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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Gotas de ouro no pescoço

Leio na internet que o perfume mais caro do mundo custa o equivalente a R$ 770 mil. E, não, madame, não se trata de uma pipa de perfume por esse valor astronômico, não: a senhora terá de desembolsar essa fortuninha se desejar levar para a penteadeira de seu quarto apenas um frasquinho contendo 500 ml do produto. Quase um milhão de reais por meio litro de perfume, o que a senhora acha disso? Compraria?
Como é, madame? Sugere que eu, o cronista mundano mais desconhecido da Serra, encomende um exemplar e o presenteie à senhora? Não, madame, impossível. E não que a senhora não merecesse umedecer seu delineado pescoço, seu suave colo e os estratégicos pontos atrás das orelhas com a inebriante fragrância, nada disso, não me entenda mal. É que minhas posses não alcançam tamanhas galhardias. Ah, sim, se eu pudesse, certamente que o faria, madame, quanto a isso, pode ficar tranquila, sou um cavalheiro plenamente imbuído das melhores intenções. Disso, tenho o frasco cheio, se é que me permite a pequena brincadeira. Mas voltemos ao frasco. Quer dizer, ao foco.
O tal perfume, então, esse que custa setecentos e lá vai pedrada. Ele pertence à marca italiana Bulgari e foi batizado de “Ópera Prima”. A matéria nos informa também, madame, já que a senhora segue acompanhando aqui o desenrolar da coisa, a matéria nos informa que o tal perfume foi desenvolvido “com notas cítricas e florais leves”, sendo classificado como “diurno, remetendo à atmosfera mediterrânea, aos limões sicilianos e à Costa Amalfitana”. A senhora já pensou em sair flanando diurnamente pela aí com o pescoço a exalar notas florais leves e inebriando a atmosfera ao redor como se fosse um limão siciliano desgarrado pela Costa Amalfitana? Como, senhora? O que é a Costa Amalfitana? Também não sei, depois olhamos na enciclopédia. Ah, no Google, claro; “enciclopédia” foi força do hábito.

Mas, daí, senhora, olha só, tem mais. O vidrinho do perfume foi moldado com 250 quilates de citrino, 45 quilates de ametistas e vem com 25 quilates de diamantes encravados. E ainda é todo folheado a ouro. Ahhhh bomm! Agora, sim, estão explicados os R$ 770 mil! Como podemos ver, há casos em que a casca externa vale muito mais do que o conteúdo! A senhora viu só como são as coisas? Mais vale o vidrinho pendurado em seu pescoço a título de colar do que a fragrância em si, contida nele. Isso sim, pra mim, é desaforo!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de agosto de 2015)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Isto cheira bem

Nos tempos de antanho, quando nós humanos éramos animais mais irracionais do que hoje, utilizávamos com mais destreza o sentido do olfato, que acabou se transformando em um sentido de segunda classe à medida em que fomos evoluindo e dando primazia para a visão, a audição, o paladar e o tato. O olfato virou o patinho feio dos cinco sentidos, passando a andar meio anestesiado durante a maior parte do tempo de nossas vidas, exceto quando entramos naquele banheiro suspeito de lanchonete de beira de estrada ou quando lemos notícias referentes a escândalos de corrupção, sempre malcheirosas.
Foi refletindo sobre isso que eu, contagiado pelo espírito empreendedor que rege o DNA desta região, fui acometido por uma ideia brilhante: criar uma linha de odores, a serem vendidos em vidrinhos, que possam ser usados terapeuticamente pelas pessoas a fim de não só exercitarem o redespertar do olfato, como também para viajarem no embalo das emoções evocadas por cada um deles. Ficarei rico, esnobe e, claro, cheiroso, muito cheiroso.
Já coloquei mãos à obra e estou a elencar os primeiros odores a saírem de minhas futuras linhas de produção. Sem medo de concorrência, revelo alguns deles: cheiro de pó de café em embalagem recém aberta; cheiro de pão saltando da torradeira; cheiro de terra molhada pelos primeiros pingos de chuva; cheiro de manteiga fritando na panela; cheiro de fronha limpa recém passada; cheiro do amor de sua vida quando acaba de sair do banho; cheiro de bebê em qualquer situação, porque bebê sempre é fofo; cheiro de carro novo; cheiro de gatinho com talco; cheiro de churrasco que vem da vizinhança; cheiro de bom vinho tinto despejado na taça; cheiro de disco de vinil guardado no plástico; cheiro de livro novo; cheiro de casa de avós; cheiro de pessoa feliz que irradia luminosidade; cheiro de casa bem faxinada; cheiro de pipoca antes de jogo de futebol; cheiro de perfume discreto quando ela (ele) passa; cheiro de começo de final de semana.

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(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de novembro de 2014)