segunda-feira, 8 de abril de 2019

A sutileza dos grandes


Do grande, do vitorioso, do poderoso, do vencedor, temos o direito e o dever de exigir generosidade e humildade. Do pequeno, do humilde, do fraco, do perdedor, não podemos exigir nada, porque, conforme ensinava o sábio Barão de Itararé, “de onde menos se espera, dali é que não sai nada, mesmo”. Não cabe ao grande ser altivo, presunçoso e prepotente, porque, em sendo assim, incorrerá na soberba, e a soberba é a ferrugem que carcome as bases da grandeza, levando-a à derrocada e à ruína. Se fores grande, sê dócil, leve e acessível. Não envelopa tua grandeza no celofane traiçoeiro da arrogância, porque ela é a argamassa da fundação do castelo de areia em que te verás assentado. Muitos serão os que, movidos pela inveja, soprarão essas frágeis fundações, e logo te verás quedado sobre as ruínas das dunas fugazes que tu mesmo edificaste. Sê manso, mesmo que grande, porque é essa mansidão que carimbará teu passaporte para a perenidade.
Se fores grande, saibas que a legião dos pequenos que te rodeiam nutre expectativas imensas de ti. Exigem de ti o que neles não veem possibilidade de obter, e projetam em ti aquilo que gostariam de ser. Mesmo que não o sejas, mesmo que te vejas pequeno para atender às exigências, faz o teu melhor, porque é isso que se espera de um grande. Arca com essa responsabilidade, porque a grandeza não é uma esfera que se atinge sem portar demandas. “Vae victis!” (“Ai dos vencidos”!), gritou o gaulês Brennus, no século quatro antes de Cristo, ao vencer os romanos e saquear uma Roma subjugada. “Gloria victis” (“Glória aos vencidos”!), foi a locução criada em antítese à prepotência do vencedor gaulês, que poderia ter se poupado de entrar para a História por pronunciar frase tão infame. É fácil, aliás, um grande, um poderoso, assentar-se na eternidade devido à infâmia a que se vê seduzido (e reduzido) por sua posição privilegiada.
Ao forte cabe cuidar dos mais fracos, e não usar sua força para oprimi-los. “Junto a um grande poder, surge uma grande responsabilidade”, já ensinava nos quadrinhos o tio do Homem-Aranha, em diálogo eternizado pela genialidade de Stan Lee. Chefe bom não é o que impõe temor, mas, sim, o que inspira exemplo. Difícil, isso. Não é para todos. A altura seduz, sim, mas é prudente saber que a queda do alto costuma ser mais devastadora do que a mera escorregadela ao nível do solo. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, nos alerta há milênios o Eclesiastes. Vale pra todo mundo. De minha parte, madama, sempre quis escrever uma crônica epistolar. Mesmo ciente de que ela sempre será de segunda...
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 8 de abril de 2019)

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A civilidade do Gama


Nesses dias atuais pautados por ódios exacerbados dando o tom às postagens nas redes sociais e ao transitar na vida real, em que não se medem esforços para atacar e destruir a tudo e a todos, vale lembrar um episódio modelar ocorrido no Rio de Janeiro há mais de um século, e que foi registrado por um dos protagonistas na revista “Máscara”, produzida em Porto Alegre, em sua edição número 1, de 1918. Quem relatava o feito, em artigo naquela publicação, era o jurista, político e notável gaúcho João Carlos Machado, evocando um encontro casual que tivera alguns anos antes, no Rio (então capital federal do país), com o poeta gaúcho Marcelo Gama (1878 - 1915), ali radicado.
O poeta ainda vivia (antes de ser arremessado fatalmente do banco de um bonde sobre um viaduto no Rio, despencando de uma altura de sete metros), quando Machado deu com ele em uma quebrada no centro da metrópole. Gama convida o conterrâneo a segui-lo até uma mesa da tradicional confeitaria “Americana”, para conversar. Ali, do interior de uma pasta repleta de papéis, o poeta pinça um “libelo” que tencionava publicar na imprensa carioca, direcionado contra determinado escritor que vinha sendo aclamado pela imprensa e pela crítica, segundo ele, de forma injusta, pois não passaria de um “incompetente arranjador de lugares comuns”, incensado pelos “basbaques”. A crítica de Gama, segundo Machado, ao ouvi-la ser lida em primeira mão pelo autor, era demolidora, “atacando a fundo os vícios literários da notabilidade incipiente”.
“Que tal?”, perguntou o Gama ao amigo, ao findar a leitura do artigo arrasador, ainda inédito. De pronto, Machado respondeu: “Homem ao mar! Publicas isso num dia e, no outro, o homenzinho chorará cento por cento da sua reputação literária”. Ao ouvir isso do parceiro, “baixou a cabeça Marcelo Gama”; silenciou e passou a travar uma luta em seu íntimo. “Aquele coração, infeliz, mas fundamentalmente bom, não sabia praticar perversidades”, ponderou o interlocutor do poeta. Então, discretamente, Gama rasgou em pequenos pedaços o papel que continha a ácida crítica tão habilmente por ele arquitetada e jogou-os ao vento. Em seguida, sorvendo um gole de seu aperitivo, murmurou, resignado: “Esse inconsciente que suba!”
Marcelo Gama conseguiu abrir mão do ato de tentar destruir, ou, ao menos, chacoalhar uma reputação. Foi estoico. Heroicamente, refreou os ímpetos agressivos que assomam de tempos em tempos ao espírito de quem é humano. O Gama engoliu em seco seu fel e imortalizou civilidade. Ah, que falta nos faz uma gama de Gamas assim, um século depois!
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 1 de abril de 2019)

segunda-feira, 25 de março de 2019

Patos e ratos pela Dante


Que eu saiba, Patópolis nunca teve uma via chamada Rua dos Viajantes, como aquela que sediava meus sonhos de infância na altura do número 119, em Ijuí. Pavimentada com paralelepípedos irregulares, a curta rua abrigava o processo de modelagem desse ser apaixonado pelo universo dos livros e das leituras em que muito cedo me transformei. Patópolis, a cidade imaginária onde vive boa parte dos personagens das histórias em quadrinhos de Walt Disney, fazia parte desse processo, e minha rua inteira parecia ser absorvida por aquele ambiente mágico de patos e ratos falantes sempre que as páginas dos gibis eram abertas, convidando-me ao mergulho na leitura.
Assim como muitos da minha geração, alfabetizados na década de 1970 do século passado, tive nas revistinhas do Pato Donald, Mickey, Zé Carioca e companhia, um suporte crucial no processo de consolidação do hábito de ler. Minnie, Pluto, Pateta, Margarida, Lampadinha, João Bafo-de-Onça, Maga Patalógica, Ronrom, Huguinho, Zezinho, Luizinho, Peninha, são apenas alguns dos personagens que desfilam na avenida de minhas lembranças hoje, da mesma forma como pareciam desfilar e fazer suas estripulias pela Rua dos Viajantes de meus dias de criança.
Mas as fronteiras da imaginação não se vergam a limites de nenhuma natureza. Nem nos meus mais absurdos sonhos infantis eu conseguiria imaginar que, anos depois, já adulto e vivendo da escrita profissional (como jornalista, escritor e cronista de segunda) em Caxias do Sul, eu passaria a habitar a cidade-sede da editora que publica, no Brasil, a linha de gibis Disney que tanto me foram (e ainda são) significativos. Esse sonho doce se concretiza agora, quando chegam às bancas as edições de estreia de cinco títulos Disney pela caxiense Editora Culturama, que assume a missão deixada pela Editora Abril, a casa Disney no Brasil de 1950 até 2018.
Quac! Então, agora, Patópolis é aqui, mesmo, com sabor de polenta e frango ao primo canto! O Mancha Negra que se cuide com o Orco e o Sanguanel! O Tio Patinhas, imagino, ficará à vontade, ao descobrir que já temos uma Caixa-Forte (“A Patada” fará concorrência ao “Pioneiro”?)! A torta de maçã da Vovó Donalda passará a integrar o menu local de sobremesas, ao lado do sagu gelado que tanto aprecio? A Praça Dante à noite será vigiada pelo Morcego Vermelho em seu pula-pula? O Pato Donald terá paciência para circular com seu conversível placas 313 pelo trânsito engarrafado da Sinimbu nos horários de pico? Seja como for, benvenuti a tutti, Mickey, Pato Donald e toda a galera! Que nos tragam bons sonhos.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 25 de março de 2019)

segunda-feira, 18 de março de 2019

Semana regida por Calíope

Abrimos esta crônica de segunda com a poesia “Sonhos”, do escritor norte-americano Langston Hughes (1902 –1967): “Agarre-se aos sonhos/ Pois se os sonhos morrerem/ A vida é um pássaro de asas quebradas/ Que não pode voar./ Agarre-se aos sonhos/ Pois quando os sonhos se vão/ A vida é um campo estéril/ Congelado com a neve”. Significativo por si só, o pequeno grande poema foi evocado ano passado pela diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, em sua mensagem especial no Dia Mundial da Poesia, instituído pela entidade desde 1999 e que se celebra em 21 de março (próxima, quinta-feira). Ao chegar a data, saberemos que excerto de que poeta a diretora escolherá este ano para direcionar as atenções a essa arte que embala os sonhos e ressignifica a realidade das gentes ao redor do mundo.
Bons poetas e poemas é o que não falta no menu da nobre arte para a escolha da dirigente da Unesco. Claro que ela será inspirada na missão pelas tramas de Calíope, a primeira das nove musas gregas (ao lado de suas irmãs Érato, Clio, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Tália, Terpsícore e Urânia), a quem cabe reger a poesia épica e a eloquência. Independentemente dos versos que vierem à luz este ano, o certo é que serão evocados com a missão de lembrar o mundo de que a Poesia integra o rol das necessidades vitais do ser humano em sua busca pelo sonho de uma vida plena. A Unesco entende que a existência humana só atinge a plenitude quando, junto às urgências básicas (alimento, abrigo, saúde, trabalho, educação, segurança etc), também se busca saciar as premências do espírito, cuja fonte reside nas artes e na cultura. Poesia, portanto, é vital, e feliz do povo que acolhe e abriga seus poetas, os guardiões dos sonhos.

Caxias do Sul, por exemplo, porta credenciais suficientes para suster o título de comunidade tocada pela poesia, já que por aqui exerceram o ofício poetas (natos e adotados) de envergadura capaz de embevecer até mesmo Calíope. Um desses nomes é o de Vivita Cartier, nascida em Porto Alegre em 1893 e que adotou a Serra Gaúcha como cenário para travar batalha contra a tuberculose em seus anos derradeiros. Um século atrás, em 21 de março de 1919 (antecedendo o Dia Mundial de Poesia em oito décadas), Vivita morria, aos 25 anos, em Criúva, onde está sepultada. Porém, o mito de sua persona sobrevive ao tempo. Sua curta e intensa trajetória de vida e a qualidade de sua obra ganham luz neste sábado, com o lançamento de sua biografia, assinada por mim, na Galeria Municipal de Arte, das 14h às 18h. A entrada é franca e estão todos convidados para a concretização desse sonho poético.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 11 de março de 2019)

segunda-feira, 11 de março de 2019

Entre ferros, com postura


“Postura, Marcos, postura! Observa a postura!”, costumam exclamar meus instrutores de treino na academia, onde passei a ser uma presença inesperadamente regular. “Tchau, até o próximo treininho”, abanam eles, sorridentes, sempre que concluo mais uma sessão de exercícios elaborados com a intenção de me resgatar das profundezas maléficas da movediça e afundante areia do sedentarismo. “Treininho” para eles, claro, habituados que estão a puxar aqueles ferros com a ponta do dedo mindinho e a carregar os halteres de lado a lado com a mesma desenvoltura e naturalidade com que eu troco de lugar os livros de minha biblioteca. Atento e disciplinado, vou suando e aprendendo.
Aprendo, por exemplo, que de nada adianta fazer três sequências de dez erguidas de peso se eu não fixar corretamente os pés no chão, com as pernas bem separadas e o corpo ereto como quando procuro melhor visualizar, por sobre as cabeças da multidão, o carro das rainhas no Corso Alegórico na Rua Sinimbú. Para obter o resultado ideal do treino, é preciso não só seguir a sequência e puxar os ferros, mas fazê-lo com a postura correta. “Postura, Marcos, postura!”. Tudo é uma questão de postura, e estão certos a Renata e o Eduardo, meus atentos e dedicados treinadores, em constantemente me puxar as orelhas enquanto puxo eu os ferros. Má postura gera más consequências e, além disso, revela, em sua origem, uma relação precária com as coisas, de desleixo, de desatenção ou de desconhecimento. É preciso estarmos sempre atentos à postura, porque ela também dá indícios sobre quem somos, o que e como somos.
Até as galinhas no aviário dedicam-se à postura, diria algum cronista mundano de segunda disposto a fazer gracinha. Nós, aqui, que somos sérios, pensamos além e evocamos a importância da postura também nas relações pessoais, no trabalho, na sociedade, em público, em casa, em família, nas redes sociais virtuais e reais. Nossa postura, tanto a física quanto a comportamental, expressa as nuances de nossa essência, nos define e diferencia. Qual a sua postura, por exemplo, frente à morte súbita de uma criança de sete anos de idade, descendente direta de um político controverso? Há aqueles que, movidos pela empatia humana que aflora frente às tragédias, se condoem e se solidarizam. E há os que desdenham e politizam a desgraça, aprofundando a desumanização de uma sociedade doente. A postura fala e revela, desmascara e escancara. “Postura, Marcos, postura!”, repetem a Renata e o Eduardo. Estão certos. É preciso atentar à postura, tanto na academia de musculação quanto na academia da vida.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 11 de março de 2019)

segunda-feira, 4 de março de 2019

A reincidência dos vândalos


Bamiyan é uma cidade do Afeganistão situada a 240 quilômetros da capital Cabul e reconhecida como uma das regiões mais sagradas do mundo para os budistas. A Unesco elenca aquele vale como Patrimônio Cultural Mundial por situar-se na antiga Rota da Seda, que no passado interligava o comércio entre o Oriente e o Ocidente, e por abrigar diversos mosteiros budistas milenares. Encravadas nas rochas arenosas da região, os antigos monges esculpiram, entre os séculos IV e V d.C., as duas maiores estátuas de Buda em pé no mundo, uma medindo 38 metros de altura e a outra, 55 metros. As duas maravilhas arqueológicas eram consideradas Patrimônio Cultural da Humanidade até o ano de 2001, quando foram destruídas por integrantes do grupo radical islâmico Talibã, que as bombardeou ao longo de 25 dias. Um atentado deliberado, cruel, sádico, estúpido e irreversível contra a Cultura, contra a Arte e contra o maior patrimônio humano, que é o fruto de seu talento criativo.
A “Cidade Eterna” Roma, centro pulsante de um império que dominou o Mundo Antigo por séculos, também sentiu na carne o poder irrefreável da ânsia de destruição dos bens culturais e dos agentes de cultura ao ser submetida meia dúzia de vezes aos ataques de invasores bárbaros. Gauleses, visigodos, vândalos, hunos e ostrogodos sucederam-se, ao longo dos séculos, nos atos de saquear e destruir Roma e seus monumentos, suas estátuas, sua cultura em geral, até culminar na queda absoluta do Império Romano. O pouco que restou (frente ao que existia) encanta turistas do mundo inteiro até hoje. Os nazistas, ao tomarem o poder na Alemanha, já no século XX, não fizeram por menos e também logo elencaram a Cultura e seus artífices como inimigos a serem combatidos e destruídos. Disso resultaram atos como a queima de livros em praça pública, a perseguição a artistas e intelectuais e a ordem de Hitler de implodir os monumentos históricos de Paris quando os Aliados se aproximavam para libertar a “Cidade Luz” (então ofuscada pelas trevas do terror que a dominava), em 1944. Felizmente, não foi atendido por um oficial minimamente lúcido (o general Dietrich Von Choltitz, então comandante alemão da cidade), e a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo seguem em pé, irradiando História.
Sempre há quem resista às ondas de ações anticivilizatórias, pois que os vândalos retornam em ciclos dispostos a fazer terra arrasada da Cultura, das Artes, dos artistas e das tradições que dão sentido, permanência e identidade à existência dos povos. É preciso zelar, afinal, os talibãs estão sempre à espreita.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 4 de março de 2019)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O país dos mais espertos


Precisamos refletir sobre a questão da esperteza. Esse tipo de esperteza que, ao trazer agregada uma falsa sensação de superioridade, acaba descambando para a simples safadeza irresponsável e inconsequente. O problema do espírito coletivo brasileiro é essa tendência que cultivamos, ao longo dos séculos, de nos acharmos mais espertos do que tudo e do que todos. Está entranhada em nossa cultura (“cultura”?) essa vocação para burlar as regras que são estabelecidas justamente para regulamentar o convívio civilizado em sociedade. As regras, pensamos nós, são para os outros, os bananas. Nós, que espertinhos somos, não precisamos segui-las. E daí, né, dá no que dá.
Nós nos achamos mais espertos do que as leis de trânsito, e por isso julgamos normal desrespeitar limites de velocidade, faixas de segurança, restrições ao estacionamento, semáforos etc. Nossa esperteza, claro, gera um trânsito caótico e assassino. A multa, criada para coibir e punir o transgressor, é deturpada como indústria arrecadatória, como se não bastasse obedecer às regras de trânsito para escapar da dita conspiração que, obviamente, não existe. O que existe, sim, é a esperteza geral de quem dirige como um mamute pensando em ludibriar e dar na cara das lesmas ao redor. Até dar de cara no poste da esquina.
Nós nos achamos mais espertos do que as leis de fiscalização de construções (de barragens a centros de treinamento de jovens atletas, por exemplo, sem falar nos museus e boates) e, assim, vamos burlando exigências legais a preço de propina e leniência, contando com os bafejos da sorte para que nada dê errado e, se der (e vai dar), possamos salvar nossos couros depois das tragédias. Achamo-nos espertos e postamos porcarias nas redes sociais agredindo, xingando, pré-julgando, mentindo e escancarando a podridão que habita nossas almas, poluindo o mundo com ódio e falsidades. Somos espertos, temos sempre algo inteligentíssimo a dizer, claro. E lá vai asneira sobre asneira, erigindo Torres de Babel sobre areia movediça.
A consequência dessa nossa esperteza toda está aí, nas manchetes dos jornais, em sucessões alucinantes de tragédias que poderiam ser evitadas caso optássemos por sermos menos espertos e mais cidadãos de verdade. Um país não se molda em espertezas. Molda-se é em suor, trabalho, dedicação diária e regras de cidadania seguidas por todos, em todos os níveis e em todas as esferas. Mas daí o caminho fica mais difícil e os espertos precisam se dar bem logo. Ok, são opções. Só que a fatura um dia aparece por debaixo da porta. Aguardemos as próximas manchetes.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 25 de fevereiro de 2019)