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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Senão você dança

Quem não gostaria de ser bailarina do programa “Domingão do Faustão”, da Rede Globo de Televisão? “Eu não!”; “nem eu!”; ”eu também não!”; “eu, fora!”; ”não!”; “eu não!”! Está bem, está bem, desculpem, comecei esta crônica da maneira errada, admito. Ou até que comecei certo, porém, dirigi a pergunta ao público errado. Ora, Marcos Kirst, perguntar aos seus inteligentes leitores (especialmente às suas inteligentes leitoras) se desejariam integrar o corpo de ballet de um programete televisivo de auditório! Foi mal!
Mas a pergunta era apenas retórica, para introduzir um assunto que me chamou a atenção nas páginas de notícias na internet, ontem. Parece que surgiu uma crise séria entre as moçoilas bailantes que integram o corpo de ballet do programa apresentado por Fausto Silva nas tardes de domingo. Elas estariam indignadas com a decisão da produção, apoiada por Fausto, de criar um reality show (sabe, senhora, esses programas de competições que alavancam a audiência das emissoras para vender mais automóveis) com candidatas a bailarinas do programa. A competição terá eliminatórias regionais e a vencedora levará como prêmio a chance de assinar contrato e ir lá dançar para nós, junto às outras, em frente às câmeras, nas tardes de domingo. Legal, não? Quem não gostaria de... Ops, desculpem de novo...
Mas, então, a tal da crise das bailantes. Parece que as lindas bailarinas (que, cá entre nós, candidatas, se ninguém ainda lhes disse, digo-lhes eu: entre os requisitos, o principal, certamente, é o de ser jovem e bela, belíssima, atordoantemente sarada e bela, para que sejamos hipnotizados pelas coreografias, exato, pelas coreografias). Então, retomando, parece que as bailarinas oficiais (são umas doze ou treze, conforme fiquei contando em uma fotinho do corpo – de ballet - que ilustrava a reportagem) estão revoltadas com a projeção que as novatas vão ter em todo o país, em detrimento delas, que estão lá suando as malhas domingo sim e domingo também. Pode isso?

Bem, pode. Até porque o Faustão, ao ser informado sobre a crise das rodopiantes, disse alguma coisa assim como: “quem quiser, fica, quem não quiser, que caia fora”. Ou seja, primeira lição de reality para as candidatas: nessa vida, ou você dança, ou você dança.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de abril de 2015)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Calorias relativas

Está comprovado: o Faustão engorda. Não, não, espere, posso ter me expressado mal ao iniciar esta crônica com frase deliberadamente ambígua. Não estou me referindo a algum suposto processo de engorda repentina a acometer o famoso apresentador de televisão que invade as tardes de domingo da população brasileira há décadas. Refiro-me é aos efeitos biológicos de assistir a programas semelhantes ao dele, que agora foram detectados em laboratórios suecos. E a questão é que engorda.
O que acontece é que os cientistas da Universidade de Uppsala, na Suécia, fizeram lá suas pesquisas com algumas centenas de voluntários e chegaram a uma instigante conclusão, agora divulgada pela mídia internacional: assistir a programas de televisão considerados chatos pode fazer a pessoa comer 50% mais porcarias do que quando ela está assistindo a programas divertidos e agradáveis. Ou seja, saindo do sueco e traduzindo para o brasileiro: afundar no sofá, em frente ao Faustão, engorda.
Sim, porque, conforme os mesmos cientistas, o que você busca quando se afofa no sofá da sala esgrimindo o controle remoto da tevê é prazer e satisfação. E se esse deleite e essa satisfação não são satisfeitos com aquilo que transita na telinha à frente de seus olhos, o seu subconsciente, esse sacana, induz você a ir buscar no consumo de porcarias (salgadinhos, chocolates, refrigerantes e afins) aquela sensação de prazer que você tanto está desejando. E aí é aquilo: pobre da balança no dia seguinte, que vai escutar poucas e boas, além de ter de aguentar em cima dela os quilos a mais que você mesmo cultivou ao longo do final de semana.
Um dos testes realizados lá em Uppsala foi assim: fizeram a turma assistir a um programa humorístico de auditório e depois a um documentário sobre arte. E anotaram nas planilhas para ver em que ocasião a turma devorava mais chipitos e porcarias. Resultado: comeram muito mais assistindo ao documentário do que ao programa de auditório. Conclusão: comem mais quando assistem a programas chatos. Só que é aí, amigos leitores, que entra em cena a questão da subjetividade, que põe por terra todo o rigor científico da conclusão da pesquisa. Quem disse que documentário sobre arte é mais chato do que programa de auditório?

Ainda bem que eu não estava lá em Uppsala entre os voluntários, porque, se estivesse, embaralharia os resultados da tal pesquisa, por não suportar o apresentador sueco colega do Faustão. E teria ficado vidrado na tela durante a exibição do documentário sobre arte, dito chato para os demais. “Tudo é relativo”, diria Albert Einstein, comendo pipoca.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de julho de 2014)