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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Coelhos para encher o bolso

Queríamos ganhar dinheiro. A mesada que recebíamos de nossos pais não estava sendo suficiente para suprir nossas necessidades adolescentes. Eu, por exemplo, desejava adquirir logo todos os livros de Monteiro Lobato que ficavam expostos nas prateleiras da Livraria Progresso, bem como colecionar todos os títulos de gibis dos heróis Marvel que surgiam mensalmente na banca de revistas também batizada de Progresso. Havia muito progresso na nossa Ijuí natal (Rádio Progresso, Armazém Progresso...) e queríamos também progredir, meu primo e eu. O que ele planejava fazer com sua parte do futuro dinheiro que ganharíamos, eu nunca soube, mas um propósito nos unia: empreender.
Tínhamos a mesma idade (ainda temos), cursávamos a mesma classe na escola e, por volta dos 15 anos (início da década de 1980), sentamos para planejar. O pai de um colega, dentista famoso na cidade, instalara uma criação de coelhos em sua chácara e fomos lá visitar o empreendimento, cujo mercado era promissor. Achamos aquilo relativamente fácil de administrar e decidimos: criaríamos coelhos (estávamos convictos de que ficaríamos ricos vendendo ovos de páscoa, se alimentássemos e treinássemos bem aqueles coelhos). Meu pai liberou um pedaço do terreno nos fundos de casa para instalarmos ali o futuro viveiro. Pegamos enxadas numa tarde de sol e limpamos a área onde ergueríamos as gaiolas. Agora só faltava construí-las e adquirir os coelhos.
Mas precisávamos de dinheiro para o investimento inicial, o tal do capital de giro. Verificamos nos bolsos que nosso capital não girava além de algumas moedas sobradas de troco dos gibis e das merendas. Tínhamos primeiro de fazer dinheiro para investir no empreendimento que, depois, nos traria fortuna. Que coisa complicada essa vida de capitalistas! Mas fomos em frente. Aceitamos trabalho temporário de dois meses, nas férias, para administrar uma lojinha de especiarias pertencente a um tio-avô enquanto ele veraneava no litoral. Guardaríamos os salários para construir as gaiolas e comprar dois casais de coelhos, torcendo para que se reproduzissem com rapidez (não lembro de termos orçado as cenouras e as couves).

Na segunda semana de trabalho, meu primo derrubou ácido acético no pé e teve de ser substituído por outro colega. Meu sócio, então, retirou-se do projeto, que acabou naufragando junto com os salários devidamente torrados em gibis, livros e lanches. Nenhum de nós jamais criou coelhos. Quem saiu no lucro foi meu pai, com a roçada gratuita que fizemos no terreno de casa. Aprendemos que empreender não é brincadeira.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul,em 21 de agosto de 2017)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O reinado da peçonha

Dia desses vi circular pela internet um artigo de um jornalista do centro do país elencando cinco “roubadas” (definidas por ele) para se evitar ao visitar certa cidade turística da Serra Gaúcha. Apesar do título chamativo, logo fica claro, na leitura do texto, que as tais “roubadas” não passam de ataques direcionados à essência daquilo que o turista encontra ao visitar a cidade, como sua gastronomia, sua estrutura, suas atrações. Não é um texto crítico, porque não amplia as fontes, não oferece o contraponto, não aprofunda as questões, não busca alternativas. A intenção do autor é uma: atacar, desconstruir, fazer terra arrasada e escapulir das cinzas exibindo a própria (autossuposta) sagacidade.
Uma cidade turística (ou não) tem problemas? Claro que sim. Qual não tem? Melhorar, desenvolver, organizar, são metas constantes dos administradores (públicos e privados) de qualquer município, empresa, estado, país, instituição, grupo, comunidade, o que for. Por isso, críticas e sugestões são sempre bem vindas por parte de quem está envolvido nos processos de gestão. Mas é fácil separar a crítica construtiva do raso ataque destilador de peçonha. E estamos a viver um tempo em que a destilação da peçonha virou o senso comum a pautar a maioria das manifestações em todas as plataformas dos relacionamentos humanos. Picar e injetar veneno virou esporte nacional, a despeito de classe social ou de nível de instrução. Combater o ódio com o ódio se transformou em alternativa instantânea para o descarrego urgente das insatisfações, porém, o método não acarreta melhora alguma no quadro, pelo contrário, só amplia o mar de ódio. Os ataques deselegantes resultam no imediato nivelamento do atacante ao perfil de seu alvo.
Desconstruir, desmoralizar, consolidar pré-conceitos, endemonizar virou moda. “Vejam como sou esperto, olhem só como mordo, como sou temerário” são os motivadores das ações grotescas da maioria contra os alvos que elegem para receber as toneladas de ódio que brotam dos gramados sombrios de suas próprias índoles. São usinas de produzir raivosidades que não hesitam em metralhá-las em volta, desde que, claro, elas não os atinjam. Imaginam que, latindo e mordendo, se colocam a salvo do julgamento dos outros, posicionando-se no topo da pirâmide da intocabilidade. Empreendem energia não para criar e transformar para melhor, mas para latir enquanto as caravanas construtivas passam.

Frente a esse quadro, é melhor já ir intitulando minha própria lista de antídotos anti-peçonha: “Trocentos motivos para ficar na minha”.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 14 de agosto de 2017)

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O estilo Matrioska

A técnica escolhida para tecer o início da crônica de hoje é o conhecido “Estilo Matrioska”. Bom, talvez ainda não tão conhecido assim, porque eu acabei de inventá-lo, mas, dependendo do sucesso alcançado entre os leitores, haverá de ficar conhecido, portanto, já me antecipo à colheita dos futuros louros. E, para variar, já me perdi em meio a tergiversações intercaladas e terei de protelar a aplicação do “Estilo Matrioska de Abertura de Crônicas” para o parágrafo seguinte. A ele!
Ah, antes, urge explicar o significado do termo “Matrioska”, para que não pensem que, além de inventar técnicas revolucionárias de abertura de crônicas, pus-me agora a também criar neologismos. As Matrioskas são aquelas bonequinhas russas, usualmente feitas em madeira, representando matronas em diversos tamanhos, que vão encaixando umas dentro das outras, a menor dentro da ligeiramente maior e assim por diante, até estarem todas inseridas dentro da Matrioskona-mor, em uma simpática representação da fertilidade feminina e da sucessão das gerações. Isso são as Matrioskas. Já o afamado “Estilo Matrioska de Abertura de Crônicas” fica protelado ao terceiro parágrafo. Agora sim, a ele!
Lá em casa, há uma cozinha. Na cozinha, existe um armário. Dentro desse armário, um dos gavetões foi destinado a abrigar os potes de plástico (eis o “Estilo Matrioska” de redação: a cozinha, dentro da cozinha o armário, dentro do armário a gaveta, dentro da gaveta, os potes... genial! E poderíamos avançar para as duas pontas: a casa é um apartamento que está dentro de um prédio... e os potes, alguns maiores abrigam outros menores... infinitas composições! Palmas, palmas, obrigado, obrigado... Ei, eu disse “palmas”, e não “palmadas”, calma, calma). Pois a crônica seria desenrolada a partir desse aspecto, o da esculhambação que se desenrola dentro do dito gavetão entre os potes, que fazem festas secretas noturnas quando ninguém está observando e se acotovelam lá dentro, às vezes impedindo que se abra o gavetão e, outras vezes, impedindo que seja fechado.

Coube a mim, no final de semana, a tarefa de organizar o gavetão dos potes de plástico. Tentei. Não consegui. Eu sou uma Matrioska ao contrário: dentro de meu corpo há um cérebro, dentro de meu cérebro não há nada... Ficamos sem crônica e gastei o novo estilo por nada.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de agosto de 2015)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

É preciso coragem

É preciso ter coragem. É preciso ter sido moldado em boa cepa, evocar as próprias raízes, recordar dos antepassados, seus feitos, sua glórias, e inspirar-se nelas. É preciso ter determinação, garra, vontade de vencer. É preciso pensar no sabor da vitória quando alcançada, na satisfação de um dever cumprido, na honra de transpor a muralha da adversidade para romper com orgulho a faixa da chegada. É preciso reunir todas as energias de que somos capazes de aglomerar em nosso íntimo mais profundo. É preciso fazer um gesto rápido para jogar a pilha de cobertores para o alto, saltar da cama, calçar as pantufas e correr para o banho antes que a dimensão do imenso frio se apodere de todo o nosso ser e nos faça voltar correndo para o leito quentinho e decididamente não sair mais de lá até que chegue de novo a hora de vestir os maiôs e irmos para a praia no bom do verão e seja lá o que Deus quiser.
Mas é preciso ter força. O veraneio ainda está longe. Aliás, nesses dias de zero grau ao alvorecer, estão mais longe do que nunca aquelas coisas de sunga à beira-mar tomando água-de-coco e torrando os costados enquanto se decide por um mergulho no mar ou por uma caipirinha geladinha embaixo do guarda-sol. Miragens, miragens, tudo isso não passa de miragens, nada disso existe nem nunca existiu, são frutos de nossa fértil imaginação, congelada em uma realidade apenas tecida em nossos mais profundos sonhos e aspirações. Congeladíssima ali, por sinal. Muito, muito, mas muuuito congelada ali.
A verdade é que não existe verão, não existe praia, não existe areia escaldante. O que existe é esse pote de manteiga que deixei fora da geladeira ontem à noite e agora no café da manhã se apresenta tão dura quanto se tivesse passado a madrugada dentro do freezer. Nem ouso ir conferir a temperatura das duas latinhas de cerveja que comprei ontem no mercado e deixei guardadas no armário da despensa. Vai que estejam congeladas e eu tenha de jogá-las fora.

Observo o forno de micro-ondas com uma sensação estranha percorrendo meus pensamentos e me parece que uma ideia estúpida se vai ali formando. Parece que estou dimensionando com o olhar a largura e profundidade do interior do aparelho, para ver se dentro cabem meus pés. Devo parar enquanto é tempo. Conduzo-me, determinado, rumo ao chuveiro. Coragem.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de junho de 2015)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Pelo Dia do Leitor

Um livro lido e as reflexões sobre a vida que suas páginas suscitam; um filme visto ou revisto e as impressões que ele causa; uma peça teatral, a performance dos atores, o desfecho triste (uma tragédia, porque acaba mal) ou feliz (então, uma comédia, pois que bem termina); as sensações decorrentes do usufruir de uma música; uma conversa com um amigo; um fato que ganha as manchetes dos jornais, sobre o qual todos comentam, porém, deixam escapar um viés que só você percebeu; uma nota de rodapé que, apesar de tímida, revela uma singular experiência, metáfora de toda a existência; um prato delicioso; um sabor, um tom, um toque, uma imagem, uma voz, uma palavra, um silêncio, um cheiro, o voo de um pássaro; uma data importante, o centenário de nascimento ou de morte de uma celebridade, um fato quase esquecido; uma lembrança da infância, uma pessoa que nunca mais se viu; um arrependimento, um orgulho, uma noite de insônia e aquela com o sono dos anjos também.
Todas essas coisas, e centilhares de outras que não foram citadas, costumam ser as principais fontes de inspiração para um empilhador de palavras que precisa exercitar diariamente o ato de produzir crônicas a serem publicadas em jornal de grande circulação regional, oferecendo motivos para a reflexão e, se possível (o mais importante de tudo), por meio de um texto agradável de ler. Nem sempre se consegue, e é justamente o tentar que justifica a produção, mesmo que às vezes menor, da obra que o cronista se propôs a moldar.
Mas o que realmente legitima todo esse empenho diário é o retorno que aquela parcela atenta e generosa dos leitores se preocupa em dar ao cronista esforçado. O e-mail que aterrissa na caixa de entrada; o telefonema do mais ousado; a abordagem direta na calçada; o compartilhamento do texto pela internet para que todos o leiam. É assim, a partir dessas gotas de ouro de retorno, que o autor consegue ter uma noção de como seu trabalho ganha vida e significado no íntimo de cada pessoa (conhecida ou anônima) que com ele se relaciona, fazendo do texto uma entidade viva e transformadora dentro do cotidiano de cada um.

Sou grato a cada um desses leitores que tiram, de vez em quando, um pouco de seu tempo para alimentar com palavras a solidão do escritor no ato da escrita. Eu, por mim, criava o Dia do Leitor!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de maio de 2015)

terça-feira, 26 de maio de 2015

Dar e receber

Saber presentear é uma arte humana sutil, delicada e complexa. Requer uma conjunção de atributos raros de confluírem em uma mesma personalidade, daí a razão pela qual se configura em habilidade incomum, desempenhada com excelência por poucos. Para presentear bem, é preciso exercitar a capacidade de desindividualização do indivíduo, de colocar-se na pele, na mente e no mundo do outro ser, aquele que será presenteado. Não é fácil.
É preciso sublimar a tendência egoística que tradicionalmente os seres humanos possuem, de medir o mundo a partir da régua de suas próprias verdades, e enxergar a vida a partir dos olhos do outro. O que você gosta, aprecia, valoriza, nem sempre casa com os gostos da pessoa a ser presenteada, e presentear não significa impor preferências, mas, sim, valorizar justamente a diferença que torna aquele ser especial, único. Saber fazer isso é uma preciosidade. Nem todos sabem.
Eu, por exemplo, não sei. Sou um péssimo presenteador. Adoro a música dos Beatles, por exemplo, e sou capaz de presentear um Cd da banda britânica a um adolescente nascido neste século 21 (que já acumula 15 anos de vigência), correndo o risco de receber em troca um olhar espantado que, traduzido, significaria algo como “mas de onde é que esse tio dinossauro cavou essa coisa?”.  Diferentemente de minha esposa, que desempenha com perfeição a arte de presentear, sabendo doar o melhor de sua essência na materialização de mimos e lembranças personalizados, ao gosto do presenteado, causando sempre sensação, gerando sorrisos, alegria, aconchego. Ponto para ela e sorte minha.

Penso nisso nesse feriado de Nossa Senhora de Caravaggio, data religiosa que motiva multidões a se dirigirem em romaria até o santuário dedicado à santa, em Farroupilha, a fim de agradecerem as graças alcançadas. Mais importante do que pedir um presente específico, é saber agradecer a um bem recebido (melhor ainda quando sequer foi solicitado). Feliz de quem sabe reconhecer e valorizar um ato de doação, seja ele divino, humano, alheio, pessoal ou inesperadamente impessoal. Se saber presentear é uma arte, saber receber e agradecer se configura em ato tão essencialmente humano quanto o primeiro. Sorte de quem sabe exercitá-lo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de maio de 2015)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Feijão filosófico

Até uns dias atrás, eu tinha a convicção de que o melhor momento para refletir sobre a vida, sobre o mundo, sobre as questões filosóficas primordiais da existência humana, era a hora do banho. Isso porque é comum eu me colocar a filosofar em silêncio enquanto a água do chuveiro vai lavando de meu corpo as impurezas do dia, como numa espécie de convite metafórico para que eu faça o mesmo com a impurezas psíquicas que poluem a parte intangível de meu ser.
Há tempos eu já havia desbancado o travesseiro na hora de dormir como o melhor interlocutor para essas elucubrações internas pessoais profundas e altamente transformadoras, em especial porque, nos últimos anos, com o avanço da idade, minha relação com a cama tem se dado no esquema pá-pum: deito e durmo. Não reflito nada. Não penso em nada. Sequer fico me revirando de um lado para o outro. Se me conduzo para a cama, é porque o sono já se apoderou de mim todo, tanto da parte corpórea quanto da etérea, e às vezes desconfio até de que já estou ferrado em sono profundo alguns passos antes de chegar na cama, o que é uma temeridade.
Só que, agora, descobri o poder de indução à reflexão existente no ato de escolher feijão. Muitíssimo melhor do que a hora do banho ou a do sono. O segredo para conseguir obter reflexões mais profundas e complexas reside em alguns fatores importantes, passando pela quantidade de feijão a ser escolhida (punhados maiores do grão espalhadas sobre a mesa proporcionam reflexões mais prolixas) e pela espécie de feijão a ser manipulada (o feijão azuki, menorzinho e mais entremeado de impurezas, permite permanecer por períodos mais longos refletindo, o que, por si só, deveria originar pensamentos melhor elaborados, no entanto, sempre é arriscado fornecer garantias nesse terreno movediço das reflexões íntimas).

Semana passada, escolhendo feijão azuki, obtive três reflexões seguidas (um recorde pessoal), sendo uma delas bastante profunda. Fiquei muito satisfeito comigo mesmo. É a prova de que feijão faz bem para o cérebro. Essa, aliás, foi uma das minhas brilhantes reflexões. Às vezes, me surpreendo comigo mesmo...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de outubro de 2014)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Reserva para Rosemar

Tudo bem, tudo bem, errar é romano, já diziam a meia boca os povos subjugados pelo poder do conquistador Júlio César. Ou ainda, “herrar é umano”, na brincadeirinha gráfica que se tornou meme impresso antes mesmo do advento da internet. Erros são erros, convivemos com eles e o desafio que nos cabe é sabermos aprender com os deslizes que cometemos e, especialmente, exercitarmos a tolerância com os equívocos praticados pelos nossos semelhantes.
Só que existem algumas mancadas que conseguem nos tirar do sério ou, no mínimo, nos deixar boquiabertos durante alguns segundos de pasmo. Assim se sucedeu noite dessas, por exemplo, quando telefonei a um restaurante a fim de fazer a reserva de uma mesa para o jantar, dali a alguns dias. “Alô, por favor, eu gostaria de fazer a reserva de uma mesa para sábado à noite”, disse eu, do lado de cá do aparelho. “O que foi que o senhor disse?”, perguntou a moça, do lado de lá da linha, já de cara entendendo lhufas do que eu tentava comunicar.
Repeti a frase, com as mesmas palavras e, dessa vez, fui rapidamente compreendido. “Sim, pois não, certamente que podemos lhe reservar uma mesa para o sábado à noite. Como é o seu nome?”, prosseguiu ela, com gentileza. “Marcos”, respondi eu, com firmeza e certeza. “Rosemar??”, tascou ela, para minha grande surpresa. “Rosemar??”, pensei eu, na exata fração de segundo em que ela pronunciou aquele nome que não era, nem de longe, nem de rima, o meu. “Mas como pode alguém confundir Marcos com Rosemar?”, fiquei a refletir, na fração seguinte ainda do mesmo interminável segundo de perplexidade.

Sim, porque seria perfeitamente compreensível que a dita moça confundisse, por exemplo, “Juliana” com “Sebastiana”, ou “Adriano” com “Fabiano”, ou “Rosemar” com “Valdemar”, ou até “Saionara” com “Sinara”, ou ainda “Rosana” com “Silvana”, ou quem sabe até “Milton” com “Nilton”. Mas tomar meu “Marcos” por “Rosemar” foi mar, quer dizer, foi mal. Resultado? Cancelei a reserva. Vai que eu chegasse lá com meus convidados e não houvesse mesa alguma reservada em meu nome. E não conheço nenhum Rosemar para levar comigo, por via das dúvidas...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de outubro de 2014)

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

É pura bucha

O que você faz quando sua esposa chega perto com aquele jeitinho que ela costuma empregar quando deseja alguma coisa de você, e que você bem sabe que, por mais que a princípio rosne e esperneie, acabará fazendo exatamente aquilo que ela queria, do jeito como ela imaginava, no momento em que ela determinou?  O que você faz? Ora, você faz o que ela quer, óbvio, sabemos disso muito bem vocês e eu, maridos, namoridos, namorados, noivos, homens, enfim.
Se ela, por exemplo, inventa de querer pendurar um quadro na parede, como ontem, então, não tem jeito. Por mais que você esteja ali, acoplado ao sofá da sala, os carpins pretos enluvando aconchegadamente os pés que repousam sobre o pufe, os olhos passeando pelos títulos do jornal do dia, a respiração sincronizando ao ritmo do acalanto do universo e quase entrando em nível alfa, não terá jeito: em questão de minutos, você irremediavelmente estará lá perto dela, as fuças roçando a parede lisinha e imaculada que ela teima em querer que você fure, suas mãos portando a furadeira que tão tranquilamente dormitava há meses dentro da caixa de ferramentas debaixo da cama, o cérebro tentando adivinhar onde diabos você meteu a broca número seis, que é a que casa com o parafuso, mas que solução encontrar se todas as buchas que lhe restam são as de número oito? O que você faz?
Ora, você faz o que ela quer. Você dá um jeito. Não interessa se é cedo demais, se é tarde demais, se você preferiria deixar essa função toda para o final de semana. Não. Ela quer um furo ali, e não um furo qualquer, isso você também sabe muito bem. Precisa ser um furo daqueles que ela diz que só você saber fazer, porque isso é uma das armas milenares e secretas das mulheres para obterem de você o que elas desejam: elogiar em você habilidades inimagináveis que só elas veem, para convencê-lo a quê? A fazer o que elas querem que você faça!

E o que você faz? Bom, você faz. Você apenas faz. Está lá, então, o furo na parede, só que ninguém o vê. Ela tacou-lhe um quadro em cima dele. O quadro, claro, não fui eu quem pintou. Mas aquele furinho ali atrás, gente... Ah, aquilo é obra minha, né, amor?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 8 de outubro de 2014)

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Chinelinho lilás

Ah, o valor de um chinelo velho! Escrevi aqui, semana passada, sobre certos objetos antigos que insistimos em manter ao nosso redor por razões afetivas obscuras que causam espanto até mesmo a psicólogos experientes. Tentei entender o que nos motiva a manter nos pés aquele chinelo quase furado que nos conduz pelos corredores da casa no piloto-automático; aquela xícara com a borda lascada na qual bebemos o mais aconchegante café da manhã todos os dias; aquele blusão repleto de bolinhas desfiadas que, de traje social, se transformou em pijama fofinho.
Recebi e-mails de psicólogos e também de leitores variados, compartilhando suas paixões inexplicáveis e profundas pelas pequenas velharias de seus cotidianos que, a bem da verdade, representam pedacinhos de si próprios, hábitos arraigados, zonas de conforto, essas coisas. E da amiga, escritora e colega da Academia Caxiense de Letras, Maria Angélica Graziottin, recebi o comovente relato que reproduzo a seguir:
“Marcos: É com pesar que comunico, com extremo sofrimento, que consegui descartar meu chinelinho de tecido floral de cor lilás. Que eu amo de paixão, já sem tecido no calcanhar, desfiado e com o dedão cutucando e querendo aparecer embaixo do pano. Tinha em casa um novinho em folha, branco com vermelho, liiiindo, também de tecido, mas... não me motivava!
Mas, com sua crônica, criei coragem, peguei na mão aquela belezura lilás e, com um esforço extremo, dei para o meu filho e disse: ‘Podes colocar no lixo por mim?’ E lá se foi para dentro do saco sem ele imaginar o esforço que fiz. Estou nos pés com a lindeza do chinelo novo, branquinho, com vivo vermelho, desenhos da mesma cor, de coraçõezinhos e uns risquinhos imitando o batimento cardíaco dos eletrocardiogramas.  Provavelmente deve ser o meu coração chorando de saudades do floral lilás. Obrigada pela força”.

Ao ler o email, sofri com Maria Angélica a dor que ela sentiu ao decidir abandonar seu antigo e parceiro chinelinho floral lilás. Se alguém encontrar esse chinelinho em algum contêiner de lixo aí da cidade, mande-o aqui para casa! Meu velho e furado chinelo marrom vai adorar conhecer a floral lilás...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de setembro de 2014)

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Temas em fila

“Quem inventa, aguenta”, dizia o ditado que usávamos em nossa infância, quando queríamos nos livrar de algum abacaxi e empurrá-lo às mãos de outro coleguinha, irmãozinho, priminho. Mas o dito também tem uso autoaplicativo, e serve como uma luva quando não temos a quem culpar por nossas escolhas e decisões, a não ser a nós mesmos. E é assim: inventou, tem de arcar com as consequências. Aguente.
Eu, por exemplo, que inventei de ser cronista, agora, eu que aguente. Inventei de ser cronista e, ainda por cima, de optar por tentar exercitar aquela espécie de texto focado nas pequenas irrelevâncias significativas do cotidiano, nas quais o insumo básico consiste em uma mescla de bom humor, sensibilidade, observação acurada, uso indiscriminado das metáforas, temas para o debate nas entrelinhas, a experiência pessoal servindo de base para a reflexão universal, essas coisas. Para isso, tenho de buscar inspiração e assunto em tudo o que me cerca, tirando leite de pedra quando a vaca ameaça ir para o brejo. Inventei, tenho de aguentar.
Ontem, por exemplo, tergiversei aqui (também uso palavras pouco usuais às vezes, para valorizar o meu passe) sobre a importância psíquica de pequenos objetos do cotidiano como uma xícara lascada, um blusão esgarçado e um velho par de chinelos. Mas, para quê! Bastou isso para que agora todos os pequenos objetos que se julgam significativos aqui de casa passassem a pensar que também devem ser vistos como tema para minhas crônicas. E há agora uma fila deles aqui em volta do meu computador, querendo ser citados.
Estão ali o molho de chaves da casa, a cadernetinha onde anoto ideias, o calendário de mesa em que vou riscando os dias, o bottom dos Beatles adquirido em Buenos Aires, o bonequinho de John Lennon que desgarrou dos outros três parceiros lá da sala, o relógio de bolso que era de meu avô, a pequena ampulheta com areia cor-de-rosa, a esfera transparente que remete ao livro borgeano “O Aleph”, o canivete suíço de trocentas utilidades, o tênis velho que está com ciúmes do chinelo de ontem, até mesmo a almofada para carimbo.

E agora, o que faço? Inventei, aguentarei. E dê-lhe ideia para crônica...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 19 de setembro de 2014)

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A xícara lascada

Aquele velho par de chinelos de lã esgarçado pelo tempo e pelos dedões do pé, cuja ponta já começa a ficar ralinha, prenúncio de furo a rebentar logo, logo. Aquele blusão de dez anos atrás, que já passeou pelos agitos da noite, cujo uso agora ficou restrito aos domínios da casa, ou melhor, do quarto de dormir, transformado no mais confortável e aconchegante pijama do planeta. Aquela xícara que veio nem sabemos de onde, mas que compõe a mesa do café da manhã todo o santo dia há anos, mesmo com a lasquinha na borda decorrente de uma lavada estabanada de louça, e na qual o sabor do café com leite fica inigualável. O que essas peças têm em comum?
Primeiro, que, se depender de nossa vontade, são objetos que jamais irão para o descarte. As campanhas sazonais de doações de roupas receberão, sim, aquela calça de dois anos atrás, o casaco em ótimo estado que sai do guarda-roupas por uma questão de espaço, o par de sapatos que ainda reluz como novo, sim. Esses a gente doa adiante sem sofrer a dor da separação.  Mas o chinelinho aquele de quase-furo, que envolve nosso pé por já ter se transformado em uma cápsula anatômica perfeita, totalmente personalizada (ou seria pé-sonalizada?), esse não sai de casa nem que a vaca tussa, e ainda assim, se tossir a vaca, tem aqui um xaropinho de ervas verdes que minha sogra faz que é milagroso e posso ceder uma colher ao bicho, caso queira limpar a garganta.
Segundo, são objetos de estimação que, de alguma forma (ajudem-me, psicólogas), produzem uma representação material, táctil e visual do conchego interno que buscamos nas pequenas coisas do cotidiano para simbolizar a segurança psíquica de que precisamos para enfrentar os desafios do dia a dia (acertei na percepção ou bati na trave?). O chinelo furado, o blusão esgarçado e a xícara lascada são bengalas psicológicas que nos permitem uma conexão com a sensação infantil de aconchego materno perdida com o processo de adultização a que somos submetidos pelo andar das horas.

Podemos deixar para trás o peito materno, os ursinhos de pelúcia e as espinhas. Mas aquela xícara lascada segue ali, firme, em mais um café da manhã.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de setembro de 2014)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Batman na sala

O Batman está lá na sala desde sábado à noite, quando foi esquecido embaixo do pufe por meu afilhado, que apagou no colo da mãe pouco depois de se lambuzar com algumas fatias de pizza. Na hora de ir embora, o mutirão para arrebanhar os brinquedos trazidos junto não contou com a participação do adormecido João Vitor, o único que sabia do paradeiro do vigilante mascarado, a transformar momentaneamente o pufe da sala em batcaverna.
Batman está aqui a nos fazer companhia desde então, esperando a hora de retornar ao convívio de seu legítimo dono, o que deve ocorrer nos próximos dias. Ontem ainda, ao puxar uma das cadeiras da mesa de jantar, pisei em algo que fez “quick” e era um carrinho de borracha representando personagem de um desses novos desenhos animados. Agora está lá ao lado de Batman, engrossando o kit de brinquedos a serem devolvidos.
Lembrei-me do ex-prefeito Mario David Vanin (1941-2011), que gostava de relatar a festa que fazia quando recebia a visita dos netos em casa aos finais de semana. Depois disso, passava os dias seguintes se deparando com brinquedos perdidos no banheiro, debaixo do travesseiro, sob o tapete da sala, por tudo. “De onde menos se espera, salta um bonequinho”, dizia. Quem tem neto, sabe. Quem tem afilhado, também.
Mas o Batman de meu afilhado provou ter serventia prática além de ficar adornando o topo da televisão da sala, que foi onde eu o pendurei a fim de estar à vista para ser lembrado no próximo encontro familiar (se eu lembrar do Batman, lembrarei também do carrinho de borracha que ficou enfiado dentro da caixinha dos controles remotos). Ontem foi dia da vinda da faxineira. E qual minha surpresa, à noite, ao perceber que Batman não estava mais sentado em cima da tevê, mas, sim, emborcado de cabeça para baixo na caixinha dos controles, espremido contra o carrinho.

Significa que Batman foi tirado de lugar pela faxineira, e significa que ela, sim, limpou o pó de cima da tevê, conforme tratei de verificar ao recolocar Batman em seu devido lugar. Bonequinho útil, esse daí. Não sei se volta. Semana que vem, antes da nova faxina, pendurarei Batman em outro lugar estratégico...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de setembro de 2014)

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sobre uma gatinha

Lamento, mas a justificativa aplicada não cola. Preciso de mais, muito mais argumentos para que a empresa japonesa detentora dos direitos autorais sobre Hello Kitty me convença de que a simpática e doce personagem dos desenhos animados e dos quadrinhos não é uma gatinha, e sim, uma menininha, como quiseram nos engrupir essa semana. Não, essa não!
A exemplo de milhões de pessoas ao redor do planeta, fiquei chocado com a revelação de que Hello Kitty, criada em 1974, com seus bigodinhos de gatinha, suas orelhinhas de gatinha, suas patinhas de gatinha, sua manha de gatinha, não seria uma gatinha, e sim uma menininha humana. Nanana, para cima de mim, não, jacaré, qual é? Não se brinca assim com o imaginário infantil das pessoas, mesmo que essas pessoas já estejam mergulhadas no mundo adulto há décadas. Afinal, nossos heróis da infância prosseguem vivos e ativos dentro de nossas psiquês, e entre eles lá está ela, Hello Kitty, a ga-ti-nha.
Sanrio, a tal da empresa japonesa, embasa sua tese de que a personagem não é gata e sim ser humano com um argumento frágil e falho. Segundo eles, “nunca ninguém a viu de quatro”, portanto, ela é uma bípede e, por consequência, humana. Ora, pois, pois, caros senhores engravatados executivos da Sanrio, que papo é esse? Pra cima de nós? E que me dizem então do Mickey Mouse, o camundongo? Mickey é um rato e também nunca foi visto de quatro. O mesmo se dá com o Pateta, que é um cachorro e sempre andou sobre duas patas. E o gato Tom? E o rato Jerry? E o Leão-da-Montanha? E Zé Colmeia? Catatau? Zé Buscapé?
Aimeudesdoceu, agora os exemplos não param de avalanchar minha memória, só para afogar os senhores Sanrio de argumentos: e a Tartaruga Touché? E as Tartarugas Ninja? E a Clarabela, que é uma vaca? E a onça Galileu, o jabuti Moacir, a lebre Geraldinho, o tatu Pedro Vieira, da Turma do Pererê, criada por Ziraldo?

Não, só um pouquinho, péra lá, não se mexe assim impunemente com nossos fundamentos ficcionais. Longa vida à Hello Kitty, a gatinha! Gatinha!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de agosto de 2014)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Quem é que manda

No último domingo, dia 24 de agosto, o país relembrou os 60 anos da morte do ex-presidente Getúlio Vargas, que tirou a própria vida com um tiro no peito em 1954, comovendo a nação e fazendo história. Carismático e sempre acessível apesar de encarnar o poder no país durante décadas, Vargas imprimia profunda impressão em quem tinha a oportunidade de travar alguma relação com ele. Meu avô materno é uma dessas pessoas.
Como todo o avô que se preze, ele é um contador de “causos” e, entre os de sua preferência, figuram aqueles envolvendo Getúlio Vargas, a quem conheceu pessoalmente por ter sido militar em São Borja naqueles tempos. Ele era sargento do Exército após a queda do Estado Novo, a ditadura de Vargas que desabou em 1945 com o fim da Segunda Guerra Mundial. Deposto do poder pelos novos ventos democráticos, Vargas refugiou-se em sua fazenda no interior de São Borja. Certa feita, meu avô conduzia um batalhão do Exército para treinamento por aquelas redondezas, a cavalo, quando Getúlio, também a cavalo, o encontrou em uma estrada de chão batido. Durante duas horas, cavalgaram lado a lado e conversaram.
Anos depois, em 1951, Getúlio Vargas retornou ao poder como presidente da República eleito democraticamente. São Borja, sua terra natal, preparou-lhe uma recepção, com honras militares. Meu avô, o sargento, integrava o grupo de militares que se perfilavam no salão onde a homenagem acontecia. Quando Getúlio entrou, o comandante deu ordem de “sentido” para que a tropa fosse passada em revista. Ao se aproximar de meu avô, o presidente reconheceu o companheiro de cavalgada e de prosa de anos atrás e, quebrando o protocolo da solenidade militar, estendeu-lhe a mão para cumprimentá-lo. Meu avô respondeu ao cumprimento e ambos sacudiram as mãos.
Na manhã seguinte, ao chegar ao quartel, a discussão entre seus superiores era sobre se ele havia agido certo ao sair da posição de “sentido” para cumprimentar o presidente da República ou se deveria sofrer punição por ter desacatado a ordem do comandante. Meu avô solucionou a questão respondendo que, na hora, teve de agir rápido e ponderou que aquele que lhe estendia a mão para cumprimentar mandava mais do que o comandante que havia dado a ordem de “sentido”.
Fim de discussão e a moral da história (segundo meu avô): é muito importante sempre saber exatamente quem manda, para não correr o risco de cair do cavalo. Ora, pois.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de agosto de 2014)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Sob a ponta das tesouras

O bom é que cem por cento das barbearias obedecem ao mesmo padrão arquitetônico e são envidraçadas, permitindo que o freguês cabeludo ou barbudo faça uma avaliação prévia do movimento antes de entrar, o que é importante para o relógio e para a paciência. Para o relógio porque, dependendo do número de clientes acotovelados no banquinho à espera de sua vez de ir para a navalha (utilizada pelo barbeiro para raspar aqueles pelinhos que se agrupam atrás da nuca sem que você os veja, provavelmente falando sempre mal da vizinhança), é melhor você dar meia-volta e retornar mais tarde, senão, vai se atrasar para a reunião com o cliente da manhã.
E bom para a paciência porque, se você tem a vista ainda acurada, consegue detectar de longe a presença ali do chato do Rostolfo, que se agarra em seu braço para contar piadas soltando perdigotos, ou ainda a do Palhares, para quem você deve, nunca nega, mas não paga justamente para torturá-lo um pouquinho, que ele merece. Aí, rodopia-se sobre os próprios calcanhares e vai-se bater em outra vizinhança, na concorrência do barbeiro.
Mas o interessante mesmo nesses estabelecimentos cruciais para a manutenção da boa aparência macholina é a pauta de discussões que se estabelece entre o profissional das tesouras, o destemido que vai sendo por ele descabelado na poltrona e a homarada que povoa o estabelecimento, uns para o corte e outros para encher o tempo (deles) e a paciência (dos demais). Ontem, por exemplo, dia de corte não porque a lua era propícia mas porque a esposa já descabelava os dela por causa dos meus, fui-me ao distinto salão que frequento ali no centro e participei animadamente de uma discussão sobre o horror das touradas, que era a pauta que rolava solta quando penetrei no ambiente.
Assunto estimulante e caudaloso, rendeu diversas variações e, ao sair da cadeira, menos peludo e mais arejado, já me irmanava aos demais na torcida sempre a favor dos touros. Mês passado discutimos acaloradamente os preâmbulos da Copa do Mundo, por exemplo. E assim vamos navegando de tópico em tópico, saltando dos desmandos da política para os buracos nas estradas; do descaso com a saúde ao futebol; das doenças de cada um e em especial da que matou o porteiro Vasques semana passada.

Como é? A amiga leitora quer saber se falamos de mulheres? Lamento, querida, porém, ao contrário do que vocês imaginam, dificilmente vocês estão na pauta do dia. Assunto de homem é sempre essa coisa sem graça mesmo...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 8 de agosto de 2014)

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Sem desgosto

Gosto de agosto. Não compartilho da crença popular que atribui ao oitavo mês do ano a pecha de período aziago, pelo que cunharam e repetem à exaustão a expressão “mês do desgosto”. Eu, com essa minha mania de embrenhar-me pela contramão (sempre a pé, jamais no trânsito), desconcordo do desgosto e gosto de agosto, a meu gosto.
Sim, porque agosto me parece que traz uma espécie de recarga vital de nossas energias psíquicas. A típica correria de início de ano, que no Brasil se inicia com o término do Carnaval, finalmente já passou, as férias foram cumpridas e também já solucionamos o corre-corre da volta às aulas e os presentes da Páscoa e os do Dia das Mães e já fomos a Caravaggio e já sabemos quem venceu o Gauchão, o Brasileirão está encaminhado, Copa do Mundo só daqui a quatro anos e para as Olimpíadas ainda faltam dois (o que, em nossa tendência para deixar tudo para a última hora, ainda é uma eternidade), enfim, a lista de afazeres a fazer começa a ser menor do que a relação dos afazeres já feitos.
Chega agosto e já estamos definitivamente habituados ao novo ano, que de novo não tem mais nada. Já vestimos a camiseta de 2014 e trancafiamos definitivamente 2013 nos cofres da memória. O novo ano ainda se situa a uma distância regulamentar plausível, sem ameaças ao aumento de nossos níveis de ansiedade e se configura como um futuro inexorável, mas ainda distante, em relação ao qual não precisamos dispender maiores energias, a exemplo do prêmio da megassena que seguramente ainda vamos tirar um dia, a aposentadoria, a velhice, a morte, essas coisas todas que o escritor argentino Jorge Luis Borges não hesitaria em classificar como “seres imaginários”.
Mas agosto está aí, estamos nele e ele é bem palpável. É em agosto que nos tornamos irremediavelmente cidadãos do nosso tempo: somos 2014! É agora, por exemplo, que damos aquela paradinha básica para recuperar o fôlego e detectar, na lista de metas elencadas no afã e no embalo do champanhe do Ano-Novo recém-passado, aquelas que definitivamente não é nesse que iremos cumprir.

Agosto está para o calendário do ano assim como os 15 minutos de intervalo estão para a partida de futebol. Com a diferença de que, na vida real, não temos tempo para trocar a camiseta e rever as táticas para chegar ao gol. O gol da vida segue sendo o mesmo e a tática infalível é conhecida de todos: respirar fundo e seguir em frente, que logo, logo, entra setembro...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de agosto de 2014)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O guacamole impossível

Assim como nossas qualidades, também nossas incompetências vão se revelando a conta-gotas ao longo de nossas existências. Para que surjam e se apresentem, é preciso vivenciar experiências diferentes e surpreendentes de vez em quando, que vão fazer despertar em nós as habilidades ou as inabilidades.
Sim, porque, por exemplo, não tem como saber se você possui competência para pilotar um caça ultramoderno da Força Aérea Brasileira sem antes assentar-se dentro da cabine de um desses aparelhos, colocar o cinto de segurança, arrumar o espelho retrovisor e ligar a chave da ignição. O que é, meu senhor? Como? Caças não possuem chave de ignição e espelho retrovisor coisíssima nenhuma? Pois então, viu? Melhor eu passar bem longe de um caça ultramoderno da Força Aérea Brasileira (depois vou olhar no google... eu jurava que tinham, sim, chaves de ignição, duvido que façam essas coisas pegarem voo no tranco; e sem espelho, como é que vão saber que vem avião inimigo por trás, mas enfim...).
Mas quero falar de abacates. Eu descobri, por sucessivos malogros próprios, que sou portador de incompetência crônica no quesito “detectar se o abacate está no ponto certo para ser consumido”, ou seja, se está devidamente maduro para ser devorado in natura, ou para servir de base crucial para a produção de um delicioso guacamole ou ainda para mergulhar no liquidificador e transformar-se em um irresistível mousse com leite condensado. Tenho competência extremada para preparar guacamoles e mousses de abacate, porém, minha destreza para identificar um abacate maduro é igual a zero.
Eu primeiro faço contato visual com a fruta adormecida ali no cestinho, em casa. Daí, me aproximo devagar, sem assustá-la, e apalpo delicadamente sua casca com as pontas de alguns dedos, imaginando que, com a sensação causada pelo toque, serei capaz de identificar o grau de maturidade da fruta e, via de regra, erro. Se acho que está maduro, decepo o abacate pelo meio e pá: lá está ele, duríssimo e verde, imprestável para o consumo. Se acho que agora está no ponto, epa: dormi na palha e o abacate está podre, rumando direto para o lixo orgânico. No que se refere a abacates, tateio no escuro.
Não tenho essa competência. Desisto. Melhor é me resignar a comer guacamole e mousse de abacate na casa dos outros. Convites para este e-mail...

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de julho de 2014)

terça-feira, 29 de julho de 2014

Ação temerária

Pisar em terreno desconhecido sempre é uma atitude temerária. Por mais destemida que a criatura seja, sempre haverá o risco de o sujeito dar-se mal devido à falta das informações que lhe seriam cruciais para o bom termo da empreitada. Isso é um fato.
O terreno desconhecido em que temerariamente adentrei dia desses foi a penteadeira de minha esposa, aquele movelzinho delicado e simpático que habita nosso quarto e que representa um domínio até então incólume às manifestações de minha presença. Deu-se que, em um final de tarde em que minha esposa estava no trabalho e eu em meu home office, precisei aprumar-me às pressas para um compromisso social no centro da cidade e tive de fazê-lo sozinho, sem as importantes intervenções dela no lapidar de meu visual, o que costuma garantir em mim um cabelo penteado, os pelos das orelhas tosquiados, os botões da camisa abotoados cada um em sua casa correspondente, as cores das roupas combinando sem causar traumas coletivos, coisas desse tipo.
Mas eu estava sozinho e tinha de me virar por conta própria. Tudo corria bem até o momento em que, já nos finalmentes, olhei-me com atenção no espelho do banheiro e percebi que a pele de meu rosto, devido à umidade ambiente, havia “explodido” em dermatites já nossas conhecidas. O tubinho com o creme dermatológico havia acabado e, nesses casos, o recurso tradicionalmente empregado é recorrer a uma maquiagem temporária à base de pó-de-arroz. Quem faz as aplicações em mim é, obviamente, minha esmerada e detalhista esposa que, como já vimos, estava em falta naquele dia, àquela hora. Que fazer?
Ora, destemido (ou inconsequente) como sou, resolvi invadir os domínios da penteadeira e efetivar por conta própria a ação maquiadora de imperfeições que, a bem da verdade, não haveria de interpor maiores dificuldades. Sonho meu. Quem disse que um homem do sexo masculino como eu tem capacidade para reconhecer, entre as dezenas de potinhos e tubinhos dos mais variados tipos, exatamente aquele de que estava necessitando? Abre esse, não é. Aquele, também não. Isso me parece esmalte. Aquilo, um miniespanador. Ali, uma caixinha repleta de cores como se fosse uma palheta de aquarelista. E o relógio correndo, insensível.
No desespero, abri um estojinho, taquei na cara um pouco do conteúdo do que quer que fosse e fui-me ao compromisso. Dessa vez, não passei despercebido em meio à multidão e senti que os olhares não desgrudavam de minha pessoa ao longo da noite. Atribuí tudo à crença de que havia aprimorado minha arte de falar em público e também meu magnetismo pessoal, porém, à noite, minha esposa quis saber o que eu andara fazendo com o blush que enfiara na cara, vermelha como um pimentão de feira. Mas é que sou destemido.

                                                                                          
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de julho de 2014) 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Mande-me uma carta

Cada um com seus gostos, já dizia Não-Sei-Quem fazendo não-sei-o-quê. Você tem os seus, eu tenho os meus, e às vezes as coisas convergem. Assim é a vida, um entrelaçamento interminável e imprevisível de pontos de convergência que aproximam uns aos outros, e de divergências, que nos afastam. Nas aulas da quarta série frente ao quadro-negro, essa premissa profundamente filosófica já podia ser antevista por nossos olhinhos esbugalhados (fazendo coro aos joelhos esfolados e os pés que balançavam no ar na carteira sem ainda tocarem o chão) quando a professora coloria com giz amarelo aquela fatia duplamente convexa que surgia do entrelaçamento de duas esferas ali desenhadas, chamada “intersecção”. Eu era fascinado por intersecções.
Mas tergiverso, percebo-me, e antes que me perca irrecuperavelmente pela senda do devaneio, tragamo-nos de volta ao que pretendia discorrer ao dar início a essas mal tecladas linhas. Falava de gostos. E com isso, tinha a intenção de compartilhar com o tolerante e compreensivo leitor mais uma de minhas preferências que, dependendo da forma como as abordo, acabam se revestindo com uma película nem sempre deliberada de esdrulixidade (palavra recém-nascida que pretende passar a sensação de “qualidade daquilo que é esdrúxulo”). Adiante.
Falava de gostos para então revelar o fato de que aprecio muito as listas. Gosto de fazer listas de todas as espécies, sobre todas as coisas e, por paralelismo e coerência, gosto também de ler listas. Sempre que surge uma lista do que quer que seja nos sites pelos quais navego, paro, clico, acesso e bisbilhoto. Não consigo evitar de fazê-lo. E nem tento, confesso. Entrego-me ao doce prazer de saborear listagens sobre tudo: as dez músicas de rock mais bacanas do planeta (discordo de várias, irrito-me com as ausências, produzo minha própria lista); os dez melhores escritores do sistema solar (discordo de vários, irrito-me com as ausências, produzo minha própria lista); as dez melhores receitas para fazer com salmão defumado (anoto tudo, porque nunca fiz nenhuma receita com salmão defumado na vida) e assim vai.
Mas a lista que li na internet esta semana me deixou triste. É uma lista elencando as dez profissões que estão em vias de extinção no mundo moderno. Começa pela de carteiro. A cada ano que passa, diminui o número desses profissionais no planeta, porque seus braços e pernas percorrendo fisicamente distâncias para nos entregar cartas estão sendo suplantados pelo uso cada vez mais corrente do correio eletrônico. Acho uma pena. Vejo romantismo e poesia na atividade dos carteiros e estamos assassinando a profissão a cada e-mail que disparamos. Leitores: salvemos os carteiros. Não me enviem e-mails divergindo ou convergindo. Enviem-me cartas!

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de julho de 2014)