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sábado, 29 de agosto de 2015

Não desista do sonho

“Nunca desista de seu sonho: se terminou em uma padaria, procure em outra”. Apesar de muito boa, a frase não é minha. Opa, isso soou prepotente. O que eu queria dizer era: a frase, apesar de boa, não é minha. Não, espera, deu no mesmo. Continua soando estranho. Fica parecendo que o leitor imaginaria poder ser minha a frase, de tão boa que ela é, como se fosse natural este mundano cronista que vos escreve ser capaz de parir frases luminosas como essa. Mas assim, bem o sabemos, não se dá. Tentemos, então, de novo: a frase é boa, mas, infelizmente, não é minha. Ou melhor: a frase é boa, mas não é minha. Isso. Era isso o que eu queria dizer.
Queria mesmo era dizer a frase boa, mas faz-se imperioso que eu revele sua devida autoria. Ela pertence a Apparício Torelly (1895 – 1971), o famoso jornalista e humorista gaúcho que ficou conhecido em todo o país pelo apelido autoimpingido de Barão de Itararé. Essa, entre muitas outras, integra o inabarcável cabedal de frases de efeito criadas pelo genioso e surpreendente escritor, ao longo de sua longa e divertida carreira na imprensa nacional. O humor com o qual tecia as sentenças que o caracterizavam servia de conduto a profundas verdades, como, aliás, sói acontecer com todos aqueles que se valem da leveza do humor para abordar de escanteio as profundezas da alma. Como o Barão de Itararé. Como Apparício Torelly. Como Stanislaw Ponte Preta, como Luis Fernando Veríssimo, como João Bergman (o Joatbê), como Jimmy Rodrigues, como Ítalo Calvino, como Fabrício Carpinejar e tantos outros.
A frase lapidar do Barão de Itararé nos permitiria discorrer aqui sobre a relação metafórica entre os sonhos de padaria, que alimentam o corpo, e os sonhos acalentados pelos anseios das almas das gentes, que preenchem vidas. Poderíamos, mas não podemos, porque a frase não nos pertence, e o cronista que vos escreve, apesar de mundano, não pretende incorrer na falta (crime de lesa-literatura) configurada pelo roubo das ideias e frases alheias, sendo que Apparício Torelly não é nenhum alheio, ressalte-se.

Só o que posso dizer, frente a isso tudo, é que eu, não sendo um frasista como o Barão, contento-me em me fazer mero visconde e a perseguir sonhos pelas confeitarias e padarias daqui do bairro, mesmo. Às vezes, encontro algum consonante à minha fome.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de agosto de 2015)

terça-feira, 7 de abril de 2015

Kafkiano ou calvinístico

Quinto Anfossi é um ativista intelectual italiano que luta para moldar sua vida no início da década de 1950, em uma Itália que se reconstruía inteira após o fim da Segunda Guerra Mundial. Pouco afeito às coisas práticas, ele gasta seu tempo com alguns amigos projetando a criação de um jornal de cunho político-filosófico, até o dia em que resolve dar uma guinada: em acordo com a mãe viúva e o irmão mais velho, decide entrar em um negócio imobiliário, vendendo parte do terreno da casa da família a um construtor que, depois, vai se revelar um homem inescrupuloso e mal-intencionado.
Ao longo das cerca de 120 páginas do romance “A Especulação Imobiliária”, de Ítalo Calvino (1923-1985), o leitor é levado a acompanhar as idas e vindas de   Quinto e seus familiares na tentativa de desobstruir os percalços que vão surgindo ao longo do caminho de uma transação que se apresenta interminável: ora é uma promissória não paga pelo construtor; ora uma cláusula alegadamente descumprida de parte e parte; ora uma greve de fornecedores de matéria-prima, em uma espiral desconcertante dentro de um labirinto sem saída. Sufoco e angústia tipicamente kafkianos, porém, tratados sob a ótica bem-humorada de Ítalo Calvino. Ri bastante com Calvino.
Lendo as páginas do romance, me lembrei do mesmo sufoco e da mesma angústia vivenciados pelo personagem Joseph K., protagonista da obra “O Processo”, uma das mais famosas do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Subitamente, sem motivo aparente, Joseph K. é acusado de alguma coisa (não se sabe exatamente o quê) por não se sabe quem, e passa a transitar sem rumo pelos corredores da burocracia judicial criada a partir da criatividade pesadelística do escritor, gerando uma atmosfera de profunda angústia e desespero. Angustiei-me muito com Kafka.

Tanto o Quinto Anfossi de Calvino quanto o Joseph K. de Kafka veem-se imersos em um pesadelo onírico do mundo prático e burocrático levado ao extremo pela imaginação de seus autores. A diferença é como cada um desses gênios escritores aborda a mesma questão: o italiano, com a leveza do humor; o tcheco, com o peso da aflição e da tormenta. São duas formas de encarar a vida, seus problemas, seus desafios. Eu mesmo, há dias em que acordo kafkiano e dias em que me vejo Calvínico. O segredo está no equilíbrio dessa equação.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de abril de 2015)