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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Segredo de pescador

Havia lá em Uvanova (Uvanova vocês já sabem, né, é aquele lugarejo de colonização italiana, encravado no alto da Serra gaúcha, limítrofe às cidades de Tapariu e Vila Faconda) um pescador que era muito conhecido pela sorte que tinha com os peixes. Todos os dias ele encilhava sua mulinha bem cedo de manhã, se o tempo estivesse bom, e seguia rumo ao Rio das Antas, em um local ali que só ele conhecia, de onde voltava à noitinha com a sacola repleta de peixes. Alguns serviam para alimentar a família e a sobra era comercializada entre a vizinhança, rendendo vitais fiorins para seu bolso.
O pescador se chamava Luigi ou Levídeo, não recordo direito. Todos o conheciam em Uvanova e sempre compravam seus peixes, fresquinhos, graúdos, saborosos para comer ensopados e acompanhados de polenta mole, uma delícia local. Mas qual era o mistério, qual era o segredo que fazia com que o pescador Luigi (ou Levídeo) conseguisse pescar tantos peixes e nunca voltar de mãos vazias?
Passadas décadas, sabe-se hoje que não havia mistério nenhum. Levídeo (ou Luigi) simplesmente acordava, tomava sua xícara de café com leite preparada pela esposa, comia uma fatia de pão com rodelas de salame e formaggio e botava-se com a mula rumo às Antas. Lá chegando, arregaçava as mangas e começava a trabalhar. Primeiro, capinava a terra úmida e fofa das margens do rio, à cata de minhocas. Achava as minhocas, separava-as em uma latinha e ia preparando as iscas. Enfiava uma minhoca graúda em cada anzol e minava a margem daquele cantinho do rio com suas linhas.

Aquilo dava trabalho, muito trabalho. Aprendera as técnicas de pescaria desde muito cedo, com seu pai, e fora desenvolvendo e aprimorando o ofício ao longo dos anos. Sempre com muito trabalho, sempre com muita dedicação, sempre com muito esforço, sempre com perseverança, sempre à custa de muito suor. Esse era o mistério, esse era o segredo. Os peixes não pulavam de graça dentro de sua sporta. Eram fruto de trabalho, de muito trabalho. Luigi (ou Levídeo) era uma metáfora ambulante a ser pescada por quem tivesse olhos para ver. E segue sendo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de novembro de 2014)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Pizza e livro em Uvanova

Uvanova é uma cidadezinha de colonização italiana encravada às margens do Rio das Antas, aqui na Serra Gaúcha, fazendo divisa de um lado com Tapariu e, do outro, com Vila Faconda. Pequena, bucólica e pacata, costuma não acontecer nada por lá. Mas, quando algo acontece, aí sim, acontecem coisas. E coisas dignas de registro.
Como eu cultivo meus contatos entre os uvanovenses, costumo ser mantido informado sobre o que às vezes quebra a pacatice daquela comunidade. Fiquei sabendo, por exemplo, que a Câmara de Vereadores de Uvanova protagonizou recentemente um acalorado debate entre vereadores da situação e da oposição respectivamente defendendo e criticando uma proposta encaminhada pelo prefeito uvanovense. Alegando a intenção de incentivar o crescimento cultural da cidade, o proativo alcaide encaminhou projeto de lei criando incentivos e isenções fiscais que estimulam a instalação de pizzarias no município, o que produziu bate-boca interminável que se prolongou noite adentro, gerou fome nos edis e redundou na encomenda de pizzas que foram prontamente tele-entregues no prédio do Legislativo, sem qualquer licitação, uma vez que, àquelas horas, só uma das duas pizzarias da cidade ainda estava atendendo. Ao menos naquela noite, o negócio acabou, sim, em pizza, mas literalmente falando, e de boca cheia.
Só que a lógica do prefeito extrapola a visão curta dos que o criticam, por não entenderem as motivações que embasam sua iniciativa. Não é verdade o que diz o vereador do POP (Partido de Oposição Permanente), que o prefeito confundiria cultura com comilança ao ligar incremento cultural com a instalação de pizzarias, eternizando um preconceito antigo que recai sobre os habitantes da Serra Gaúcha, de que preferem gastar em pizza do que em produtos culturais. Nada disso.

A verdade é que andou chegando às mãos do prefeito uma pesquisa revelando que, na vizinha e mais desenvolvida Vila Faconda, existem dez pizzarias para cada livraria. Ora, como Uvanova possui duas pizzarias e nenhuma livraria, o prefeito deseja incentivar a instalação de pelo menos mais oito restaurantes desse tipo para que, assim, surja finalmente a primeira livraria em Uvanova, tão aguardada pela comunidade literária local. Todo o apoio à proposta do prefeito, ora! Que venham as pizzas e, de sobremesa, a primeira livraria! Empreendedores da Serra, habilitai-vos!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de agosto de 2014)