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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Pescador de Sputniks

O fascínio de cravar os olhos no céu na escuridão da noite para caçar estrelas eu herdei de meu avô materno ainda na minha infância, quando, nos anos 1970, íamos passar temporadas de férias na fazenda que ele possuía no interior de São Borja. Não havia luz elétrica naquelas funduras, a geladeira funcionava a partir de um motor a diesel, a água fresca era puxada de um poço e os banhos, tomávamos com água fria derramada dentro de um regador emborcado ao avesso no interior de um cubículo distanciado da casa.
Depois do jantar, as noites sem televisão (e sem internet, facebook e congêneres, com os quais nem sonhávamos) eram curtidas em família na escuridão da varanda, do lado de fora da casa, escutando grilos e sapos, observando o voejar de vaga-lumes, praticando o ato de sermos gente. Meu avô se abraçava a um enorme rádio que captava ondas curtas de emissoras de todas as partes do mundo e ficava zapeando de ponta a ponta no dial, trazendo-nos falações em russo, alemão, inglês, francês e outras línguas que não identificávamos. Lá de vez em quando, olhava para um canto do enorme céu preto estrelado, apontava e dizia “Maco (pois que me chamava de “Maco”), olha lá, daqui a pouco vai cruzar o Sputnik por ali”. E, de fato, logo o céu era riscado por uma luzinha piscante que cruzava veloz exatamente na direção em que ele apontara. Era um satélite artificial, que cumpria no horário certo sua passagem por aquelas plagas estelares. Para meu avô, todos aqueles artefatos eram sputniks, em alusão ao primeiro satélite artificial colocado em órbita da Terra pelos soviéticos.
Depois, passava a dar aulas de astronomia prática. Apontava para as luzes do céu e ensinava: “aquilo é Vênus e aquilo é Marte. Planetas não piscam. Estrelas piscam, como aquelas ali, as Três Marias, e aquelas outras lá, que fazem a constelação do Cruzeiro do Sul”. Era militar reformado, sabia se guiar pelas estrelas. Eu ia observando e aprendendo.

Até hoje sei reconhecer no céu todas as estrelas e corpos celestes que meu avô me ensinou. Afinal, eles seguem todos lá, imutáveis, em seus lugares no mapa do céu. O que mudou mesmo foram as gentes daqui debaixo. Não sei se ainda existe quem pesque sputniks.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de janeiro de 2015)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Reflexão eclipsada

Existem dois tipos de finais de semana: aqueles em que você só descansa e aqueles nos quais você se cansa. Em sendo finais de semana, claro que, em essência, são sempre prazerosos, mas o último enquadrou-se, para mim, na segunda categoria, uma vez que foi composto por uma agenda intensa de atividades que incluíam duas longas viagens de automóvel pelas nossas selvagens estradas, pouco sono, uma festa de aniversário, o revisitar de parentes, almoços e jantares compartilhados e assim por diante.
Fui conseguir baixar a bola, relaxar e descansar mesmo somente a partir do entardecer de domingo, quando enfim pude calçar as chinelas, lançar-me ao sofá da sala, esticar as pernas para cima do pufe e começar a folhear os jornais sabatinos e dominicais. Lá pelas tantas deparei com uma notinha que me chamou a atenção. Dali a poucos minutos, por volta das 19h, seria possível visualizar no céu, na altura do poente, um raro fenômeno astronômico: a lua eclipsaria, durante alguns minutos, o planeta Vênus, oferecendo um espetáculo bonito e único caso a noite estivesse bela e clara.
Larguei o jornal, ejetei-me do sofá e dirigi-me à janela da sala para constatar se a noite estava bela e clara. Pois estava, e arrebanhei a família para descermos do prédio e irmos para a calçada a fim de observar o eclipse diferente. Dito e feito, lá estava a lua, no formato crescente, uma unha de luz rasgando o escuro do céu, sendo tocada de leve em uma das pontas pelo brilho arredondado e intenso de Vênus, como um diamante a reluzir na superfície de uma aliança.
Em silêncio, ficamos contemplando aquilo, cada um imerso em seus próprios pensamentos e divagando seus conceitos de poesia, quando alguém me perguntou quantos planetas existiam no nosso sistema solar, além daquele Vênus que ali observávamos a distâncias astronômicas e da Terra, na qual pisávamos. Falei então dos oito planetas e da tristeza de os astrônomos terem, poucos anos atrás, demitido Plutão, o último da fila, da lista oficial de planetas, reclassificando-o como um reles planeta-anão.

Terminei o domingo entristecido pela sina de Plutão, que, para mim, segue integrando minha listagem clássica dos planetas de nosso sistema. Afinal, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno já estavam acostumados com a vizinhança dele. A gente não deve se desfazer assim tão fácil de um amigo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de setembro de 2013)