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terça-feira, 28 de abril de 2015

Uma xícara de café

Aprendi a passar café ainda na adolescência, quando morava em Ijuí, na Rua dos Viajantes (quem mais viajava naquela rua era eu mesmo, detentor de um bilhete permanente na classe executiva do bonde da imaginação). Não sei se já existiam as cafeteiras elétricas, mas, como não tínhamos, aprendi a esquentar a água em uma chaleira, colocar o porta-coador de plástico sobre a boca do bule, enfiar dentro um filtro de papel e, nele, despejar algumas colheres de pó de café proveniente de uma lata guardada na terceira porta à esquerda do armário na cozinha ao lado da geladeira.
Depois, era ir vertendo a água fervente devagarinho sobre o pó e observar a magia da transformação daquela argamassa preta em café, com seu aroma característico preenchendo o ambiente da casa e antecipando o prazer do fruir de uma xícara bem quentinha, especialmente no inverno, nos longos e gelados invernos da Rua dos Viajantes. Aprendi também uma dica importante: jamais inundar o filtro direto com água quente, pois isso proporcionaria um café aguado e ralo. O segredo era primeiro despejar a água devagarinho sobre o pó, apenas o suficiente para umedecê-lo e transformá-lo em uma massa compacta, pois esse pequeno truque seria o suficiente para manter ali, naquele bolo, todas as propriedades cafeinísticas que tanto apreciávamos: sabor, aroma, textura. Feito isso, aí sim, ir despejando aos poucos a água fervente e acompanhando o verter contínuo daquele fio preto de café escorrendo para dentro do bule.

Depois era levar para a mesa a fim de aquecer a família depois das refeições, junto a uma barra de chocolate, uma colher de chantilly, um cálice de licor (em noites especiais). Hoje a correria do cotidiano me faz refém das colherinhas de café granulado, que produzem café preto instantâneo diretamente na xícara. Coisa meio sem graça, se comparada ao ritual de antigamente, mas vá lá, café é café. Claro, há também a cafeteira elétrica, que simula o antigo processo manual de passar pó de café, com a vantagem de poder ser programada com antecedência e proporcionar a invasão do aroma de café passado invadindo a casa de manhã cedinho, antes mesmo de sair da cama. Não tem o charme do bule e da chaleira, mas, como eu disse, café é café, e a viagem depende também da disposição interna de cada um. Saúde!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de abril de 2015)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Café no bule

Meu afilhado está apenas com dois anos e meio, mas o tempo a gente sabe que voa e não vai demorar muito para ele estar grandinho e disparando perguntas cabeludas que vão deixar os adultos ao redor de saia justa. Principalmente os pais, que serão os alvos preferenciais de sua curiosidade, seguidos pelos professores. Mas depois vêm os dindos, e é aí que entro eu na jogada. Por isso que já estou aqui me preparando, porque não quero passar vergonha frente às novas gerações da família, já que João Vitor, além de afilhado, é sobrinho.
Fico imaginando aqui, fazendo uma projeção de futuro, alguns momentos eventuais em que os pais de meu afilhado, já exauridos de tanto responder perguntas e de rebolarem para se saírem bem das já citadas (mas sempre inesperadas) saias justas a que se verão confrontados, optarem por de vez em quando passar o abacaxi para o lado de cá, dizendo: “pergunta lá pro teu padrinho, que é jornalista”. E lá virá o João Vitor, perguntando: “Dindoooo, o que é café descafeinado?”. Para evitar aquela cara de tacho de quem nunca sequer pensou sobre o assunto, é bom já ir me preparando.
Café descafeinado, por exemplo. Pois é, o que é, hein? A senhora ali, saberia me dizer? Sim, claro, é café sem cafeína, mas a senhora acha que isso vai satisfazer a curiosidade futura de meu perguntativo afilhado? Não, né, terei de ir além. Afinal, sou o dindo jornalista. Existem, minha cara senhora, pelo menos cinco métodos para exorcizar para fora do café as moléculas de cafeína, sabia a senhora disso? Hein? Não sabia, né? Nunca deve ter perguntado isso ao seu padrinho. Ah, bem, é verdade, no seu tempo não havia essas coisas de café sem cafeína, verdade, tem razão a senhora. Mas existem cinco métodos. Pelo menos. E me dá uns dias que saberei detalhar um por um. Estou me preparando. Que venha o afilhado, com essas e com todas as outras que bem entender (ou que quiser entender).

Se bem que... bobagem, Marcos. Que padrinho jornalista o quê. Para tirar suas dúvidas, ele vai, no mínimo, fazer o mesmo que estou eu fazendo agora: uma rápida busca google. “Dãããã”, vai me dizer ele, no futuro.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de setembro de 2014)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Fórmula no café

A gente, quando está vivendo a chamada fase escolar, é comum que se fique indignado com os conteúdos de algumas matérias que os professores tentam heroicamente fazer entrar em nossas cabeças, a maioria delas ocas, outras tantas duríssimas como adamantium (a liga metálica fictícia com a qual são formadas as garras do Wolverine, isso todo mundo sabe o que é, né, até eu).
Pois eu me lembro que ficava indignado por ter de decorar a Fórmula de Bhaskara, que, a meu ver, jamais serviria para qualquer coisa em minha futura vida prática. Somar, dividir, multiplicar e diminuir, sim, pareciam operações importantes e aplicáveis no dia-a-dia, especialmente para administrar a mesada que garantia a  merenda no recreio. Mas Bhaskara? Bah!
Porém, nada como uma década depois da outra para derrubar nossos preconceitos e enfim encontrarmos a luz que nos faz enxergar e redimir os esforços de nossos antigos e empenhados mestres. Foi sentado à mesa de um café que costumo frequentar que me dei por conta da importância dos preceitos básicos da análise combinatória que tanto tentaram me ensinar naqueles tempos de quadro-negro (que era teimosamente verde).
Sim, porque hoje em dia não basta você apenas sentar e pedir um capuccino e pensar que seu serviço de cliente está encerrado e basta esperar pela entrega do pedido. Nananana, não basta ser cliente, tem de participar. Você precisa decidir se deseja um capuccino grande ou pequeno? E depois de optar pelo grande, escolher se quer com ou sem chantilly? Tá, grande sem chantilly. Sim, mas com ou sem raspas de chocolate? Grande, sem chantilly e com raspas de chocolate. Já sua esposa quer um pequeno com chantilly e com raspas de limão.

 Quantas opções, no fim das contas, existem? Quantas pessoas você pode convidar para tomar capuccino com você sem que nenhuma repita o mesmo pedido? Ahá! Seu professor de matemática sabe a resposta. A moça que atende no café também. E você aí? Quem mandou cabular aula de análise combinatória?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de agosto de 2014)