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segunda-feira, 18 de março de 2019

Semana regida por Calíope

Abrimos esta crônica de segunda com a poesia “Sonhos”, do escritor norte-americano Langston Hughes (1902 –1967): “Agarre-se aos sonhos/ Pois se os sonhos morrerem/ A vida é um pássaro de asas quebradas/ Que não pode voar./ Agarre-se aos sonhos/ Pois quando os sonhos se vão/ A vida é um campo estéril/ Congelado com a neve”. Significativo por si só, o pequeno grande poema foi evocado ano passado pela diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, em sua mensagem especial no Dia Mundial da Poesia, instituído pela entidade desde 1999 e que se celebra em 21 de março (próxima, quinta-feira). Ao chegar a data, saberemos que excerto de que poeta a diretora escolherá este ano para direcionar as atenções a essa arte que embala os sonhos e ressignifica a realidade das gentes ao redor do mundo.
Bons poetas e poemas é o que não falta no menu da nobre arte para a escolha da dirigente da Unesco. Claro que ela será inspirada na missão pelas tramas de Calíope, a primeira das nove musas gregas (ao lado de suas irmãs Érato, Clio, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Tália, Terpsícore e Urânia), a quem cabe reger a poesia épica e a eloquência. Independentemente dos versos que vierem à luz este ano, o certo é que serão evocados com a missão de lembrar o mundo de que a Poesia integra o rol das necessidades vitais do ser humano em sua busca pelo sonho de uma vida plena. A Unesco entende que a existência humana só atinge a plenitude quando, junto às urgências básicas (alimento, abrigo, saúde, trabalho, educação, segurança etc), também se busca saciar as premências do espírito, cuja fonte reside nas artes e na cultura. Poesia, portanto, é vital, e feliz do povo que acolhe e abriga seus poetas, os guardiões dos sonhos.

Caxias do Sul, por exemplo, porta credenciais suficientes para suster o título de comunidade tocada pela poesia, já que por aqui exerceram o ofício poetas (natos e adotados) de envergadura capaz de embevecer até mesmo Calíope. Um desses nomes é o de Vivita Cartier, nascida em Porto Alegre em 1893 e que adotou a Serra Gaúcha como cenário para travar batalha contra a tuberculose em seus anos derradeiros. Um século atrás, em 21 de março de 1919 (antecedendo o Dia Mundial de Poesia em oito décadas), Vivita morria, aos 25 anos, em Criúva, onde está sepultada. Porém, o mito de sua persona sobrevive ao tempo. Sua curta e intensa trajetória de vida e a qualidade de sua obra ganham luz neste sábado, com o lançamento de sua biografia, assinada por mim, na Galeria Municipal de Arte, das 14h às 18h. A entrada é franca e estão todos convidados para a concretização desse sonho poético.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 11 de março de 2019)

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Ópera literária em 80 atos


Não é todo mundo que tem o privilégio de receber uma ópera inspirada em livro de sua autoria como presente de aniversário. Também não é todo mundo que possui a capacidade e o talento para produzir uma obra que mereça ser transformada em ópera, depois de já ter sido transposta das páginas originais do livro em que foi concebida para as telas do cinema (chegando a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro). Afinal, não é todo mundo que se dedica com afinco a construir diariamente, ao longo de mais de seis décadas, uma sólida e profissionalizada carreira de escritor, a ponto de gerar obras de consistência estética e literária. Isso porque não é todo mundo que se chama José Clemente Pozenato, que segue a passos firmes rumo à completude de seus primeiros 80 anos de idade, a serem oficializados no próximo dia 22 de maio.
Só José Clemente Pozenato se chama José Clemente Pozenato, e só a ele cabe administrar essa sua muito bem construída biografia pessoal consolidada nos pilares de uma intensa, criativa, rica e generosa vida dedicada à cultura, à educação e às artes, em especial a da escrita. Pozenato chega aos 80 anos usufruindo a expectativa pela montagem de seu livro “O Quatrilho” em formato de ópera, que estreia no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, no dia 28 de julho, e depois em Caxias do Sul em 18 de agosto, no Teatro do Colégio Murialdo. “É meu presente de aniversário”, exclama o aniversariante, devoto de Santa Rita (que rege a data de seu nascimento), “a santa das causas impossíveis”, conforme ressalta.
Pozenato tem dedicado 65 de seus 80 anos à causa de transformar em possível uma vocação minuciosa ao labor da escrita, alimentada pelo único combustível conhecido: a leitura criteriosa daqueles que, como ele, entendem do ofício. O rapaz natural de São Francisco de Paula que escreveu seus primeiros poemas aos 15 anos de idade e venceu seu primeiro concurso literário aos 17, transformou-se em um referencial da escrita não por acaso. Pozenato lê, e muito, sempre procurando compreender a técnica existente por trás de uma frase bem escrita de Machado de Assis e de Clarice Lispector ou de um verso feliz de Petrarca, de Ovídio, de Virgílio (a quem, por sinal, lê no original), de Manuel Bandeira, de Cecília Meireles, de Drummond... Não se chega aos 80 anos por acaso. Também não se constrói uma carreira literária sólida por acaso. José Clemente Pozenato não é fruto do acaso, e a forma como vem compartilhando seu talento é o presente de aniversário com que brinda a todos nós. Parabéns, generoso Mestre!
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 14 de maio de 2018)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Um mito revigorado


O Tempo e a Memória são elementos invisíveis que operam em conjunto nas sombras da existência para conferir (ou não) permanência aos nomes de quem viveu. Há aqueles que se assentam em lugares perenes na História devido aos seus feitos transformadores ou destruidores; esses são os vultos ilustres que perpassam gerações e ultrapassam fronteiras. Há aqueles cuja amplitude de referência se restringe a círculos mais íntimos ou restritos, em especial nos âmbitos familiares ou de comunidades específicas, postos que podem ser ocupados pelas pessoas ditas comuns. E há aqueles cujos nomes simplesmente se esvanecem em meio à penumbra do Tempo, restando fios de sua memória latentes somente enquanto viverem aqueles que fizeram parte de seus círculos de relações. Depois, tudo volta ao nada, e é assim com a maioria de todas as gentes que existem, que já existiram e que ainda virão a existir. Nosso destino geral é o des-existir absoluto.
O que fazer para driblar as armadilhas do esquecimento e alcançar a permanecência mesmo após nosso desaparecimento físico? Esse é um mistério cuja fórmula o Tempo e a Memória jamais revelam, mantendo acesa a chama da surpresa, do imponderável e do inexplicável. Reflexões como essas me assaltam quando, por exemplo, observo o calendário e verifico que a quinta-feira desta semana, dia 12 de abril, é uma data que se reveste de significância especial para quem trafega pelo universo da literatura e da cultura serrana e gaúcha, pois que estaremos celebrando os 125 anos de nascimento da poetisa Vivita Cartier, nascida a 12 de abril de 1893 em Porto Alegre e falecida em 21 de março de 1919 em Criúva, onde segue sepultada há 99 anos. Arrebatada da existência física por uma tuberculose que lhe fez penar os últimos sete anos de existência, Vivita acumulou somente 25 anos de vida, período em que não casou, não deixou filhos, mas dedicou-se à construção de uma persona poética que legou à posteridade uma dezena de poemas conhecidos e uma trajetória que configurou-se em mito. Como? Por quê? De que maneira seu nome de curta existência e sua obra de modesto volume driblaram as brumas do esquecimento e se fazem presentes, ativos e “audíveis” até os dias de hoje?
Qual o mistério que explica sua permanência e sua influência? Por onde passam os meandros da manutenção da sua memória? Questões como essas, e muitas outras, estarei debatendo com quem desejar comparecer esta noite a mais uma edição gratuita e aberta da Órbita Literária, a partir das 20h, ali na Livraria e Café do Arco da Velha (Rua Dr. Montaury, 1570). Todos convidados.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 9 de abril de 2018)

segunda-feira, 19 de março de 2018

E a Poesia era vedete


As coisas mudam bastante com o passar do tempo, algumas para melhor, outras, nem tanto. Apenas cem anos atrás (o “apenas” aqui empregado para induzir uma imagem de passagem rápida dos anos, o que se justifica em se tratando do ritmo do tempo em relação à História da humanidade, em que um século frente a milênios é quase irrisório), apenas cem anos atrás, repito, a poesia, por exemplo, recebia tratamento especial nas páginas de alguns jornais, onde ela tinha espaço privilegiado. E isso não se dava devido a uma concessão benemerente por parte dos editores do início do século passado, nada disso. Isso se dava porque a poesia encontrava eco nas atenções, nos corações e nas mentes dos leitores daqueles dias, e esse anseio era atendido pela imprensa, via de regra sintonizada aos apelos de seu público. Hoje, bom, hoje as coisas são bem diferentes.
Um século atrás, em 1918, Caxias do Sul possuía pelo menos cinco jornais periódicos em circulação, disputando as atenções dos leitores regionais: “A Pérola”, Cittá di Caxias”, “Stafetta Rio-Grandense”, “O Brazil” e “O Estímulo”. Desses, pelo menos três (60% do total) destinavam espaços generosos em suas páginas para a publicação de poemas, tanto de autores regionais quanto de poetas reconhecidos em âmbito nacional e internacional. E isso em seções nobres, como a capa de alguns deles, ou seja, a poesia não era tratada como “tapa-buraco” ou “calhau” (como se diz na gíria jornalística para designar um texto usado para suprir algum espaço que tenha ficado sobrando). Em jornais como “A Pérola”, “O Brazil” e “O Estímulo”, a poesia era tratada como vedete, como insumo especial e vital a integrar o cardápio periódico de material impresso a ser fornecido aos leitores, ao lado das notícias tradicionais..
A edição de 23 de março de 1918 (daqui a quatro dias completando exato um século) do jornal “O Brazil”, por exemplo, trazia na capa, em destaque, um poema de autoria da poetisa Vivita Cartier (1893 – 1919), então enfurnada em Criúva para combater, por meio dos ares serranos, a tuberculose que lhe encerraria a vida no ano seguinte. Intitulado “Matinal” e composto por 15 quadras, o poema virou um dos mais conhecidos da poetisa, cuja obra permanece até hoje praticamente inédita, fora meia dúzia de versos publicados em vida em jornais e revistas de Caxias e Porto Alegre e alguns resgates posteriores por conta de memorialistas. Eram outros tempos, em que a poesia ocupava o lugar da aridez das atuais redes sociais repletas de ódio e fel. Haverá poesia nessas saudades de tempos que não vivi?
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 19 de março de 2018)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Linhas tortas

Alguém andou me perguntando pela aí, pelos cafés da vida, qual a relação que existe entre a leitura de um bom livro e o ato de saborear uma torta. Sim, isso mesmo. Desafios intelectuais dessa estirpe rondam as mesas dos cafés cult daqui de nossa região (e não são poucos na Serra Gaúcha, felizmente) e pousam nas mesas dos fregueses, indiscriminadamente, sem fazer triagem de nível educacional, nível econômico, nível intelectual, time do coração, assepsia e humor.
Quando você menos espera, logo depois da chegada de seu cappuccino com chantilly acompanhado por uma lasquinha de laranja cristalizada, a sorridente garçonete dá as costas e pá!, aterrissa na nossa mesa um desafio cerebral como o exemplificado ali em cima, e você não tem como escapar dele, sob pena de ser visto por seu companheiro de mesa (e pelos que estão ao redor, que ficam a espichar as orelhas para pescar fiapos das conversas alheias, que bem sei), sob pena de ser visto por todos (repito o termo sempre que interponho intercalações quilométricas na frase, que prejudicam o acompanhamento do raciocínio por parte do leitor), sob pena de ser visto por todos (ai, isso está cansando) por todos como um pobre inepto discursivo. E eu não sou um pobre inepto discursivo, minha senhora, meu senhor, ah, isso não sou, não! Inepto posso ser em muitas áreas, admito, mas menos nas cursivas e discursivas. Deixa comigo que eu tasco!
Como era mesmo a questão que caiu aqui, quase em cima da pirâmide de chantilly ainda sequer escavada com a colherinha em busca de vestígios de café? Qual a relação entre a leitura de um bom livro e o ato de saborear uma boa torta? Ah isso é fácil. Basta pensar, por exemplo, em uma suculenta Marta Rocha, e no prazer que existe em ir desfrutando seus sabores, cada garfada abocanhada representando uma página bem moldada de um livro bom. Uma garfada, uma página. Um lento mastigar decifrando as delícias escondidas na torta, no mesmo ritmo e cadência do mastigar metafórico do sentido das linhas lidas no livro bom. Eis aí a relação entre torta e leitura, prezado comensal, prezado leitor e querida leitora.

Dez com estrelinha para mim, acostumado que sou a me sair bem em desafios intelectuais profundos como o aqui citado, nem que seja por linhas (e) tortas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de setembro de 2015)

terça-feira, 4 de agosto de 2015

No meio do caminho, ficaram as certezas

Eu tenho plena consciência das minhas limitações. Da enormidade delas, e do quanto elas exigem que eu me mantenha dentro de meu quadradinho, a fim de não andar por aí metralhando a torto e a direito saberes que não possuo, habilidades que me são estranhas, sapiências que em minha boca soam falsas, conclusões que só a mim interessam. Não sou doutor em nada, e o pouco que julgo saber - por ter aprendido vivendo -, mantenho constantemente sob o policiamento da dúvida. Quanto mais leio, menos sei; quanto mais estudo, mais lacunas se abrem; quanto mais reflito, menos concluo. No meio do caminho, foram se despregando de mim os fios de cabelo e quase todas as certezas. Sou a antítese da evolução humana e me consolo na possibilidade de, ao menos, poder servir de exemplo a não ser seguido.
Mas antes que se condoam demais com meu repentino autoflagelo, vamos aos fatos. Já faz algum tempo que tenho a incumbência de desenvolver aqui neste espaço o exercício diário da crônica, e venho fazendo-o dentro dos limites de minhas possibilidades, conforme confessado ali no início. Óbvio que, para tanto, procuro beber na fonte dos grandes mestres desse gênero literário, a fim de tentar aprender como se faz e provocar a inverossímil magia da transferência do talento por meio da leitura, o que, na realidade, jamais acontece, como podem bem verificar aqueles que generosamente aqui me leem.
Do mestre Rubem Braga, por exemplo, não possuo a soturna sensibilidade quase depressiva que se transforma em poesia lírica sob o olhar literário do grande escritor. Dele, não possuo isso e tampouco o talento. De Sérgio Porto, o rei dos cronistas mundanos, não possuo a destreza da escrita leve que revela a essência humana por meio de tipos e situações aparentemente superficiais do cotidiano. Dele, nem isso, e tampouco o talento. De Luis Fernando Verissimo, não possuo nem a inteligência, nem o humor. Tampouco, o talento. De Jimmy Rodrigues, não possuo o dom da tecelagem das palavras certeiras na construção de textos elegantes. E nem o talento.

Segue longa a lista de outros tantos talentos que saboreio e dos quais equanimemente me distancio até me encontrar neste quadrado aqui, onde resto eu, com minhas insignificâncias e essa imensa capacidade de reconhecer e admirar talentos alheios. Ah, eis aí um talento! Bom, procurando, a gente sempre acha...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de agosto de 2015)

quinta-feira, 18 de junho de 2015

A um poeta

O mundo seria pequeno demais, tosco demais, árido demais, rústico demais, absurdo demais, selvagem demais, angustiante e opressor demais, infeliz demais, triste demais, pesado demais, impraticável e sem sentido se não fosse a Poesia. A Poesia é o sopro que areja a existência de tudo, é o bálsamo que lubrifica o atrito entre as engrenagens que compõem o mundo, é a panaceia vital capaz de permitir o fluir da seiva intangível que confere, se não sentido, pelo menos o conforto e o aconchego necessários para que o peso do existir tenha leveza e possa alçar do solo duro os pés que, então, ganham como que asas. A Poesia permite voar e transcender as limitações do corpo, tocando sutilmente os intransponíveis limites da eternidade.
A Poesia redime a Vida e domestica a Morte, já que esta não pode ser vencida. Domestica e ludibria, porque, a partir de seus frutos, que são as Artes, consegue manter viva a chama do Poeta por meio da permanência de suas Obras na Memória coletiva. Enquanto houver quem cante o canto do Poeta, enquanto houver quem leia suas linhas, quem contemple suas telas e esculturas, quem escute a sua música e a sua voz, quem assista às suas encenações e produções visuais, quem viaje em suas fotos, quem reflita sobre suas propostas, a finitude seguirá sendo protelada e o pulsar da Vida continuará achando caminhos para fluir como sangue vital por veias infinitas.
A Poesia não se extingue junto com o último suspiro do Poeta. Justamente por ter sido Poeta é que ele consegue erigir em vida um castelo sólido de tijolos de brisa, amalgamado na argamassa da criatividade e da inspiração, fundeado nas entranhas da alma e, por isso mesmo, inabalável, irredutível e indestrutível. O Castelo da Obra do Poeta permanece e permanecerá, porque foi construído em Poesia, a mais perene e sólida matéria já concebida pelos deuses, pelos anjos e pelos homens. O Poeta se vai e dele sentiremos imorredouras saudades. Mas amaciaremos essas saudades contemplando a existência que fica, amparados pela Poesia que o generoso Poeta nos deixa de legado. A ele, portanto, teremos sempre graças a dar. Temos de ser gratos aos Poetas, de todas as Artes.

Entre eles todos, gratidão especial ao escritor florense Flávio Luis Ferrarini, que desde a última terça-feira transformou a si mesmo em eterna metáfora de Vida.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de junho de 2015)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Pelo Dia do Leitor

Um livro lido e as reflexões sobre a vida que suas páginas suscitam; um filme visto ou revisto e as impressões que ele causa; uma peça teatral, a performance dos atores, o desfecho triste (uma tragédia, porque acaba mal) ou feliz (então, uma comédia, pois que bem termina); as sensações decorrentes do usufruir de uma música; uma conversa com um amigo; um fato que ganha as manchetes dos jornais, sobre o qual todos comentam, porém, deixam escapar um viés que só você percebeu; uma nota de rodapé que, apesar de tímida, revela uma singular experiência, metáfora de toda a existência; um prato delicioso; um sabor, um tom, um toque, uma imagem, uma voz, uma palavra, um silêncio, um cheiro, o voo de um pássaro; uma data importante, o centenário de nascimento ou de morte de uma celebridade, um fato quase esquecido; uma lembrança da infância, uma pessoa que nunca mais se viu; um arrependimento, um orgulho, uma noite de insônia e aquela com o sono dos anjos também.
Todas essas coisas, e centilhares de outras que não foram citadas, costumam ser as principais fontes de inspiração para um empilhador de palavras que precisa exercitar diariamente o ato de produzir crônicas a serem publicadas em jornal de grande circulação regional, oferecendo motivos para a reflexão e, se possível (o mais importante de tudo), por meio de um texto agradável de ler. Nem sempre se consegue, e é justamente o tentar que justifica a produção, mesmo que às vezes menor, da obra que o cronista se propôs a moldar.
Mas o que realmente legitima todo esse empenho diário é o retorno que aquela parcela atenta e generosa dos leitores se preocupa em dar ao cronista esforçado. O e-mail que aterrissa na caixa de entrada; o telefonema do mais ousado; a abordagem direta na calçada; o compartilhamento do texto pela internet para que todos o leiam. É assim, a partir dessas gotas de ouro de retorno, que o autor consegue ter uma noção de como seu trabalho ganha vida e significado no íntimo de cada pessoa (conhecida ou anônima) que com ele se relaciona, fazendo do texto uma entidade viva e transformadora dentro do cotidiano de cada um.

Sou grato a cada um desses leitores que tiram, de vez em quando, um pouco de seu tempo para alimentar com palavras a solidão do escritor no ato da escrita. Eu, por mim, criava o Dia do Leitor!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de maio de 2015)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Um brinde dantesco

Peralvise Serego Alighieri é o nome de um conde italiano abastado, proprietário de uma grande vinícola instalada na região da Valpolicella, próximo à cidade de Verona, no noroeste da Itália, no Vêneto. Sua empresa chama-se Possessioni Serego Alighieri e, a julgar pelas fotografias e pelos dados disponíveis no seu site de internet, trata-se de vinícola nobre, refinada, produtora de vinhos de alta qualidade.
Valpolicella Classico Superiore MontePiazzo, Vaio Armaron, Casal dei Ronchi, Possessioni Rosso e Possessioni Bianco são alguns dos principais rótulos de varietais produzidos pela empresa. A Possessioni do senhor conde também produz óleo de oliva extra-virgem, vinagre balsâmico, grappa, arroz especial para risoto, um mel de flor de acácia que deve ser uma delícia só de olhar a foto do potinho e ainda pasta de castanha e geleia de cereja. Tudomuito requintado, delicado, belo. Nham!
E daí o leitor e a leitora devem estar se perguntando: o que foi que deu no cronista, de botar-se a fazer propaganda de uma vinícola fina existente lá na longínqua Itália assim, sem mais, nem menos? Eis que então eu me explico, antes que se estabeleçam os mal-entendidos e surjam as desconfianças de que agora sou sócio de vinícola estrangeira ou coisas do gênero. O que se dá é que o referido conde, proprietário da referida indústria alimentícia, é o único descendente direto vivo do poeta italiano Dante Alighieri (1265 – 1321), como o sobrenome já indica. A área em que a vinícola está estabelecida foi adquirida em 1353 por Pietro Alighieri, filho de Dante, que acompanhou o pai em seu exílio em Verona. A fabricação de vinho naquelas terras se dá desde que foi adquirida pelo filho do poeta-mor da língua italiana, que tem busto instalado na praça batizada com seu nome no centro da cidade de Caxias do Sul, a Pérola das Colônias, situada na Serra Gaúcha, região brasileira também famosa pela produção de vinhos finos.

Ahá, eis aí a ligação: Dante e os vinhos! Quando a gente quer, a gente acha! Um brinde, então, ao mais saboroso escritor que a língua italiana já produziu, neste 25 de maio, data de seu nascimento, ocorrido exatamente 750 anos atrás!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de maio de 2015)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O mais triste dos contos

Dia desses terminei de ler uma coletânea de contos do escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904), um dos autores universais que melhor soube retratar a essência da alma humana a partir de um estilo direto de escrita, desprovido de enfeites. Curto e certeiro, poder-se-ia dizer, e digo-o, então. Deparei-me ali, naquelas páginas, em meio às três dezenas de breves histórias selecionadas, com aquele que se configurou aos meus olhos como o mais triste conto que eu já li em minha vida. Não porque a história seja triste em si (e ela o é, de fato), mas devido à sensação de profunda tristeza que causou em mim.
Trata-se de uma historinha curtíssima, de apenas três páginas, intitulada “Pamonha”, na qual certo senhor abastado decide chamar ao seu escritório a governanta da casa, a fim de acertar com ela as contas após dois meses de trabalho. Tímida e assustada, a mocinha entra nos domínios do patrão e põe-se a escutar o homem elencar uma lista de motivos inverossímeis pelos quais vai descontando aviltantemente os valores que lhe deveria pagar. Para começo de conversa, ele parte de uma soma inferior ao que havia sido anteriormente combinado para ser paga por mês, e vai inventando descontos, frente aos quais ela quase nada retruca, encolhendo-se na cadeira, sumindo diante da tremenda injustiça que as páginas escancaram.
“No dia dez de janeiro, a senhora levou emprestados de mim dez rublos...”, segue o facínora, subtraindo e subtraindo. “Eu não levei”, murmura a governanta. “Mas está anotado aqui!”, retruca o patrão. “Está bem, seja...”, conforma-se ela mais uma vez, e a angústia da explorada encontra eco na raiva que vai possuindo o leitor, tão impotente do lado de cá das páginas quanto a indefesa personagem de papel. Ao final, o pagamento que deveria ser de 80 rublos resume-se a míseros 11. E ela os aceita.

É quando então o patrão indigna-se contra a passividade da empregada frente à exploração a que estava por ele sendo submetida, e revela ter aquilo tudo não passado de um truque: na verdade, ele paga-lhe direitinho os 80 rublos e manda-a embora, com o conselho de que “não seja mais tão pamonha”. Afinal, conclui o personagem, “é fácil ser forte neste mundo!”. Fácil explorar e fácil deixar-se explorar. Triste e verdadeiro mundo, tão bem traduzido por Tchekhov.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de maio de 2015)

terça-feira, 19 de maio de 2015

Sorte aos 13

Olha só que boa notícia divulgada pela imprensa esta semana: 13 obras literárias foram inscritas este ano para concorrer ao Prêmio Vivita Cartier, categoria integrante do Concurso Anual Literário da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer, de Caxias do Sul, que este ano chega à sua 49ª edição. O Prêmio Vivita Cartier foi criado há três anos para laurear obra literária de autor caxiense publicada no ano anterior, estimulando a produção literária na cidade.
A grana a ser entregue ao autor premiado é boa: 240 VRM (Valor de Referência do Município), índice que, em 2015, vai representar uma quantia bruta na ordem de R$ 6.374,40. Descontados os impostos, o premiado embolsará mais de R$ 4,5 mil. A notícia é positiva por toda essa plêiade de aspectos: número significativo de obras concorrentes, autores de carreira consolidada participando e prêmio em dinheiro atraente. É um privilégio escrever em Caxias do Sul.
Afinal de contas, raciocinem comigo. O Brasil possui 5.561municípios em todo o seu território (não fui eu quem contou, é o IBGE quem me jura esse número). Quantos desses municípios, pergunto-me, têm capacidade para ofertar um prêmio de mais de R$ 6 mil para agraciar os escritores que teimam em nascer e se criar em seus domínios? Não sei a resposta exata, mas ponho a mão no fogo ao afirmar que são raros, raríssimos. Caxias do Sul, entre eles. Um privilégio e um gol a favor da cultura na cidade do trabalho.

Fico apenas com dó da comissão julgadora, que vai ter trabalho frente à qualidade das obras concorrentes. Digo isso porque conheço a maioria dos livros e dos autores inscritos. Eis a lista: “Leituras da Madrugada”, de Dinarte Albuquerque Filho; “O Passo do Socorro”, de Paulo Ribeiro; “A Trilha Silenciosa”, de André William Segalla; “Diário de Um Homem Metropolitano”, de Álvaro Pertille; “O Mistério do Oito Deitado”, de Daniela Echevenguá Teixeira; “A Nova Trova Literária nas Páginas do Sul”, de Luiz Damo; “Delirium Tremens” e “O Homem Só”, ambas de Leandro Angonese; “O Menino da Terra do Sol”, de Flávio Luis Ferrarini; “Anko”, de Márcio P. Mussatto; “Mirabilia”, de Alessandra Rech; “Cartas a Amélia”, de Pedro Costi, e “Isabella Em Contos: Cem Anos Historiados”, de Luiz Carlos Ponzi. O vencedor será conhecido em junho. Boa sorte a todos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de maio de 2015)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Ai, que prazer

Costumamos saber muito bem quais são os elementos que nos dão prazer. Quais os produtos que nos embevecem, quais as ações que nos encantam, quais as pessoas que nos fascinam, enfim. Quanto mais convivemos com nós mesmos – situação a que somos individualmente submetidos desde nosso nascimento, sem choro nem vela -, melhor vamos desvendando as fontes de nossos maiores prazeres.
Para uns, as salas de cinema; para outros, as mesas dos restaurantes; para algoutros, as distantes paragens que se põem a visitar; para muitas delas, as compras, que lhes enfeitam os pezinhos; para muitos deles, o futebolzinho de final de semana, que lhes destrói os garrões; para os ricos, uma BMW novinha e reluzente; para os pobres, o sonho com uma BMW reluzente e novinha; para os remediados, que seja aquela fosca Brasília Muito Velha, mesmo que a piada seja batida; para o avô, o churrasquinho que reúne a familiagem no final de semana; para o adolescente, um final de semana acampando com os amigos, libertando-se dos almoços em família. Enfim, cada pé conhece o sapato que lhe massageia os calos (e essa inventei agora, eu que aprecio criar frases de efeito com gosto duvidoso).
Mas falando em mim mesmo, aproveito para revelar que já faz décadas que sou assolado por uma dúvida excruciante (tacar-lhe assim de supetão no leitor uma palavra incomum é outro de meus prazeres passíveis de repreensão). Eu, que sou chegado nessa coisa estapafúrdia de gostar de ler livros, não tenho jeito de descobrir qual desses atos me causa maior prazer: iniciar a leitura de um livro, concluir a leitura de um livro ou comprar um livro. Todas essas três ações me causam cascatas de prazer. Cascatas, não: cataratas (que imagino maiores do que as cascatas, haja vista a relação entre a do Caracol – cascata – e as do Niágara – cataratas, sem falar que aquela se usa no singular e, esta, no plural).

Como não consigo colocar em ordem de intensidade esses três prazeres, sigo a vida ininterruptamente concretizando, de forma alternada, todas essas ações: compro, começo a ler e termino de ler. Ai, que prazeres! “Cada louco...”, já dizia meu amigo Argentino, de canto de olho.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de dezembro de 2014)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A sombra de Clara

Clara é o nome de uma jornalista de cerca de 25 anos, solteira, desempregada, que anda vivendo uma crise pessoal sem precedentes. Tentando reorganizar os cacos de sua vida dilacerada, cujas pontas se agudizam com a ruptura recente com um namorado, Clara está mergulhando em um turbilhão caótico de eventos que só fazem piorar à medida em que vamos conhecendo mais intimamente os detalhes de sua vida. Caos e farsa são os elementos que parecem predominar ao seu redor.
Fora o fato de também ser jornalista, não possuo nada em comum (ao menos, em uma primeira análise) com Clara. Às vezes, quanto mais a conheço, chego até a pensar que somos de espécies diferentes. E conheço-a muito bem, por sinal. Tão bem a ponto de elencar outro aspecto no qual diferimos eu e ela profundamente: eu sou real, enquanto que ela é fruto de minha imaginação. Eu criei Clara, mas Clara me impressiona, me intriga e me surpreende.
A mais recente grande surpresa que ela me proporcionou ocorreu na noite de segunda-feira quando, no Teatro Renascença, em Porto Alegre, ela foi responsável por me fazer conquistar a maior premiação que já obtive em minha carreira literária. Clara é a protagonista de meu romance “A Sombra de Clara”, contemplado com o Prêmio Açorianos de Criação Literária, categoria integrante do mais renomado prêmio literário gaúcho, destinada a publicar obras ainda inéditas. O livro já está em fase de pré-produção (contrato assinado e tudo) e virá a público na Feira do Livro de Porto Alegre no ano que vem.
O desafio que me impus na produção desse texto foi assumir a voz narrativa e a visão de mundo da personagem, uma vez que é Clara quem conta a sua história ao leitor, do seu jeito, em seu estilo próprio, a partir de suas próprias convicções. Parece que funcionou, porque os jurados me confessaram que, ao ler o livro, juravam que ele tinha sido escrito por uma autora feminina. “Você deve conhecer muito bem as mulheres”, disseram-me os jurados. Não sei, penso eu. Conheço bem Clara. Quer dizer, Clara é um mistério em si mesma, que cabe aos leitores tentarem desvendar.
Calma, novembro de 2015 está logo aí. Desde já, todos convidados para a sessão de autógrafos.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de novembro de 2014)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Prêmio Açorianos

AUTOR CAXIENSE É O VENCEDOR DO PRÊMIO AÇORIANOS DE CRIAÇÃO LITERÁRIA
Romance inédito de Marcos Fernando Kirst será editado em livro no próximo ano

(Pela Assessoria da Coordenação do Livro e da Literatura, da Prefeitura de Porto Alegre)

O Prêmio Açorianos de Criação Literária 2014, tradicional iniciativa da Secretaria da Cultura de Porto Alegre voltada para textos inéditos e que em sua quinta edição se voltou para o gênero Narrativa Longa (romance, novela ou ficção), teve como vencedor o caxiense Marcos Fernando Kirst, cujo texto “A Sombra de Clara” foi eleito dentre 50 trabalhos inscritos, todos de alto nível. Ao receber o troféu no palco do Teatro Renascença, em Porto Alegre, durante a cerimônia “Noite do Livro”, o autor ressaltou a tradição da Serra gaúcha em gerar bons escritores.

O júri do concurso, formado pela psicanalista Lúcia Serrano Pereira, pelo professor Ruben Daniel Castiglioni e pelo jornalista Ruy Carlos Ostermann, escolheu “A Sombra de Clara” pela originalidade da escrita, “coloquial mas com um estilo fluído e giros inesperados, em uma narrativa que prende o leitor e propõe variações ao longo do enredo, jogando com ambiguidades e levando a um final surpreendente, tudo isso permeado com senso de humor”.

Além do troféu criado pelo saudoso artista plástico Xico Stockinger e de um prêmio de R$ 10 mil, Marcos Fernando Kirst terá o seu novo romance publicado, em 2015, pela Coordenação do Livro e Literatura/SMC, através de sua Editora da Cidade.


Crédito das fotos: Luciano Medina Martins / SMC



sábado, 25 de outubro de 2014

Vida nova

Ontem desisti de uma leitura. Pela primeira vez em minha longa vida de leitor (quatro décadas lendo), abandonei o projeto de ler determinado livro após ter dado início ao fruir de suas páginas. Tomei a decisão de fechar o volume e devolvê-lo à prateleira ao chegar, penosamente, à página 50 e detectar ter pela frente ainda outras 400 a serem enfrentadas no mesmo ritmo, no mesmo tom, com as mesmas dificuldades, com o mesmo sofrimento e desprazer.
“Vamos parar por aqui”, disse eu ao livro, e paramos. Recoloquei-o na estante do corredor e retornei à sala me sentindo leve, levíssimo. Sentei-me na poltrona em que costumo me sentar à noite quando me ponho a ler livros e fiquei tentando identificar que espécie de sensação se apossava de mim após ter tomado essa decisão histórica em relação a meus hábitos de leitura, eu, que jamais abandonara a leitura de um livro. “Livro começado é livro terminado”, sempre fora meu lema, até ontem.
Temi ser invadido por uma profunda e inevitável sensação de frustração e de derrota. Mas não foi o que aconteceu. Senti-me liberto não apenas da obrigatoriedade autoimposta frente a uma leitura penosa, mas também em relação à necessidade de manter atitudes pessoais que julgava serem determinantes da persona que eu havia criado em mim. Descobri que eu não preciso mais provar para mim mesmo que sou um leitor, característica pessoal de que tanto me ufano. Ao menos, não preciso mais provar dessa forma, me obrigando a dar sequência a uma leitura que não me agrada. Dessa forma, rompi grilhões, quebrei correntes, entreabri uma porta que sempre estivera trancada, deixei entrar uma luz nova e promissora em meu caminho.

Em outras palavras, com esse simples gesto de fechar o livro e abandonar sua leitura, desatei um paradigma pessoal e permiti em mim uma renovação de postura. Não houve desamparo, mas, sim, paz e segurança para seguir em frente com uma postura nova e libertadora. Tudo isso a partir de um pequeno e prosaico gesto efetuado sem testemunhas, no interior de meu aquário. A renovação interna às vezes se revela a partir de pequeníssimas grandes coisas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de outubro de 2014)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Leitura adolescente

A matéria de capa do caderno “Comportamento” , do Pioneiro de segunda-feira, trazia um dado interessante relativo ao movimento registrado nas barraquinhas da Feira do Livro, cuja 30ª edição segue na Praça Dante Alighieri até domingo, dia 18. A equipe do caderno circulou entre os livreiros inquirindo a respeito dos títulos mais procurados pelos leitores até o momento, e o resultado proporciona, no mínimo, algumas reflexões curiosas.
Dos três livros mais vendidos na maioria dos estandes, eu não conhecia nenhum. Os títulos das obras não me diziam nada e seus autores não me evocavam referências. Isso, em si, não quer dizer nada. Do alto de minha soberba, poderia eu pensar que tratam-se de obras insignificantes, já que eu, leitor calejado, não as conhecia. Mas descendo do pedestal, poderia ser que eu não as conhecesse por simplesmente ser impossível hoje em dia saber de tudo e conhecer tudo. Dito e feito, era isso.
Que fiz? Fui para a internet. E foi assim que descobri que os livros “Se Eu Ficar” (de Gayle Forman), “A Culpa é das Estrelas” (de John Green) e “O Sangue do Olimpo” (de Rick Riordan) são os grandes hits literários que fazem sucesso hoje entre o público adolescente. Ou seja, os três livros mais vendidos da Feira estão sendo adquiridos pelos adolescentes, quebrando o mito de que criança lê, adulto lê, mas adolescente não lê. Adolescente lê, sim senhores. Lê, vai à Feira e compra livro. Que boa notícia que nos trouxe segunda passada o Pioneiro, em sua matéria de capa do caderno de cultura e variedades!

Não se trata aqui de fazer juízo de valor a respeito da qualidade literária existente ou não (não sei, não li, podem ser obras excelentes) nessas obras. O que é significativo é que a gurizada, por meio delas, está enraizando dentro deles mesmos o hábito da leitura, que significa domesticar o próprio ser para dar a si mesmo esses momentos de introspecção, de silêncio, de ensimesmamento que o ato da leitura requer. E é só assim que se forma o cidadão que reflete, que absorve arte e cultura e a traduz na forma de cidadania. Que boa notícia!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de outubro de 2014)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O autor analfabeto

Às vezes me questionam, em entrevistas, sobre desde quando eu escrevo. Minha resposta à pergunta sempre é cambiante, uma vez que faz décadas que prefiro ser uma “metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Mas ultimamente, já que a pergunta induz a pensar em retrospecto, venho respondendo que escrevo desde antes de ser alfabetizado. Ah, pois!
Sim, explico. Isso é verdade porque, muito antes de ingressar na escola e começar a aprender que bê com a faz ba e bê com e faz be, eu já elaborava historinhas em quadrinhos criadas em minha própria imaginação e as desenhava em cadernões repletos de folhas em branco, que minha mãe comprava para mim na Livraria Cultural, em Ijuí. Depois, quando ela chegava em casa do serviço à noitinha, eu ia lá atazanar e pedir para que inserisse os diálogos que havia criado para os personagens, já que eu ainda era um analfabeto. Ou seja: tecnicamente, quem exercitava o ato mecânico de colocar o texto nas páginas era minha mãe, mas quem os criava era eu. Eu, o autor. Eu, o escritor analfabeto, que escrevo desde antes de aprender a juntar letrinhas.
Por tabela, volta e meia surge também a questão sobre desde quando sou leitor, e a resposta é a mesma: desde antes de aprender a ler. Sim, porque minha mãe (de novo ela) lia livros do Monteiro Lobato para mim, na cama, antes de eu dormir à noite, e não tinha jeito de eu pregar o olho porque, antes de dormir, ficava era ligadão querendo saber o resto da história. Ao invés de adormecer, despertou em mim o leitor.

E Feira do Livro, desde quando participo? Também, desde sempre. Lá em Ijuí, meus pais me levavam toda a sexta-feira de tardinha até a Livraria Progresso e me deixavam pegar dois gibis à minha escolha. Desde os sete anos que eu faço minhas feiras de livros. Podem imaginar, então, como me sinto hoje, dia da abertura de mais uma edição da Feira do Livro de Caxias do Sul. Nos próximos 18 dias, a Praça Dante vai estar repleta de gente faceira por livro igual a mim. Vai lá dar uma olhada, é divertido, é lúdico, é criativo, é humano, é vida pura! Bem-vinda, 30ª edição!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de outubro de 2014)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Prudência impressa

Alguns livros de minhas estantes acordaram muito excitados ontem pela manhã. Logo ao me verem em pé, invadiram meu moroso processo de transição entre o sono e o despertar exigindo que eu escrevesse a crônica de hoje tendo como tema o significado importante da data de 30 de setembro para o universo da literatura. “Ué, mas ce qui se passe?”, perguntei a eles, misturando línguas, fenômeno típico de meus acordares, mas preocupante porque, desperto, sequer arranho o francês.
 Pulando nas prateleiras como passarinhos no ninho excitados com a chegada das minhocas no bico da ave-mãe, os livrinhos mais salientes me informaram que hoje, 30 de setembro, comemora-se a publicação da Bíblia de Gutenberg, ocorrida nesta data no ano de 1452, marcando o nascimento dos livros impressos. Motivo suficiente para estarem bem alegrinhos, uma vez que foi a invenção de Gutenberg que permitiu a existência de todos eles.
Achei justa a reivindicação e decidi que, sim, escreveria sobre isso. Porém, não pude deixar de estranhar o silêncio reservado de minhas enciclopédias, dicionários e biografias ali no canto. Sei que eles são mais contidos por natureza, mas ficou algo no ar, até porque, os arautos da reivindicação eram justamente aqueles meus livrinhos assim, digamos... mais superficiais.

Antes de meter dedos ao teclado, achei prudente investigar. Sim, a internet, em diversos blogs e sites, indica a data de hoje como sendo relativa à publicação da Bíblia de Gutenberg. Mas senti falta de uma fonte histórica mais confiável, uma vez que a internet aceita tudo e é muito fácil um blog copiar do outro sem proceder a uma peneirada mais criteriosa das informações. Após muito navegar, decidi me levantar e lançar mão à consulta direta daqueles meus sempre confiáveis dicionários, biografias e enciclopédias impressos, que esperavam por mim ali, no cantinho deles. E batata: há controvérsias. Gutenberg levou anos compilando sua primeira edição impressa da Bíblia, mas não se sabe exatamente quando ela veio a público. Portanto, não poderei escrever esta crônica. Afinal, é preciso confiar desconfiando, como nos ensina sempre a boa literatura... impressa!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de setembro de 2014)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

De gelar a espinha

A julgar pela qualidade dos debates, pela pertinência dos temas abordados e pelo público que lotou as dependências que sediaram os encontros (a Livraria e Café Do Arco da Velha e o Zarabatana Bar, do Centro de Cultura Henrique Ordovás Filho), pode-se afirmar que foi brindada com sucesso a segunda edição da “Semana do Livro Nacional”, programação de discussões literárias realizada entre quinta e domingo passados, promovida pelos apaixonados por leitura Samuri José Prezzi, Greice Martinelli e Suzy Hekamiah. Reunindo escritores locais, editores, entidades e grupos voltados à literatura e, principalmente, apaixonados por livros, o evento consolida lugar entre as iniciativas que constroem em Caxias do Sul um cenário pulsante privilegiado no âmbito da arte da escrita.
Uma vez que a literatura, enquanto manifestação artística, traz em sua essência intrínseca a capacidade de representar o mundo e suscitar a reflexão a respeito da existência humana, não poderia ser outro o efeito nos participantes senão o de voltarem para suas casas abastecidos de temas para refletir. Entre vários pontos, estacionei em uma questão levantada por um trio de debatedores que ajudou a abrilhantar a tarde de sábado, quando os jovens escritores César Filho, Fernando Bins e Suzy Hekamiah debateram o tema “Literatura Gótica e de Terror”. Conforme compartilharam com o público, um dos maiores desafios que se impõem hoje aos autores de histórias de terror é como causar genuinamente a sensação de medo nos leitores, uma vez que vivemos em um mundo em que o horror e o espanto são causados pelo próprio cotidiano da vida real?
Boa e pertinente pergunta. Como competir com a realidade? Como conceder a vampiros, lobisomens, múmias, mortos-vivos, fantasmas e demônios o poder de voltarem a arrepiar as penugens de nossos pescoços quando os calafrios nos são provocados diuturnamente pela ação de corruptos de todos os naipes que desviam verbas públicas destinadas à saúde e à alimentação para seus próprios bolsos, ou de criminosos que destroem o futuro de gerações traficando drogas cada vez mais letais, ou de assassinos transtornados pelo crack que nos espreitam na chegada de casa dispostos a matar a troco de qualquer coisa que lhes sustente o acesso ao vício, ou do descompromisso de autoridades que deixam as estradas se transformarem em ciladas esburacadas a ceifarem as vidas das famílias e dos trabalhadores e muitos outros monstros e atos monstruosos que se acotovelam nos noticiários da vida real todos os dias?

Quem diria, mas Frankenstein e Drácula, no século XXI, se tornaram brincadeira de criança.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de julho de 2014)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Três a zero

Esta semana de julho que se iniciou na sexta-feira passada pegou pesado na tarefa de empobrecer o cenário cultural e intelectual brasileiro. A julgar pelo foco que “A Ceifadora” apontou em sua foice colhedora de existências, pode-se concluir que andava faltando mentes brilhantes lá do “outro lado” e que foi expedida a ordem de vir aqui buscar uma remessa farta e qualitativa do produto.
Como resultado disso, estamos tendo de assimilar de uma vez só as partidas de três importantes e insubstituíveis nomes da cultura contemporânea brasileira, um atrás do outro. Na sexta-feira da semana passada, dia 18, chegou-nos a notícia da morte repentina do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, aos 73 anos de idade, acometido em casa por uma embolia pulmonar. Membro da Academia Brasileira de Letras, Ubaldo assinou obras que integram o seleto time dos clássicos brasileiros da atualidade, como “Sargento Getúlio”, “O Sorriso do Lagarto”, “A Casa dos Budas Ditosos”, “Viva o Povo Brasileiro”, entre outras.
Mal começávamos a assimilar a dimensão dessa perda e, já no dia seguinte, 19 de julho, segue-lhe o mesmo caminho o educador, teólogo e escritor mineiro Rubem Alves, aos 80 anos de idade, por falência múltipla dos órgãos. Alves era vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura e asfaltara uma longa carreira de vida dedicada a refletir sobre temas psicanalíticos, educacionais e existenciais. Um intelectual de primeira linha, atuante e que fazia a diferença. Deixou extensa obra literária que aborda as questões filosóficas que tanto lhe absorviam e também uma vasta produção destinada às crianças, a quem dedicava especial atenção.
Agora, a quarta-feira desta semana, dia 23, é chacoalhada com a morte do escritor paraibano Ariano Suassuna, aos 87 anos, devido a um acidente vascular cerebral. Também integrava a Academia Brasileira de Letras, tendo se dedicado ao romance, à poesia, ao ensaio, à dramaturgia. Sua obra mais conhecida é a peça teatral “Auto da Compadecida”, que foi encenada diversas vezes e virou filme.

Espero que pare por aí, ao menos, momentaneamente. Fico sempre possuído por uma sensação de esvaziamento pesado quando desaparecem de nosso convívio essas figuras referenciais da cultura que fazem tanto a diferença. Claro que suas obras permanecem e seguirão fazendo a diferença sempre que revisitadas, mas o ponto final de suas existências define o fechar da porta da produção que advém de suas lavras, o que sempre é uma pena. Assim como cada um de nós, são todos obviamente insubstituíveis.  São perdas bem mais significativas do que um sete a um em Copa do Mundo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de julho de 2014)