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sábado, 15 de agosto de 2015

O factoide do cronista

Andam dizendo que tentei criar um factoide. “Factoide”, para quem não sabe e nunca criou um, é o termo utilizado para designar qualquer espécie de pseudofato, fato fictício, fato inventado ou superlativizado, com o objetivo de lançar luzes sobre determinada pessoa, a fim de que ela ganhe espaço na mídia e veja subirem seus índices de popularidade, o que lhe pode render dividendos variados. Andam dizendo que usei desse artifício esses dias, para fins pessoais.
O recurso do factoide é muito usado por políticos que pretendem alavancar a carreira (vereador que quer ser deputado, prefeito que quer ser governador, presidente que quer dominar o Sistema Solar...); por atores que de repente se veem fora da órbita global e querem ser lembrados (pelo público e, especialmente, pelos diretores de televisão e pelos responsáveis pelas escalações de elenco); por subcelebridades em geral que querem arranjar patrocinadores para seus bumbuns siliconados e coxas com envergadura de pneu de patrola; e, agora, por cronistas diários mundanos como eu, que quer ampliar seus índices de leitura, partindo para a postagem de seus textos em certas redes sociais que não podem ser denominadas pelo seu nome real na imprensa sabe-se lá por que, mas que todo o mundo sabe quais são, e, então, utiliza golpes baixos como alterar a foto de seu perfil colocando uma imagem em que aparece na frente de um afamado ponto turístico mundial, dando a impressão de ser pessoa de altas posses que lhe permitem atravessar o Oceano Atlântico e ir refestelar-se em viagens internacionais enquanto o resto dos pobres leitores segue ralando por essas plagas esburacadas mesmo, amargando crise e disputando vaga para estacionar o carro no centro. Que pobreza de espírito, a do tal cronista mundano criador de factoides!

E até já circulam versões de que, ao observar com atenção a tal da foto do cronista, seria possível perceber que, na verdade, sua silhueta (esbelta, ao menos isso) foi recortada com recursos de photoshop e inserida artificialmente sobre cartão-postal do referido monumento arqueológico, e que na realidade o dito cronista jamais peregrinou muito além da Casa de Pedra em Caxias e das ruínas de São Miguel das Missões. Tudo em nome do factoide. Ruim, muito ruim. Só o que redime o tal cronista é o fato real de que, em tendo feito isso, está em total sintonia com o espírito de sua época!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de agosto de 2015)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Bem na foto

Agora, sim, me caíram os butiás do bolso. Descobri, vejam só, que sou mais bonito do que inteligente! E isso que passei a vida inteira apostando as minhas fichas na equação inversa. Não que eu tenha de repente acordado transformado em um Brad Pitt, nada disso. Continuo tão kafkianamente feio quanto sempre, nada mudou, a não ser a descoberta de que minha inteligência não é suficiente para compensar meu visual, que já é pobrinho. Vivia convicto de que meu maior valor pessoal advinha dos frutos do uso de minhas palavras, e não da minha imagem. Mastodôntico engano!
A prova veio esta semana, quando decidi alterar a foto de meu perfil em uma rede social. Sim, aquela rede social que você está pensando, que os veículos de comunicação denominam “rede social” sem dizer o nome, mas que todos sabem qual é. Já faz algumas semanas que comecei a postar na dita rede social as crônicas que cometo diariamente neste espaço no jornal Pioneiro, e venho monitorando o número de curtidas que elas angariam. Uns dias há mais, outros dias, menos, mas o número já se estabilizou, dá para tirar uma base, sabe como é? Bueno. Mas aí, dia desses, inventei de trocar minha fotinho lá do perfil. Pra quê!
O número de curtidas em minha foto superou em seis vezes o total de curtidas na crônica postada no mesmo dia, horas antes. O que significa que minha legião de amigos e seguidores aprecia mais meu visual fotográfico do que as profundas, elegantes, inspiradas, surpreendentes e esforçadas crônicas que tão modesta e dedicadamente produzo. E isso que a foto não tem nada de mais, sou apenas eu defronte a um ponto turístico afamado no planeta inteiro. Só isso.

Mas agora é tarde para eu remodelar minha trajetória de vida pensando em tirar proveito dessa minha recém descoberta fotogeneidade. Tarde demais para seguir a carreira de modelo; para entrar no BBB; para disputar concursos de beleza (até porque, esses certames estão cada vez mais apostando na inteligência dos candidatos e, como acabamos de verificar, é bem nesse quesito que ando pecando). Mas nem tudo está perdido. Semana que vem, me reunirei com o editor-chefe do Pioneiro, o Márcio Serafini, e vou sugerir parar de preencher este espaço aqui com textos e passar a publicar somente fotos minhas. Garanto que alavancarei a tiragem!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de agosto de 2015)