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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A inércia dos legumes

Chega a ser comovente essa vocação que todas as coisas existentes no mundo possuem de preferirem permanecer como estão. A opção preferencial de todos e de tudo é ficar como está, ao menos, a princípio. Se é para testar o novo, que o façam aqueles que estão na frente. Se for de queimar, queimem-se eles, eu é que não. Se for seguro, avancem os outros primeiro, depois vou eu. Se for fundo, afundam os da vanguarda, eu, aqui no raso, dou meia-volta e retorno seguro para a base.
Afinal, alguém tem de restar para contar a história, não é o que dizem? Que seja eu, então, o contador. É mais seguro. É menos cansativo. Tem risco zero. O único risco é o de se ficar atolado para sempre na mesmice, mas não ligamos, adoramos manter intocada a nossa zoninha de conforto. Mesmo que essa zona de aparente conforto seja, na verdade, um pântano de areia movediça, onde justamente a nossa inércia é o que nos suga para o fundo. Porém, preferimos tapar os olhos com a peneira e ocultar a realidade de nós mesmos pelo mais longo tempo possível.
É assim, somos assim, tudo é assim. Tudo mesmo: desde as pessoas, passando pelos animais, pelas plantas e até pelos seres inanimados. Tenho provas disso todas as vezes em que me boto a cozinhar, por exemplo. Nem o chuchu refogado, nem as rodelas de cenoura cortadas em cubos gostam de serem mexidas de onde estão para migrarem à panela ou ao prato. Faça a experiência você mesmo: corte um chuchu em cubos. Coloque-os na panela com água para cozinhá-los. Depois de alguns minutos, leve a panela semitampada à pia para retirar a água. Agora, vire a panela sobre a travessa em que irá servi-los à mesa. Observe: há 32 cubinhos de chuchu na panela. Uns 28 irão cair dentro da travessa, na boa. Mas sempre haverá aquela meia dúzia que não cai por conta, como os outros. Precisarão ser retirados com a colher. Por que sempre há os que não caem?

Abra uma lata de milho e verta seu conteúdo sobre uma tigela. Haverá sempre aqueles seis ou sete grãos que se recusam a cair igual aos outros. Precisam ser removidos. São os inertes. Sempre existem. É sintomático. Reflito muito sobre a existência quando cozinho...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de dezembro de 2014)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Chuchus e melões

Todo criador sabe que o segredo para o sucesso reside no exercício de um procedimento conhecido como “erro e acerto”. A gente até pode se convencer de que possui um talento para determinada atividade, mas essa habilidade só vai ser desenvolvida com a sucessão de tentativas de produção, quando os erros nos ensinam a aprimorar o trabalho, que vai sendo coroado com os posteriores acertos.
Beethoven não nasceu compondo sua Nona Sinfonia lá no berço, chacoalhando o chocalho. Não. Ele foi moldando seu talento com erros e acertos. Provavelmente, fez como todo mundo: escondeu os erros e exibiu os acertos, que é a dica que fica aqui de lambuja para quem quiser brincar de gênio. Van Gogh deve ter começado rabiscando uma folha em branco com lápis de cor e mostrando a obra para seu pai, que olhou estranhado e disse: “que que é isso, Vincent, uma tempestade de areia?”, quando, na verdade, o futuro gênio impressionista imaginava desenhar uma catedral gótica. Erros, acertos. Com eles, a gente chega lá.
Exemplo disso é a Natureza, que, por ser quem é, tem a primazia de não eliminar da face da Terra seus erros, permitindo que os comparemos aos acertos, a fim de comprovarmos a evolução de seu talento criador. Na questão gastronômica fica fácil observar isso. Primeiro, veio o insosso e pálido chuchu, sem gosto, sem personalidade. Para saborear um chuchu, precisamos agregá-lo a temperos e condimentos, caso contrário, teremos a sensação de estarmos a mastigar água. Mas depois veio a moranga, aquela abóbora alaranjada, saborosíssima quando refogada, misturada a um guisado ou mesmo pura. A moranga é a evolução do chuchu, assim como a melancia é o aprimoramento do melão.

Outra lição que a Natureza ensina é o perigo da soberba do gênio. Nem sempre o criador produz genialidades, e pode incorrer no risco da inversão do processo, partindo de acertos para produzir erros. A Natureza, que não esconde nada, deixa à mostra também seus equívocos. Primeiro, fez o macaco, selvagem e inocente. Mas daí foi involuindo, involuindo, até chegar aos melões e chuchus que hoje controlam o planeta. Pecado de gênio, pois não?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de dezembro de 2014)