia para o sumo do superficial). De qualquer forma, preocupante mesmo seria sairmos de casa desprovidos de nossa humanidade e não nos sentirmos nus por causa disso. Agora, sim, a coisa aprofundou um pouquinho. Pensemos. Até amanhã.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de setembro de 2015)

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Vândalos virtuais

Da mesma forma como no mundo real, o universo virtual também é infestado pela praga dos mal-intencionados, legião que só faz crescer a olhos vistos e digitados. Se do lado de cá dos computadores precisamos nos precaver contra as ações de estelionatários, criminosos, bandidos, enganadores e espertitos, do lado de lá das telas precisamos tomar doses cada vez maiores de prudência para não sermos presas fáceis da engenhosidade malévola de quem quer tirar vantagem a todo o custo dos imprudentes, aliados ao bando dos que querem mesmo é anarquizar. É bom estar sempre alerta.
Todos já estão carecas de saber (ou deveriam estar) da existência dos hackers, aqueles nerds especializados em programação de computadores que conseguem invadir a sua máquina à distância por meio de programas-espiões, a partir dos quais roubam suas senhas de cartões de crédito e das contas bancárias e fazem aquele estrago nas suas finanças. Isso é uma coisa. Há também os criadores de vírus, cujas funções variam desde estragar sua máquina até apagar programas e arquivos, roubar senhas, zerar seus escores nos joguinhos, entre outras maldades irritantes e destrutivas. Isso é outra coisa, parecida com a primeira coisa. Coisas da mesma laia, em última análise.
Mas existe outro tipo de terrorista virtual em relação ao qual é preciso estar alerta, sob risco de sair pela aí reproduzindo informação errada e passando recibo de anta. Trata-se dos vândalos da informação, aqueles engraçadinhos que não têm graça nenhuma, cujo prazer psicopata é esculhambar sites ditos informativos, plantando neles dados errôneos. Claro que todos sabem (ou deveriam saber) que sites como a Wikipédia, por exemplo, não são confiáveis, uma vez que são domínios abertos ao público, ou seja, qualquer um pode acessar e inserir ali o que bem entender, sem que haja nenhum processo de triagem que garanta a lisura dos dados. Problema, e aí é que vem a coisa, é que as pessoas cada vez mais se utilizam de sites como esses para buscar e, pior, repassar informações que, algumas vezes, estão bombardeadas de erros.

Daqui a algum tempo, corre-se o risco de estarem dizendo que o Brasil é uma monarquia parlamentarista democrática, quando, na verdade, sabemos que o regime de governo aqui é... é... é o que, mesmo? Puxa, e agora?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de setembro de 2015)

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Quando pinga na conta

Hoje a crônica vai ser daquele tipo “seção pegadinha”, você sabe como é? O amigo leitor, a estimada leitora, já foram submetidos a essa espécie tão comum de crônica antes? Não? Sim? Não lembram? Nem sabem do que eu estou falando? Bom, então, o negócio é seguir adiante e ver no que é que vai dar.
Crônica do tipo “pegadinha” é dessas que começam propondo uma questão ao leitor, a servir de gatilho para remetê-lo a um mergulho dentro dos meandros (“meandros” caiu aqui como uma luva) de sua própria memória. Por exemplo: “onde você estava quando morreu Ayrton Senna?”. Ou ainda: “o que você estava fazendo quando morreu Tancredo Neves?”. Opa, essa última aí não faz o menor sentido para leitores que não estavam fazendo absolutamente nada pelo simples fato de não terem sequer nascido à época do ocorrido, isso se supusermos a eventualidade de eu ter de fato leitores com menos de 30 anos de idade. Mas essa aqui é comum a todos: “onde você estava, com quem estava e o que pensou quando o Brasil levou sete a um da Alemanha na última Copa do Mundo?”. Han? Preferiu esquecer completamente o episódio? É, foi mal, essa aí não serve de bom exemplo para nada mesmo.
Bom, mas o leitor e a leitora já entenderam o espírito da coisa e podemos seguir em frente. O que eu queria era convidá-los a recordar o destino que deram ao primeiro salário que receberam em suas vidas de trabalhadores, uma vez que o que fazer com o salário, quando o temos, e quando (e se) ele pinga na conta, é uma das questões que mais andam apoquentando o cotidiano dos brasileiros nesses hodiernos tempos de crise (já o “hodiernos” ali foi odioso, admito). Você se lembra de seu primeiro salário e o que fez com ele? Eu me lembro.

Os idos eram o final dos anos 1980 e eu começava como repórter de um jornal diário em Santa Maria da Boca do Monte. Recebi o olerite (ahá, olerite!), conferi os cifrões que me cabiam e parti firme para a mais tradicional loja de calçados daquela região, onde adquiri dois pares de sapatos. Depois, corri até a livraria e comprei um manual completo sobre a arte da diagramação de jornais (investimento em aprimoramento profissional) e outro com reproduções luxuosas de telas do pintor Salvador Dalí. Foi em sapatos e livros que gastei meu primeiro ordenado. Artefatos que vêm guiando meus passos por estradas tanto tangíveis quanto imaginárias, ao longo da vida. De minha parte, creio que comecei investindo certo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 8 de setembro de 2015)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Bendito dito

Diz o ditado popular que você não pode julgar um livro pela capa. Sim, concordo, todos concordamos. Aliás, é de lei concordar com a essência dos ditados populares. Qualquer pessoa municiada de bom senso concorda, afinal, o que os ditos ditados populares fazem é encerrar em si toda a carga conceitual de uma visão de mundo compartilhada pela esmagadora maioria da população. Por isso é que são populares. Os ditados impopulares, por outro lado, até tentam lá ditar as suas coisas, mas são refutados pelo gosto do povo e acabam sugados pelas bocas-de-lobo da História. Da História dos ditados populares, diga-se, mas não de passagem.
Ninguém vai sair por aí repetindo um ditado impopular, porque, em fazendo isso, estará incorrendo em uma contradição em si mesma, uma vez que o próprio ato de evocar o ditado, tirando-o da sombra, o populariza, e ele, de impopular que originalmente era, passa imediatamente a ser alçado à categoria de ditado popular, que é ao que todos os ditados, em última análise, aspiram. E não podemos ser condescendentes – e muito menos coniventes - com as aspirações escusas dos ditados impopulares. Nós, não, jacaré! Tenho dito!
Mas falávamos do dito ditado referente às capas dos livros, que são insuficientes para determinar a qualidade do conteúdo literário que envolvem. Uma capa de livro bela, atraente, bem transada, não significa que a literatura nele contida está em igual patamar em termos estético-literários. Às vezes, ocorre justamente o contrário, e então, estaremos comprando gato por lebre e trazendo à luz outro ditado popular que momentaneamente neutraliza e impopulariza o ditado anterior. É claro que uma capa bonita, bem transada, conforme já dito, tem o poder de nos aproximar do objeto livro, especialmente quando pouco sabemos a respeito da obra e menos ainda sobre o autor.

 É só depois de efetivado o contato inicial, viabilizado pelo poder de atração exercido pela cosmética da capa, que passaremos a conhecer em detalhes a consistência do conteúdo do livro. Disso dependerá nossa decisão de nos afastarmos dele, ou de nele mergulharmos, independentemente da capa. Eis aí a sabedoria popular do ditado, já que serve de metáfora óbvia para tanta outra coisa. Bendito aquilo que está bem dito, ponho-me aqui a criar ditado novo, para ver se populariza.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de setembro de 2015) 

sábado, 5 de setembro de 2015

Monarquia em alta

Francamente, venha cá, vamos combinar: estamos carecas de saber que não faz o menor sentido viajar a Roma e não ver o Papa, ainda mais agora, sendo o Papa um tomador de chimarrão igual a todos nós. Todos os outros deslizes semelhantes são até desculpáveis, como ir à Inglaterra, ficar mosqueando na frente do Palácio de Buckingham durante horas e não ver a Rainha, como fez certo cronista mundano caxiense um par de meses atrás, e nem vou dizer quem, para não gerar constrangimentos e intrigas literárias.
Ou atravessar a Grã-Bretanha até o Lago Ness, no norte da Escócia, e não avistar nem sinal de Nessie, o monstro pop-star que habita aquelas escuras e misteriosas águas, como fez outro mundano cronista de nossa cidade na mesma época, e de novo não vou revelar quem, para não ser tachado de destruidor de reputações literárias. Tudo isso, exceto a questiúncula ali relativa a Roma e ao Papa, é plenamente justificável e compreensível, perdoável, até, quando for o caso. Mas não se aplica perdão nenhum ao sujeito e à sujeita que (igual à questão do Papa e a viagem a Roma), estando em Caxias do Sul neste feriadão, mais especificamente no sábado à noite, não direcionar suas atenções à escolha do novo trio de soberanas da Festa da Uva, evento que mobiliza a comunidade inteira, onde, conforme diria minha avó, se o pudesse, “só se fala em outra coisa”.
Perdoável não ver a Rainha em Buckingham; perdoável não avistar Nessie no Lago Ness e, vá lá, perdoável também não ver sequer o Papa em Roma, porque o Papa é o Papa e perdoaria tamanha distração. Mas não ter candidata a Rainha da Festa da Uva, ah, convenhamos! Até eu tenho! Nunca vi o Papa ao vivo, nem Nessie e tampouco a Rainha da Inglaterra, mas vou acompanhar o evento de escolha no sábado à noite, e torcer pela minha candidata. Afinal, sou filho adotivo desta terra há 23 anos e também me sinto, sim, representado pela simpatia, pela inteligência, pela cultura, pelo carisma e pelo charme (pela beleza não, porque elas, belas que são, não representam nem de longe minha cara de uva chupada pelo Monstro do Lago Ness) das futuras Rainha e Princesas, sejam elas quem forem. Façam suas apostas e boa torcida a todos.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de setembro de 2015)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Independentes. Será?

Sempre que lanço os olhos sobre o calendário, ponho-me a pensar a respeito das datas que ele encerra, do significado de algumas delas. Umas, pessoais (como a de meu aniversário, por exemplo, a que eu mais gostava até os 15 anos de idade, e a que mais camuflo depois dos 40) e, outras, locais, nacionais e universais. Agora, por exemplo, o dia que se diferencia no calendário de mesa recebido de presente por generosidade extrema da agência bancária que para guardar o dinheiro que tenho cobra o dinheiro que não tenho, é a do 7 de setembro vindouro próximo, feriado, naturalmente.
Desde que me lembro por gente, comemora-se o 7 de setembro. Dando uma pesquisadinha básica (eu e as pesquisas, lembram?), não foi difícil descobrir, para minha surpresa (pessoas autocentradas levam muitas surpresas quando descobrem que as coisas não giram sempre ao redor de seu umbigo), que o 7 de setembro é comemorado há muitos anos antes de eu ter me descoberto por gente, lá pelos sete anos de idade, no início da década de 1970. Primeiro, a data passou a me chamar a atenção porque era o dia em que não havia aula, porém, tínhamos de, mesmo assim, vestir o uniforme do colégio e sairmos da cama bem cedo, no frio (em setembro ainda faz frio, desde aqueles idos), para irmos marchar na praça, ao som de bandas marciais.
Demorou ainda alguns anos para passar a ter a noção de que a data evocava mais do que apenas um dia de folga (se é que marchar na praça por obrigação pode ser considerado como folga, vá lá), mas tratava-as da celebração da Independência do Brasil do jugo de Portugal, feita por Dom Pedro I, em 1822. Muitíssimo antes de eu nascer, portanto. Mais sete anos e se comemorará o Bicentenário da Independência. E é aí que entra em cena o tal do “eu pensando ao olhar o calendário”. Independência de que, mesmo? Ah, sim, de Portugal.

Pois é. Dos ditames de Portugal, nos livramos há quase 200 anos. Falta ainda nos independizarmos da ação das quadrilhas de corruptos, da violência urbana, dos maus governantes, da falta de educação do povo, da pobreza econômica e cultural da sociedade, da falta de cidadania e de tantas outras coisas que o leitor e a leitora ajudam a completar. Libertar-se de Portugal, visto agora, em retrospecto, parece ter sido fichinha. Mas Dom Pedro I não está mais aí para comparar, né. Do resto, cabe agora a nós darmos nossos gritos do Ipiranga.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de setembro de 2015)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Linhas tortas

Alguém andou me perguntando pela aí, pelos cafés da vida, qual a relação que existe entre a leitura de um bom livro e o ato de saborear uma torta. Sim, isso mesmo. Desafios intelectuais dessa estirpe rondam as mesas dos cafés cult daqui de nossa região (e não são poucos na Serra Gaúcha, felizmente) e pousam nas mesas dos fregueses, indiscriminadamente, sem fazer triagem de nível educacional, nível econômico, nível intelectual, time do coração, assepsia e humor.
Quando você menos espera, logo depois da chegada de seu cappuccino com chantilly acompanhado por uma lasquinha de laranja cristalizada, a sorridente garçonete dá as costas e pá!, aterrissa na nossa mesa um desafio cerebral como o exemplificado ali em cima, e você não tem como escapar dele, sob pena de ser visto por seu companheiro de mesa (e pelos que estão ao redor, que ficam a espichar as orelhas para pescar fiapos das conversas alheias, que bem sei), sob pena de ser visto por todos (repito o termo sempre que interponho intercalações quilométricas na frase, que prejudicam o acompanhamento do raciocínio por parte do leitor), sob pena de ser visto por todos (ai, isso está cansando) por todos como um pobre inepto discursivo. E eu não sou um pobre inepto discursivo, minha senhora, meu senhor, ah, isso não sou, não! Inepto posso ser em muitas áreas, admito, mas menos nas cursivas e discursivas. Deixa comigo que eu tasco!
Como era mesmo a questão que caiu aqui, quase em cima da pirâmide de chantilly ainda sequer escavada com a colherinha em busca de vestígios de café? Qual a relação entre a leitura de um bom livro e o ato de saborear uma boa torta? Ah isso é fácil. Basta pensar, por exemplo, em uma suculenta Marta Rocha, e no prazer que existe em ir desfrutando seus sabores, cada garfada abocanhada representando uma página bem moldada de um livro bom. Uma garfada, uma página. Um lento mastigar decifrando as delícias escondidas na torta, no mesmo ritmo e cadência do mastigar metafórico do sentido das linhas lidas no livro bom. Eis aí a relação entre torta e leitura, prezado comensal, prezado leitor e querida leitora.

Dez com estrelinha para mim, acostumado que sou a me sair bem em desafios intelectuais profundos como o aqui citado, nem que seja por linhas (e) tortas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de setembro de 2015)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Quem pesquisa, sabe

Dedicado a fazer algumas pesquisas, acabei descobrindo certas coisas que até então, antes de começar as pesquisas, eu não sabia, fato que, por si só, revela, demonstra e atesta o bom termo a que vieram dar essas tais minhas pesquisas, uma vez que o mínimo resultado que se espera de uma pesquisa, quando iniciada, é que a seu cabo ela forneça dados que se configurem na condição de novidades, ao menos, para o pesquisador, porque senão, do contrário, de que serviria dedicar-se a fazer pesquisas não fosse pela iminente certeza de obter delas novos conhecimentos? Como é, madame? Gostaria de dar uma paradinha para recuperar o fôlego? A frase foi quilométrica sem que houvesse aviso inicial para os de pouco preparo? Ok, percorra então devagar o espaço em branco após o ponto final e nos encontramos no início do segundo parágrafo. Aguardo-a lá.
Oi, tudo bem? Recuperada? Tentemos seguir com frases mais curtas, a partir de agora. Tipo esta. Assim está bom? Ok. Então, como eu ia dizendo (a senhora pode dar uma paradinha também nos dois pontos, como agora): devido às minhas pesquisas, cujo teor não vem ao caso, acabei descobrindo, por tabela, o significado do nome da cidade catarinense de Blumenau, que se chama, vejam só, Blumenau. E por que motivo Blumenau se chama Blumenau? A senhora sabe? Não? Nem eu, mas fiz pesquisas. A senhora fez pesquisas? Pois se fizesse, talvez descobrisse, como eu descobri, que Blumenau evoca o sobrenome de uma figura importante para aquela cidade, o senhor Hermann Bruno Otto Blumenau, um imigrante alemão, filósofo e químico, que fundou aquela cidade, na metade do século 19. Fundou a cidade e foi homenageado e eternizado dando-lhe o nome. Seu próprio nome. Sabia? Eu não sabia.

Assim se dá também, madame, com várias outras cidades de nosso país, e nem nos damos por conta. Florianópolis homenageia Floriano Peixoto. Petrópolis (“a cidade de Pedro”) homenageia o Imperador Dom Pedro II, que a fundou. Caxias do Sul homenageia o Duque de Caxias, que também é homenageado em Caxias, no Maranhão, e em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Eu não tenho nenhuma homenagem citadina, uma vez que desconheço Marcópolis ou Kirstópolis (não, senhora, Patópolis não é em minha homenagem, a senhora está me tirando?). Mas, enfim, isso mostra como são importantes as pesquisas para o aprimoramento de nosso conhecimento geral. Aguardem os próximos compartilhamentos...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de setembro de 2015)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A hora do polichinelo


Eu não gostava dos professores de educação física, no colégio. A sentença encerra uma contradição em si, porque, na verdade, o que eu não gostava mesmo era das aulas de educação física, e acabava projetando nos professores toda a intensidade de minha não-gostança daquelas horas que, para mim, eram quase tortura. Os professores, em si, não tinham nada a ver com esses meus gostares e desgostares, que não servem de escala para medir a personalidade de ninguém.
Na verdade, hoje, olhando em retrospecto, percebo que os professores de educação física que tive ao longo de minha vida de estudos (primeiro e segundo graus e universidade) eram boas pessoas, educadores esforçados, profissionais, figuras bacanas, camaradas, coisa e tal. Problema mesmo era eu, que, resignado, enfiava o calçãozinho em casa e os kichutes a partir de um ritual mecanizado conduzido pela imperiosa necessidade de obter a frequência necessária para não acabar amargando no final do ano a vergonha de ficar de recuperação em... educação física! E ia-me eu lá, para as aulas de educação física, duas vezes por semana, correr em volta do campo ou da quadra, fazer dez apoios, dez polichinelos (eu odiava polichinelos devido à exposição pública sistemática de minha falta de coordenação motora), meu fôlego se esvaindo, o coração querendo sair pela boca e a alma rezando para voltar correndo para casa desenhar histórias em quadrinhos e continuar lendo as aventuras de Pedrinho nas imensidões do Sítio do Picapau Amarelo.
Sem falar que tinha a questão dos óculos, essa parte integrante de meu corpo que nasceu comigo e que era a mais prejudicada nesses momentos. O suor jorrava sobre as lentes e as embaçava enquanto eu corria. A armação era alvo preferencial das bolas de futebol, de tênis, de vôlei e de basquete nas quadras, onde não podia tirá-la sob pena de sair sempre correndo rumo às paredes dos ginásios; e eram indispensáveis nas aulas de natação para que eu pudesse diferenciar a superfície do fundo das piscinas. É, também tinha isso.

Mas sobrevivi, cá estou, saudável e faceiro, a ponto de poder redimir minha lembrança daqueles ótimos professores de educação física e de poder estender meus parabéns a todos os profissionais dessa área, cujo dia se comemora hoje.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de setembro de 2015)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

À sombra do vulcão

A tecnologia evolui com uma rapidez insana, desde que o homem aprendeu a friccionar dois gravetos e deles extrair faíscas com as quais produziu a primeira fogueira da pré-história da humanidade. Chamava-se Ugh, parece, o grande inventor. Ou Agh, conforme outras correntes científicas, mas talvez tudo não passe de leves diferenças de pronúncia, já que naquela época, apesar do fogo, ainda não fora inventado o bloquinho para anotações.
Mas certamente não foi fácil passar o conhecimento da nova técnica adiante. Não há registros, claro, mas é possível imaginar quantos outros humanos ao redor daquele vulcão queimaram os dedos tentando repetir a revolucionária experiência de Ugh (para outros, Agh). Esperto mesmo foi Igha, esposa da Ugh (Agh), que afanou um gravetinho incandescente da fogueira original e com ele gerou outro fogo, mais adiante, dentro da caverna, provando desde então a superioridade feminina sobre a masculina no quesito do uso do cérebro.
Mas, independentemente do invento em questão, o fato é que transmitir conhecimento adiante não é uma tarefa simples. Que o diga aquele meu amigo conhecido como Argentino, que há tempos não aparecia citado aqui nestas sempre mal-digitadas entrelinhas. Argentino tem um tio que mora no interior da Província de Misiones, fronteiriça à região noroeste do Rio Grande do Sul, que não se desfaz de maneira nenhuma de seu antigo computador. A máquina tem mais de 15 anos, está obsoleta, o visor ainda é verde, a CPU parece uma Torre de Babel de tão grande, mas ele não larga o trombolho.

Não só não larga, como carrega a tralha consigo quando sai em viagem para visitar o sobrinho aqui em Caxias do Sul, ou quando decide veranear no litoral gaúcho em Torres ou Capão da Canoa. Leva tudo junto, ocupando todo o espaço do banco traseiro de seu Peugeot amarelo, ano 1977. Fixação platônica pela máquina? Amor à tecnologia vintage? Sovinice militante? Não, nada disso. É porque, conforme ele mesmo explica ao meu amigo Argentino, o e-mail dele está ali dentro daquela máquina, e ele não pode viajar sem conferir os e-mails. Ele não consegue se imaginar abrindo seu correio eletrônico em nenhuma outra máquina, senão a sua. Como, senhora? Já contei isso antes? Ah, então desculpe, esqueci de atualizar minha página de temas para crônica. E se non é vero, ao menos, dessa vez, foi melhor trovato.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de agosto de 2015)

sábado, 29 de agosto de 2015

Não desista do sonho

“Nunca desista de seu sonho: se terminou em uma padaria, procure em outra”. Apesar de muito boa, a frase não é minha. Opa, isso soou prepotente. O que eu queria dizer era: a frase, apesar de boa, não é minha. Não, espera, deu no mesmo. Continua soando estranho. Fica parecendo que o leitor imaginaria poder ser minha a frase, de tão boa que ela é, como se fosse natural este mundano cronista que vos escreve ser capaz de parir frases luminosas como essa. Mas assim, bem o sabemos, não se dá. Tentemos, então, de novo: a frase é boa, mas, infelizmente, não é minha. Ou melhor: a frase é boa, mas não é minha. Isso. Era isso o que eu queria dizer.
Queria mesmo era dizer a frase boa, mas faz-se imperioso que eu revele sua devida autoria. Ela pertence a Apparício Torelly (1895 – 1971), o famoso jornalista e humorista gaúcho que ficou conhecido em todo o país pelo apelido autoimpingido de Barão de Itararé. Essa, entre muitas outras, integra o inabarcável cabedal de frases de efeito criadas pelo genioso e surpreendente escritor, ao longo de sua longa e divertida carreira na imprensa nacional. O humor com o qual tecia as sentenças que o caracterizavam servia de conduto a profundas verdades, como, aliás, sói acontecer com todos aqueles que se valem da leveza do humor para abordar de escanteio as profundezas da alma. Como o Barão de Itararé. Como Apparício Torelly. Como Stanislaw Ponte Preta, como Luis Fernando Veríssimo, como João Bergman (o Joatbê), como Jimmy Rodrigues, como Ítalo Calvino, como Fabrício Carpinejar e tantos outros.
A frase lapidar do Barão de Itararé nos permitiria discorrer aqui sobre a relação metafórica entre os sonhos de padaria, que alimentam o corpo, e os sonhos acalentados pelos anseios das almas das gentes, que preenchem vidas. Poderíamos, mas não podemos, porque a frase não nos pertence, e o cronista que vos escreve, apesar de mundano, não pretende incorrer na falta (crime de lesa-literatura) configurada pelo roubo das ideias e frases alheias, sendo que Apparício Torelly não é nenhum alheio, ressalte-se.

Só o que posso dizer, frente a isso tudo, é que eu, não sendo um frasista como o Barão, contento-me em me fazer mero visconde e a perseguir sonhos pelas confeitarias e padarias daqui do bairro, mesmo. Às vezes, encontro algum consonante à minha fome.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de agosto de 2015)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Por que por quê?

Meu avô paterno era fã de Apparício Torelly, o Barão de Itararé (jornalista e humorista gaúcho, 1895 -1971) e de João Bergman, o Jotabê (cronista gaúcho, 1922 -1960), mas tinha muito medo do Leonel Brizola (político gaúcho que foi governador do Rio Grande do Sul na década de 1960 e do Rio de Janeiro na década de 1980, nascido em 1922 e falecido em 2004 – se continuar desse jeito, daqui a pouco isso aqui deixa de ser crônica para se transformar em enciclopédia... talvez valha a pena, vai que enciclopedista ganhe mais do que cronista... preciso investigar). 
Dele, herdei o gosto por apreciar o humor inteligente dos dois escritores, mas felizmente não herdei os temores relativos ao político histórico, e é na sequência que explico o porquê (“o porquê”, tudo junto e com circunflexo, como tem de ser, viram? Só não me perguntem por que, porque daí isso vai se transformar em gramática e nos distanciaremos da crônica, sem que ninguém saiba por quê. Mas vai que gramático ganhe mais do que cronista... preciso investigar).
Pois passei boa parte da infância em Ijuí, lá na década de 1970, ouvindo meu avô sempre manifestar temores ao se referir, em suas conversas com “gente grande”, a Leonel Brizola. E eu, do alto da minha ingenuidade infantil, não entendia a razão daquilo. Mas, observador que era já desde as fraldas, fui crescendo e detectando ao redor, entre alguns adultos que orbitavam nossas relações, a existência de outros tementes a Brizola. E eu não entendia o porquê (certinho, de novo).
Mas daí, cresci, decidi ser jornalista e comecei a incrementar meu uso do “por quê?”, separado e com circunflexo, no fim da frase. “Por que você tem medo do Brizola?”, perguntava eu, separado e sem acento, pois no início da frase (e agora virou aula de Português, pois vai que professor ganhe mais do que... não, pior é que acho que não...). E aí, ninguém sabia responder o porquê. O tal do medo do Brizola não tinha explicação. Era apenas a repetição desinformada, o eco impensado de um senso comum, que ninguém sabia justificar.

Aquilo, para mim, não servia e segue não servindo. Preciso estar convicto, pleno de informações e de argumentos, para justificar meus temores ou minhas crenças. Afinal, cronistas, jornalistas, gramáticos, enciclopedistas, professores e cidadãos de todos os tipos não podem ser maria-vai-com-as-outras. E vocês sabem muito bem por quê.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de agosto de 2015)marcos

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O caminho e a pedra

Não, não tinha. Não tinha pedra nenhuma no meio do caminho, e no meio do caminho não tinha uma pedra. Nunca teve. Não tinha uma pedra, nem duas, nem pedregulho, nada. Chega uma hora em que se faz necessário desmistificar as coisas e, lamento revelar, mas o caminho estava livre e desimpedido, como sempre estivera. Quem botou aquela pedra lá, meus senhores, minhas senhoras, fomos nós, e desprovidos de qualquer motivação poética. Pronto, falei.
A verdade é que fizemos aquilo movidos por um daqueles típicos arroubos juvenis inexplicáveis que acometem as gentes quando elas são adolescentes e sentem vontade de fazer uma travessura da qual possam rir mais tarde, narrando aos amigos, para ver se ganham pontos na escala de popularidade entre os colegas e, principalmente, entre as colegas, pois é imperioso pavonear-se de atitudes sem sentido para se fazer notar, como bem sabe quem já foi (ou ainda é) adolescente alguma vez na vida. E nós não éramos diferentes. Quando nos demos por conta, já estava feito, e o caminho, de uma hora para a outra, passou a ter uma pedra, bem no meio.
Éramos três, os patet... digo, os amigos envolvidos na trama que, a bem da verdade, em nada foi tramada, mas, sim, deu-se de supetão. Um de nós já era maior de idade e tinha um Jipe cor salmão, muito velho, com o qual passeávamos pelas ruas emparalelepipedadas de Ijuí nas horas vagas das aulas. O dono do Jipe lá na frente e nós dois (eu e o outro amigo) na parte traseira, saltitando com os solavancos. E, dentro, havia uma grande pedra, que era usada a título de calço de roda para estacionamento, uma vez que o veículo andava desprovido de freio-de-mão. Ao subirmos uma ladeira, olhamo-nos um para o outro e tivemos a mesma ideia ao mesmo tempo: abrimos a porta traseira e pimba: arremessamos a pedra fora, que rolou por alguns metros e parou, no meio do caminho, pedra que era.

Ato totalmente sem sentido, mas que rendeu e rende até hoje boas risadas. Afinal de contas, decidimos que, naquele momento, havíamos materializado em atos a essência de uma grande poesia. Nem que fosse a réstia de poesia que talvez resida em uma pequena traquinagem de adolescente. A partir dali, fomos aprendendo a desviar das pedras que se interpunham em nossos caminhos. Como sempre digo, tudo pode ser metáfora. Até a pedra no meio do caminho de um poeta e de um bando de adolescentes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de agosto de 2015)

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Cada um na sua ilha

Vamos lá: já que você se botou a ler isto aqui, não importa se avisada ou desavisadamente, agora está sob meu poder, e vai ter de vir comigo até o ponto final. Se quiser, ainda há tempo de desistir e virar a página ou clicar em outra tela, mas agora foi, capturei, venha. Imagine-se em uma ilha. Não importa o tamanho da ilha, valem as de todos os tipos: grandes ou pequenas, habitadas ou desertas, com coqueiros e macaquinhos ou urbanizadas. Uma ilha, ponto. Você está lá, e está cercado de água por todos os lados. Seus vizinhos são as ondas, os tubarões, as algas, os navios que cruzam ao longe, o horizonte que circunda toda a área e faz você ficar desconfiando de que a Terra pode mesmo ser redonda. Uma ilha.
Você nasceu nela ou foi parar lá de alguma maneira, tanto faz, isso você mesmo pode decidir (há certas liberdades que concedo às minhas momentâneas presas literárias, como o estimado leitor e a querida leitora). E vamos ao ponto: você está lá, na ilha, e o que você faz dessa situação? Qual a sua atitude? Vejamos as opções. Se te chamares (vistes, alteramos a forma de tratamento para o “tu”, assim, no mais; coisas de liberdade narrativa de que nós, cronistas mundanos, costumamos nos apropriar) – se te chamares Ernesto ou Camilo, podes decidir fazer uma revolução; se fores um pirata do Caribe, podes enterrar nela um tesouro; se a tua ilha é no Havaí, podes inventar um novo estilo de surfar e alcançar a fama internacional; se fores moça, descolada e imaginativa, podes criar um novo estilo de biquíni; se fores o Tom Hanks, podes aprofundar os laços de amizade com bolas de vôlei da marca Wilson; se te chamares Robinson, podes zanzar de um lado a outro na ilha durante anos e anos e anotar tudo o que não lhe acontece, na expectativa de te tornares escritor famoso; se estiveres em uma ilha japonesa, podes criar uma nova receita de sushi; se aportares na Ilha do Diabo, podes gestar um plano e protagonizar uma fuga espetacular que depois vai virar filme; se fores Morel, na ilha te apaixonarás; se fores Moreau, na ilha criarás horrores.

As opções, como os amigos leitores e as amigas leitoras viram (abandonamos “tu” e “vós”, assim, sem mais), são infinitas. Cabe a você decidir que destino dar à sua estada em sua ilha. Morrer de tédio é opção só para os de alma pequena.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de agosto de 2015)

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Da razão das metáforas

Tenho, cá para mim, que uma das maiores invenções da humanidade, derivada do aprimoramento e do refinamento do espírito humano, é a metáfora. Sim, eu sei, existem outras invenções práticas também muito importantes que poderiam ser elencadas aqui, neste espaço privilegiado, como a aspirina, que alivia dores da cabeça ao cotovelo; a anestesia, que poupa dentistas de terem de correr quadras e quadras atrás de pacientes pusilânimes; o controle-remoto da tevê, que exercita a paciência de nossos cônjuges; a polenta, que pode ser plantada em qualquer tipo de solo e requer manejo mínimo para vingar, florescer forte e viçosa e aliviar a fome intermitente que assola os habitantes de regiões como essa nossa; o liquidificador, o lençol térmico, o leite condensado, o radiorrelógio, o corretor automático de testo, digo, de texto (estava esquecendo de aplicar o dito-cujo) e tantas outras que mereceriam, sim, uma longa, inspirada e laudatória crônica, mas hoje falaremos de metáforas.
Falaremos de metáforas porque elas vão representar aqui, nestas mal-digitadas linhas, o valor das invenções intangíveis, aquelas criações da mente humana que operam dentro dos limites ilimitados do espírito humano, diferentemente das invenções tangíveis e práticas que revolucionam o ato físico de viver, como a luz elétrica, o cotonete, o automóvel e as lombadas eletrônicas, só para citar algumas. As metáforas têm o poder e a função de ampliar, sem quaisquer amarras, a capacidade de compreensão humana da existência, de tudo aquilo que envolve, cerca e define o ato de existir, de observar a existência e de protagonizá-la. As metáforas conferem asas metafóricas (vejam, um pleonasmo!), libertam os grilhões que afundam nossos pés no cimento urbano, subjugam as âncoras que teimam em afundar na aridez da realidade e permitem o rompimento dos limites da significação da vida.
As metáforas são as parteiras das parábolas, das fábulas, dos mitos, dos ditados populares, das piadas, das comparações, das entrelinhas, dos subtextos, dos subentendidos, do humor, da ironia, das artes e da criatividade. As metáforas nos permitem cheirar com os olhos, escutar com os dedos, olhar com a alma, sorrir com os ombros, tocar com os ouvidos, entender com o coração, falar com o silêncio, dizer desdizendo, subentender o não-dito e inebriar-se de estética.

Só não me perguntem o que eu quis dizer com isso tudo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de agosto de 2015)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Serviços departamentalizados

A onda da departamentalização dos serviços chegou também lá em casa, e não é de hoje. Lá (aqui, no caso), está estabelecida, por meio de acordo tácito (tácito hoje, porque o tempo tratou de cristalizar, mas, no início, houve queda-de-braço, mesmo), a departamentalização dos serviços domésticos, cujas responsabilidades são divididas entre todas as duas pessoas que residem na unidade familiar composta por mim e pela senhora minha esposa. E não tem conversa, nem choro, muito menos ranger de dentes e “não quero”. É isso, e deu.
Problema é que eu não gosto da maioria das tarefas que cabem a mim. Não gosto, por exemplo, de lavar a louça. Não gosto de lavar e nem de secar, porque acho que o processo de secagem pode ser obtido de forma natural, com as louças todas empiramidadas esquisitamente sobre o escorredor de metal que vai desaparecendo paulatinamente a cada novo copo empilhado sobre panela em cima dele. Pronto, basta equilibrar ali tudo e esperar algumas horas (horas a mais no inverno e em dias úmidos, horas a menos no verão e em dias secos), que a mágica da secagem automática por meio de contato direto com o ar terá se dado. Mas nem sempre esse argumento científico convence a senhora minha esposa, que me olha atravessado de lá da outra ponta do corredor, vassoura na mão, ameaçando conferir ao objeto alguma utilidade a mais do que somente varrer o pó da casa, e corro a secar rapidinho copo por copo, colherinha por colherinha, antes que... vocês sabem...
Também não gosto de recolher a roupa seca do varal ao final do dia, antes que o sol se ponha. Nem de recolher a seca e nem de recolher a que ainda permaneceu úmida, devido a esses nossos dias repletos de surpresas climáticas que fazem a festa dos climatologistas, que não morrem de tédio na Serra jamais. Não gosto. Não gosto, mas faço, porque também não gosto das partes que tocam a ela, à senhora minha esposa, como varrer a casa, colocar a roupa na máquina de lavar, passar a roupa (o pesado mesmo fica para a faxineira que vem em dias marcados, antes que fiquem pensando que ninguém tira o pó e nem limpa os banheiros desta casa).

Mas não gosto. Faço e não gosto. Não gosto, mas faço. Aventei até em sugerir passarmos a usar somente louça e roupas descartáveis, mas, a jugar pela forma como ela empunhou a vassoura, retirei logo a proposta. Vai que decida descartar o marido...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de agosto de 2015)

sábado, 22 de agosto de 2015

O suor da competência

Você vai a um espetáculo de dança e sai de lá plenamente encantado com a leveza dos bailarinos, com a sincronia dos gestos em relação à música. Você vai a uma peça de teatro e sai de lá apaixonado pela atuação dos atores, pelo ritmo das cenas conduzidas pelo diretor, pela qualidade dos cenários. Você vai a uma galeria de arte e sai de lá hipnotizado pelo toque de gênio do artista, que retrata o mundo e as sensações com formas e cores nas telas. Você lê um bom livro e aplaude o escritor; escuta uma música magistral e endeusa o músico e o letrista; saboreia um bom vinho e tece loas ao enólogo; desfruta um manjar dos deuses e quer abraçar o chef.
Você é generoso em elogios sempre que se vê bem servido em termos de qualidade absoluta, em todas as áreas de atuação humana. E isso é muito bacana de sua parte. Mas, como nem tudo é perfeito, você comete um erro de avaliação, quase sempre, ao julgar que é tão fácil fazer essas coisas todas, tão belas e perfeitas, que até você seria capaz de igualá-las. E é aí que mora o perigo. As aparências enganam, e isso é um dos atributos essenciais de tudo aquilo que é aparente. Tudo aquilo que soa perfeito aos nossos olhos, realizado pelos outros, parece estar sendo feito com extrema facilidade e, por isso, soa como passível de ser igualado. Ledo engano.
A perfeição dos gestos do artista, dos textos do escritor, da sonoridade da música, dos sabores dos pratos e de tudo o mais, que acaba soando tão simples, decorre de um grande e essencial segredo: o trabalho árduo, a dedicação e o supremo esforço. Só assim o artista e o especialista conseguem realizar com aparente facilidade aquilo que acaba soando belo e perfeito. Faça um teste. Vá a um restaurante de sua preferência e peça aquele maravilhoso filé ao molho madeira, que você tanto aprecia. Depois, vá para casa e, no dia seguinte, tente fazer em sua cozinha um prato igual. Será que vai conseguir? Você sabe as manhas para obter um filé suculento mas não cru, frito mas não sola-de-sapato, saboroso mas não salgado demais?

Em todas as atividades existem os truques e a perfeição só é alcançada depois de muito treino e suor. É por isso que o artista é artista e o público aplaude. Se não podemos ser artistas, que saibamos exercer com perfeição a arte de aplaudirmos quem de fato o é. Eis também aí uma arte.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de agosto de 2015)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Na mira de Angelina

Não é de hoje que a homarada do planeta se coça de inveja do Brad Pitt, pelo fato de ele ter conquistado a Angelina Jolie, ela, que é considerada por muitos a mulher mais bela do mesmo planeta. Parece que o reverso da medalha é semelhante em essência, mostrando que a mulherada do planeta em questão também sentiria da Angelina Jolie uma inveja danada, daquelas que nem beijinho no ombro protege, pelo fato de ela ter conquistado o Bradão (para os íntimos), aquele “pedaço de homem”, e intensifico aqui a importância das aspas para que ninguém pense que fraquejo no meu posto bem posicionado entre a homarada apreciadora de Angelina, a Angie, para nós, os íntimos.
E, daí, é aquela coisa que o amigo leitor e a estimada leitora bem sabem: o casal dos sonhos se casa um com o outro, a mulher mais linda com o homem mais belo, riquíssimos, famosíssimos, poderosíssimos, lindos e cheirosos... Mas, epa... Parece que anda havendo ruído nessa sinfonia, uma desandada na maionese, um pinhão carunchado no meio da bocha, uma desafinada no solo de guitarra... A Angelina, ou melhor, a Angie, andou dizendo para a imprensa internacional (e a imprensa internacional, que não é confidente da Angelina, mas, sim, de todo o planeta, tratou de espalhar para todo o mundo) que ela está “por aqui” com a aparência do Bradão, e que não aguenta mais o visual desleixado que o maridaço tem cultivado na intimidade de seu lar, que respinga sustos por onde quer que ele desfile sua propalada (e agora questionada) beleza.
Ela vem reclamando das condições horrorosas da pele dele, porque ele não se cuida, né, amiga. Além disso, o ator deixou crescer uma enorme barba (“horrível”, segundo ela) para camuflar a pele também horrorosa. Ou seja, aos olhos da Angie, Brad está um caco, e a bela deu um ultimato: ele precisa urgentemente fazer alguma coisa para que ela volte a achá-lo atraente, senão... Brad já anda até considerando fazer uma cirurgia plástica, sob o risco de perder os olhares ronronantes de Angelina.
Viu só, Brad? Até pode ter sido fácil, para você, conquistar uma Angelina Jolie. Mas nem você está livre da necessidade imperiosa, imposta a todos nós, homens, de nos esforçarmos diariamente para mantermos nossas mulheres interessadas e renovarmos a conquista. Bem vindo ao clube dos mortais, Bradão. E dá licença, que preciso ir cortar o cabelo...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de agosto de 2015)