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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Na órbita de Plutão

Olha, gente, eu, por mim, Plutão é planeta e ponto. Eu sei que, na condição de “cronista mundano” (que era como o mestre Sérgio Porto classificava esses que escrevemos sobre o tudo o que há no nada e o nada que há em tudo), eu não deveria ficar dando pitaco nas áreas dos outros, mas tem vezes que a gente não resiste, como no caso do coitado do Plutão.
Como todos que vivemos no mundo da lua bem lembramos, Plutão foi rebaixado de sua condição de planeta para a categoria de “planeta anão” em 2006, em uma decisão tomada por algumas centenas de cientistas reunidos em um congresso internacional de astronomia. Plutão estava lá, quietinho, cumprindo sua milenar trajetória orbital ao redor do Sol, último da fila dos planetas, bem depois de Urano e Netuno, quando foi surpreendido com a notícia de que estava expulso do seleto grupo dos planetas do sistema solar. Assim, sem mais, sem direito a defesa, sem vez a voto e nem a voz.
E o que Plutão fez em relação a isso? Ora, nada! Continuou quietinho lá, nos confins do sistema, dando de ombros metaforicamente, refletindo que “esses astrônomos são de lua mesmo, eles que pensem o que quiserem a meu respeito”. E dê-lhe mais uma volta ao redor do Sol, surfando na poeira estelar. Quem se indignou mesmo foram as pessoas nascidas sob o signo de escorpião, que passaram a ser regidas por um rebaixado planeta anão. Puro desaforo e discriminação astrológicas! Ficou parecendo coisa de político populista querendo fazer moral com o eleitorado, apresentando plano de redução e enxugamento tão astronômico que corta até o número oficial de planetas.

Pois agora, às vésperas de novo congresso internacional de astronomia, noticia-se que já existe um forte grupo de cientistas (escorpianos, imagino) se movimentando para restabelecer a honra perdida e o título surripiado de Plutão, reconduzindo-o ao status de planeta. Eu aqui, mesmo canceriano e regido pela inconstante lua, sou a favor. Até porque, tudo não passa de soberba humana, essa espécie que acredita ter poder de influenciar o que existe tanto no céu quanto na Terra. Melhor fazer que nem Plutão: dar de ombros e seguir rodando.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de outubro de 2014)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Reflexão eclipsada

Existem dois tipos de finais de semana: aqueles em que você só descansa e aqueles nos quais você se cansa. Em sendo finais de semana, claro que, em essência, são sempre prazerosos, mas o último enquadrou-se, para mim, na segunda categoria, uma vez que foi composto por uma agenda intensa de atividades que incluíam duas longas viagens de automóvel pelas nossas selvagens estradas, pouco sono, uma festa de aniversário, o revisitar de parentes, almoços e jantares compartilhados e assim por diante.
Fui conseguir baixar a bola, relaxar e descansar mesmo somente a partir do entardecer de domingo, quando enfim pude calçar as chinelas, lançar-me ao sofá da sala, esticar as pernas para cima do pufe e começar a folhear os jornais sabatinos e dominicais. Lá pelas tantas deparei com uma notinha que me chamou a atenção. Dali a poucos minutos, por volta das 19h, seria possível visualizar no céu, na altura do poente, um raro fenômeno astronômico: a lua eclipsaria, durante alguns minutos, o planeta Vênus, oferecendo um espetáculo bonito e único caso a noite estivesse bela e clara.
Larguei o jornal, ejetei-me do sofá e dirigi-me à janela da sala para constatar se a noite estava bela e clara. Pois estava, e arrebanhei a família para descermos do prédio e irmos para a calçada a fim de observar o eclipse diferente. Dito e feito, lá estava a lua, no formato crescente, uma unha de luz rasgando o escuro do céu, sendo tocada de leve em uma das pontas pelo brilho arredondado e intenso de Vênus, como um diamante a reluzir na superfície de uma aliança.
Em silêncio, ficamos contemplando aquilo, cada um imerso em seus próprios pensamentos e divagando seus conceitos de poesia, quando alguém me perguntou quantos planetas existiam no nosso sistema solar, além daquele Vênus que ali observávamos a distâncias astronômicas e da Terra, na qual pisávamos. Falei então dos oito planetas e da tristeza de os astrônomos terem, poucos anos atrás, demitido Plutão, o último da fila, da lista oficial de planetas, reclassificando-o como um reles planeta-anão.

Terminei o domingo entristecido pela sina de Plutão, que, para mim, segue integrando minha listagem clássica dos planetas de nosso sistema. Afinal, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno já estavam acostumados com a vizinhança dele. A gente não deve se desfazer assim tão fácil de um amigo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de setembro de 2013)