quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A Era do Atropelo

A pressa e o imediatismo são algumas das principais características do mundo moderno. Existe uma ânsia acelerante regendo as relações sociais, as atitudes, o andamento das instituições, o trânsito, o caminhar nas calçadas, o falar, o fazer, o acumular, o descartar e o pior de tudo: o decidir. Vivemos uma Era do Atropelo, derivada de uma miopia que se aprofunda cada vez mais, embaçando a capacidade de detectar com precisão, antever e imaginar a amplitude das consequências daquilo que as pessoas geram com a tomada acelerada e precipitada de decisões. Especialmente as destrutivas.
Contaminados pelo individualismo e pelo ritmo frenético que o ato de viver vem impondo, imaginamos que temos a premência de agir em sintonia com essa velocidade exageradamente acelerada. E aí decidimos correndo, agimos por impulso, metemos o trator por cima rumo ao objetivo, sem pensar em tudo aquilo que vai sendo derrubado ao redor por tabela, capaz de gerar ondas de destruição às voltas sem que tenhamos previsto e cujos efeitos podem vir a desabar sobre nossas próprias cabeças, um pouco mais adiante. Sem falar nos mortos e feridos que nada tinham a ver com o pastel. Mas nada interessa. Interessa é arremessar o tijolo certeiro na cabeça do alvo e vê-lo se partir. Esfregamos as mãos e sorrimos cantando vitória, indiferentes ao desastre incontrolável que geramos no entorno, e aí vai-se o boi com a corda e vai-se a vaca ao brejo.

Depois, claro, começam a chegar as faturas decorrentes dos atos, palavras e feitos adotados sem reflexão. Vão se empilhando, uma em cima da outra, e aí nos sentimos vítimas do destino. Sempre míopes, não conseguimos ligar as consequências às causas, originadas por nós mesmos, e culpamos de novo os outros, o mundo, Deus, o governo, os políticos, a crise, o nhenhenhé, o nhonhonhó, mas nunca nós mesmos. Individualistas ao extremo, míopes e frenéticos, blindamo-nos contra nosso dedo acusador de culpas, e recarregamos as energias para metralhar para todos os lados mais uma vez, em represália às consequências dos nossos próprios atos anteriores, mergulhando em um redemoinho interminável de causas e efeitos gerados por uma destrutiva cegueira que oculista algum é capaz de corrigir. E salve-se quem puder!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de setembro de 2015)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A maior das angústias

Eureka! Descobri! Demorou, mas finalmente achei! Consegui detectar, entre as infinitas notas da orquestra da vida (ai, que metáfora bonitinha me surgiu agora entre dedos teclantes, vocês notaram ali?), a existência de um sentimento de angústia que consegue superar a já famosa “angústia do goleiro na hora do pênalti”. Não sei se você é ou já foi goleiro alguma vez, mas, independentemente disso, todo o brasileiro é um jogador de futebol em potencial nato, e, pelo menos nesse momento, assistindo a uma partida, somos, todos nós, capazes de deixar aflorar a empatia e sentimos na alma a mesma angústia do goleiro ante a cobrança do pênalti, especialmente se o goleiro for o que defende a camiseta de nosso time, porque, do contrário, queremos mais é que a bola cruze por entre suas pernas e sacuda as redes e deu pra bola, segue o jogo.
Mas há, sim, caro leitor e estimadérrima leitora, uma angústia superior em intensidade e em capacidade de mortificar a alma muito superior a essa que goleiros sofrem e que torcedores sofrem junto, na boca do gol, à iminência da cobrança do pênalti. Trata-se da angústia da escolha da ordem das mesas para se servir no bufê na hora da festa. É horrível. Essa sensação torturante assoma a todos os seres humanos sempre que se veem na condição de convidados a algum evento festivo no qual a hora da boia está previamente organizada, devendo obedecer a algum critério (sempre indecifrável aos famintos convidados) de ordem para que a horda (“ordem” e “horda”, notaram o trocadilho, hein, eita esse cronista mundano, hein, cada vez mais espertinho) não avance descontroladamente até a mesa das panelas, atropelando cerimonialistas, derrubando pratos e tirando o foco que deveria estar centrado nos noivos, ou no formando, ou na debutante, ou no condecorado, enfim, no dono da dita festa, que nos convidou e que gentilmente trata de alimentar a nós, que aqui estamos a prestigiá-lo, claro, porém, esverdeados de fome e só pensamos se ainda conseguiremos cravar o garfo em algum filé ao molho madeira e arrebanhar um punhado significativo de batatas salteadas para dentro de nosso prato, mas vejam, aquela senhora ali está voltando para sua mesa portando uma escandalosa pilha de seis bifes, provavelmente entre eles o meu, o de minha esposa e os outros dois que seriam os da repetição!

 É muita angústia!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de setembro de 2015)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A tristeza do vagalume

Vou desde já avisado ao leitor e à leitora (à estimada leitora, porque, às damas, sempre uma deferência a mais) que hoje vou produzir uma crônica alegórica. Alegórica porque será permeada por metáforas, o mundano cronista aqui se utilizando de figuras de linguagem escondidas nas entrelinhas do dito para tentar dizer na essência outra coisa, que não está explicitamente escrita, ao contrário dessas duas sentenças de abertura, explícitas e didáticas.
Mais do que uma crônica alegórica, o pretensioso e mundano cronista (agora revelando-se tão pretensioso quanto mundano, porque mundano todos já estavam calvos e lustrosos de saber que o era e ainda é) vai tentar produzir uma pequena fábula. Nossa crônica alegórica será, portanto, uma singela (o que em nada alivia a pretensão) fábula, uma vez que terá como protagonista um pequeno animal. Não é porque tem animal que é fábula, e nem toda a fábula exige um animal, mas essa nossa fábula o terá, e nosso protagonista será um pequeno vagalume.
Mas, calma, não se enganem com as aparências. Não desenvolvam imediatamente carinho e simpatia pelo vagalume de nossa crônica fabulosa metafórica, porque esse vagalume, não sei se diferente dos outros ou se representante da essência de todos os vagalumes, porque pouco sei da psiqê vagalumística, esse vagalume de nossa fábula não é flor que se cheire. Esse vagalume tem o hábito de, todas as noites, sair de seu esconderijo, posicionar-se no galho mais alto de uma laranjeira e, nas noites de céu limpo e lua clara, ficar olhando para o céu na direção de Antares, uma das estrelas mais brilhantes do firmamento. E ele baba. Baba de raiva e de inveja devido à luz portentosa e sublime que Antares emite, lá do alto, inalcançável, inatingível, exuberante e bela. Ah, como o vagalume tem inveja de Antares! Tem inveja porque sabe que sua tênue e fraca luzinha jamais atingirá a intensidade, a força e a significância da luz da inatingível estrela.

E, então, o vagalume trama. Ele urde contra Antares, ele tenta atingir, desmerecer, diminuir, atacar, desqualificar Antares, movido sempre pela mais opaca inveja. Aquela mesma inveja que faz sua luz permanecer vagalumisticamente fraquinha frente à luz de Antares que, nascida para brilhar, segue luzindo, indiferente, apesar dos lamentáveis esforços do vagalume triste de nossa crônica. Ainda bem que vagalumes assim só existem em fábulas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de setembro de 2015)

sábado, 12 de setembro de 2015

Em busca do Rio Kirst

Dizem que um bom jornalista se mede por sua capacidade de espanto. O que o axioma pretende sinalizar é que o profissional da informação não pode deixar adormecer a sua capacidade de se surpreender com as coisas do mundo que o rodeiam, sob o risco de amortecer a habilidade de detectar aquilo que é notícia, assassinando assim a essência jornalística. O mesmo vale para um cronista mundano. Ele precisa manter sempre desperta em si a capacidade de se surpreender com as coisas do mundo que o cercam, sob pena de perder a mão, ficar sem inspiração nenhuma e, daí, foi-se crônica!
Eu procuro fazer a minha parte, mantendo sempre os olhos bem abertos, os ouvidos aguçados, o olfato afiado, a boca o mais fechada possível e os dedos prontos a dedilharem o teclado, com todos os sentidos atentos (consegui citar todos os cinco conhecidos, viram só?) em busca daquilo que possa me surpreender e virar, se não notícia, pelo menos, uma crônica mundana. E é surpreendente a minha capacidade de me surpreender com aquilo que me surpreende! Esses dias, por exemplo, tenho andado surpreso com o estranhismo de algumas coincidências existentes em alguns episódios significativos da História universal. Querem ver?
Vejam só a coisa esquisita: o Rio Hudson, aquele rio famoso que corta parte do estado norte-americano de Nova York e que banha a cidade de mesmo nome, foi descoberto no ano de 1609. Sabem por quem? Ora, por um explorador e navegador inglês chamado Henry Hudson (1550 – 1611)! Chamava-se Hudson o sujeito que descobriu o Rio Hudson! Não é uma coincidência fantástica? Fico só imaginando o Henry lá na Inglaterra, já na porta de casa, mochila nas costas, pronto para sair e se despedindo da esposa; “Tchau, darling, vou dar uma navegadinha e ver se descubro algum rio pela aí e já volto”. A esposa, concentrada fazendo um bolo inglês, atira-lhe um beijinho de longe e, quando vê, meses depois, ele volta com a notícia: “Honey, você não vai acreditar, mas descobri justamente o Rio Hudson”! Não é fascinante?

Tantos rios no mundo àquela época ainda a serem descobertos pelos navegadores e o Hudson dá de cara justamente com o Rio Hudson! É uma chance em quantas? Mais difícil do que eu me embretar aí pelos morros da Serra e amanhã topar com o Rio Kirst. Jamais viverei essa glória. Até porque, o das Antas já foi descoberto há tempos...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de setembro de 2015)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Na mira do dragão

No começo, era um dragão. Nitidamente um dragão, de perfil. A bocarra escancarada, alguns dentes mais salientes ajudando a compor o ar selvagem e misterioso característico da personalidade dos dragões, mesmo que nem todos eles sejam, necessariamente, selvagens, porém todos, sem exceções, misteriosos, isso sim. O furo na parte superior frontal fazia as vezes de olho. Olho de dragão. Um dragão completo, portanto, com olho, bocarra, dentes e ares de mistério.
Não era possível vislumbrar o corpo do dragão. Não. Via-se tão-somente sua cabeça, mas aquilo bastava para dar a certeza de que não se tratava de nenhuma outra coisa senão um dragão. Um óbvio e ululante dragão, mesmo que dragões não sejam óbvios e tampouco ululem. E estava faminto. Via-se que desejava devorar alguma coisa logo adiante de sua boca, agora salivante, e o salivante aqui corria por conta de minha imaginação, já que gotas de saliva não eram visíveis, mas pressentíveis. O que era aquilo que o dragão estava prestes a abocanhar?
Desviei minha atenção do dragão e pousei-a por alguns instantes sobre as formas do objeto, ou do ser, que em breve se transformaria em lanche da tarde daquela mística criatura manifestada às minhas vistas. Uma bola? Não, não era exatamente uma bola. Além do mais, nunca ouvi dizer que dragões devorassem bolas. Nem mesmo na Wikipédia, onde tudo é possível e imaginável. Não, bola, não. Talvez um croissant. Sim, estava mais para croissant. Vai que fosse um dragão criado em território francês, apreciador de acepipes de qualidade, como croissants! Um dragão preparando-se para engolir um croissant gigante. Sim, podia ser isso mesmo. Vejamos agora o quadro todo.
Mas, epa, que fim levou o dragão? Ele estava ali agora há pouco, enquanto eu desvendava a essência do objeto ao seu lado, na iminência de ser por ele devorado. Não há mais dragão nenhum. No melhor das hipóteses, a misteriosa criatura descambou para um jacaré desqualificado, a boca torta caindo para o lado e, sim, agora, sim, dá para ver uns pingos de saliva voando para a direita e, nossa, é vento demais, esfacela-se o dragão/jacaré e, do croissant, nem mais sinal. Tudo se evapora em fiapos em questão de segundos, as formas desvanecendo nos cantos da memória e a imaginação refluindo para dentro, e de volta ao trabalho, que há muito a fazer e o dia ainda é longo, chega disso de ficar flertando nuvens em horas de expediente!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de setembro de 2015)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Nu sem a mão no bolso

Nós, seres humanos, somos uns bichos esquisitos. Pertenço à espécie há quase meio século e continua sendo difícil me acostumar. Fazemos coisas complicadas de explicar e, na maioria das vezes, não temos maturidade para arcarmos com as devidas consequências. Há quem defenda a tese de que errar é humano e que persistir no erro é burrice. Porém, quanto mais conheço os humanos – até por ser um típico representante deles –, mais me convenço de que o ditado carece de calibragem. O correto talvez seja: errar é burrice; persistir no erro, isso sim, é humano, infelizmente.
Mas eu falava sobre esquisitices humanas, e vamos ficar hoje na superficialidade delas mesmo, porque não estou lá muito a fim de mergulhar nas águas profundas da filosofia (anti) humanística, especialmente em uma semana como esta, mais curta devido a um feriadão tão benfazejo e tão humanitário. Pois não é esquisita essa mania que temos, nós, bichos humanos, de nos cercarmos de tantos penduricalhos e aparatos artificiais, a ponto de, quando eventualmente saímos à rua sem eles, nos sentirmos nus, pelados, como se retrocedêssemos aos tempos das cavernas? Sim, porque, na era das cavernas, reza a História e a Antropologia que andávamos nus em pelo e barba. Eu não contraponho porque tenho só quase meio século de existência, como já disse, e não me lembro de nada antes de meu nascimento e juro que só ando pelado dentro do box do banheiro.
Mas confesso que me sinto nu quando saio às ruas sem minha pasta de trabalho, por exemplo. Minha esposa sofre a mesma vertigem quando sai de casa sem a bolsa. Meu cunhado, sem o aparelho celular (smartphone, corrijo-me); minha irmã, sem as chaves da casa; minha cunhada, sem meu sobrinho; meu outro cunhado, sem a camisa do Grêmio; um amigo meu, sem seus livros; outro amigo, sem a carteira; o sogro, sem o pente. Em resumo, somos, todos, dependentes dos penduricalhos nos quais nos escoramos para justificar a nós mesmos o tamanho de nossa frágil humanidade.

Somos esquisitos, é verdade, mas esse aspecto soa mais engraçado do que qualquer outra coisa (eu avisei que hoje tenderia para o sumo do superficial). De qualquer forma, preocupante mesmo seria sairmos de casa desprovidos de nossa humanidade e não nos sentirmos nus por causa disso. Agora, sim, a coisa aprofundou um pouquinho. Pensemos. Até amanhã.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de setembro de 2015)

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Vândalos virtuais

Da mesma forma como no mundo real, o universo virtual também é infestado pela praga dos mal-intencionados, legião que só faz crescer a olhos vistos e digitados. Se do lado de cá dos computadores precisamos nos precaver contra as ações de estelionatários, criminosos, bandidos, enganadores e espertitos, do lado de lá das telas precisamos tomar doses cada vez maiores de prudência para não sermos presas fáceis da engenhosidade malévola de quem quer tirar vantagem a todo o custo dos imprudentes, aliados ao bando dos que querem mesmo é anarquizar. É bom estar sempre alerta.
Todos já estão carecas de saber (ou deveriam estar) da existência dos hackers, aqueles nerds especializados em programação de computadores que conseguem invadir a sua máquina à distância por meio de programas-espiões, a partir dos quais roubam suas senhas de cartões de crédito e das contas bancárias e fazem aquele estrago nas suas finanças. Isso é uma coisa. Há também os criadores de vírus, cujas funções variam desde estragar sua máquina até apagar programas e arquivos, roubar senhas, zerar seus escores nos joguinhos, entre outras maldades irritantes e destrutivas. Isso é outra coisa, parecida com a primeira coisa. Coisas da mesma laia, em última análise.
Mas existe outro tipo de terrorista virtual em relação ao qual é preciso estar alerta, sob risco de sair pela aí reproduzindo informação errada e passando recibo de anta. Trata-se dos vândalos da informação, aqueles engraçadinhos que não têm graça nenhuma, cujo prazer psicopata é esculhambar sites ditos informativos, plantando neles dados errôneos. Claro que todos sabem (ou deveriam saber) que sites como a Wikipédia, por exemplo, não são confiáveis, uma vez que são domínios abertos ao público, ou seja, qualquer um pode acessar e inserir ali o que bem entender, sem que haja nenhum processo de triagem que garanta a lisura dos dados. Problema, e aí é que vem a coisa, é que as pessoas cada vez mais se utilizam de sites como esses para buscar e, pior, repassar informações que, algumas vezes, estão bombardeadas de erros.

Daqui a algum tempo, corre-se o risco de estarem dizendo que o Brasil é uma monarquia parlamentarista democrática, quando, na verdade, sabemos que o regime de governo aqui é... é... é o que, mesmo? Puxa, e agora?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de setembro de 2015)