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quinta-feira, 26 de junho de 2014

O mais belo livro

Não tem jeito, a regra é essa e jamais será diferente: toda a boa história sempre chega a um fim, por mais que estejamos apreciando seu desenrolar. No cinema, as luzes vão se acender, surgirão as letras do “The End” e você terá de se retirar da sala. Aquele romance caudaloso, de centenas de páginas saborosas, inevitavelmente vai conduzir os olhos do leitor para o desenlace final. Tanto o bom filme quanto o bom livro, depois de apreciados, serão remetidos para a memória, e passarão a fazer parte de nossas próprias histórias de vida, servindo de referência, de amparo, tanto nas boas horas quanto nas difíceis, em que precisaremos de alento por meio do exemplo.
Assim também se dá com aquelas pessoas queridas que cumprem suas trajetórias de vida e depois nos deixam. Quando são pessoas marcantes, ativas, positivas, propositivas, daquelas que vêm ao mundo para fazer a diferença entre os que as cercam, seu passamento se equivale ao fim de um bom filme, ao término de um bom livro. Essas pessoas encerram suas trajetórias físicas entre nós, porém, deixam um legado infinito, que se mantém vivo nas nossas lembranças, seguindo sua missão de fazer a diferença entre nós, agindo como amparo e exemplo. Somos gratos a essas pessoas e felizes por termos tido o privilégio de conhecê-las, de termos podido fazer parte de seu mundo e por termos enriquecido nossas próprias histórias a partir do contato com elas.
Assim se dá com a escritora e professora Maria Helena Balen, que fechou o livro de sua história de vida ontem, aos 76 anos de idade completados apenas três dias antes. Era minha amiga, colega da Academia Caxiense de Letras (entidade que chegou a presidir), patrona da Feira do Livro que me antecedeu e me passou a honraria, parceira no compartilhar a alegria de ler, de escrever, de cronicar e de viver. Como todos os que a cercavam, vou sentir falta do seu bom humor, de seu abraço generoso, do estilo elegante de seu texto, da sensibilidade que se ampliava à medida da moldagem da sabedoria que extraía do pensar a existência, da conversa amiga, do exemplo vívido da participação ativa em seu meio, da percepção que tinha da importância de se importar.

Maria Helena Balen vai fazer falta. Vai fazer aquela falta impreenchível que fazem as pessoas raras e iluminadas, generosas e partilhadoras de vida. E, como fazem as pessoas como ela, encontraremos conforto para essa falta na lembrança daquilo que elas foram e de todo o legado humano que nos deixaram. Maria Helena, você foi um dos livros mais belos que já tive a oportunidade de ler. Obrigado.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de junho de 2014)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Mal na foto

A Senhora X e eu fomos colocados em contato por intermédio de uma amiga em comum sabedora de nosso interesse pelo desenvolvimento de determinadas pesquisas históricas. Por e-mail, trocamos informações preliminares e marcamos de nos encontrar certa tarde na casa dela, a fim de nos conhecermos e darmos início a uma parceria que viria a ser útil a ambos. Até aí, tudo bem. Ela me recebeu efusiva, feliz por me ver em pessoa, leitora que se disse ser de meus textos aqui, acolá e alhures. Problema foi quando apareceu o marido.
Também simpático, ele chegou na sala, apertou minha mão, olhou-me fixo nos olhos por alguns instantes, observou minhas feições e sentenciou: “Você não se parece com a foto do jornal”. Desconcertado, pensei rápido e apelei para meu tradicional humor duvidoso: “Sim, o senhor tem razão. Sou mais bonito ao vivo”. Ele deu uma risadinha e saiu da sala, deixando-me com a impressão de que discordava de meu argumento.
Porém, o que o marido da Senhora X conseguiu foi infestar minha orelha com pulgas. Por que diabos eu haveria de não me parecer com a fotinho que encabeça ali a coluna? Estaria ela desfocada? Embaçada? Aguada? Ou pior: e se nada houver de errado com a foto, mas sim com minha imagem real ao vivo? E se o aguado, o desfocado e o embaçado for eu mesmo, em carne e osso e óculos?
Procuro me confortar recordando que já houve vários casos em que desconhecidos me reconheceram na rua justamente devido à foto no jornal. Tudo bem que certa vez um deles me cumprimentou entusiasticamente por uma crônica maravilhosa que na verdade fora escrita pela Maria Helena Balen. Recebi o elogio constrangido e me ralando de inveja da Maria Helena, naturalmente. Mas não quis esvaziar o entusiasmo do leitor em relação ao texto que, de fato, era ótimo, como não poderia deixar de ser. Fico até hoje me segurando para não telefonar à Maria Helena e perguntar se já ocorreu de ela receber cumprimentos equivocados (e entusiasmados) por escritos brilhantes de minha autoria atribuídos a ela, mas temo descobrir que “não, nunca, querido, mas não se preocupe, você escreve direitinho”.

Isso tudo me faz desconfiar de que talvez eu possa estar mesmo meio mal na foto. Preciso me parecer visualmente comigo mesmo, e urgente. Ficarei assustado se amanhã ou depois alguém passar pela rua e me cumprimentar dizendo: “Olá Maria Helena, belo texto hoje”!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de dezembro de 2013)