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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Bom dia, boa tarde, boa noite

Ah, estudar, estudar, ampliar as fronteiras do seu próprio universo a partir da apreensão do conhecimento. Que delícia, que prazer, que aventura, que sucessão de emoções! Meu avô já me dizia, na minha infância: “estuda, Maco – pois que ele me chamava e chama até hoje de “Maco” –, estuda e aprende, já que essa é a única coisa que parece que tu sabes fazer direito”. E lá ia eu arrolhar as fuças nos livros e lia aventuras de Sherlock Holmes e traquinagens da boneca Emília pelo Sítio do Picapau Amarelo, sem me dar por conta de que lendo o que gostava estava de fato estudando e aprendendo da melhor forma possível.
O que meu avô não disse pro Maco aqui (hoje já um verdadeiro “Maco véio”, como agora me chama meu afilhado) era que, nessa coisa de ler e estudar, reside um fenômeno surreal e inexplicável, que consiste em uma sensação de que quanto mais se lê e se estuda, menos se sabe das coisas e mais é preciso ler e ler e estudar e estudar, em um ato vicioso contínuo e interminável ao longo de toda a existência de um Maco leitor. E ainda bem que não disse, pois isso é coisa que se descobre sozinho, da mesma forma como a maioria dos prazeres da vida. Mas tergiverso antes de entrar na essência da crônica de hoje, pra variar.

Eu já revelei aqui, a leitora atenta haverá de lembrar, que nada sei da língua francesa além de “bonjour”. Mas esse pouco-quase-nada que sei, estudioso que sou, me permite abrir um vasto universo de reflexões. Sim, porque, conforme andei aprendendo, os franceses utilizam apenas dois tipos de cumprimentos ao longo do dia: esse “bonjour” aí, que é usado tanto pela manhã quanto à tarde, ou seja, sempre que houver sol no céu, mesmo que nublado esteja; e “bon soire”, usado à noite (“boa noite”). Simples assim. Bem mais fácil que nosso português, que precisa do “bom dia” de manhã, do “boa tarde” à tarde e do “boa noite” à noite. E mais fácil ainda que o inglês, que usa “good morning” de manhã (”boa manhã”), “good afternoon” à tarde (“bom pós-meio-dia”?!), “good evening” à noite quando está chegando e “good night” à noite quando está partindo. Eita!
Interessante que nenhum povo parece se cumprimentar de madrugada, quando todos os gatos são pardos (até mesmo na França). Mas lerei a respeito e voltarei ao assunto, aguardem notícias do Maco véio. Good by.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de junho de 2015)

terça-feira, 9 de junho de 2015

Mordida na lua crescente

Nunca é muito tarde para aprender e nunca se é velho demais para absorver uma nova informação que possa vir a colorir um pouco mais a vida, trazer um pingo novo de poesia aos pequenos atos do cotidiano. E por mais obtuso que se possa ser, sempre haverá a possibilidade de, em um súbito lampejo, as pesadas comportas de aço da inteligência se abrirem em seu cérebro para deixar esgueirar-se uma réstia de luz que lhe iluminará uma compreensão reveladora. Uso a mim mesmo como exemplo para comprovar todas essas teses, uma vez que já sou bem vivido em anos e cultivo lá as minhas diversas obtusices (existe “obtusices”, no sentido de conjunto de ideias obtusas, será?).
Vamos ao exemplo. Um exemplo prosaico, sutil, decorrente dessas tais pequenas insignificâncias do cotidiano que tão bem servem às demandas de um cronista diário, como não poderia deixar de ser, já que usarei a mim próprio de exemplo, conforme acertado com o leitor em linhas anteriores (eu queria me pavonear um pouco e escrever “em supracitadas linhas”, mas como não sei se, na paginação do texto na folha impressa do jornal, as tais linhas ficarão realmente acima destas ou na colunagem ao lado, evitei de fazê-lo e tasquei mesmo um singelo “linhas anteriores”, bem menos poético mas mais verossímil). Mas voltando a mim mesmo e deixando de lado as intercalações, quero tratar de croissants. No próximo parágrafo, a revelação, pois que este já se estende em demasia de linhas.
Eu, que não sei nada de francês além de “merci”, mesmo assim adoro saborear um delicioso croissant, e devoro-os de vez em quando sem saber exatamente o que estou comendo. “Ora, você está comendo um croissant”, me dirá a atilada leitora. Sim, é verdade, mas ontem descobri que o recheio é mais embaixo, e bem mais poético do que meramente isso. Descobri, depois de velho e sempre obtuso, que a palavra “croissant” significa “crescente” em francês, tendo assim batizado o acepipe devido a seu formatinho de lua crescente (a pista residia na vizinhança latino-americana, onde o mesmo acepipe se chama “media luna”, asno desatento que sou). Agora, folheado que estou de conhecimento, nunca mais saborearei um croissant da mesma forma que antes. Agora, faço-o com muito mais poesia a cada mordida, pleno daquela poesia sutil que emana da lua. O conhecimento, mesmo que tardio, sempre é transformador.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de junho de 2015)