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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Generosidade borbulhante

Quer saber como fazer? Eu vou dizer. Não devia, mas vou dizer. A generosidade e o desprendimento me capturam nessas épocas de final de ano e começo de outro ciclo, e que não fiquem sabendo disso os que pensam em me pedir empréstimos e favores! Mas sou assim, fico mole nesse período que vai de 20 de dezembro a dois de janeiro. Aproveitem!
Mas do que, afinal de contas, desejo falar? Calma, minha senhora, já vai. Não despreze o valor de uma boa introdução. Desdenha introduções há anos? Questão sua, minha senhora, questão sua. Acho-as importantes, e há quem me apoie nesse quesito, posso lhe assegurar. Em frente, portanto, que o ano se acaba e há outro ali adiante, já ansiado para querer entrar. Mas tudo a seu tempo.
O que quero é discorrer sobre espumantes. Sim, isso, espumantes. Champanhe, como se costumava dizer nos tempos passados, nem tão passados assim. Por que diabos? Ora, minha senhora, puxe os óculos para a ponta do nariz e meta a cara no calendário, sem pudores. É final de ano, estamos prestes a celebrar um novo ano, e a data rima com espumante, e não é de hoje. Antes, rimava com champanhe, porque não havia quem lhe acompanhe. Agora é espumante, a bebida borbulhante. Rimaram, sim? Rimas ruins? Bom, culpa sua, senhora, que me alfineta e me induz a tecer crônicas pisando em ovos.
O que eu queria era conversar ao pé do ouvido com o amigo leitor, e não necessariamente com a senhora, dessa vez. Dizer a ele que, nessa época de festas, ele pode aproveitar para fazer o charme e a moral com os amigos e principalmente com as amigas, revelando-se um exímio servidor de espumantes. Porque o charme do espumante reside, muitos por cento, na arte de saber servir. Na técnica correta de abrir a garrafa sem desperdiçar o precioso gás e de saber verter o valoroso líquido na taça, fazendo-o resplender em borbulhas a noite inteira. Bebida dos deuses, sim, mas somente se for servida por um emissário dos deuses: você. E aí, meu amigo, está feita a festa!

Mas não vai dar, desculpe. A senhorinha ali insiste em me olhar torto e chocou meu entusiasmo, arrefeceu minha generosidade. Fica para o ano que vem. Saúde!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de dezembro de 2014)

domingo, 14 de dezembro de 2014

É chegado o chester

O período de final de ano ainda guarda alguns simbolismos mágicos para mim, mesmo não sendo mais criança e não tendo mais uma relação assim tão próxima com o Papai Noel. O leitor, essa criatura sempre otimista e esperançosa, imagina que, ao ler os termos que usei para abrir este texto, vou discorrer sobre os bons sentimentos do Natal e a renovação de projetos que nos assaltam as consciências na virada do ano. Só que não, desculpem, aviso desde já: vou tratar é de comida mesmo.
A magia de final de ano que me invade, leitora amiga, amigo leitor, se assenta sobre o reencontro de minhas papilas gustativas com sabores só apreciados nesta época em que o calendário exibe sua derradeira folhinha. Em especial, peru, tender, chester e bruster. Eu não sei vocês, mas eu, é só nas ceias de Natal e de Ano-Novo que devoro perus, chesters, tenders e brusters. Ah, aquela esfera de tender avermelhada toda espetada com palitinhos de cravo-da-índia como se fosse um joelho submetido a uma sessão de acupuntura, coberta com um molho preparado à base de mel e mostarda, hummm. E os brusters e chesters que se assentam garbosos no centro da mesa coberta com a mais fina toalha branca reservada para essa noite especial, exalando aquele aroma de frango chique recém saído do forno, recheado com alguma surpresa que só nossas mães, avós, sogras, tias, esposas, irmãs e cunhadas (tá, primas também) sabem fazer. Ahmmm.
Houve épocas (bem pouco tempo atrás, por sinal) em que também os espumantes (quando todos eles ainda eram denominados indiscriminadamente como “champanhes”) só molhavam nossos lábios no final de ano, mas isso, felizmente, evoluiu e hoje aprendemos a saborear esse borbulhante e refinado néctar das ninfas em todos os meses do ano, sob qualquer pretexto, o que é um avanço. Mas não me vejo abocanhando as coxas robustas de um bruster ou o peito generoso de um chester em maio, ao meio-dia de uma terça-feira qualquer. Há encantos que devem ser preservados para essas ocasiões especiais. Que o diga o peru que desde ontem ocupa toda a área física do meu freezer (por ainda poucos dias, bem o sabemos...).

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de dezembro de 2014)