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domingo, 28 de junho de 2015

Agora é tarde

Agora é tarde, mas eu deveria ter sido cientista. Que jornalista o que, que cronista o que! Cientista, isso sim, que eu deveria ter sido. Ganha-se mais como cientista em relação ao jornalismo e ao cronismo mundano como esse que pratico, sem sombra de dúvidas, mas a questão não é essa. A questão é que só agora tenho me dado por conta de quão divertida deve ser a carreira de cientista, especialmente a dos cientistas que se dedicam a estudar fósseis e as formas de vida estranhas e esdrúxulas que habitavam esse nosso estranho e esdrúxulo planeta há dezenas de milhões de anos, centenas de milhões de anos, até.
Porque, vejam bem, olhem só essa maravilha de questão que li dia desses, percorrendo os sites noticiosos da internet em busca de assunto para crônicas, eu, que cronista sou e preciso, por dever de ofício, cronicar diariamente, diferentemente dos cientistas que, desobrigados dessa operosa tarefa, apenas se debruçam sobre o esqueletinho de um bichinho que viveu há trocentos anos e se botam a tecer teorias sobre eles. Que delícia! Lá no Reino Unido, que é um habitat natural e criadouro de cientistas, anda rolando uma discussão interessantíssima a respeito do fóssil daquilo que descobriu-se tratar de uma minhoca de 500 milhões de anos.
Mas não é uma minhoca qualquer, e, sim, uma surpreendente minhoca dotada de sete pares de patas, longos espinhos cravados nas costas e uma fileira de dentes sorridentes na boca. Minhoca com dentes! Isso explica a extinção de algumas espécies de peixes nos rios pré-históricos, pois basta imaginar o que acontecia quando a minhoca enfiada no anzol por Urgh, o primeiro pescador, era mergulhada no rio atraindo a atenção de peixossauros... O peixossauro guloso aparecia e era imediatamente abocanhado pela minhoca dentuça. Incrível.

Mas a discussão entre os cientistas é mais profunda do que essa bobagem de cronista que escrevi ali. Eles não chegam a um consenso sobre se os espinhos são de fato espinhos ou patas, ou se as pretensas patas seriam apenas longos pelos nas costas. Bom, curioso como o jornalista que sou, fui à internet procurar a foto do tal fóssil. E é do alto de minha ciência jornalística e cronística que afirmo: que minhoca com dentes e patas o que! Aquilo não passa de um graveto. Só serve mesmo é para inspirar uma crônica mundana.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de junho de 2015)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Atração científica

Na década de 1970 do século passado, quando eu era criança, meu pai se botou a comprar uma coleção em fascículos lançada pela Editora Abril, intitulada “Os Cientistas”. O barato da coleção, que chegava semanalmente às bancas, era uma caixa de isopor dentro da qual vinham instrumentos, elementos químicos e instruções para reproduzir em casa os experimentos básicos que davam a tônica das descobertas de cada cientista apresentado.
Dessa forma, fui adentrando aos poucos no fascinante universo científico representado por bússolas, tubos de ensaio, microscópios, cadinhos, pinças, pilhas, fios, lâminas, nitratos, sais, essas coisas todas. O interessante é que o acesso a esse material me era franqueado por meu pai e eu me divertia tentando reproduzir os experimentos à tarde, em casa, dentro das quatro paredes de meu quarto. Olhando em retrospecto, só hoje percebo o quão perto esteve o mundo de ver surgir ali, nos recônditos da Rua dos Viajantes, um futuro perigoso cientista louco, mas o Destino quis me conduzir por veredas diferentes, graças aos deuses todos.
Entre tantos elementos que se acumulavam ali naquela coleção de 50 caixinhas de isopor, um dos que mais me chamavam a atenção era um par de pequeninas barras de ferro imantadas nos polos. Eram dois ímãs que se repeliam quando aproximados em seus polos iguais e se atraíam quando aproximados em seus polos opostos. Eu ficava fascinado com o poder mágico de atração daquelas pequenas barras e saía pela casa arrastando clipes, pequenas colheres e outros objetos metálicos que pudessem ser atraídos pela força dos ímãs.

Com o passar dos anos, afastei-me do mundo científico e mergulhei nas ciências humanas do jornalismo e da literatura. O que ficou daquela época e daquelas experiências foi a convicção de que, a exemplo dos pequenos bastões de ferro imantados, nós, seres humanos, somos também poderosos ímãs, capazes de atrair para nossas vidas exatamente aquilo que, no íntimo, mais profundamente desejamos. Nem sempre esses desejos são conscientes. Por isso, é preciso prestar atenção e saber detectar o que estamos atraindo, e o por quê. A resposta para esses casos se esconde no laboratório da alma.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de janeiro de 2015)