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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Buraco no paralelepípedo

Ah, que pena! Choveu tanto, mas tanto ultimamente, que os buracos não só invadiram e se acharam no direito de tomar posse das ruas, avenidas e perimetrais asfaltadas de toda a cidade, como também tiveram tempo para contaminar o calçamento de paralelepípedos que atapeta a rua defronte ao prédio em que moro. Daqui de cima, pela janela do escritório caseiro (“home-office”, como sugere meu contador que eu denomine a peça, para conferir-lhe mais elegância), detecto uma das pedras levantada pela força das águas, abrindo assim espaço para o acomodamento de um indesejável buraco bem no meio da rua. Que droga!
A rua de paralelepípedos relativamente recém colocados, há pouco mais de um ano, ainda conservava a pureza da simetria de suas linhas, os paralelepípedos paralelamente emparelhados lado a lado, linha por linha, subindo em formação certeira desde a esquina de baixo da rua até os cem metros acima, como um exército de soldadinhos de basalto marchando em formação rumo à meta, na verdade um destino inalcançável decorrente de um exército imóvel cuja função é justamente proporcionar o bom curso da mobilidade dos outros sobre o escudo seguro advindo do laço firme entre cada pedrinha. Porém, no meio do caminho surgiu um buraco, uma imperfeição a destoar da uniformidade visual obtida pela simetria só possível de ser atingida a partir da formação dos paralelepípedos simetricamente acotovelados entre si.
O buraco é a nota desafinada na sinfonia dos paralelepípedos; é a célula danosa a comprometer a saúde do tecido paralelepipedal; é o ácaro a contaminar o tapete basáltico dos paralelepípedos; é a laranja podre no meio do cesto de paralelepípedos maduros e frescos; é o erro tipográfico que mancha a página até então imaculada da poesia paralelepípeda, na qual cada pedrinha faz as vezes de uma letra e cinco ou seis delas compõem um verso. Eu achava, até então, que era impossível extrair poesia de pedras de basalto e que paralelepípedos só haviam auxiliado a compor beleza estética uma única vez na vida, e em inglês, quando “cobblestones” foi usada por Paul Simon em um dos versos de sua genial canção “Sound of silence”.

Que nada! O ataque do buraco abriu meus olhos para a poesia dos paralelepípedos que atapetam parte da visão diária que tenho de minha janela. Paralelepípedos e buracos... De fato, a poesia mora nos olhos de quem a quer ver...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de julho de 2015)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Distância das ostras

Eu cultivo uma implicância não é de hoje e que vai me acompanhar por minha vida toda. Tendo já vivido quase meio século, constitui-se em uma prova de lógica eu afirmar que, sim, essa implicância, se já me é antiga, haverá de naturalmente seguir comigo o restante de meus passos por essa existência. É lógico, e assim haverá de ser.
Eu implico com as ostras. Tirando o fato de que elas produzem pérolas, o que, por si só, poderia endossar o cultivo de uma admiração sem par por esses moluscos marinhos, eu, mesmo assim, implico com elas. Mas para sustentar minha implicância, antes preciso deixar de lado o aspecto da gastronomia, área na qual também reconheço que as ostras desempenham um papel relevante em termos de sabor e nutrientes valiosos. Sim, concordo e assino embaixo. Mas sigo implicando com as ostras apesar das pérolas e dos sabores. E sabem por quê?
Porque as ostras não leem nada. Nunca. Não se informam, não folheiam um jornal, não passam os olhos por uma revista de informação, nunca leram um livro sequer, nem mesmo um Paulo Coelho, um Stephen King. Nada. Nunca. Pô, não dá para conversar com uma ostra. Não sai nada que se possa aproveitar dela (tirante, como já disse, pérolas e sabores). Faça você mesmo a experiência: convide uma ostra para jantar em sua casa. Ela irá, se não desconfiar de que na verdade o convite é para que ela seja jantada, claro. Mas faça isso, convide.
Receba a ostra em sua casa, conduza-a ao sofá da sala e tente entabular uma conversação minimamente interessante com ela. Não vai funcionar, não dá, dali não sai nada. E como poderia, sem ela nunca ter lido um livrinho sequer, sem jamais se informar sobre o mundo que existe além dos recifes nos quais fica a vida inteira agarrada nas profundezas dos mares distantes? Sem condições. As ostras são piores do que os lepidópteros e os platelmintos e só perdem em grau de enfadonhismo (característica de seres enfadonhos) para os paralelepípedos.

Eu já decidi: fora as joalherias e os restaurantes finos, onde a presença das ostras e dos produtos delas oriundos é sempre bem-vinda, quero-as longe do sofá da minha sala. Ali, elas são insossas. Implicância, eu sei, mas cada um com suas manias. 
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de fevereiro de 2015)