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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A cenoura é a prova

A prova irrefutável de que o Papai Noel realmente visitou na madrugada do Natal a casa de meu afilhado de quatro anos de idade é uma cenoura que foi mordida por uma das renas que puxam o trenó do Bom Velhinho. Não há o que discutir quando as evidências falam por si e o peso das provas equaciona um mistério. O trenó do Papai Noel é puxado por renas. Seis renas, conforme me explica o afilhado, enquanto me ajuda a destruir a embalagem que nos impede de acessarmos com rapidez o conjunto de ferramentas de plástico a ele destinado também pelo Papai Noel, mas que foi deixado na casa dos dindos para a devida entrega.
São seis renas, portanto, aprendo. E elas devoram cenouras. Certo. Escuto com atenção. O Papai Noel não desceu pela chaminé porque não há lareira na casa, mas parece que conseguiu entrar pela janela do banheiro, enquanto todos dormiam - o que é uma lástima, já que ele desejaria muito ter visto o Papai Noel chegar e entregar os presentes. Mas a família toda caiu no sono e foi bem nessa hora que o velhinho resolveu aparecer. Bom, tudo bem, ao menos, as cenouras para as renas haviam sido diligentemente posicionadas sobre o balcão da sala, bem à vista do Papai Noel, que tratou de entregá-las às renas enquanto ele deixava os presentes. As renas ficam com muita fome enquanto levam o Papai Noel de casa em casa, e é importante deixar cenouras para elas se alimentarem.
Uma das cenouras, que não foi totalmente devorada, mas que mantém as marcas das dentadas desferidas por uma das renas, foi guardada como relíquia pelo afilhado, sob sua cama. Se eu queria ver? Mas claro que eu queria! Poc poc poc poc... Saiu correndo em desabalada carreira até o quarto, para voltar empunhando uma longa cenoura coberta de dentadas. Dentadas de rena natalina, evidentemente, como eu logo averiguava com meus próprios olhos e minha longa experiência em pistas deixadas pela ação do Papai Noel. Sim, sim, eram dentadas de rena, não havia dúvidas. Renas do Papai Noel são as que deixam marcas enormes na cenoura, como essas. De fato, Papai Noel esteve ali de madrugada.

Pena que ele não viu, porque pegou no sono. Bem, fazer o que... Nem tudo é perfeito nessa vida. Voltamos a desembrulhar as ferramentas de plástico, em silêncio, a cenoura escorada na parede da sala. “Ano que vem, vou ficar acordado, para ver o Papai Noel entregar os presentes e as renas comendo as cenouras”, disse, manuseando o alicate de plástico. Senti firmeza no propósito. Se eu fico junto? Fico, claro que fico. Também quero ver. Ano que vem, não posso esquecer das cenouras.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de dezembro de 2016)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ponto para o Dr Gilberto

Numa dessas minhas idas a Ijuí, minha terra natal, onde nasci há quase meio século (odeio essas crônicas pessoais nas quais, quando vejo, estou a revelar verdades inescondíveis), reencontrei meu pediatra, o doutor Gilberto. Ele é uma dessas figuras que se tornam, com o passar dos anos, em personagens quase surreais dentro da gama de personalidades que foram exercendo papeis cruciais na moldagem de nossa própria existência. O doutor Gilberto é uma dessas figuras, e das mais importantes, porque, se consegui chegar a essa idade respeitável (eu ia escrever “longeva”, mas dei-me um tapa na mão), é porque coube a ele debelar os males que me foram atacando na infância.
Tive catapora quando criança, em Ijuí, e foi o doutor Gilberto quem medicou e receitou as pomadinhas que tinha de passar sobre as feridas que secavam e coçavam. Tive gripes, febres, dores de garganta, e lá íamos, minha mãe e eu, de Kombi-lotação, até o consultório do doutor Gilberto, para abrir a boca, mostrar a língua, contar até 33 (verdade ou ilusão provocada pelo recriar da realidade?), ter o peito auscultado, receber batidinhas nas costas, respirar fundo, soltar o ar devagar, inspirar de novo, soltar. Havia brinquedos na sala de espera, mas eu os ignorava, preferindo sempre ficar sentado em um canto, ao lado da mãe, folheando os gibis. Tomava os remédios sem rebeldias (ao menos, nisso, e tapa nessa mão que insiste em enfiar parênteses), ficava curado e ponto para o doutor Gilberto.
Quando percebi que estava na hora de deixar de ser criança e ficar grandinho, lá pelos cinco anos de idade, que é quando a gente começa a ter história atrás da gente e a detectar gentes menores do que a gente em volta, decidi que devia abandonar a companhia do porquinho de pano que eu levava comigo junto sempre que ia ao dentista, ao pediatra e ao farmacêutico para tomar injeção (na Farmácia do Chico). Doutor Gilberto sentiu falta dele em uma das consultas, atento que era.

Mas eu dizia que reencontrei o doutor Gilberto, lá em Ijuí, dia desses. Cabeça repleta de cabelos branquinhos, jovial e simpático como sempre, posamos juntos para uma selfie, eu uns 20 centímetros mais alto do que ele. “Cresceu bem esse guri, é a prova de que acertei nos remédios”, orgulhou-se ele. Eu sou a prova da competência de meu pediatra. Agora, sim, posso aposentar de vez o meu porquinho...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de julho de 2015)

segunda-feira, 29 de junho de 2015

História de pescador

O primeiro (e único) peixe que pesquei na vida foi uma traíra, não muito grande que me permitisse portar na bagagem da memória há décadas a minha primeira (e única) mentira de pescador, nem tão pequeno que sequer servisse para uma inocente lorota. Era uma traíra mediana, que não chegou a oferecer grande resistência ao manejo da linha e da vara – sim, pois que foi içado das águas do açude com vara de pescar e minhoca encravada no anzol – devendo pesar não mais do que dois quilos, a julgar pelo tamanho registrado em fotografia batida na época, quase quatro décadas atrás.
A foto costuma repousar discretamente em meio aos maços de fotografias antigas guardadas dentro de uma caixa de sapato e ganha renovado sopro de vida sempre que recebe um novo olhar a cada nova incursão nostálgica que empreendo ao baú de guardados, sazonalmente, quando sou acossado pelos ventos da saudade do passado. Estou eu ali, na altura de meus então dez anos, magricela e branquela, cabelo loiro (loiro e farto, ah, os dez anos), sustentando ao alto no braço direito a linha em cuja extremidade balança a presa aquática que posa inerte para a foto, ainda agarrada à isca. A julgar pelo cenário às minhas costas, o feito se deu na fazenda que meu pai tinha em sociedade com meus dois avós, no interior de São Borja.
Não fosse a foto, que eterniza o fato com parcela da verdade, haveria o risco de a tal pescaria ter se esvaído de minha biografia pessoal. Sim, porque, da memória real, ela já se esvaiu há muitos anos, e não sobra registro algum. Sei que pesquei a traíra, pois que tenho a foto para provar a quem quer que duvide de minhas antigas habilidades pescatórias. Mas nada recordo do episódio por conta própria: nem da ocasião, nem da emoção de sentir a linha sendo fisgada, tampouco da crueza da batalha para extirpar do rio ou do açude a presa.

Pesquei, é verdade, mas o sabor do evento não me transformou em pescador, o que me impede de celebrar com autoridade este 29 de junho, Dia do Pescador. Fosse o Dia da Mentira, poderia eu aqui inventar alguma e passava. Mas em se tratando de pescadores, só posso narrar uma verdade singela, uma vez que me transformei em um mero pescador de histórias.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de junho de 2015)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Lembranças turbindas

Hoje a lembrança do acontecido é difusa, vem borrada devido à ação predatória do tempo, obrigando ao exercício da liberdade criativa para preencher as lacunas do fato e permitir que, assim, completado à força, se transforme em história a ser contada. A data eu lembro bem: novembro de 1979. Fica fácil lembrar não porque esteja lançada em algum diário preservado junto à caixa de guardados (na época, ainda era comum as pessoas cultivarem diários, apesar de a prática já estar em franca extinção), mas porque está impressa na capa do gibi (“Heróis da TV” edição número 5), que eu lembro ter adquirido na ocasião (a referência para os principais episódios de minha vida se ampara na recordação nítida daquilo que eu estava a ler na época).
Eu tinha 13 anos, ainda morava em Ijuí, na Rua dos Viajantes, e seria a primeira vez na vida que iria voar de avião. Meu pai tinha negócios a fazer em Porto Alegre, distante cerca de 400 quilômetros, e, dessa vez, iria a bordo de um Bandeirante que sairia do aeroporto municipal rumo ao Salgado Filho. Os Bandeirantes eram pequenos aviões de passageiros (com capacidade para levar 12 passageiros), produzidos pela Embraer entre 1973 e 1991 e, creio, devia fazer linha entre a região Noroeste do Estado com a Capital. Isso, claro, estou supondo. O fato é que o avião estava lá e meu pai decidiu me levar junto, talvez como prêmio por ter concluído o ano letivo na terceira série do primário sem pegar recuperação (aí também já estou supondo).
Não recordo de detalhes do voo, nem quanto tempo durou (a julgar pela lógica, provavelmente não mais do que uma hora), mas tenho ainda claríssima em mim a ansiedade frente à nova e excitante experiência, tamanha que resultou no enjoo a oito mil metros de altura e na necessidade de utilizar o saquinho plástico providencialmente disponível ali caso o almoço decidisse retornar por onde havia entrado, como de fato decidiu. Fiquei no quarto do hotel enquanto meu pai despachava suas reuniões de negócios na cidade. Li os gibis que havíamos comprado na banca da Praça da Alfândega, circulei pelos incríveis cinco canais disponíveis na televisão e, o melhor de tudo, pedi à recepção, pelo telefone do quarto, torradas e suco de laranja.

No dia seguinte, voltamos os dois a Ijuí em um carro alugado, eu acumulando lembranças e aprendendo a usar a imaginação para preencher histórias.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 19 de junho de 2015)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Sobre conchas e estrelas

Camboriú em Santa Catarina e a Praia do Cassino aqui no Rio Grande do Sul eram os dois principais cenários de férias litorâneas para meus pais, minha irmã e eu, nos idos dos anos 1970 e início dos 1980. Revisitando fotografias e filmagens caseiras feitas por meus pais naquela época, vou me dando conta de quanta coisa mudou nesses cenários, passadas algumas décadas.
Claro que não vou cometer a imprudência de me deter em questões estéticas dos protagonistas de tais registros visuais, a começar por mim mesmo e a invejável magreza, a ausência de adiposidade abdominal, o bronze obtido pelos bronzeadores (nem se falava em protetor solar na época), a farta cabeleira a proteger os pensamentos do calor do sol e outros quesitos mais. Esses elementos, deixemos de lado na investigação que agora coloco em curso, para o bem de minha autoestima.
Queria mesmo era comentar sobre os saquinhos plásticos transparentes que minha irmã e eu carregamos à beira-mar tanto nas fotografias quanto nas filmagens. Estamos ambos ali, fantasiados de banhistas, eu com cerca de sete anos, minha irmã com quatro, andando para trás e para frente ao sabor das pequenas marolas que vão depositando dezenas de conchinhas marinhas aos nossos pés. Catávamos aquelas  conchinhas, fazíamos coleções e depois insistíamos em transportar de volta para casa na longínqua Ijuí. Uma que outra estrela-do-mar ressequida também era capturada como troféu e, durante alguns dias, no retorno, o cheiro de mar permanecia ainda em nossos quartos devido à presença das conchinhas, até o ponto em que começavam a apodrecer e nos víamos obrigados a jogá-las fora.
Hoje caminho pelas praias de nossos litorais gaúcho e catarinense e meus pés raramente são pinicados pela ponta de alguma conchinha que vem trazida à beira-mar pela rebentação. Nunca mais vi crianças de saquinhos nas mãos compenetradas caçando conchinhas e estrelas-do-mar, e fico a me perguntar se sumiram-se as conchinhas, sumiram-se as estrelas-do-mar, sumiram-se as crianças ou o que sumiu mesmo foi a brisa de poesia que soprava solta dezenas de anos atrás à beira do mar.
Dúvidas, apenas, cujas respostas nem sei se desejo mesmo conhecer.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de janeiro de 2015)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Pescador de Sputniks

O fascínio de cravar os olhos no céu na escuridão da noite para caçar estrelas eu herdei de meu avô materno ainda na minha infância, quando, nos anos 1970, íamos passar temporadas de férias na fazenda que ele possuía no interior de São Borja. Não havia luz elétrica naquelas funduras, a geladeira funcionava a partir de um motor a diesel, a água fresca era puxada de um poço e os banhos, tomávamos com água fria derramada dentro de um regador emborcado ao avesso no interior de um cubículo distanciado da casa.
Depois do jantar, as noites sem televisão (e sem internet, facebook e congêneres, com os quais nem sonhávamos) eram curtidas em família na escuridão da varanda, do lado de fora da casa, escutando grilos e sapos, observando o voejar de vaga-lumes, praticando o ato de sermos gente. Meu avô se abraçava a um enorme rádio que captava ondas curtas de emissoras de todas as partes do mundo e ficava zapeando de ponta a ponta no dial, trazendo-nos falações em russo, alemão, inglês, francês e outras línguas que não identificávamos. Lá de vez em quando, olhava para um canto do enorme céu preto estrelado, apontava e dizia “Maco (pois que me chamava de “Maco”), olha lá, daqui a pouco vai cruzar o Sputnik por ali”. E, de fato, logo o céu era riscado por uma luzinha piscante que cruzava veloz exatamente na direção em que ele apontara. Era um satélite artificial, que cumpria no horário certo sua passagem por aquelas plagas estelares. Para meu avô, todos aqueles artefatos eram sputniks, em alusão ao primeiro satélite artificial colocado em órbita da Terra pelos soviéticos.
Depois, passava a dar aulas de astronomia prática. Apontava para as luzes do céu e ensinava: “aquilo é Vênus e aquilo é Marte. Planetas não piscam. Estrelas piscam, como aquelas ali, as Três Marias, e aquelas outras lá, que fazem a constelação do Cruzeiro do Sul”. Era militar reformado, sabia se guiar pelas estrelas. Eu ia observando e aprendendo.

Até hoje sei reconhecer no céu todas as estrelas e corpos celestes que meu avô me ensinou. Afinal, eles seguem todos lá, imutáveis, em seus lugares no mapa do céu. O que mudou mesmo foram as gentes daqui debaixo. Não sei se ainda existe quem pesque sputniks.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de janeiro de 2015)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Lembrança abalada

Memórias, lembranças e recordações me assaltam alternadamente quando ando pelas ruas de minha cidade natal, Ijuí, que costumo visitar nos finais de ano. Uma delas deixou-me, digamos, abalado. Isso porque, quando vi, minhas pernas recordantes haviam me conduzido até a frente da Fábrica de Balas Soberana, indústria cujos produtos faziam a alegria de minha infância por razões óbvias e que andou sendo revitalizada, voltando a fabricar algumas das balas que marcaram época em minha história.
O principal produto da Soberana eram as balas Póca, que a gurizada devorava aos sacos na hora do recreio. Era uma balinha quadradinha, branca, com sabor de abacaxi, e vinha envolta em uma embalagem amarela, ilustrada com a imagem de um cervo. Por que o cervo? Mistério absoluto que perdura até hoje, ninguém sabe explicar. Também, não faz diferença alguma. Adorávamos as balas Póca. A lembrança mais remota que tenho de um bisavô é ele se aproximando e tirando do bolso um punhado de balas Póca, que oferecia a mim, à minha irmã e aos meus primos. Uau, que festa!
Não havia problema algum em receber balas do bisavô, mas todas as crianças daquela época éramos instruídas pelos adultos a jamais aceitarmos balas de estranhos. Havia temor de sequestros, especialmente depois da repercussão do sumiço do menino Carlinhos, raptado aos dez anos em 1973, no Rio de Janeiro, mistério insolúvel até hoje. Agora, pensando em retrospecto, fico a pensar: tá, mas e se o estranho nos oferecesse chocolate ou pirulito? Ou um maço de figurinhas para completar nosso álbum? Ou flâmulas de nosso time? Que fazer? Eu me sentia plenamente preparado para enfrentar o estranho com uma peremptória recusa ao convite de acompanhá-lo caso ele oferecesse balas. Mas e o resto? Felizmente, o estranho nunca apareceu nas esquinas daquela minha Ijuí do passado.

Mas o que importa mesmo é que, em um mercado local, consegui adquirir, passadas décadas, um saquinho de balas Póca e meti-me a comê-las todas. O sabor de infância permanece o mesmo: inclusive com a queda de uma obturação que habitava minha boca desde aqueles tempos. Cadê o número da dentista?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de dezembro de 2014)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O cara não era o cara

A lembrança mais remota que tenho de meus contatos com o Papai Noel me reconduz a dezenas de anos passados, quando eu devia ter uns cinco ou seis anos de idade e morava na Rua dos Viajantes, em Ijuí. Coisas estranhas e maravilhosas aconteciam na Rua dos Viajantes em Ijuí naquela época, e essa foi uma delas.
A informação de que Papai Noel faria uma visita ao nosso lar na noite de Natal foi sendo revelada aos poucos para mim e minha irmã pelos meus pais, enquanto o clima natalino ia se instalando pela casa a partir da metade de dezembro. Falava-se em bom comportamento como requisito fundamental para receber de Papai Noel os presentes que tanto almejávamos (eu queria uma bicicleta Caloi e minha irmã desejava uma boneca Suzy, creio). A expectativa, portanto, era grande.
Naquela época era usual as famílias adquirirem pinheirinhos de verdade e instalá-los dentro de uma caixa de metal a um canto da sala, ao pé do qual montávamos o presépio. Passávamos dias ajudando nossos pais a ornamentar os espinhudos galhos do pinheiro com os enfeites coloridos que reapareciam das caixas guardadas a sete chaves pelos adultos. No jardim da infância, produzíamos enfeites artesanais com cartolina e palitos de fósforo, que obtinham lugar de destaque na árvore. Assim, o clima natalino se estabelecia, embalado com a trilha sonora de discos de vinil que iam sendo tocados com Jingle Bells, Noite Feliz e outras canções similares.

Aí então, na noite de Natal, chegou Papai Noel, o tão esperado visitante, carregando nas costas um saco de estopa do qual foi retirando presentes. Lembro de quando cheguei perto dele e percebi que se tratava de uma pessoa usando uma máscara, o que me causou certa estranheza.     “Ué, esse Papai Noel não é o verdadeiro, mas sim um homem fantasiado”, pensei. De qualquer forma, não disse nada, peguei meus presentes e saí. Em momento algum duvidei ali da existência de Papai Noel. Apenas, aquele que viera não era o próprio, ok, sem problemas. Afinal, ali, na Rua dos Viajantes, a fantasia tinha primazia e não era uma máscara que colocaria tudo por terra. A prioridade era seguir sendo feliz. Magias do Natal.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de dezembro de 2014)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Compromisso intransferível

O convite estava agendado há mais de mês e não havia a menor possibilidade de ser negligenciado. Chovesse canivetes, morresse o papa, revolução eclodisse, a cobra fumasse, corruptos se arrependessem, o sol congelasse, o sertão virasse mar ou o mar virasse sertão, só havia uma única alternativa: comparecer. Assim, comparecemos, minha esposa e eu, à apresentação de final de ano organizada pela escolinha maternal que nosso afilhado de dois anos e meio frequenta, no domingo que passou. Afinal, não basta ser dindo, tem de participar.
Meu afilhado foi fantasiado de leão, uma vez que esse é um personagem que ele encarna com perfeição no dia-a-dia, especialmente quando me vê e se põe a rugir exibindo a fileira de dentinhos de leite e franze o nariz como se fosse o focinho de um felino bravo e faminto. As mãozinhas em garras completam a performance, valorizada com o meu susto e minhas fugas tresloucadas.
Assistimos, então, à apresentação preparada pelas profes, reunindo a gurizada dos maternais, dos berçários e do jardim no palco, entre leões, homens-aranha, homens-de-ferro, princesas, brancas-de-neve, batmans e outros personagens, uns cantando direitinho a música ensaiada, outros batendo palmas, alguns olhando para trás, vários deles abanando para papais, mamães, dindos e titios na plateia, um que outro estaqueado feito estátua frente a tantos adultos sorridentes olhando para eles, tudo devidamente registrado em aparelhos celulares, máquinas fotográficas e tablets, para a posteridade.
Encerrada a parte oficial, partimos para o que realmente interessava: as crianças rumo aos brinquedos instalados no ginásio e os adultos rumo ao setor dos comes e bebes, onde o cachorro-quente e o algodão-doce estavam divinos. Difícil foi resistir ao convite insistente do afilhado, que queria me puxar para dentro de um cercadinho em que mal cabiam ele e um amiguinho, pulando alegremente sobre uma cama elástica. “Didu, enta!”, foi o convite. Óbvio que eu não cabia ali dentro, apesar da vontade. Mas valeu o presente de ter sido visto pela dupla como um igual, cuja companhia no brinquedo lhes seria bem-vinda. Foi uma honra.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de dezembro de 2014)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Um joelho esfolado

Foi tudo muito rápido (gosto dos clichês exatamente por essa capacidade que eles têm de resumir com eficiência um conceito, de expressar sem subterfúgios uma sensação ou uma situação). Por que, então, usar de artimanhas linguísticas para dizer de outra forma aquilo que um bom e batido jargãozinho consegue comunicar? Foi, sim, tudo muito rápido, conforme o clichê, e, quando dei por mim, eu já estava no chão, braços e pernas para todos os lados.
Fazia tempo que eu não caía. Sequer recordo quando foi a última vez que me estatelei no solo, desabando-me sobre mim mesmo, transformado de súbito em castelo de cartas que desmorona ao vento. A lei da gravidade existe desde que a Terra gira em torno de si e vale para todos, sem distinção. Dela não escapam crentes nem pagãos, papas ou bispos, reis ou súditos, homens, mulheres, idosos, crianças, ricos, poderosos, pobres. Quando é para cair, cai-se por completo, em um átimo, záz! O que estava em pé um segundo atrás perde, em um piscar de olhos, a compostura, a empáfia, o garbo, para apatrafar-se na horizontal de nariz ao solo, concretizando o ato da queda.
Como, senhora? Antes que eu prossiga, quer que eu explique o verbo “apatrafar”, que usei ali? Ah, não, senhora, vai me dizer que a senhora jamais caiu? Quem já caiu, sabe do que estou falando. A gente se apatrafa ao solo e pronto. Depois de apatrafar-se, resta à vítima erguer-se o mais rápido que lhe permitirem suas condições físicas e morais, recolher os pedaços de sua dignidade espalhados ao redor e recolocar-se na posição ereta, que é o que exige e convém à verticalidade de nossa vida em sociedade.

Mas, como disse, foi tudo muito rápido. Domingo à tarde, descendo o morro da chácara do sogro, carregando sacolas repletas de frutas, resvalei nas pedrinhas que recheavam o meio do caminho e foi o que bastou para que rolassem ladeira abaixo laranjas, pêssegos, limões e pedaços da dignidade de meu eu. Esfolei a palma da mão e um joelho e rasguei uma parte da calça. Foi quando descobri que a dor de um joelho esfolado tem sabor de infância. Tomara que ela ainda dure alguns dias mais...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de novembro de 2014)

domingo, 12 de outubro de 2014

Correrias de outrora

Eu, aos cinco anos de idade, já vendo o mundo por meio de outros prismas

Naqueles dias, todo o dia era dia da criança. Gostávamos de brincar de esconde-esconde, que em Ijuí, naqueles idos, conhecíamos como “siscondê”, uma corruptela de “se esconder”. “Vamos brincar de siscondê”, dizíamos os mais velhos, e sempre dávamos um jeito de, na contagem, forçar para que um dos menores já saísse “fechando”, ou seja, cabia a ele debruçar-se sobre o tronco da timbaúva cravada no centro do quintal de casa, fechar os olhos e contar pausadamente em voz alta até 50, que era o tempo que tínhamos para sair em disparada a nos camuflarmos pelo pátio, a fim de sermos procurados pelo garoto que “fechava”.
Eita correria que, via de regra, rendia alguns joelhos esfolados a serem tratados com Mertiolate ao final do dia. Correria que só se equiparava a quando mudávamos a brincadeira para “lets”. “Vamos brincar de lets”, sentenciávamos, e lá ia um dos menores, encarregado de ter o “lets”, a correr atrás dos outros. Quando encostava a mão em alguém, gritava “lets”, e transferia automaticamente a ele a incumbência de correr atrás dos outros, portando o “lets”. Que diabos significava “lets”? Perdi de descobrir nos tempos da infância, agora passou, morrerei com a dúvida.
Com cinco anos de idade eu já tinha um par de óculos enfiados na cara, mas isso não me impedia de correr muito na hora do “lets” e do “siscondê”. No jardim de infância, brincávamos de lobos (os meninos) e ovelhas (as meninas). Os lobos deviam capturar as ovelhas, que iam sendo “presas” na cancha de areia. Certa vez eu, lobo, trombei feio com uma ovelha, cuja cabeça era mais dura do que a minha. Um galo na testa amansou o lobo que havia em mim.

Aos dois anos de idade, meus pais pediram para eu reunir todos os meus brinquedos na porta da frente de casa, para uma foto. Observo eu ali e me vejo cercado pelo caminhão de madeira, a girafa de plástico, o patinho também de plástico que eu alimentava com comida de verdade por um furo que lhe fiz no bico, uma cadeirinha azul em que eu sentava para comer mingau. E tudo isso olhando apenas duas fotos do álbum. Como a gente esquece quanta criança já coube dentro de nós um dia...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de outubro de 2014)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O Batman na missa

Fiquei sabendo que, lá pelo início dos anos 1980, o Batman costumava frequentar a missa das 10 da manhã na Catedral Diocesana aqui em Caxias, com a devida anuência do padre e também da mãe do destemido vigilante mascarado. Como tudo na vida funciona à base da negociação, a dita mãe (leitora minha, que me contou o fato) só conseguia arrastar o filhote à missa se permitisse que fosse fantasiado de Batman.
Pelo que posso depreender, creio que a negociação se dava nos seguintes termos: nada de máscara e indumentária completa, apenas a capa. Afinal, um Batman de oito anos de idade trajando uniforme completo poderia causar mal estar no padre e nos coroinhas e apenas uma singela capa talvez não fosse assim tão dissonante do contexto todo. E vai que a moda pegasse e na semana seguinte os bancos da missa das dez da manhã na Catedral passassem a ser ocupados por pequenos Super-Homenzinhos, Hominhos-Aranha, Mulherezinhas-Maravilha, Homenzinhos-de-Ferro, Hulkinhos, a Liga da Justiça e os Vingadores completos? Ficaria estranho. E se um deles inventasse de ir de Pinguim ou de Coringa, haveria lutinha nos fundos da sacristia? Não iria dar certo.
O fato é que, apesar da capa (ou justamente devido à capa), o garoto foi à missa com a mãe e hoje, passadas três décadas, enche-a de orgulho sendo um profissional de destaque em sua área, morando, inclusive, no estrangeiro. Viva a capa, viva a missa, viva a complacência do padre e, especialmente, a sensibilidade e o tino da mãe. Afinal, não poderia ser uma mera capa de morcego a impedir a aproximação de Batman dos bancos da igreja.

Eu, nos meus tempos em Ijuí, me vestia de Zorro. A máscara era tosca, dura, feita de plástico. Havia a capa preta e, especialmente, a espadinha de borracha, com a qual eu me botava a cutucar todo o adulto que a meus olhos se assemelhasse ao Sargento Garcia. Levei alguns petelecos por isso e horrorizei a família ao esculpir um “Z” no batente da porta da cozinha, deixando uma marca eterna de minhas artes na casa da Rua dos Viajantes. Mesmo que por linhas tortuosas, começava a gostar de causar sensação com as letras...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de outubro de 2014)

domingo, 14 de setembro de 2014

Coelho na cartola

“Temos de ganhar mais dinheiro”. Mesmo vivendo na minha Ijuí natal e tendo apenas 14 anos de idade, lá nos idos do início da década de 1980, eu e meu primo compartilhávamos na essência pelo menos um dos principais atributos dos habitantes da Serra Gaúcha, região que vim a habitar só muito tempo depois. Decidimos nos transformar em jovens empreendedores porque percebemos que os valores que cada um recebia de mesada dos respectivos pais não atendiam mais às nossas necessidades. Ele, porque queria mais grana para os lanches no recreio e eu porque desejava adquirir mais gibis de super-heróis.
Aquela situação não podia continuar. A Editora Abril estava lançando gibis próprios do Homem-Aranha e do Capitão América e eu simplesmente pre-ci-sa-va daquilo. Depois de conversarmos com um coleguinha que era filho de empresário rico, descobrimos que o segredo de sua fortuna residia na criação de coelhos que ele mantinha em uma de suas propriedades. Naqueles tempos politicamente incorretos, a pele de coelho andava valorizada no mercado da moda e aquilo nos pareceu um investimento promissor, afinal, coelhos se reproduzem como coelhos e bastaria investirmos em dois casais de matrizes para em breve vermos nossa criação duplicar, triplicar, quadruplicar, bem como nossos lucros e, com eles, os meus gibis do Homem-Aranha e os pastéis do meu primo.
Mãos à obra, bastava comprar os coelhos! Passamos uma tarde capinando um pedaço de terra nos fundos da casa onde minha família morava, a fim de construirmos ali o nosso futuro coelhódromo. Mas nosso empreendimento jamais avançou de um sonho tirado da cartola mágica da imaginação e de cinco metros quadrados de tiririca capinada nos fundos da nossa casa na Rua dos Viajantes. Isso porque jamais sobrou grana da mesada para adquirirmos os primeiros casais de coelhos. Afinal, havia gibis do Homem-Aranha todo o mês a serem comprados na Livraria Progresso e pastéis de carne a serem consumidos no barzinho do colégio na hora do recreio. Nunca sobrava para investir.

Foi assim que aprendi que coelhos, por si só, não fazem mágica. E que empreendedorismo não salta da cartola.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de setembro de 2014)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Café no bule

Meu afilhado está apenas com dois anos e meio, mas o tempo a gente sabe que voa e não vai demorar muito para ele estar grandinho e disparando perguntas cabeludas que vão deixar os adultos ao redor de saia justa. Principalmente os pais, que serão os alvos preferenciais de sua curiosidade, seguidos pelos professores. Mas depois vêm os dindos, e é aí que entro eu na jogada. Por isso que já estou aqui me preparando, porque não quero passar vergonha frente às novas gerações da família, já que João Vitor, além de afilhado, é sobrinho.
Fico imaginando aqui, fazendo uma projeção de futuro, alguns momentos eventuais em que os pais de meu afilhado, já exauridos de tanto responder perguntas e de rebolarem para se saírem bem das já citadas (mas sempre inesperadas) saias justas a que se verão confrontados, optarem por de vez em quando passar o abacaxi para o lado de cá, dizendo: “pergunta lá pro teu padrinho, que é jornalista”. E lá virá o João Vitor, perguntando: “Dindoooo, o que é café descafeinado?”. Para evitar aquela cara de tacho de quem nunca sequer pensou sobre o assunto, é bom já ir me preparando.
Café descafeinado, por exemplo. Pois é, o que é, hein? A senhora ali, saberia me dizer? Sim, claro, é café sem cafeína, mas a senhora acha que isso vai satisfazer a curiosidade futura de meu perguntativo afilhado? Não, né, terei de ir além. Afinal, sou o dindo jornalista. Existem, minha cara senhora, pelo menos cinco métodos para exorcizar para fora do café as moléculas de cafeína, sabia a senhora disso? Hein? Não sabia, né? Nunca deve ter perguntado isso ao seu padrinho. Ah, bem, é verdade, no seu tempo não havia essas coisas de café sem cafeína, verdade, tem razão a senhora. Mas existem cinco métodos. Pelo menos. E me dá uns dias que saberei detalhar um por um. Estou me preparando. Que venha o afilhado, com essas e com todas as outras que bem entender (ou que quiser entender).

Se bem que... bobagem, Marcos. Que padrinho jornalista o quê. Para tirar suas dúvidas, ele vai, no mínimo, fazer o mesmo que estou eu fazendo agora: uma rápida busca google. “Dãããã”, vai me dizer ele, no futuro.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de setembro de 2014)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Estamos todos surdos

Além do horror explícito latente em todos os aspectos relacionados ao caso do assassinato do menino Bernardo, há outros pontos chocantes, de horrores mais implícitos, que me perturbam. Tenho acompanhado o caso porque me uno ao desejo geral de justiça e porque tenho a convicção de que o fato é representativo de muitos outros maus tratos a crianças que ocorrem em ambientes familiares de ponta a ponta no país.
Precisamos aprender com a terrível experiência que culminou com o assassinato bárbaro de Bernardo. E o que precisamos aprender é a escutar os gritos de socorro. Eu assisti aos vídeos caseiros que escancaram o horror do cotidiano estabelecido entre Bernardo, seu pai e a madrasta. São cenas fortes e tristes. O que mais me choca, no entanto, são os reiterados gritos de socorro emitidos por Bernardo em todos os vídeos. Bernardo gritava por socorro literalmente e também implicitamente (o tal do horror implícito que citei antes). Mas não adiantou.
Vizinhos escutaram seus gritos. A polícia foi chamada e apareceu na casa várias vezes. E não só isso. Bernardo também gritou por socorro ao se dirigir sozinho até o Fórum da cidade e denunciar os maus tratos e o abandono a que vinha sendo submetido. Também eram gritos de socorro. Bernardo passava dias e dias fora de casa, dormindo nas residências de amigos, onde se sentia melhor acolhido do que em seu próprio lar. Também eram gritos de socorro. Bernardo perambulava pelas ruas, era trancado fora de casa, muita gente sabia disso e a própria situação escancarava em si um altissonante grito por socorro.

Ao ser dopado e morto pela madrasta e sua amiga e ser enterrado em uma cova rasa, Bernardo não conseguiu lançar aquele que poderia ter sido seu último grito de socorro. Nem adiantaria mesmo, ninguém iria escutar, assim como ninguém escutou todos os gritos por socorro que emitiu durante anos antes do trágico desfecho. O que me apavora, muito além disso, é essa surdez que estamos, todos nós, desenvolvendo contra os gritos de socorro, explícitos e implícitos, que podem estar sendo gerados ao nosso redor, todos os dias, por quem sequer imaginamos. Só os detectamos quando já é tarde demais.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de setembro de 2014)

quarta-feira, 26 de março de 2014

A lição do UFO

Quando eu era criança pequena lá na cidade de Ijuí, onde nasci 9.953 anos atrás, tínhamos um cachorro de estimação que não batia muito bem da cabeça, assemelhado que era ao seu principal dono, este que vos relata o feito nestas mal traçadas - mas bem impressas - linhas. Cruza de vira-latas com pequinês, tinha pelo de coloração amarelada e chamava-se UFO, o que, por sinal, já dá uma noção de como era a coisa.
UFO vivia solto no amplo pátio da casa e gostava de pregar sustos nos passantes da calçada lá no canto da cerca. Às vezes, quando encontrava o portão do pátio aberto, escapulia e perambulava livre pela vizinhança a seu bel prazer (e para o bel desprazer de alguns vizinhos que não gostavam de suas turbulentas visitas-relâmpago), retornando logo depois, a fim e relatar suas averiguações para Balú, o cão-ancião da casa, um fox que já contava lá seus 15 anos bem vividos e toneladas de ossos enterrados.
Certo dia, bateu a bobeira no UFO e ele largou-se a perseguir o carro da família, numa tarde em que saímos rumo ao clube, situado fora da área urbana, para a aula de natação, na qual eu costumava engolir metade da água da piscina. A presença de UFO correndo atrás do Corcel, língua de fora, olhos esbugalhadas e patas para que te quero, comendo poeira, foi detectada somente umas dez quadras depois, pelo meu pai, via espelho retrovisor. Ficamos apreensivos com aquilo, pois UFO jamais circulara tão longe de casa e poderia se perder. Como retornaria?
De repente, UFO perdeu o fôlego numa curva e foi ficando para trás, sumindo-se na poeira de terra vermelha daquelas plagas ijuienses. A dor em nossos peitos só foi dissipada horas depois, quando retornamos para casa e lá estava UFO, deitado em frente ao portão, a nos sorrir latindo. Afinal, UFO era um cachorro, e cachorros sempre retornam para o lugar a que pertencem.
Fico pensando nisso nesta manhã em que subo na balança depois de dez dias de férias e descubro que os quilos perdidos nas dietas são exatamente iguais aos cachorros de estimação: eles sabem muito bem como retornar rapidamente para o lugar a que imaginam pertencer (neste caso, minha cintura e o entorno de meu umbigo). Os quilos extras e os cachorros são ossos duros de roer: não comem poeira e nem se perdem fácil pelas curvas da vida.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de março de 2014)

Quem é

Há alguns dias comecei a ter um vislumbre que talvez possa me ajudar a solucionar uma das questões mais fundamentais que atazanam a vida de qualquer ser humano desde que, séculos atrás, um filósofo francês que não descartava nada inventou de dizer que o ato de pensar denunciava o fato de estar existindo. Estou a um passo de descobrir quem sou eu, e a pista me foi dada pelo meu afilhado de quase dois anos de idade.
Conforme a perspectiva dele, eu sou “Quem É?”. Simples e solucionado. Isso é o que sou. De tanto os adultos que o cercam apontarem para mim incentivando-o a me identificar como o “Dindo”, segurando-o pertinho e inquirindo “quem é esse aí”, João Vitor optou por enveredar por um caminho mais filosófico na hora de satisfazer a esperança familiar de reconhecimento dos indivíduos da família.
Ora, se ao apontarem para mim as pessoas lhe dizem “quem é?”, então, pela lógica, “Quem É?” é quem sou. Ele não entende a frase como uma pergunta sobre minha identidade, mas, sim, como uma afirmação positiva sobre minha identidade. Semana passada, ao receber em casa sua visita, abri a porta e ele correu aos meus braços, me deu um beijo estralado na face e tascou: “Quem É?”. Bom... “Quem É?” sou eu...
O mesmo se dá com os integrantes do numeroso bando de bichinhos de pelúcia que se acotovelam no alto da estante de seu quarto. Quando “Quem É?” pega João Vitor no colo e o leva para escolher um os bichos, ele aponta para o eleito da vez e diz “Qual?”. Ou seja, todos os bichos, e qualquer bicho, são “Qual?”, uma vez que nós, adultos (bando de “Quem És?”), ao tentarmos descobrir qual dos brinquedos ele deseja, insistimos em perguntar “qual?”, apontando para todos. Se eu sou “Quem É?” e cada bicho da estante é “Qual?”, então João Vitor, na sapiência ingênua de seus quase dois anos, está a nos propor (a mim e aos bichos de pelúcia de sua estante) uma reflexão sobre os mais profundos e refinados questionamentos a respeito do ser.
Pois é, João Vitor, não sei exatamente quem sou. Sou várias coisas ao mesmo tempo: umas coisas mais, outras menos. Certas coisas, fui deixando de ser com o andar dos anos e com o descarrilar das certezas. Outras coisas, passei de repente a ser, para minha própria surpresa. Já em relação ao “Qual?”, bem... de minha parte, se você concordar, preferiria hoje içar da estante o cachorrinho azul de gravata marrom e orelhas compridas. Mas, claro, você é quem sabe...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de março de 2014) 


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O bisbilhoteiro impune

Preciso reconhecer e aceitar: sou um bisbilhoteiro irremediável. Dizem que o primeiro passo, certeiro e seguro, para a cura de nossos defeitos, é reconhecê-los e aceitá-los, para, em posse disso, proceder à transformação de seu eu em algo melhor, superior, mais evoluído e limpinho. Pois esse meu eu precisa urgentemente de uma lavagem completa, por dentro e por fora, incluindo motor e passagem de cera nas rodas, e nada daquela meia-boca de lavagem expressa ou mangueirinha.
É que sou um bisbilhoteiro da vida alheia e, se minhas avós estivessem vivas, ralhariam comigo dizendo que eu precisaria tomar jeito. Pensando aqui e agora sobre isso, concluo que esse traço torto de minha personalidade veio instalado em mim desde os primórdios de minha existência. Sim, porque, quando eu era criança pequena lá em Ijuí, com uma altura que já colocava meus olhos ao nível das mesas, eu tinha paixão por circular solto por entre os corredores dos restaurantes, terminada a minha refeição repleta de nacos de polenta frita, para espionar o que estavam comendo os demais clientes do estabelecimento. Devorado o sagu, saía a perambular minha cabecinha de cabelos brancos até estacionar o par de óculos pretos – que eu já portava aos sete anos de idade – junto com o queixo sobre as mesas dos outros para ver o que andavam saboreando e depois fazer relatos detalhados aos meus pais e à minha irmã.
Alguma tia mais condescendente diria que na verdade aquilo não passava de um encantador indício da alma habitada desde pequeno pelo repórter que eu viria a ser um dia, ou do escritor e cronista, afeito a prestar atenção nos detalhes e reportá-los com precisão aos demais. Mas eu acho que tudo isso não passa de bisbilhotice mesmo. Coisa de xereta profissional. Se não, por que é que então agora, na adultice, não consigo resistir à tentação de ficar especulando as mercadorias que as pessoas colocam em seus carrinhos nos supermercados, brincando mentalmente de enquadrar a vida de cada um a partir daquilo que consome?

“Hum, um velhote fazendo estoque de fraldas... certamente é um avô atencioso... Opa, essa moça pegou dezenas de iogurte; deve ser para os filhos, ou é uma gulosa mesmo. Pega menos refrigerante, cara, olha só essa sua barriga...” E assim vou pelos corredores dos supermercados, conduzindo impunemente meu carrinho e minha bisbilhotice, até que um dia algo me contenha.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 19 de fevereiro de 2014)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Eu, menina (!?)


Comentei aqui ontem sobre os esforços bem-intencionados de meus pais, na década de 1970, quando eu era criança, para me proporcionar entretenimento saudável no verão, inscrevendo-me compulsoriamente no programa de colônia de férias oferecido pela milicada do Quartel em minha cidade natal, Ijuí. A julgar pelo tom do texto e pelas entrelinhas, os leitores puderam perceber, sem maiores esforços, que minha relação com aquele tipo de atividade ao ar livre, sob o comando de trombetas e de ordem unida, não era das mais harmoniosas.
Recebi diversos e-mails de leitores e leitoras se solidarizando com meu relato, eles próprios revelando terem também vivenciado experiências similares em suas infâncias (o que, de passagem, denunciava também suas idades). Só tem uma coisa que aconteceu comigo, e que eu não contei ontem, que supera as eventuais más experiências que qualquer um tenha tido com as tais colônias de férias dos anos 1970 realizadas em quartéis.
Foi logo na chegada, no primeiro dia. As Kombis verde-oliva que arrebanhavam a gurizada pela cidade foram despejando meninos e meninas pelo pátio do Quartel, de manhã bem cedinho, e lá saltei eu, oito ou nove anos de idade, cabelinho bem branquinho e cheinho, chapéu de palha na cabeça, calção, tênis e a mochilinha.
Ao saltar, recebi de imediato uma ordem (a primeira delas): “Você, vai para lá!”. Sendo que “lá”, conforme indicava a direção do dedo apontado do milico, significava uma formação organizada de umas dez filas de... meninas! Habituado a obedecer ordens desde cedo, não titubeei e dirigi-me para “lá”, onde uma professorinha me inseriu no grupo, eu de mãos dadas com as demais menininhas. Nem me passou pela cabeça que milico e professora haviam me confundido com uma menina. Fiquei lá, parado, quieto, escutando os risos dos meninos nas fileiras de trás, até que as meninas a meu lado chamaram a professorinha dizendo: “Tia, tia, ele não é menina, ele é menino”.

A mulher veio, me olhou atentamente, convenceu-se do fato e me realocou de fila, junto aos meninos que iniciavam sua colônia de férias rindo à larga... às custas de meu vermelhidão nas faces, esse que me acompanha até hoje mesmo que não tenha passado nem perto de um copo de vinho. Foi bullying não intencional. Depois, tornei-me um perigoso serial killer, mas acho que isso já pode ser fruto de minha imaginação...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de fevereiro de 2014)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O segredo da árvore

Os natais de minha infância, agora olhando em retrospecto, eram ecologicamente incorretos, uma vez que passava-se o machado em pinheiros de verdade para que fossem transportados até as salas das casas onde, imponentes e majestosos, plantavam-se perto da lareira à espera dos adornos que os transformariam em árvores de Natal. Muitas vezes o pinheiro foi retirado do pátio de casa mesmo, onde dois exemplares da espécie viviam o ano todo mais ou menos alheios à nossa indiferença. Outras vezes meu pai adquiria o pinheirinho na chácara de um cidadão que os comercializava nessa época do ano.
Questões ambientais à parte, o fato é que agora, quando chega dezembro, minha memória afetiva evoca do fundo do baú de minhas lembranças o perfume característico de árvore que invadia a casa toda quando o pinheiro era arrastado porta adentro, credenciando-se como membro da família ao longo dos dias que antecediam e sucediam a data natalina. Seu tronco era afixado em uma caixa de lata municiada de pregos internos, dentro da qual colocávamos tijolos para sustentar o equilíbrio da estrutura. Enchíamos de água o latão e minha mãe jogava lá dentro algumas pastilhas de aspirina, a fim de manter o vigor da árvore por mais tempo. Verdade ou mito, certeza mesmo é de que pinheiro lá em casa jamais sofreu de dor de cabeça.
Depois vinha a melhor parte: enfeitar a árvore com os arranjos e penduricalhos que a mãe mantinha o ano todo guardados sabe-se lá onde, em esconderijo bem distante de nossos olhos infantis. Assim, o encanto e a magia se renovavam a cada ano, com a família exercitando unida o ritual de engalanamento do pinheiro. E lá surgiam as bolas coloridas, as estrelas, os papais-noéis, as velas, cada enfeite ganhando seu lugar entre galhos e espinhos, mesclando-se ao verde silvestre da árvore. A seu pé, iam chegando as figuras do presépio, que eu tinha fissura em montar.

Voltando a olhar em retrospecto, creio que residia ali, naquele rito, a essência do significado do Natal: uma família enfeitando o pinheirinho para receber o Papai Noel e refletir sobre o significado verdadeiro da data cristã. Ecologicamente incorreto, bem, que fosse. Pode-se obter hoje o mesmo efeito psíquico com uma árvore sintética. O segredo da coisa continua morando no mesmo lugar: o interior de cada um. Bom Natal!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de dezembro de 2013)