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terça-feira, 7 de abril de 2015

Kafkiano ou calvinístico

Quinto Anfossi é um ativista intelectual italiano que luta para moldar sua vida no início da década de 1950, em uma Itália que se reconstruía inteira após o fim da Segunda Guerra Mundial. Pouco afeito às coisas práticas, ele gasta seu tempo com alguns amigos projetando a criação de um jornal de cunho político-filosófico, até o dia em que resolve dar uma guinada: em acordo com a mãe viúva e o irmão mais velho, decide entrar em um negócio imobiliário, vendendo parte do terreno da casa da família a um construtor que, depois, vai se revelar um homem inescrupuloso e mal-intencionado.
Ao longo das cerca de 120 páginas do romance “A Especulação Imobiliária”, de Ítalo Calvino (1923-1985), o leitor é levado a acompanhar as idas e vindas de   Quinto e seus familiares na tentativa de desobstruir os percalços que vão surgindo ao longo do caminho de uma transação que se apresenta interminável: ora é uma promissória não paga pelo construtor; ora uma cláusula alegadamente descumprida de parte e parte; ora uma greve de fornecedores de matéria-prima, em uma espiral desconcertante dentro de um labirinto sem saída. Sufoco e angústia tipicamente kafkianos, porém, tratados sob a ótica bem-humorada de Ítalo Calvino. Ri bastante com Calvino.
Lendo as páginas do romance, me lembrei do mesmo sufoco e da mesma angústia vivenciados pelo personagem Joseph K., protagonista da obra “O Processo”, uma das mais famosas do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Subitamente, sem motivo aparente, Joseph K. é acusado de alguma coisa (não se sabe exatamente o quê) por não se sabe quem, e passa a transitar sem rumo pelos corredores da burocracia judicial criada a partir da criatividade pesadelística do escritor, gerando uma atmosfera de profunda angústia e desespero. Angustiei-me muito com Kafka.

Tanto o Quinto Anfossi de Calvino quanto o Joseph K. de Kafka veem-se imersos em um pesadelo onírico do mundo prático e burocrático levado ao extremo pela imaginação de seus autores. A diferença é como cada um desses gênios escritores aborda a mesma questão: o italiano, com a leveza do humor; o tcheco, com o peso da aflição e da tormenta. São duas formas de encarar a vida, seus problemas, seus desafios. Eu mesmo, há dias em que acordo kafkiano e dias em que me vejo Calvínico. O segredo está no equilíbrio dessa equação.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de abril de 2015)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Vida de inseto

Ontem de manhã, depois de despertar de sonhos conturbados, vi-me em minha cama metamorfoseado numa massa humana informe que demorou vários segundos para se recompor e conseguir, enfim, encarar o mundo em uma nova semana de trabalho. Sempre que sou acordado de forma antinatural, por um despertador ou algum barulho e/ou movimento externo inesperado, demoro um tempo para redescobrir quem sou eu, onde estou, como me chamo, o que devo fazer, esses elementos todos que, quando reunidos e apreendidos, resultam na consciência que temos sobre nós mesmos, ou seja, nossa identidade.
Durante esses infindáveis segundos após os despertares traumáticos, vejo-me mergulhado em um extraordinário limbo de consciência no qual não sou nada, não pertenço a nada, não significo nada. Sou um sem-nome, um sem-ser, uma não-pessoa, um não-nada, um nada-tudo sem individualidade. Uma situação bem kafkiana, poderiam dizer o senhor e a senhora que me leem, e estariam cobertos de razão. Durante alguns segundos, vejo-me entranhado em uma teia moldada pela mesma essência da angústia estupefaciente típica que permeia todos os livros escritos por Franz Kafka (1883-1924).
E não é para menos. Depois que me recomponho e redescubro que uma de minhas primeiras obrigações do dia é escrever a crônica do jornal Pioneiro, retomo a vida e sigo em frente. E no processo incessante de busca por um tema que possa magnetizar a atenção do leitor, detectei que, neste ano, celebra-se o centenário da primeira edição da obra “A Metamorfose”, lançada na Europa em 1915.

O livro é um dos mais lidos e celebrados do escritor, comumente resumido como enfocando o drama do personagem Gregor Samsa que, certo dia, ao acordar, vê-se transformado em um inseto gigantesco (a maioria dos leitores o imagina na forma de uma barata, mas eu, sabe-se lá por quais derrapadas da psiquê, vejo Samsa em sua cama como um imenso louva-a-deus). Há cem anos, portanto, Kafka nos legou, com sua obra, a alegoria perfeita para o estranhamento que temos frente a nós mesmos ao longo das transformações que a vida nos exige. O que fazer com essas transformações é o desafio que se impõe ao Gregor Samsa que habita cada um de nós.
)Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de janeiro de 2015) 

terça-feira, 3 de junho de 2014

A mais bela traição

A data de hoje, 3 de junho, não pode passar batida para quem se interessa pelo mundo da literatura e habita com alegria os vastos logradouros do Planeta Livro, essa região intangível e desprovida de limites geográficos que agrega leitores, escritores, editores, livreiros, livros, tramas e personagens. Exatamente neste dia, 90 anos atrás, consumava-se entre dois amigos uma traição feita a um pedido externado no leito de morte. O não atendimento à solicitação do moribundo configurou-se, para a posteridade, em um dos mais importantes legados literários já deixados ao mundo, na obra do escritor tcheco Franz Kafka.
Agonizando devido à tuberculose em um sanatório na Áustria, aos 40 anos de idade, Kafka (1883-1924) pediu encarecidamente a seu amigo e testamenteiro Max Brod (1884-1968) que incinerasse todos os seus livros, cartas e escritos ainda inéditos, a fim de que não viessem a público. Kafka morreu em 3 de junho de 1924 e Brod reuniu e guardou todos aqueles textos, desobedecendo ao desejo do genial amigo. Não só não os queimou como ocupou-se em publicar algumas das obras kafkianas que hoje integram a lista de livros basilares da cultura ocidental moderna.
“O Processo”, “O Castelo” e “Amerika” são algumas das obras publicadas postumamente por ingerência de Brod, que vieram se somar a títulos como “A Metamorfose”, “Na Colônia Penal”, “O Veredicto”, “A Muralha da China”, “Um Médico Rural” e tantos outros, indispensáveis para quem desejar mergulhar em alguns dos melhores exemplos do que o engenho humano na arte de fazer literatura já produziu. O desejo estranho de Kafka de querer que seus inéditos fossem destruídos se ampara na visão autocrítica que o autor manteve a vida inteira em relação à sua própria qualidade enquanto escritor. Kafka nutria dúvidas quanto à excelência daquilo que escrevia. Mas Max Brod não compartilhava dessa dúvida. Max Brod tinha era uma certeza: a de que o amigo era um gênio. E foi por fidelidade a essa certeza que optou por trair o desejo humano do amigo. Brod optou pelo interesse da humanidade como um todo, e acho que fez bem.

Se não tivesse agido dessa forma, estaríamos hoje há 90 anos privados de poder saborear textos fundamentais para conhecermos a amplitude do olhar sobre a essência humana que Kafka nos proporciona pelo conjunto de sua obra. Essa data de 3 de junho ainda merece encontrar um lugar mais ao sol no calendário do Planeta Livro.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de junho de 2014)