Mostrando postagens com marcador leitura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador leitura. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Prefiro não fazer

Desde que o mundo começou a civilizar-se, é sabido que o cultivo de hábitos culturais é a mola propulsora básica e fundamental para o desenvolvimento de um povo. Uma nação civilizada, que seja propositiva no cenário internacional, que tenha condições de gerenciar-se positivamente, de encontrar saídas criativas e sólidas para a solução de seus problemas, só se constrói de verdade a partir da formação em seu seio de cidadãos plenos. E cidadãos plenos só existem se possuem relação com a educação e com a cultura. Se não, não. Ponto.
Nós, brasileiros, estamos caminhando alegres e céleres em marcha-a-ré na pista da relação entre povo e cultura. Enquanto os povos sérios, desenvolvidos, correm para a frente, nós damos as costas para a linha de chegada e arrancamos com entusiasmo para trás, cada vez mais distantes de qualquer meta minimamente razoável, e o fazemos com a prepotência típica do adolescente inconsequente e dono da verdade, que é o que somos enquanto nação, rumo à catástrofe. Entre civilização e barbárie, optamos claramente pela barbárie, encalhados nos sofás de nossas salas assistindo à televisão, enquanto o tempo passa e a História vai sendo construída do lado de lá de nossas fronteiras.
Exagero do cronista? Vamos, então, aos fatos. A Fecomércio do Rio de Janeiro divulgou, poucos dias atrás, o resultado de uma pesquisa que fez em todo o território nacional, analisando a relação dos brasileiros com os hábitos culturais, e os números apresentados são estarrecedores (apesar de nada surpreendentes, infelizmente). A pesquisa enfoca o que os brasileiros fizeram (ou não fizeram) em termos de ações culturais no ano de 2014. Para começar, 70% dos entrevistados não botaram a mão em sequer um livro para ler. Só isso bastaria, mas tem mais: 89% não assistiram a uma peça de teatro; 73,7% não foram ao cinema; 80,6% não foram a show; 92,5% não visitaram exposições de arte; 91,2% não foram a espetáculos de dança. Ufa! É o quadro do horror.

E por que isso? Por uma simples resposta, também detectada pela pesquisa: falta de hábito ou de gosto. Ou seja: desinteresse puro e simples. E quem é a vedete das horas de lazer dos brasileiros? Fácil: a televisão (programas de auditório, futebol e BBB) e a internet. Ordem e progresso, né? Só na bandeira mesmo...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de abril de 2015)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sócio de livros

Foi no início de 1979 - eu tinha 12 anos de idade - quando meus pais, leitores contumazes, se associaram ao Círculo do Livro. Tratava-se de um clube de leitura sediado em São Paulo, ligado a uma editora, que produzia edições luxuosas (com capa dura, mancha gráfica requintada, ótimas traduções e arte de primeira) de obras nacionais e internacionais, disponibilizadas à aquisição dos sócios pelo sistema de reembolso-postal. Naquela época, havia poucas livrarias (especialmente nas pequenas cidades) e nem se sonhava com encomendas via internet, muito menos com a internet em si.
A cada três meses, os sócios recebiam em casa a “Revista do Círculo”, contendo centenas de reproduções das capas e resenhas sobre as obras e os autores disponíveis para a compra no trimestre. Era uma festa. A revista passava de mão em mão lá em casa, cada um assinalando os títulos que lhe despertavam a cobiça, para que integrassem a lista de encomendas. Eu e minha irmã tínhamos direito a pedir um ou dois livros cada um, por trimestre. Que alegria.
O primeiro que solicitei foi “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain (1835 – 1910), e lembro até hoje, passados quase 40 anos, do momento em que abri o pacote e toquei a linda capa dura de meu exemplar, ilustrado com um elegante desenho a ponta de lápis do artista espanhol Juan Ballesta. À noite, na cama, antes de dormir, saboreei o momento mágico de abrir o livro e dar início ao mergulho naquele mundo diferente do meu, protagonizado pelo personagem criança imortalizado pelo escritor norte-americano. “Tom! – Ninguém responde. – Tom! – Nada. – Gostaria de saber onde anda esse menino. Tom! – Silêncio absoluto”. Assim tinha início a saga de aventuras e travessuras que eu palmilharia noite após noite, página por página, a partir de meu quarto, já transmudado para sempre em um apaixonado leitor.

Elejo este livro para me ombrear na homenagem que faço ao dia de hoje, 2 de abril, consagrado como o Dia Internacional da Literatura Infantojuvenil. Meus parabéns a todos os autores que se dedicam a produzir obras cuja função principal, ao encantar, é justamente formar novos leitores. Caxias do Sul tem o privilégio de abrigar vários autores assim e, a eles todos, meus parabéns e meu desejo de que prossigam nessa boa batalha.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de abril de 2015)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Distância das ostras

Eu cultivo uma implicância não é de hoje e que vai me acompanhar por minha vida toda. Tendo já vivido quase meio século, constitui-se em uma prova de lógica eu afirmar que, sim, essa implicância, se já me é antiga, haverá de naturalmente seguir comigo o restante de meus passos por essa existência. É lógico, e assim haverá de ser.
Eu implico com as ostras. Tirando o fato de que elas produzem pérolas, o que, por si só, poderia endossar o cultivo de uma admiração sem par por esses moluscos marinhos, eu, mesmo assim, implico com elas. Mas para sustentar minha implicância, antes preciso deixar de lado o aspecto da gastronomia, área na qual também reconheço que as ostras desempenham um papel relevante em termos de sabor e nutrientes valiosos. Sim, concordo e assino embaixo. Mas sigo implicando com as ostras apesar das pérolas e dos sabores. E sabem por quê?
Porque as ostras não leem nada. Nunca. Não se informam, não folheiam um jornal, não passam os olhos por uma revista de informação, nunca leram um livro sequer, nem mesmo um Paulo Coelho, um Stephen King. Nada. Nunca. Pô, não dá para conversar com uma ostra. Não sai nada que se possa aproveitar dela (tirante, como já disse, pérolas e sabores). Faça você mesmo a experiência: convide uma ostra para jantar em sua casa. Ela irá, se não desconfiar de que na verdade o convite é para que ela seja jantada, claro. Mas faça isso, convide.
Receba a ostra em sua casa, conduza-a ao sofá da sala e tente entabular uma conversação minimamente interessante com ela. Não vai funcionar, não dá, dali não sai nada. E como poderia, sem ela nunca ter lido um livrinho sequer, sem jamais se informar sobre o mundo que existe além dos recifes nos quais fica a vida inteira agarrada nas profundezas dos mares distantes? Sem condições. As ostras são piores do que os lepidópteros e os platelmintos e só perdem em grau de enfadonhismo (característica de seres enfadonhos) para os paralelepípedos.

Eu já decidi: fora as joalherias e os restaurantes finos, onde a presença das ostras e dos produtos delas oriundos é sempre bem-vinda, quero-as longe do sofá da minha sala. Ali, elas são insossas. Implicância, eu sei, mas cada um com suas manias. 
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de fevereiro de 2015)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Ataque à civilização

O fato mais aterrorizante que sacudiu a Europa na semana passada foi a chacina de 12 pessoas cometida em um jornal humorístico francês, por uma dupla de terroristas fanáticos. No Brasil, a notícia mais aterrorizante deste mês de janeiro foi veiculada no início da semana, dando conta de que 529 mil alunos brasileiros que prestaram o exame do Enem no final de 2014 tiraram nota zero na prova de redação. A meu ver, esta notícia é tão chocante quanto aquela.
Os dois fatos, apesar de aparentemente distantes entre si e sem correlações visíveis, se prestam ao tecer de uma linha de análise que os une em determinado ponto. Essa linha é a dos efeitos da barbárie, entendendo-se aqui o termo “barbárie” como indicador de grau zero no nível de civilização humana. Invadir uma redação de jornal armado e fuzilar cartunistas porque discorda das mensagens passadas por eles a partir de seu trabalho representa o grau mais primitivo das relações humanas, irracional, incivilizado e inadmissível. É a expressão da bestialidade em estado puro, a supremacia da desrazão sobre a razão.
A mesma supremacia da desrazão sobre a razão se dá no seio de um povo que consegue, em um só ano, trazer à tona meio milhão de jovens que demonstram não conseguir administrar com eficiência mínima um dos mais significativos instrumentos civilizatórios: a escrita. Meio milhão de estudantes que estão em fase de pleitear vaga na universidade para seguir carreiras profissionais não conseguem compreender a leitura de um enunciado e, por trágica consequência, são inaptos para organizar seus pensamentos de forma coerente por meio da expressão escrita. Trata-se de um quadro tão incivilizado quanto o outro.

Mas isso há de mudar. O índice nos envergonha e, em sendo o Brasil como é, antevejo logo as medidas cabíveis que serão tomadas em curto prazo. A exemplo do índice de reprovação escolar, que era alto no país, agora solucionado com as ordens de que não se deve reprovar mais ninguém, também as redações zero no Enem se extinguirão assim que admitir-se o uso da linguagem “internetês” como expressão da escrita aceitável: “Ae meu, negó segui, td ok para hj, kkkkkk”. E vamos em frente, assassinando a civilização.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de janeiro de 2015)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Ai, que prazer

Costumamos saber muito bem quais são os elementos que nos dão prazer. Quais os produtos que nos embevecem, quais as ações que nos encantam, quais as pessoas que nos fascinam, enfim. Quanto mais convivemos com nós mesmos – situação a que somos individualmente submetidos desde nosso nascimento, sem choro nem vela -, melhor vamos desvendando as fontes de nossos maiores prazeres.
Para uns, as salas de cinema; para outros, as mesas dos restaurantes; para algoutros, as distantes paragens que se põem a visitar; para muitas delas, as compras, que lhes enfeitam os pezinhos; para muitos deles, o futebolzinho de final de semana, que lhes destrói os garrões; para os ricos, uma BMW novinha e reluzente; para os pobres, o sonho com uma BMW reluzente e novinha; para os remediados, que seja aquela fosca Brasília Muito Velha, mesmo que a piada seja batida; para o avô, o churrasquinho que reúne a familiagem no final de semana; para o adolescente, um final de semana acampando com os amigos, libertando-se dos almoços em família. Enfim, cada pé conhece o sapato que lhe massageia os calos (e essa inventei agora, eu que aprecio criar frases de efeito com gosto duvidoso).
Mas falando em mim mesmo, aproveito para revelar que já faz décadas que sou assolado por uma dúvida excruciante (tacar-lhe assim de supetão no leitor uma palavra incomum é outro de meus prazeres passíveis de repreensão). Eu, que sou chegado nessa coisa estapafúrdia de gostar de ler livros, não tenho jeito de descobrir qual desses atos me causa maior prazer: iniciar a leitura de um livro, concluir a leitura de um livro ou comprar um livro. Todas essas três ações me causam cascatas de prazer. Cascatas, não: cataratas (que imagino maiores do que as cascatas, haja vista a relação entre a do Caracol – cascata – e as do Niágara – cataratas, sem falar que aquela se usa no singular e, esta, no plural).

Como não consigo colocar em ordem de intensidade esses três prazeres, sigo a vida ininterruptamente concretizando, de forma alternada, todas essas ações: compro, começo a ler e termino de ler. Ai, que prazeres! “Cada louco...”, já dizia meu amigo Argentino, de canto de olho.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de dezembro de 2014)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Literalmente suspeito

“O fato de eu ser paranoico não significa que não possa haver alguém me perseguindo mesmo”, já dizia Argentino, um amigo meu que é muito paranoico. Admito que há certa lógica em seu raciocínio, apesar de distanciado da realidade. Ninguém nunca perseguiu Argentino, exceto os policiais que o detiveram dia desses no Parque dos Macaquinhos, a tempo de impedir que ele trouxesse para Caxias a onda dos peladões que invadiu nossa Capital pouco tempo atrás.
Tudo já devidamente amansado, fico aqui a refletir sobre os pontos de convergência que me permitem compreender essa sensação de crer estar sendo objeto dos olhares reprovadores e estranhados de todos ao redor, a ponto de sentir desconforto e surgir aquela percepção de que somos peixe fora da água. Sempre sinto isso quando circulo em público com um livro na mão. Viciado que sou nessa coisa estranha de ler livros, carrego-os comigo sempre que saio de casa e rumo a algum compromisso. Com exceção das aulas de natação, nas quais todos os meus membros ficam ocupados. Como, senhora? Não sabia que eu fazia natação? Não, senhora, não faço, justamente por esse impeditivo livresco. Sim, concordo, deveria, a senhora tem razão. Pensarei a respeito. Por ora, sigamos a crônica.
Como eu estava raciocinando, não preciso sair pelado pela aí para que fiquem me olhando de forma estranha, desconfiando de minha pessoa, de meus atos, de minha índole, de minha sanidade mental e de minhas intenções. Basta que eu circule com um livro e, pior, me bote a lê-lo em locais públicos. Na sala de espera da dentista, os colegas de espera me observam imaginando que errei de porta: “o psiquiatra fica ali ao lado, amigo”, é o que ouço de seus pensamentos. No shopping, enquanto a esposa perambula dilapidando minha fortuna, sento-me nos bancos e tenho a atenção desviada das páginas do livro para a presença dos vigilantes que se põem a me rondar, vigiando as ações desse estranhíssimo eu ali, com um livro, atitude das mais suspeitas.

O que argumentar no dia em que me abordarem? Que estou lendo? Melhor preparar desde já uma desculpa mais plausível, para evitar consequências constrangedoras...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de dezembro de 2014)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Ao livro, em seu dia

Agora, sim, as centenas de exemplares de livros que habitam as prateleiras de minha casa estão em festa desde manhã cedinho. Hoje, 29 de outubro, é o Dia Nacional do Livro, a data tendo sido escolhida para homenagear a fundação da Biblioteca Nacional, ocorrida em 1810.
O Brasil passou a contar com uma Biblioteca Nacional por iniciativa do rei D. João VI, que instalara a Corte Portuguesa em solo brasileiro em 1808, fugindo da perseguição de Napoleão Bonaparte, o francês que derrubava monarquias pela Europa. Depois de dois anos por aqui, D. João sentiu saudades de seus livros e mandou vir de Portugal a Real Biblioteca Portuguesa, que chegou de navio em 29 de outubro de 1810 e com cujo acervo fundou-se, então, a Biblioteca Nacional. D. João VI, aliás, que gostava de ler, foi também responsável pela criação no Brasil da Imprensa Régia, logo em sua chegada, em 1808, quando então o Brasil finalmente começou a publicar livros. Nos primeiros três séculos desde o descobrimento, livro só aparecia por aqui se fosse importado, vindo de navio, mareado e salgado.
O primeiro livro publicado no Brasil pela Imprensa Régia foi o longo poema intitulado “Marília de Dirceu”, de autoria do escritor lusitano Tomás Antônio Gonzaga (1744 – 1810). Nele, o autor canta sua paixão pela jovem camponesa brasileira Marília, de quem fora noivo, e, desde então, o livro consta na lista dos mais reeditados de todos os tempos no Brasil. Por sinal, é em homenagem à obra e à sua musa inspiradora que a famosa cidade paulista recebeu o seu nome.

Assim que, dessa forma, temos o dia de hoje como data especial para rendermos homenagens aos livros, aqui no Brasil, esse país enorme que sabe realizar eleições democráticas, que gosta de futebol, que é bonito por natureza, que beleza, mas que ainda tem pela frente todo um universo da leitura e da literatura a desbravar. Que a data de hoje possa ajudar a aproximar um milímetro a mais os livros do cotidiano dos brasileiros, para assim ir diminuindo a goleada que andamos levando em termos de educação frente ao restante do mundo, desde sempre.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de outubro de 2014)

sábado, 25 de outubro de 2014

Vida nova

Ontem desisti de uma leitura. Pela primeira vez em minha longa vida de leitor (quatro décadas lendo), abandonei o projeto de ler determinado livro após ter dado início ao fruir de suas páginas. Tomei a decisão de fechar o volume e devolvê-lo à prateleira ao chegar, penosamente, à página 50 e detectar ter pela frente ainda outras 400 a serem enfrentadas no mesmo ritmo, no mesmo tom, com as mesmas dificuldades, com o mesmo sofrimento e desprazer.
“Vamos parar por aqui”, disse eu ao livro, e paramos. Recoloquei-o na estante do corredor e retornei à sala me sentindo leve, levíssimo. Sentei-me na poltrona em que costumo me sentar à noite quando me ponho a ler livros e fiquei tentando identificar que espécie de sensação se apossava de mim após ter tomado essa decisão histórica em relação a meus hábitos de leitura, eu, que jamais abandonara a leitura de um livro. “Livro começado é livro terminado”, sempre fora meu lema, até ontem.
Temi ser invadido por uma profunda e inevitável sensação de frustração e de derrota. Mas não foi o que aconteceu. Senti-me liberto não apenas da obrigatoriedade autoimposta frente a uma leitura penosa, mas também em relação à necessidade de manter atitudes pessoais que julgava serem determinantes da persona que eu havia criado em mim. Descobri que eu não preciso mais provar para mim mesmo que sou um leitor, característica pessoal de que tanto me ufano. Ao menos, não preciso mais provar dessa forma, me obrigando a dar sequência a uma leitura que não me agrada. Dessa forma, rompi grilhões, quebrei correntes, entreabri uma porta que sempre estivera trancada, deixei entrar uma luz nova e promissora em meu caminho.

Em outras palavras, com esse simples gesto de fechar o livro e abandonar sua leitura, desatei um paradigma pessoal e permiti em mim uma renovação de postura. Não houve desamparo, mas, sim, paz e segurança para seguir em frente com uma postura nova e libertadora. Tudo isso a partir de um pequeno e prosaico gesto efetuado sem testemunhas, no interior de meu aquário. A renovação interna às vezes se revela a partir de pequeníssimas grandes coisas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de outubro de 2014)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Leitura adolescente

A matéria de capa do caderno “Comportamento” , do Pioneiro de segunda-feira, trazia um dado interessante relativo ao movimento registrado nas barraquinhas da Feira do Livro, cuja 30ª edição segue na Praça Dante Alighieri até domingo, dia 18. A equipe do caderno circulou entre os livreiros inquirindo a respeito dos títulos mais procurados pelos leitores até o momento, e o resultado proporciona, no mínimo, algumas reflexões curiosas.
Dos três livros mais vendidos na maioria dos estandes, eu não conhecia nenhum. Os títulos das obras não me diziam nada e seus autores não me evocavam referências. Isso, em si, não quer dizer nada. Do alto de minha soberba, poderia eu pensar que tratam-se de obras insignificantes, já que eu, leitor calejado, não as conhecia. Mas descendo do pedestal, poderia ser que eu não as conhecesse por simplesmente ser impossível hoje em dia saber de tudo e conhecer tudo. Dito e feito, era isso.
Que fiz? Fui para a internet. E foi assim que descobri que os livros “Se Eu Ficar” (de Gayle Forman), “A Culpa é das Estrelas” (de John Green) e “O Sangue do Olimpo” (de Rick Riordan) são os grandes hits literários que fazem sucesso hoje entre o público adolescente. Ou seja, os três livros mais vendidos da Feira estão sendo adquiridos pelos adolescentes, quebrando o mito de que criança lê, adulto lê, mas adolescente não lê. Adolescente lê, sim senhores. Lê, vai à Feira e compra livro. Que boa notícia que nos trouxe segunda passada o Pioneiro, em sua matéria de capa do caderno de cultura e variedades!

Não se trata aqui de fazer juízo de valor a respeito da qualidade literária existente ou não (não sei, não li, podem ser obras excelentes) nessas obras. O que é significativo é que a gurizada, por meio delas, está enraizando dentro deles mesmos o hábito da leitura, que significa domesticar o próprio ser para dar a si mesmo esses momentos de introspecção, de silêncio, de ensimesmamento que o ato da leitura requer. E é só assim que se forma o cidadão que reflete, que absorve arte e cultura e a traduz na forma de cidadania. Que boa notícia!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de outubro de 2014)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O autor analfabeto

Às vezes me questionam, em entrevistas, sobre desde quando eu escrevo. Minha resposta à pergunta sempre é cambiante, uma vez que faz décadas que prefiro ser uma “metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Mas ultimamente, já que a pergunta induz a pensar em retrospecto, venho respondendo que escrevo desde antes de ser alfabetizado. Ah, pois!
Sim, explico. Isso é verdade porque, muito antes de ingressar na escola e começar a aprender que bê com a faz ba e bê com e faz be, eu já elaborava historinhas em quadrinhos criadas em minha própria imaginação e as desenhava em cadernões repletos de folhas em branco, que minha mãe comprava para mim na Livraria Cultural, em Ijuí. Depois, quando ela chegava em casa do serviço à noitinha, eu ia lá atazanar e pedir para que inserisse os diálogos que havia criado para os personagens, já que eu ainda era um analfabeto. Ou seja: tecnicamente, quem exercitava o ato mecânico de colocar o texto nas páginas era minha mãe, mas quem os criava era eu. Eu, o autor. Eu, o escritor analfabeto, que escrevo desde antes de aprender a juntar letrinhas.
Por tabela, volta e meia surge também a questão sobre desde quando sou leitor, e a resposta é a mesma: desde antes de aprender a ler. Sim, porque minha mãe (de novo ela) lia livros do Monteiro Lobato para mim, na cama, antes de eu dormir à noite, e não tinha jeito de eu pregar o olho porque, antes de dormir, ficava era ligadão querendo saber o resto da história. Ao invés de adormecer, despertou em mim o leitor.

E Feira do Livro, desde quando participo? Também, desde sempre. Lá em Ijuí, meus pais me levavam toda a sexta-feira de tardinha até a Livraria Progresso e me deixavam pegar dois gibis à minha escolha. Desde os sete anos que eu faço minhas feiras de livros. Podem imaginar, então, como me sinto hoje, dia da abertura de mais uma edição da Feira do Livro de Caxias do Sul. Nos próximos 18 dias, a Praça Dante vai estar repleta de gente faceira por livro igual a mim. Vai lá dar uma olhada, é divertido, é lúdico, é criativo, é humano, é vida pura! Bem-vinda, 30ª edição!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de outubro de 2014)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A verdade é pouco

A realidade que nos cerca é pequena, é pouca, é insuficiente para saciar o desejo de vida que nós, humanos - seres conscientes, racionais, simbioses ambulantes moldadas em matéria e sensações -, possuímos. Viver nossas vidas cotidianas, aprisionadas e apequenadas dentro dos limites impostos pela realidade, nos é sufocante demais, e subvertemos essa imposição consumindo e criando arte.
É para isso que as artes existem: para ampliar as fronteiras de nossas existências, permitindo-nos pular as cercas dos limites da (pseudo) realidade que nos cerca. É só assim que conseguimos justificar a amplitude da maravilha de nossa existência humana, e é por isso que amamos cinema, teatro, literatura, música, dança, esculturas, quadros, fotografia, quadrinhos e assim por diante. As artes justificam a existência humana e é por causa delas que somos poupados da destruição total por parte dos deuses, que se reúnem em assembleia sazonalmente, com a intenção de dar um fim às diabruras aprontadas por nossa espécie, conforme nos revela Jorge Luis Borges em um de seus textos famosos. Os deuses decidem sempre por nos riscar da face da Terra, mas daí sempre há algum deles que evoca as maravilhas artísticas que somos capazes de gerar, e que tanto encantam os deuses, e acabamos sempre ganhando sobrevida. Os artistas são os redentores de nossa raça humana.
Zapeio pela tevê a cabo e pego um fragmento de entrevista que a repórter Ilze Scamparini fez em Roma com o diretor de cinema Ettore Scola. O cineasta acaba de lançar seu novo filme (após um recolhimento de dez anos), intitulado “Que Estranho Chamar-se Federico!”, em que faz uma homenagem biográfica a seu colega Federico Fellini, morto em 1993. Sobre o amigo, Scolla diz que “sim, ele era um grande mentiroso; mentiroso no sentido de inventor de histórias não reais, no sentido de criador de verdades fictícias; ele fazia isso porque a realidade não lhe bastava”.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa (Nobel de Literatura de 2010) escreveu um livro intitulado “A Verdade das Mentiras”, no qual se debruça a resenhar 36 grandes obras ficcionais universais que nos ajudam a entender melhor a vida. “A missão do romance é mentir de maneira persuasiva, fazer passar por verdades as mentiras”, escreve ele, mostrando que “a ficção é a arte de dizer a verdade, nem que para isso seja preciso mentir – mesmo que seja um pouco”. Sorte a de nossa espécie essa, a de nascerem entre nós esses moldadores de inverdades tão fundamentais à nossa existência.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de julho de 2014)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Aqui, em Caxias

De ler. Eu gosto é de ler em Caxias do Sul. Em resumo, foi isso o que postei no mural do pioneiro.com ontem pela manhã, ao participar da promoção que o jornal Pioneiro está fazendo, em homenagem aos 124 anos que a cidade comemora dia 20 de junho. O jornal está convidando os leitores a acessarem o link citado e postarem lá sugestões de coisas legais para fazer na cidade. A intenção é reunir 124 postagens (número igual ao do aniversário de Caxias) e publicá-las.
Pensei dezenas de coisas legais para se fazer por aqui, mas na hora “h” optei pela questão da leitura, simplesmente porque é a mais pura verdade. Meu interlocutor poderia dizer que isso não vale, pois quem gosta de ler vai ter prazer em ler onde quer que esteja. Sim, correto, é verdade. Mas tem uma coisa, amigo: ler em Caxias do Sul possui um sabor diferente, pelo fato de se estar lendo em uma cidade que vive um momento especial no quesito da valorização da leitura, do livro e da escrita.
Nossa cidade abriga um número cada vez maior de escritores que se arriscam a tirar das gavetas suas obras e levá-las ao público. No meio dessa fartura, vão surgindo os bons autores, que vão se estabelecendo com a produção de boas obras. Caxias sedia editoras e gráficas que proporcionam obras de qualidade visual no patamar do que se faz nos grandes centros do país. Existem leis de incentivo que permitem o acesso de autores a recursos públicos para a edição de títulos de interesse comunitário, o que também estimula o envolvimento de empresas na parceria com a promoção da cultura local.
Existe um Concurso Anual Literário que revela novos talentos e consolida talentos antigos. Há até o prêmio Vivita Cartier para melhor livro publicado no ano. A Feira do Livro é a segunda maior do Estado e a cada ano cresce o número de crianças-leitoras na Praça Dante. A atividade literária na cidade é tão intensa que a Secretaria Municipal da Cultura chegou a criar um Departamento do Livro e da Leitura só para cuidar de ações voltadas ao setor. Várias entidades e grupos debatem a leitura e a promovem na cidade, como a Academia Caxiense de Letras-RS, o Grupo Órbita Literária, a Confraria Reinações, o grupo Skoob, o Litteris Te Deum e a seção local da Associação Gaúcha de Escritores, entre outras.

Ah, e tem as livrarias-cafeterias. Nada melhor do que sentar-se em uma delas, saborear um cappuccino e abrir as páginas de um bom livro. Especialmente em Caxias do Sul, um dos melhores lugares do mundo para ler.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de junho de 2014)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Páginas virtuais aos pingos

Con-ve-nha-mos, não é a mesma coisa. Tudo bem que é moderno, é o sinal dos tempos, a onda é irreversível, ou você se adapta ou sai da estrada, como bem nos ensinam os extintos dinossauros e quem é que quer ficar para dinossauro? Talvez somente a Tia Maricota, que, uma vez que já ficou para titia, não lhe custa nada ficar também para dinossaura, mas nós é que não, não é mesmo, leitor?
Mas é aquela coisa, a gente vai tentando se adaptar na medida de nossas possibilidades e no limite de nossas capacidades. Essa coisa, por exemplo, de ler a versão impressa dos nossos jornais pelo computador. A ferramenta existe, ainda é novinha em folha e estamos aprendendo a folhear as páginas com o mouse ou com o dedão mesmo e, aos trancos e barrancos, vamos nos amigando da coisa “adespacito”, como diria um xirú que conheço lá pros lados de Cambará. Mas não é a mesma coisa. Até porque, é aquela coisa da coisa, de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Fico aqui me perguntando como é que fica para aqueles leitores que possuem o hábito de começar a folhear os jornais pelo fim? Os amantes do esporte e os leitores fiéis dos colunistas da última página? Sim, certo, eu sei que existe o recurso de acessar direto a página que você deseja a partir de um menu, beleza. Mas para isso o xirú lá meu amigo precisa acertar a mira do dedão no íconezinho do menu na tela do tablet,  né, ô pá! E daí é aquela coisa de mete o dedão, erra a mira, toca em link errado e abre página com foto da Grazi Massafera de biquíni saindo das águas plácidas de Copacabana bem na hora em que a Tia Maricota passa ao largo com a cuia de chimarrão e não pensa duas vezes em dedar para a cunhada a safadeza do macanudo.
É dureza. O que sinto falta mesmo quando folheio digitalmente os jornais (porque ando procurando ser um inserido digital) é das marquinhas de café deixadas pelos leitores que me antecederam na leitura, como ocorre nos exemplares de boteco. Especialmente pingos de café pingado que, nessas horas, se transforma em café pingante e vai deixando as marcas de por quais páginas passou o vivente leitor antes de mim, como impressões digitais a lhe dedurar o interesse de leitura. As marcas pingadas de café pelas páginas dos jornais são o melhor sistema de indicador de interesse de leitura jamais criado, superando em acerto qualquer instituto verificador.

Agora, no tablet e no computador, inventa de pingar cafezinho ou derramar a erva do mate em cima, xirú velho, pra tu ver a reação da Tia Maricota...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de maio de 2014)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O leitor de rua

(Foto tirada por Ivonei de Carvalho em fevereiro de 2014 no bairro Glória, Rio de Janeiro)

Sempre que nos sentirmos desesperançados, sempre que estivermos a um passo de jogar a toalha na lona e abandonar o ringue, sempre que imaginarmos que a coisa não tem jeito mesmo então deixemos tudo para lá e vamos é cuidar de nossas próprias vidas, sempre que estivermos enxergando somente as nuvens em detrimento da réstia de luz solar que teima em se esgueirar por entre elas, sempre que esmorecermos... acabará surgindo de algum lugar aquela fonte de energia que renovará nossas esperanças e reabastecerá nosso tanque para prosseguirmos na batalha por aquilo que acreditamos, nem que saibamos que estamos a dar murros em ponta de faca.
Eu, por exemplo, sou um desses seres esquisitos que teimam em acreditar no poder transformador que o ato da leitura exerce sobre os espíritos humanos. Eu acredito fervorosamente que a aquisição do hábito de ler, do gosto pela leitura, do prazer do contato com o mundo dos livros, desperta na pessoa habilidades tais que o mundo, a vida, a existência passam a ser para ela um universo sem limites. Essa é a minha fé. A leitura forma. A leitura informa. A leitura liberta. A leitura diverte. A leitura entretém. A leitura consola. A leitura nos ensina a compreender o mundo e os seres humanos. A leitura nos ajuda a compreendermos a nós próprios.

A leitura é, pois, uma das mais elevadas ferramentas civilizatórias criadas pelo engenho humano. Privar-se deliberadamente de ler, no meu entender, é provocar contra si mesmo um dos mais tristes boicotes. Pois em um país em que uma funkeira recebe de professores de filosofia a alcunha de “grande pensadora moderna”, em que um ex-presidente da República afirma que “ler é uma chatice” e em que atores (?) revelam detestar ler, não faltam desestímulos para quem insiste em permanecer ativo na batalha em favor dos livros. Esta semana, porém, a redenção me veio a partir da cena que meu cunhado registrou um mês atrás na região central do Rio de Janeiro. Próximo a um bar, no bairro Glória, um morador de rua (foto) faz uma pausa para mergulhar silenciosa e atentamente na leitura. Ele redime a todos nós. De minha parte, preferiria conversar com ele do que com a funkeira pensadora, ou com o atorzinho ou com o ex-presidente.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de abril de 2014)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O nocaute da popozuda

Tem vezes em que o hábito em mim arraigado, de procurar manter-me informado sobre o que rola mundo afora, ao invés de me proporcionar aquela sensação saudável de ser um cidadão consciente, acaba mesmo é me causando um profundo cansaço. Isso acontece naqueles dias em que minha estrutura psíquica está mais sensível ao ataque da sucessão de descalabros que nos atingem diariamente, disparados de todos os lados sem nos concederem possibilidade de defesa, o que, sabe-se bem, é um indesculpável agravante.
Hoje é um desses dias. Folheio os jornais pela internet e vou levando golpes na boca do estômago do meu bom senso até quase ir a nocaute (e não há técnico nenhum no corner preocupado com o resguardo de minha integridade, pronto para jogar no ringue a toalha e me proteger do massacre). Vou folheando e tentando encaixar um jab de esquerda que vem de Brasília, um gancho de direita desferido de Porto Alegre, um direto vindo direto de Caxias mesmo, um cruzado do exterior e por aí afora. Perco rapidamente o fôlego, baixo a guarda, os golpes continuam e nada de soar o gongo da cidadania, da seriedade, da humildade, da honestidade, da fraternidade, da tolerância, para me salvar.
Às vezes, a vontade que dá é de simplesmente desamarrar as luvas e pular sobre as cordas, fugindo do ringue no qual meus escudos se mostram impotentes. Não consegui, por exemplo, encaixar bem o cruzado direto no queixo desferido pela notícia de que a funkeira Valesca Popozuda foi retratada como “grande pensadora contemporânea” em uma prova de filosofia em uma escola pública no Distrito Federal, esta semana. O professor que elaborou a prova foi quem cometeu a barbaridade, e não algum aluno inventando resposta engraçadinha. Fui à lona.
O golpe concluiu o estrago que vinha sendo feito há tempos em minha tolerância ao absurdo, iniciado pelas declarações recentes do atorzinho global que orgulhosamente afirmou não gostar de ler e nem de assistir a peças de teatro e às do ex-presidente da República que admitiu que ler, para ele, era uma grande chatice. Frente a esses descalabros, dá vontade de fazer como dizia o mestre cronista Rubem Braga, décadas atrás, e passar a agir como se fosse “um sueco em trânsito”, e “não saber de nada, não entender uma palavra do que estão dizendo e escrevendo por aí, não ter nada a ver com nada, não se sentir responsável por nada, não ter vergonha de nada”.
Hoje, queria ser um sueco em trânsito. E, se possível, tocar fagote, como o Evandro, amigo do Braga, fazia.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de abril de 2014)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Do outro lado da rua

Tarde de domingo agradável, sem chuva, sem umidade, sem frio. Uma repentina folga das inclementes agruras climáticas que agosto vem impondo este ano. O sol dá umas espiadinhas pelos cantos das nuvens brancas, mostrando que ainda é amigo apesar de tudo e continua existindo, sim, mesmo que não tenha dado muito as caras ultimamente. A movimentação do meio-dia já se aplacou a essas horas de meia-tarde e a modorra dominical se impõe ao cotidiano de muitas famílias, que saboreiam cada uma a seu modo essas doces horas de nada ter de fazer, fazendo então as coisas que nessas horas se faz só por querer.
Da janela do escritório, no qual mesmo aos domingos escrevo livros, matérias jornalísticas e essas croniquetas, chega a mim a movimentação da rua e, do lado de lá da rua, estampa-se na paisagem a casa do vizinho. E lá está o vizinho, olha só, com o ar de domingo estampado no rosto e dando o ritmo de seus movimentos ao buscar para a varanda a cadeira de abrir, na qual se senta. Logo atrás segue a vizinha, com outra cadeira e uma cuia de chimarrão na mão. Nos rostos, óculos escuros, porque o sol, mesmo que tímido e bem-vindo, segue sendo o sol e é bom não facilitar.
Organizado o cenário, o vizinho, então, apoia em uma das pernas um livro e começa a ler. A julgar pela visão que tenho daqui, concluo que ele iniciou agora mesmo a leitura do livro, já que poucas são as páginas que ele sustenta abertas com a mão esquerda, permanecendo o grosso da obra a ser lida no outro lado, que a perna sustenta. Não posso ver pessoas lendo livros que sou invadido por uma agoniante sensação de curiosidade literária. Que será que lê o vizinho nessa tarde de domingo? Que autor lhe estará a capturar a atenção em uma tarde luminosa como essa? Se obra de ficção, qual o gênero? Um romance? Contos? Se não-ficção, qual o tema? Uma biografia? História? Um tratado científico?
Gosto quando leem livros perto de mim: num café, no ônibus, na sala de espera, na beira da praia, no banco da praça. Nesses raros momentos, invade-me uma sensação de pertencimento a uma irmandade anônima e silenciosa, da qual aquele leitor naquele instante se faz representante. Findou o domingo sem que eu soubesse o que lia o vizinho. Porém, fiquei sabendo que o vizinho lê, o que, cá para nós, é o que basta.
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de agosto de 2013)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Profecia com todas as letras


Vou fazer uma profecia. E, como todo bom Nostradamus que se preze, tomarei o cuidado de datar o cumprimento de minhas previsões em um futuro longínquo o suficiente para garantir que eu não esteja mais por aí quando do advento das datas. Em a previsão se cumprindo, terei a infelicidade de não poder colher em vida os louros pelo acerto, mas confio na honestidade da História, que saberá me incensar com a devida justiça devido ao feito. Em não se cumprindo, me esquivarei espertamente do constrangimento de ter de inventar explicações que limpem minha barra, e que se ralem meus futuros detratores.
Então, vamos lá, ei-la: a internet não será responsável pelo desaparecimento dos livros, das revistas e dos jornais impressos. Ao menos, não nos próximos 100 anos.
Pronto. O que estou afirmando é que nossos netos e bisnetos, em 2113, ainda estarão em contato, no seu cotidiano pessoal e profissional, com esses centenários objetos de leitura que tanto amamos, impressos em papel, dobráveis, inflamáveis, rasgáveis, riscáveis, molháveis, sujáveis, facilmente carregáveis (e esquecíveis), singelamente acessáveis por meio de marcadores de páginas (normalmente, também impressos em papel), sublinháveis com caneta esferográfica ou ponta-porosa, alheios à necessidade de baterias recarregáveis ou à existência de eletricidade (exceto à noite, para que haja iluminação no quarto onde nos colocamos a lê-los), maleáveis, cheirosos, belos, charmosos, elegantes, concretos e tácteis.
Não, senhores, a internet não vai matar os livros e as publicações impressas em geral. Podem dormir tranquilos. Existem hábitos que a civilização arraigou ao comportamento e à cultura humanas e, entre esses, o ato da leitura na plataforma impressa é um dos que dificilmente serão abandonados pelos representantes futuros de nossa espécie. Ao menos, os do futuro próximo (falo em 2113, lembrem). As notícias de nossas mortes ainda sairão publicadas em páginas impressas nos jornais, bem como as alegrias dos anúncios sociais dos casamentos de nossos bisnetos, creiam-me. Quem viver, verá. Ou melhor, lerá.
A favor de minha tese profética, trago uma notícia publicada em fevereiro deste ano na imprensa (impressa) mundial. Em 2012, a receita obtida com assinaturas e com a venda de exemplares impressos da empresa The New York Times Company cresceu 10,4% em relação a 2011. Ou seja, o grupo norte-americano que edita os jornais The New York Times, The Boston Globe e The International Herald Tribune está vendendo mais jornais impressos e assinaturas do que antes. Mas não era para ser o contrário? Os jornais impressos não deveriam estar tendo seu mercado retraído com o avanço e consolidação dos blogs noticiosos mantidos por essas mesmas companhias?
E os livros? Publica-se como nunca antes na história da humanidade. As feiras de livro, as bienais e os encontros literários reúnem públicos cada vez maiores de leitores em todos os cantos do mundo, e vendem-se mais e mais livros (impressos) nesses lugares. O que a internet vem fazendo é exatamente agilizar, democratizar e ampliar o processo de aquisição de livros (impressos), e não retraindo o setor.
Meu tablet vai estragar se eu o deixar rolar ao chão ao pegar no sono em meio à leitura, deitado no sofá da sala. Meu livro, meu jornal e minha revista, no máximo, sofrerão um amassadinho e estarão me esperando alegremente para prosseguir na leitura quando eu acordar, amanhã de manhã.
Não, senhores. As traças, os ratos e os humanos de biblioteca prosseguirão sendo supridos com seu vital alimento impresso durante muito tempo ainda. Amansai vossas almas e boas leituras.

 (Publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de maio de 2013)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Além das uvas


Não estou preocupado com a possível extinção do objeto livro enquanto plataforma de leitura ainda presente na vida dos cidadãos do futuro. Conforme lucidamente resume um colega amigo meu, poeta e cronista, “essa não é uma discussão válida”. Preocupa-me, isso, sim, é a possível extinção do bicho-leitor enquanto ser habituado a exercitar a leitura como prática essencial para sua formação pessoal e instrumento de transformação interior. E vou além. Leitor não é somente aquele bicho que lê, mas, sim, é aquele que compreende o que está lendo.
Um leitor que pretenda se dizer leitor precisa ser capaz de compreender o que está escrito, e isso nem sempre é tarefa fácil (para ser leitor, já vou avisando, caro leitor, é preciso deixar a preguiça de lado). Por mais simples que possa parecer, uma sentença pode não estar dizendo exatamente aquilo que aparenta dizer, e/ou pode estar informando muito mais do que se imagina. Vejamos o que acontece com a conhecida frase “Vovô viu a uva”. Bastante simples, não? Mas o que exatamente o autor quer dizer quando escreve essas três palavras nessa ordem? Primeiro: o que é um “vovô”? A princípio, é um ser humano do sexo masculino que possui netos. Pode ser. Mas pode também ser uma metáfora para uma pessoa mais velha que, devido à sua aparência, evoca a figura de um avô. Supomos, a partir disso, que o personagem da ação é uma pessoa idosa a observar uma uva. Mas espere. O que é exatamente uma pessoa idosa, que possa ser metaforicamente chamada de “vovô”? Quantos anos a pessoa precisa ter, no mínimo, para parecer idosa? Bem, depende dos olhos de quem a vê. Sou idoso aos olhos de meu sobrinho que mal completou 60 dias de vida. Mas me vejo jovem se comparado à idade octogenária de meu próprio avô.
Portanto, “vovô viu a uva”, meus caros leitores, encerra mistérios que vão muito além daquilo que está aparentemente grafado, e isso que ainda nem avançamos além da primeira palavra da sentença. Ele viu um gomo de uva ou um cacho inteiro? Uma foto, um desenho ou uma fruta na parreira? Depois disso, me pergunto... quantos ainda ousarão permanecer na trincheira da leitura?
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de julho de 2012)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

(Re)Aprender a ler


Nesses nossos tempos de internet, em que se julga possível transmitir uma ideia, uma filosofia, um conceito, um argumento, um ponto de vista, dentro de um limite de apenas 140 caracteres (essa frase inicial, portanto, já estaria fora), me parece ser necessário rever alguns fundamentos que até bem pouco tempo atrás ainda regiam os atos da leitura e compreensão de textos um pouquinho mais longos. E quando escrevo “um pouquinho mais longos” não estou pedantemente a invocar mágicas montanhas de Thomas Mann nem demandas proustianas atrás do tempo que se perdeu, e sim, tão-somente, pequenas croniquinhas como as que exercito neste espaço e que, via de regra, exigem do leitor não mais do que cinco minutos de sua atenção.
O primeiro problema, me parece, reside justamente aí: na falta de atenção. O leitor de hoje lê desatenta e distraidamente. Acostumou-se à linguagem pobre, direta, descomprometida, superficial e aviltante usada em chats, twitters, msns, torpedos, feicibúkis etc e, quando se depara com um texto tradicional, que lhe exige um mínimo de esforço de concentração para dele sorver a essência, bate a preguiça mental e já se perde no meio da maionese. E quando escrevo “leitor de hoje” não estou me referindo somente aos jovens que já nascem conectados, mas, sim, à grande gama de leitores de todas as idades que, por necessidade de conexão com o mundo informático moderno, também se inserem no grupo e acabam sofrendo do mesmo problema.
Para compreender um texto de 141 caracteres ou mais, é preciso um mínimo de atenção, de esforço, de entrega, de sensibilidade, de inteligência, de silêncio e até de um pouco de humor, para extrair dele a sua verdadeira essência, o seu sentido, bem como detectar o que se esconde por suas entrelinhas. Sem isso, sinto muito. Nem sempre a comunicação se estabelecerá. O autor, ao escrever, faz a sua parte. Mas para o interlocutor realmente se habilitar a ostentar o título de leitor, ele terá de fazer a sua. E a parte do leitor vai mais além e mais ao fundo do que simplesmente passar pelo texto os olhos e afirmar que o leu. É preciso envolver nesse processo também a alma. E a minha, por sinal, não cabe em 140 caracteres.
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de julho de 2012)

domingo, 28 de agosto de 2011

Eu sou um viciado

Há um vício frente ao qual não consigo reunir forças suficientes para opor resistência eficaz. Pior de tudo é que ajo em relação ao problema igual ao alcoólatra que não admite estar dominado pela bebida, e insiste em sustentar a falácia de que é capaz de largá-la quando bem entender, bastando querer. Só que jamais chega o momento de querer largá-lo, e é aí que a garra do vício vai apertando seu indesatável nó.
O mesmo se dá comigo, não em relação ao álcool ou ao consumo de qualquer espécie de droga lícita ou ilícita, mas sim no quesito aquisição-compulsiva-de-livros-que-me-interessam-sobremaneira-e-que-precisam-ir-morar-lá-em-casa-agora. Não posso entrar em uma livraria que eles saltam das prateleiras e pulam no meu colo, disputando atenção e desejando seguirem comigo para uma eterna vida conjunta.
Mas minha compulsão não se restringe, logo aviso, à simples aquisição dos livros, como que atendendo a uma inclinação à mera posse e acúmulo de objetos a fim de saciar alguma tara psíquica flutuante nos recônditos de minha psiquê. Também leio compulsivamente os livros que adquiro, e procuro manter equilibrada a equação entre o volume de obras a ler e a admissão de novos títulos para dentro de casa. O problema é que a casa não aumenta espacialmente na mesma medida em que os livros vão chegando, e aí sim é que reside o perigo maior de minha compulsão. Antes de um de nós ter de sair (eu ou os livros), temo que minha esposa e o gato se unam para me internar na LLL, a Liga dos Livristas Lascivos, para desintoxicação.
Felizmente sei da existência de seres semelhantes a mim perambulando soltos por aí, o que me dá um alento. Dia desses o Germano, lá da livraria Do Arco da Velha, relatou-me o episódio de um cliente dele que telefonou-lhe da praia, no verão, avisando que ele, o cliente, passara a perna no Germano. “Por quê”? Quis saber o livreiro. “Porque eu comprei aí de ti três livros maravilhosos e em troca deixei apenas um punhado de dinheiro”. Bingo! Frase típica de presidente da LLL, que reconhece a impossibilidade de mensurar o valor de um bom livro. Depois da história, claro que alimentei meu vício comprando um livrinho...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de agosto de 2011)