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segunda-feira, 18 de março de 2019

Semana regida por Calíope

Abrimos esta crônica de segunda com a poesia “Sonhos”, do escritor norte-americano Langston Hughes (1902 –1967): “Agarre-se aos sonhos/ Pois se os sonhos morrerem/ A vida é um pássaro de asas quebradas/ Que não pode voar./ Agarre-se aos sonhos/ Pois quando os sonhos se vão/ A vida é um campo estéril/ Congelado com a neve”. Significativo por si só, o pequeno grande poema foi evocado ano passado pela diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, em sua mensagem especial no Dia Mundial da Poesia, instituído pela entidade desde 1999 e que se celebra em 21 de março (próxima, quinta-feira). Ao chegar a data, saberemos que excerto de que poeta a diretora escolherá este ano para direcionar as atenções a essa arte que embala os sonhos e ressignifica a realidade das gentes ao redor do mundo.
Bons poetas e poemas é o que não falta no menu da nobre arte para a escolha da dirigente da Unesco. Claro que ela será inspirada na missão pelas tramas de Calíope, a primeira das nove musas gregas (ao lado de suas irmãs Érato, Clio, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Tália, Terpsícore e Urânia), a quem cabe reger a poesia épica e a eloquência. Independentemente dos versos que vierem à luz este ano, o certo é que serão evocados com a missão de lembrar o mundo de que a Poesia integra o rol das necessidades vitais do ser humano em sua busca pelo sonho de uma vida plena. A Unesco entende que a existência humana só atinge a plenitude quando, junto às urgências básicas (alimento, abrigo, saúde, trabalho, educação, segurança etc), também se busca saciar as premências do espírito, cuja fonte reside nas artes e na cultura. Poesia, portanto, é vital, e feliz do povo que acolhe e abriga seus poetas, os guardiões dos sonhos.

Caxias do Sul, por exemplo, porta credenciais suficientes para suster o título de comunidade tocada pela poesia, já que por aqui exerceram o ofício poetas (natos e adotados) de envergadura capaz de embevecer até mesmo Calíope. Um desses nomes é o de Vivita Cartier, nascida em Porto Alegre em 1893 e que adotou a Serra Gaúcha como cenário para travar batalha contra a tuberculose em seus anos derradeiros. Um século atrás, em 21 de março de 1919 (antecedendo o Dia Mundial de Poesia em oito décadas), Vivita morria, aos 25 anos, em Criúva, onde está sepultada. Porém, o mito de sua persona sobrevive ao tempo. Sua curta e intensa trajetória de vida e a qualidade de sua obra ganham luz neste sábado, com o lançamento de sua biografia, assinada por mim, na Galeria Municipal de Arte, das 14h às 18h. A entrada é franca e estão todos convidados para a concretização desse sonho poético.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 11 de março de 2019)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Um mito revigorado


O Tempo e a Memória são elementos invisíveis que operam em conjunto nas sombras da existência para conferir (ou não) permanência aos nomes de quem viveu. Há aqueles que se assentam em lugares perenes na História devido aos seus feitos transformadores ou destruidores; esses são os vultos ilustres que perpassam gerações e ultrapassam fronteiras. Há aqueles cuja amplitude de referência se restringe a círculos mais íntimos ou restritos, em especial nos âmbitos familiares ou de comunidades específicas, postos que podem ser ocupados pelas pessoas ditas comuns. E há aqueles cujos nomes simplesmente se esvanecem em meio à penumbra do Tempo, restando fios de sua memória latentes somente enquanto viverem aqueles que fizeram parte de seus círculos de relações. Depois, tudo volta ao nada, e é assim com a maioria de todas as gentes que existem, que já existiram e que ainda virão a existir. Nosso destino geral é o des-existir absoluto.
O que fazer para driblar as armadilhas do esquecimento e alcançar a permanecência mesmo após nosso desaparecimento físico? Esse é um mistério cuja fórmula o Tempo e a Memória jamais revelam, mantendo acesa a chama da surpresa, do imponderável e do inexplicável. Reflexões como essas me assaltam quando, por exemplo, observo o calendário e verifico que a quinta-feira desta semana, dia 12 de abril, é uma data que se reveste de significância especial para quem trafega pelo universo da literatura e da cultura serrana e gaúcha, pois que estaremos celebrando os 125 anos de nascimento da poetisa Vivita Cartier, nascida a 12 de abril de 1893 em Porto Alegre e falecida em 21 de março de 1919 em Criúva, onde segue sepultada há 99 anos. Arrebatada da existência física por uma tuberculose que lhe fez penar os últimos sete anos de existência, Vivita acumulou somente 25 anos de vida, período em que não casou, não deixou filhos, mas dedicou-se à construção de uma persona poética que legou à posteridade uma dezena de poemas conhecidos e uma trajetória que configurou-se em mito. Como? Por quê? De que maneira seu nome de curta existência e sua obra de modesto volume driblaram as brumas do esquecimento e se fazem presentes, ativos e “audíveis” até os dias de hoje?
Qual o mistério que explica sua permanência e sua influência? Por onde passam os meandros da manutenção da sua memória? Questões como essas, e muitas outras, estarei debatendo com quem desejar comparecer esta noite a mais uma edição gratuita e aberta da Órbita Literária, a partir das 20h, ali na Livraria e Café do Arco da Velha (Rua Dr. Montaury, 1570). Todos convidados.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 9 de abril de 2018)

segunda-feira, 19 de março de 2018

E a Poesia era vedete


As coisas mudam bastante com o passar do tempo, algumas para melhor, outras, nem tanto. Apenas cem anos atrás (o “apenas” aqui empregado para induzir uma imagem de passagem rápida dos anos, o que se justifica em se tratando do ritmo do tempo em relação à História da humanidade, em que um século frente a milênios é quase irrisório), apenas cem anos atrás, repito, a poesia, por exemplo, recebia tratamento especial nas páginas de alguns jornais, onde ela tinha espaço privilegiado. E isso não se dava devido a uma concessão benemerente por parte dos editores do início do século passado, nada disso. Isso se dava porque a poesia encontrava eco nas atenções, nos corações e nas mentes dos leitores daqueles dias, e esse anseio era atendido pela imprensa, via de regra sintonizada aos apelos de seu público. Hoje, bom, hoje as coisas são bem diferentes.
Um século atrás, em 1918, Caxias do Sul possuía pelo menos cinco jornais periódicos em circulação, disputando as atenções dos leitores regionais: “A Pérola”, Cittá di Caxias”, “Stafetta Rio-Grandense”, “O Brazil” e “O Estímulo”. Desses, pelo menos três (60% do total) destinavam espaços generosos em suas páginas para a publicação de poemas, tanto de autores regionais quanto de poetas reconhecidos em âmbito nacional e internacional. E isso em seções nobres, como a capa de alguns deles, ou seja, a poesia não era tratada como “tapa-buraco” ou “calhau” (como se diz na gíria jornalística para designar um texto usado para suprir algum espaço que tenha ficado sobrando). Em jornais como “A Pérola”, “O Brazil” e “O Estímulo”, a poesia era tratada como vedete, como insumo especial e vital a integrar o cardápio periódico de material impresso a ser fornecido aos leitores, ao lado das notícias tradicionais..
A edição de 23 de março de 1918 (daqui a quatro dias completando exato um século) do jornal “O Brazil”, por exemplo, trazia na capa, em destaque, um poema de autoria da poetisa Vivita Cartier (1893 – 1919), então enfurnada em Criúva para combater, por meio dos ares serranos, a tuberculose que lhe encerraria a vida no ano seguinte. Intitulado “Matinal” e composto por 15 quadras, o poema virou um dos mais conhecidos da poetisa, cuja obra permanece até hoje praticamente inédita, fora meia dúzia de versos publicados em vida em jornais e revistas de Caxias e Porto Alegre e alguns resgates posteriores por conta de memorialistas. Eram outros tempos, em que a poesia ocupava o lugar da aridez das atuais redes sociais repletas de ódio e fel. Haverá poesia nessas saudades de tempos que não vivi?
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 19 de março de 2018)

terça-feira, 19 de maio de 2015

Sorte aos 13

Olha só que boa notícia divulgada pela imprensa esta semana: 13 obras literárias foram inscritas este ano para concorrer ao Prêmio Vivita Cartier, categoria integrante do Concurso Anual Literário da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer, de Caxias do Sul, que este ano chega à sua 49ª edição. O Prêmio Vivita Cartier foi criado há três anos para laurear obra literária de autor caxiense publicada no ano anterior, estimulando a produção literária na cidade.
A grana a ser entregue ao autor premiado é boa: 240 VRM (Valor de Referência do Município), índice que, em 2015, vai representar uma quantia bruta na ordem de R$ 6.374,40. Descontados os impostos, o premiado embolsará mais de R$ 4,5 mil. A notícia é positiva por toda essa plêiade de aspectos: número significativo de obras concorrentes, autores de carreira consolidada participando e prêmio em dinheiro atraente. É um privilégio escrever em Caxias do Sul.
Afinal de contas, raciocinem comigo. O Brasil possui 5.561municípios em todo o seu território (não fui eu quem contou, é o IBGE quem me jura esse número). Quantos desses municípios, pergunto-me, têm capacidade para ofertar um prêmio de mais de R$ 6 mil para agraciar os escritores que teimam em nascer e se criar em seus domínios? Não sei a resposta exata, mas ponho a mão no fogo ao afirmar que são raros, raríssimos. Caxias do Sul, entre eles. Um privilégio e um gol a favor da cultura na cidade do trabalho.

Fico apenas com dó da comissão julgadora, que vai ter trabalho frente à qualidade das obras concorrentes. Digo isso porque conheço a maioria dos livros e dos autores inscritos. Eis a lista: “Leituras da Madrugada”, de Dinarte Albuquerque Filho; “O Passo do Socorro”, de Paulo Ribeiro; “A Trilha Silenciosa”, de André William Segalla; “Diário de Um Homem Metropolitano”, de Álvaro Pertille; “O Mistério do Oito Deitado”, de Daniela Echevenguá Teixeira; “A Nova Trova Literária nas Páginas do Sul”, de Luiz Damo; “Delirium Tremens” e “O Homem Só”, ambas de Leandro Angonese; “O Menino da Terra do Sol”, de Flávio Luis Ferrarini; “Anko”, de Márcio P. Mussatto; “Mirabilia”, de Alessandra Rech; “Cartas a Amélia”, de Pedro Costi, e “Isabella Em Contos: Cem Anos Historiados”, de Luiz Carlos Ponzi. O vencedor será conhecido em junho. Boa sorte a todos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de maio de 2015)

segunda-feira, 23 de março de 2015

O outono da poetisa

Convido o leitor e a leitora a embarcarem comigo em uma máquina do tempo que vai nos transportar para esta mesma data de 21 de março, porém, 96 anos atrás. A viagem é segura e seremos apenas observadores invisíveis e privilegiados de fatos da vida comum que, ao final, ganharão significado histórico e simbólico, pois concorreram para o surgimento de um mito. Todos a bordo? Vamos lá!
Os instrumentos de nossa máquina do tempo estão ajustados para nos desembarcar aqui na região mesmo, na Criúva de 1919, hoje distrito de Caxias do Sul, mas, naquela época, pertencente ao município de São Francisco de Paula. É domingo e o silêncio típico que envolve o pequeno povoado só é quebrado pelo suave barulho que uma leve brisa provoca ao passar pelas folhas das árvores nesta entrada de outono. Em uma casa na Linha Boqueirão, afastada alguns quilômetros do centro da vila, o final da tarde fica agitado devido aos espasmos finais de uma bela e frágil moça de 26 anos incompletos, que agoniza em seu leito de morte devido à tuberculose que há anos a maltrata. Ela tosse, percebe que está no fim, diz suas palavras finais, morre e entra para a história da literatura caxiense e porto-alegrense. Seu nome é Vivita Cartier.
Dali em diante, os outonos em Criúva não mais veriam a jovem poetisa tuberculosa, que se vestia de branco, a circular pela região costurando de volta nos galhos as folhas das árvores, em um ato simbólico de preservação da vida, essa mesma vida que se esvaía a cada nova tossida a lhe sacudir o peito. Mesmo assim, ela segue sepultada até hoje em Criúva, no cemitério de Pontão, em um túmulo adornado com flores por moradores que se esforçam em manter viva a sua memória. Vivita é patrona da cadeira 11 da Academia Caxiense de Letras e da cadeira 21 da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul. Deixou poemas esparsos em jornais e revistas da época e nunca publicou livro.

Sua vida e a de seus parentes diretos, no entanto, foram repletas de poesia, romance, ação, aventura e tragédia. Elementos que vão se eternizar em livro na biografia que este cronista está escrevendo, a ser publicada em breve. Nossa máquina do tempo nos traz de volta ao outono deste 2015, com a certeza de que a vida se eterniza no cultivo da memória, como folhas caídas recosturadas nos galhos das árvores, como fazia a poetisa. (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de março de 2015)

domingo, 21 de setembro de 2014

Poetisa farrapa

Os historiadores sabem, mas a gente até que estuda (só para a prova, claro) essas coisas na escola e, depois, displicentemente apaga da memória, o que é um crime não só contra a história em si, mas especialmente contra nós mesmos, uma vez que somos frutos diretos das ações de todos aqueles que nos antecederam para criar esse aqui e agora em que vivemos. A Revolução Farroupilha, que celebramos neste 20 de setembro, é um acontecimento histórico dos mais significativos já vivenciados pelo povo gaúcho, repleto de episódios interessantes que ou desconhecemos por completo ou simplesmente relegamos para o baú de nossas memórias. Vale a pena relembrar alguns deles.
É interessante constatar que nem tudo foi harmonia e entendimento entre os líderes revolucionários que capitanearam a revolução gaúcha naqueles idos de 1835. Os primos Bento Gonçalves e Onofre Pires, por exemplo, eram parceiros revolucionários de primeira hora, porém, com o passar dos anos, acabaram se desentendendo. E feio.
 Mas tão feio que concordaram em aparar suas arestas por meio de um duelo, que teve lugar em Santana do Livramento, às margens do Rio Sarandi, no dia 27 de fevereiro de 1844. Quem levou a melhor foi Bento Gonçalves, que atingiu Onofre Pires com um tiro no braço. O duelo foi interrompido e o próprio Bento ajudou a socorrer o primo vencido. Onofre Pires morreu por causa da gangrena, quatro dias depois e um ano antes do fim da Revolução Farroupilha. Bento Gonçalves virou até nome de cidade aqui na Serra, mas Onofre Pires, hoje em dia, fica meio à sombra dos personagens históricos mais lembrados da Revolução.

Interessante é constatar alguns laços familiares de personagens como ele. Onofre tinha uma irmã, chamada Antônia Clara Barbosa de Menezes de Campos. Ela era casada com o médico porto-alegrense Manoel José de Campos, o Barão de Guaíba. Este, por sua vez, era padrinho de Paulo de Campos Cartier, pai da poetisa Vivita Cartier (patrona da cadeira 11 da Academia Caxiense de Letras). Ou seja, o padrinho do pai de Vivita era cunhado de Onofre Pires. Dado que nos permite deduzir que Vivita Cartier também tinha alma farrapa.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de setembro de 2014) 

sábado, 12 de julho de 2014

O passado presente

O passado, bem o sabemos, não existe. Pelo menos, não existe enquanto objeto ou fato tangível, uma vez que representa tudo aquilo que já existiu ou aconteceu (sempre no passado, naturalmente) em um tempo anterior ao presente instante. Viveríamos aprisionados em um infinito presente se não fôssemos dotados com o poder da memória, que tem a função de manter o passado presente, ou melhor dizendo, vívido (para não incorrermos em uma contradição em termos).
O dramaturgo inglês Harold Pinter (1930 – 2008), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2005, resumiu a questão desse modo: “O passado é aquilo que você lembra, aquilo que você imagina que lembra, que você se convence de que lembra ou finge lembrar”. Resumindo ainda mais, o que me parece que Pinter quer dizer é que o passado em si, mesmo sendo estático e encravado no tempo, é plenamente cambiante e mutável, uma vez que está à mercê dos sabores de nossa memória, ela sim, fugaz, etérea, fluida, inconstante, temperamental, inconfiável, volúvel (meu suposto resumo do resumo ficou imensuravelmente maior do que a tese, perdão).
Com o passar dos anos, acabamos transformando nossas próprias recordações em “causos” despudoradamente remodelados a fim de melhor se encaixarem à visão que temos de nós próprios, ou à imagem que pretendemos vender de nossas pessoas para quem nos cerca. Mas nem sempre (talvez quase nunca) esse processo se dá de forma consciente e deliberada.
Eu, por exemplo, até há poucos dias, estava me mortificando pelo fato de, cerca de 20 anos atrás, quando era editor do caderno Sete Dias do jornal Pioneiro, ter manuseado uma bela fotografia antiga da poetisa Vivita Cartier (1893-1919), morta e enterrada em Criúva, e publicado-a na capa do suplemento para ilustrar uma reportagem sobre eventos culturais que evocavam a memória de poetas do passado. Na época, não imaginava que eu mesmo, dali a duas décadas, estaria me escabelando em busca daquela mesma foto para ilustrar o livro que agora organizo sobre a história da vida da poetisa. Considerava uma ironia do destino o fato de eu mesmo ter manipulado a foto que agora me escapa e que tanto busco.

Porém, acabo de descobrir que não sou culpado de nada. Verificando as datas, percebi que a página do caderno em questão foi editada dois meses antes de eu chegar em Caxias do Sul para assumir a editoria do Sete Dias. O eu do passado que editou a foto de Vivita não existiu, diferentemente do que pensava o eu de hoje, que a procura. Não somos a mesma pessoa. Minha memória me culpava por algo de que sou totalmente inocente. Quero ver se as provas são suficientes para que ela me absolva. Isso, só o futuro dirá.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de julho de 2014)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Tempo, memória e poesia


Vivita Cartier, a Noiva do Sol, que fez poesia e morreu em Criúva

A passagem ininterrupta do tempo é a maior inimiga da manutenção do frescor da memória. A fim de conservar vivas as lembranças que nos são significativas, não podemos contar apenas com a saúde dos nossos neurônios e precisamos lançar mão à imensa gama de recursos que servem de gatilhos para o recordar e de instrumentos para a manutenção e o resguardo da história. As fotografias, os livros, os jornais, os relatos, as entrevistas, os depoimentos, os documentários, os filmes, os eventos e as homenagens são alguns desses expedientes, fundamentais para que a vida humana e cada existência em particular não se transformem em um eterno recomeçar do zero a cada novo dia, mas se configurem em um processo contínuo de construção da história.
É nesse sentido que merece aplauso a iniciativa da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer que, hoje à noite, a partir das 20h, realiza a terceira edição do projeto “Noite na Biblioteca”, tendo como tema os 120 anos de nascimento da poetisa Vivita Cartier, porto-alegrense nascida em 12 de abril de 1893 que morreu tuberculosa aos 26 anos de idade em 21 de março de 1919, em Criúva, onde há anos se estabelecera procurando nos ares da Serra uma esperança de cura. Enquanto buscava nos recursos da medicina de seu tempo o alento para os males físicos que a afligiam, Vivita produzia poesia a fim de amenizar as dores que lhe corroíam também a alma, entre elas, uma paixão não correspondida e a distância da efervescência cultural da Capital, da qual fizera parte ativamente nos anos anteriores ao agravamento de sua doença.
Produziu pouco e morreu jovem. Mesmo assim, os recursos da manutenção de sua memória e de sua contribuição para a literatura vêm sendo colocados em uso ao longo desses quase cem anos de sua morte, a ponto de Vivita amadrinhar cadeiras em duas academias literárias: a de Caxias do Sul e a Feminina do Rio Grande do Sul. O evento de hoje à noite é mais um importante lampejo para garantir que jamais se extinga a luz poética que sua vida e sua poesia trouxeram de forma fugaz, bela e sensível ao mundo, enquanto nele permaneceu. A memória de sua vida e de sua obra, ao que tudo indica, seguirá permanecendo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de abril de 2013)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Um pouco mais de luz


Somos, por natureza, seres insaciáveis. Queremos sempre mais, especialmente mais daquilo que nos dá satisfação. A começar pelo tempo de vida. Queremos viver muito e, de preferência, para sempre. Se possível, gostaríamos também de, dentro de nossas próprias existências, desfrutar de tudo aquilo que detectamos haver de bom também na vida dos outros. Avançando mais um pouco, gostaríamos até de poder vivenciar as sensações que outros experimentam ou experimentaram, sejam elas boas ou más, sem que isso nos afete diretamente. E é aí que entra em cena o papel das artes.
Exatamente isso é o que nos propicia a arte: a chance de vivenciarmos experiências que não são as nossas, de vivermos vidas diferentes dessa que protagonizamos desde que levantamos da cama para mais um dia. Ao folhearmos as páginas de um livro, podemos estar durante algumas horas montados sobre um cavalo chamado Rocinante e atacar doidivanasmente alguns moinhos de vento. Ao assistirmos a um filme de Woody Allen, podemos perambular por Paris e, num passe de mágica, retornar ao passado para reencontrar personalidades históricas que admiramos. E paralelamente a isso, podemos inserir nos enredos pedaços de nossa própria fantasia e imaginar situações que não estão impressas no livro ou explícitas na tela do cinema, nem encenadas no palco do teatro, ou pintadas no quadro ou flagradas pelas lentes do fotógrafo. Sobre o que pensa “O Pensador”, de Rodin? Ora, isso decido eu, quando me ponho a observar a escultura, pois esse é um poder que o desfrutar de uma obra de arte me proporciona.
A poetisa Vivita Cartier, antes de morrer de tuberculose em Criúva, costurava de volta nos galhos das árvores as folhas que o outono derrubava ao chão, em uma poética e metafórica tentativa de prolongar a vida que se lhe esvaía pela tosse ingrata. “Mais luz!”, pedia Goethe em seu leito de morte. Na entrelinha de sua frase, clamava mesmo era por um pouco mais de vida. Assim como nos ensinou o escritor alemão com seu ato derradeiro, também nós podemos obter essa “luz a mais” no transcurso de nossas existências por meio das transposições de vidas que o saborear das artes nos proporciona.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de setembro de 2012)