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segunda-feira, 5 de março de 2018

Saber como achar as joias


Sinceramente, a impressão que eu tenho é a de que, em algum ponto, há algo errado. Pode ser que o erro, no fim das contas, sopesadas todas as hipóteses, seja meu mesmo, e resida no fato de talvez eu não saber direcionar direito as minhas expectativas. Afinal, é aquilo, né: não espere colher melancia se o que você plantou foi abóbora. E também tem aquela outra, a máxima do Barão de Itararé: de onde menos se espera, dali é que não sai nada, mesmo. De qualquer forma, é impossível não detectar o florescer interno daquele arbusto da decepção e da desesperança, quando o assunto é... tchan tchan tchan... a programação da televisão paga!
Vamos aos exemplos, que são a forma mais prática e lúdica de representar a tese que se pretende sustentar. Dia desses, no meio da semana, tirei o olhar da tela do computador, em que desenvolvia um trabalho, e notei que a hora do almoço se aproximava, célere. Junto a essa percepção, invadiu-me a fome, que até então restava ali, domesticadinha, camuflada sob as ramagens da atenção voltada ao labor. Saí do escritório que tenho em casa (meu “home office”, chiquérrimo de mencionar) e rumei para a cozinha, determinado a fazer o almoço. Mas, fazer o que, se na véspera não havia pensado em nada e não deixara nenhum preparo encaminhado? Ora, aí lembrei que, recentemente, estreara na grade da tevê por assinatura um canal exclusivamente dedicado à gastronomia e imaginei que estaria ali a salvação de meu almoço. Bastaria ligar a tevê, sintonizar no dito canal e acompanhar a programação, de onde pescaria alguma ideia salvadora, apta a saciar o ardor famélico que excitava minhas papilas gustativas. Fi-lo, e ralei-me.
Liguei a tevê, sintonizei no dito canal e, em pleno meio-dia, deparo com que espécie de programação sendo exibida aos assinantes? Um leilão de joias! Repito: leilão de joias, ao meio-dia, no canal de gastronomia! O errado só pode ser eu, claro. Pepinamente errado, por esperar deparar com receitas, técnicas culinárias, documentários gastronômicos, no dito canal de gastronomia. Mas não, né! Ao meio-dia, claro, no canal de gastronomia, você vai assistir a um leilão de joias, esperava o quê? Olha, eu bem que tento, mas assim fica difícil não desligar a tevê e ir para a sala ler um livro (e depois dizem que a tevê não incentiva a cultura). É o que tenho feito, há décadas, diariamente, por sinal. Ah, e qual foi a salvação do almoço? Fácil: encontrei-a abrindo um livro de receitas de uma das várias coleções que possuo sobre gastronomia. Todas desprovidas de anúncios de joias...
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 5 de março de 2018)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O desandar da maionese

“Cada um com a sua fissura”, como já dizia o Keith Richards. Eu, hoje, vou falar sobre a minha, com a licença da madama leitora e do cavalheiro leitor, que devem ter também as suas, mas quem sou eu para pedir que revelem, até porque isso aqui não é divã de psicanalista, mas tão-somente uma croniqueta de segunda (de segunda-feira, que fique claro e se evitem os mal-entendidos, que de mau entendedor já bastamos eu certos senadores que assinam coisas sem ler pela aí, né, madama minha?). Pois, como eu ia dizendo (e não ia, porque o texto não engrenou de primeira devido aos parêntesis e às intercalações que tanto caracterizam este prolixo escriba que certos alguéns gostariam de des-caracterizar pro-lixo, mas, avante!). Como eu ia dizendo, direi a partir do segundo parágrafo, se ainda houver audiência.
Então, as fissuras. A minha, é por maionese. Sou fissurado por maionese. Maionese que, no meu entender de descendente de alemães oriundo de Ijuí, deve ser traduzida por salada de batata. Minha fissura de verdade, então, é por aquilo que chamo (e como) como salada de batata e que por essas plagas serranas define-se (e come-se) como maionese. Para mim, maionese é apenas um dos ingredientes utilizados para compor as irresistíveis saldas de batata, nas quais se utiliza batatas, maionese e penduricalhos que lhe vão acrescentando sabor e fazendo a diferença, tipo pepinos, azeitonas, rodelas de ovo cozido, salsa picada, crem (como, madama? Crem não? Ah, então crem não se usa em tudo? Cronicando e aprendendo. Crem não, então). Mas, classifiquem como maionese ou salda de batata, não importa. Minha fissura emerge das entranhas de minha gula e eu ataco sem dó nem piedade.

Sou um potencial candidato a vitimar-me por salmonela, porque basta disponibilizarem, em qualquer boteco, um pratinho de maionese ali no canto da mesa que meu radar detecta e eu crau! Quero nem saber, foi! Sei lá, devem ter metido maionese na minha mamadeira quando eu era pequeno, para ter se entranhado em mim essa fissura tão essencial pelo prato. Questionei minha mãe, dia desses, a respeito, e ela ficou me olhando de lado, em silêncio. Esse olhar dela sem responder pode significar coisas. Um: que ela fez mesmo isso, mas não ousa revelar. Dois: que só eu mesmo para imaginar uma sandice dessas. Três: que apesar de ser uma sandice, ela de fato o fez, mas não vai revelar. Claro que já estou viajando na maionese. Mesmo sem ser senador, basta colocarem um prato de maionese na minha frente que eu assino qualquer coisa. Não votem em mim, que a maionese desanda!
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul,em 20 de fevereiro de 2017)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Saber mexer os pauzinhos

Nos anos 1990, a gastronomia típica italiana vigente na Serra Gaúcha sofreu uma ameaça de abalo a partir da inserção do javali entre as iguarias que por aqui aterrissavam nas mesas dos restaurantes e embalavam as reuniões de amigos que se aventuravam a escantear a polenta com formaggio e o frango al primo canto. A costela assada de javali, o lombo de javali ao forno acompanhado com molho de menta, o quarto de javali preparado para ser abocanhado à gaulesa fizeram sucesso entre os apreciadores do bem comer, adaptando-se ao tradicional acompanhamento do radicci com bacon a título de salada e à sobremesa de sagu quente (sobre a qual pairam controvérsias que agora não vêm ao caso).
Mas a onda durou pouco. Arrefecida a euforia inicial, a javalizada se reproduziu como praga, passou a vandalizar as lavouras em gangues descontroladas e decaiu no gosto popular, sendo varrida dos cardápios para o retorno triunfante da bela polenta com queijo, das sopas de capeletti e de agnoline, da codorna ao molho, do bígoli com guisado, do churrasco de gado e de porco, dos peixes fisgados das pesqueiras. Falando em peixe, registre-se a passageira fase das trutas ao molho de amêndoas, que não chegou a abalar o império das velhas e boas tilápias fritas na banha.
Mas, como tudo na vida é sazonal, uma nova onda gastronômica finca fundações sólidas por nossas serranices: o fascínio pelos sushis. Estamos determinados a apreciar os delicados sabores dos coloridos acepipes oriundos da gastronomia japonesa, inclusive trocando os talheres pela manipulação dos pares de pauzinhos. Problema sou eu, claro. Noite dessas, infiltrado em evento enogastronômico refinado, detectei, em um dos cantos, o (agora) já tradicional bufê de sushi. Como todo bom habitante da Serra, pensei “oba, sushi” e lá fui eu, pratinho em punho, pauzinhos na mão, a pinçar unidades para depois saborear com a esposa.

Só que, ainda destreinados, meus dedos não conseguiam manter paralelas as varetinhas, que insistiam em fazer um xis cruzado enquanto eu tentava capturar um encantador sushizinho recheado com algo verde, que acabou arremessado em efeito catapulta contra o meu peito, quicou e foi rolar no chão bem embaixo da sola de meu sapato que nesse instante pisava e achatou o rolinho, agora impróprio para consumo. Minha esposa, acometida por um incontrolável acesso de riso, saiu pela tangente e me deixou ali, imóvel, salivando de desejo secreto por uma suculenta picanha no espeto, nem que fosse de javali. Não adianta, na hora do aperto, sempre apelamos para a tradição.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de novembro de 2016) 

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Espinafre e salsaparrilha

É difícil crer que a indústria alimentícia norte-americana tenha conseguido incrementar a venda de espinafre enlatado a partir da década de 1930, na esteira do sucesso do personagem Popeye nos cinemas (via desenhos animados) e nos quadrinhos (via tiras de jornal e gibis). O marinheiro caolho consegue obter uma força sobre-humana para enfrentar seu rival Brutus sempre que engole o conteúdo de latas de espinafre, como bem sabemos todos os que temos contato com a cultura pop gerada no século 20. Espinafre dá força? Ok, então, vamos comer espinafre. Se não foi, ao menos esse deveria ter sido o mantra, afinal, é preciso que essas coisas sirvam para algo útil.
Espinafre, ao menos, é possível encontrar nos supermercados e nas feiras de bairro perto de casa, diferentemente da poção mágica do druida Panoramix, que também concede força incrível para que os guerreiros gauleses Asterix e Obelix desçam a lenha nas legiões romanas que tentam conquistar toda a Gália na época do Império Romano de Júlio César. O portentoso Obelix devora javalis assados inteiros nos festins ao final de cada aventura, é verdade, e esse tipo de carne já é mais fácil de encontrar se alguém desejar seguir o exemplo de seu herói do mundo da fantasia (o javali viveu dias de glória na gastronomia da Caxias do Sul dos anos 1990, mas hoje anda meio amuado nos cardápios). Já os admiradores de Garfield, o gato alaranjado, encontram mais facilidade em se sintonizar com as preferências gastronômicas do personagem, que é fissurado por lasanha. Os viciados em hambúrguer podem não saber, mas estão rendendo loas ao Dudu, o amigo do Popeye, que devora pilhas do lanche em questão de minutos.

A dupla de estômagos-sem-fundo Salsicha e Scubidu devora o que vem pela frente, na quantidade que for. A Magali, amiga do Cebolinha, tem paixão por melancia. Os patinhos Huguinho, Zezinho e Luisinho amam a torta de maçã preparada pela Vovó Donalda. O Pateta engole superamendoins para se transformar em super-herói. O gato Tom saliva por ratos como Jerry, apesar de nunca conseguir saboreá-lo (mesmo drama vivido pelo Coiote que persegue o avestruz Papaléguas). Por outro lado, a argentina Mafalda tem aversão aos pratos de sopa empurrados por sua mãe e que são alegremente sorvidos pelo seu irmãozinho Guille. O contraponto fica por conta dos brasileiríssimos Zeferino, Graúna e Bode Francisco Orellana, habitantes da Caatinga criados por Henfil, cujos estômagos roncam de fome mesmo. A moral disso tudo? Falar de comida, né, madama, que é o que nos irmana e interessa, no final das contas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de setembro de 2016)

sábado, 6 de junho de 2015

Desaconselho útil

Este cronista que vos escreve não é nenhum modelo de virtude inexpugnável passível de servir de exemplo de nada a ninguém, ele bem sabe disso, e é por isso que se exime de ficar aqui utilizando estas mal-digitadas linhas para tecer conselhos de conduta a quem quer que seja, a fim de evitar transformar-se em alvo de críticas do tipo “faça o que ele diz, mas não faça o que ele faz”, essas coisas. Ciente disso, prefere o cronista em questão dedicar-se à prática dos desaconselhamentos úteis, ou seja, ao invés de aconselhar, já que não possui habilitação para dar conselhos a ninguém, mesmo porque conselhos, se bons fossem, vendidos seriam, e não dados, como bem sabe o vulgo, melhor então oferecer ao leitor o outro lado da moeda, que talvez lhe possa vir a ser útil por vias inversas, se é que me faço entender nestas já citadas mal-digitadas e agora longas-de-morrer linhas.
Vamos então ao desaconselhamento do dia. Trata-se de um desaconselhamento específico, porque também não vamos aqui enfileirar desaconselhos porque daí a coisa descamba para o exagero e ninguém absorve nada. Desaconselho, então, o leitor a fazer o que fiz e, por experiência vivida e sofrida, é que digo: não faça em casa se você não estiver com mais tempo do que imagina; não faça em casa se você não se certificar de que está com toda a sua louça devidamente limpa e pronta para uso total e imediato (isso inclui panelas de todos os tipos, todos os talheres, caçarolas, coadores e até o saca-rolhas, porque nunca se sabe); não faça se você não tiver espaço para ir empilhando a louça suja; não faça se você não tiver ingredientes no dobro da quantidade pedida pela receita, porque o erro exigirá meter tudo fora e reiniciar o processo; não faça se você não contar com alguém que o ajude, porque serão necessárias pelo menos quatro mãos em ação; não faça se você estiver propenso ao mau humor nesse dia; não faça se estiver verdadeiramente com muita fome. Se depois disso tudo, mesmo assim optar por fazer, faça, mas depois não venha me dizer que não desaconselhei.

Terminada a crônica, com licença que preciso lavar a montanha de louça de ontem à noite, quando, desavisado, meti-me a fazer pela primeira vez na vida a clássica receita de ovos beneditinos. Malditinos, isso sim. Ninguém tinha me avisado antes...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de junho de 2015)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Fórmula indigesta

Até pode ser que a receita escolhida para o formato dos programas gere uma audiência astronômica, deixando alegres os anunciantes e mais faceiras ainda as emissoras televisivas, porém, não adianta, eu não consigo engolir e agradeço, passo batido. Até já tentei assistir a alguns desses reality shows que giram em torno do universo da gastronomia, com equipes competindo pelo posto de melhor chef da temporada, porque aprecio a arte culinária, sou um cozinheiro amador que adora pilotar panelas e frigideiras no aconchego de minha cozinha, mas não dá, não consigo digerir o clima de terror que não sei por que cargas d´água é a tônica dessas atrações.
O que vejo nesses programas é uma turma de renomados chefs brasileiros e internacionais gritando impropérios contra pseudocozinheiros de fundo de quintal, que vão enterrando os barretes cabeça adentro, escondendo as orelhas e a vergonha quando recebem xingamentos estratosféricos porque o ovo passou demais, a carne não ficou ao ponto, o molho holandês ficou com cara de sueco, o caldo entornou e não adianta chorar sobre o leite derramado. O que vejo é um acúmulo de tensão que vai crescendo ao ritmo de deselegâncias, de grosserias, de berros. Lamento, mas gastronomia e cozinha não têm nada a ver com isso, não há jeito de eu encontrar um ponto de convergência pessoal que me faça permanecer mais do que 30 segundos em frente a um programa desses, por mais que possam vir a me interessar as receitas e os modos de fazê-las. Não dá.
Já participei de cursos de gastronomia, nos quais o clima reinante é de alegria, de confraternização, de compartilhamento de um prazer comum entre pessoas afins, que estão ali para desvendar juntas as maravilhas e os segredos prazerosos da alquimia da transformação dos alimentos em sabores, odores, texturas. Cozinhar é uma arte e, como arte, é uma via de expressar humanidades. Até pode ser que haja no mundo pessoas encarceradas em situações nas quais acabem cozinhando com raiva, mas isso é uma exceção. Quando o assunto é gastronomia, a trilha sonora é a paixão, o amor, a delicadeza que essa arte sutil e agregadora requer.

Competições gastronômicas regadas ao molho da grosseria só podem gerar banquetes indigestos. Tô fora. Aliás, ainda não pensei na janta...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de junho de 2015)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Culpa do cachorro-quente

Todo político em campanha eleitoral se esforça ao máximo para se aproximar do perfil de seu eleitorado. Orientados pelos assessores de marketing, eles tentam ir aonde o povo está; tentam fazer as coisas que o povo faz; tentam, nesses dias, se assemelhar ao povo, para que o povo os veja como legítimos representantes daquilo que o povo é, de como o povo pensa e age. Depois de eleitos, claro, os políticos podem voltar ao seu estado natural, configurado, na maioria dos casos, em uma postura bem distanciada da realidade do povo que os elegeu, como todos sabemos, fora as raras exceções de praxe.
Na Inglaterra, esta semana, virou meme na internet uma tentativa desastrada nesse sentido empreendida pelo atual primeiro-ministro britânico David Cameron, que está em campanha para as eleições de 7 de maio naquele país. Tentando passar uma imagem de que ele também é gente comum, compareceu a um evento público em que foi servido churrasco e cerveja, alimentos de pessoas normais como eu e você, sejamos nós brasileiros ou britânicos. Até aí, tudo bem. Porém, a maionese desandou na hora do cachorro-quente (não me perguntem o que tem a ver cachorro-quente com churrasco, mas trata-se dos hábitos britânicos e as notícias dizem exatamente isso), que Cameron se botou a comer com garfo e faca!
Mas quem é que, de sã consciência, come cachorro-quente com garfo e faca? Ora, todos sabemos que parte da graça, do sabor e do ritual de devorar um cachorro-quente suculento reside justamente no ato de comê-lo com as mãos, lambuzando os beiços com katchup e mostarda, salpicando a camisa com batata-palha e ervilhas, esparramando ilhas de milho e maionese nas calças, engordurando a ponta dos dedos e também a orelha que resolve coçar bem nessa hora, sujando os dentes com salsicha e limpando o molho vermelho com cebola da boca na manga da cam... ops, no guardanapo de papel, no guardanapo de papel!

Eu, que me conheço e não pretendo concorrer a primeiro-ministro da Inglaterra, costumo só comer cachorro-quente em casa, posicionado próximo do chuveiro, para onde preciso me dirigir sempre depois que devoro corretamente um cachorro-quente, haja vista o estado lamentável em que fico. É exatamente isso o que me impede de concorrer a qualquer cargo eletivo. Tá explicado!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de abril de 2015)

segunda-feira, 30 de março de 2015

Não voltaremos

A notícia mais triste da semana que passou, para mim, foi a informação de que o famoso chef de cozinha gaúcho, o apresentador José Antônio Gomes Pinheiro Machado, mais conhecido como Anonymus Gourmet, decidiu aposentar o personagem cozinheiro que há vinte anos vinha revolucionando a cozinha dos gaúchos com seus programas de televisão em que a criatividade e a simplicidade dos ingredientes davam o tom para o surgimento de sabores e delícias nas cozinhas das pessoas comuns.
Este sábado que passou marcou a transmissão de seu último programa pela TVCom, sendo que agora ele se aposenta dessa atividade para se dedicar mais à esposa e ao término da escrita de um livro. Nada contra a decisão pessoal do Anonymus, afinal, aos 65 anos de idade, ele tem todo o direito de decidir reorientar sua agenda de atividades, especialmente tendo dedicado tanto de si, de seu talento, de seu conhecimento e de sua cultura, a ofertar receitas e modos de fazer com tanta simpatia e bom humor ao longo de tanto tempo. Fez muito, não só nessa área, e continuará fazendo. Porém, ele e seu sobrinho/ajudante Alarico não cumprirão mais a promessa de “voltaremos”, com a qual sempre encerravam todos os programas. Pena.
Pena porque é algo de bom que havia na programação televisiva que se fecha, empobrecendo os passeios que eu fazia sentado no sofá defronte à tevê, controle remoto na mão, a zapear para cima e para baixo. Aparecia Anonymus na tela, as panelas fumegando, o Alarico ajudando, a elegante trilha sonora ao fundo, e eu parava ali mesmo. Muito aprendi em termos de cozinha observando seus programas.

Certa vez, caminhando com minha esposa no final de uma manhã de domingo pelas ruas do bairro Menino Deus, em Porto Alegre, em busca de um lugar para almoçar, vimos o Anonymus cruzar com algumas pessoas pela nossa frente na calçada e dirigir-se, resoluto, a uma churrascaria de aspecto simplicíssimo, ali do lado. Fomos atrás e acabamos descobrindo aquela que elegemos até hoje a melhor churrascaria do mundo (entre as que conhecemos, naturalmente). A dica dele foi sua própria atitude, ensinando pelo exemplo, como sempre fazem os grandes. Bom descanso nessa nova fase, Anonymus. E se quiser, volte sempre!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de março de 2015)

domingo, 29 de março de 2015

Gosto não se discute

Eu gosto de sopa no verão e de sorvete no inverno. Gosto também de comer salada como se fosse sobremesa, após ter terminado a refeição principal. E aí, refugo a sobremesa, que é algo que vou comer (isso se e quando for comer) no meio da tarde, com as papilas gustativas já distanciadas em horas dos sabores degustados durante o almoço. Gosto também de comer maionese de batata misturada ao feijão. Nhamm! Ah, e quando tem, como pedaço de pizza fria no café da manhã. Verdade.
Como isso, minha senhora? Isso o que, disso tudo que eu disse? Ah, a coisa da pizza fria matinal? Então, explico. Isso da pizza fria no café da manhã não acontece sempre. Só de vez em quando. Isso porque eu também tenho o costume de, quando vou jantar em um restaurante, pedir ao garçom para embrulhar as sobras, para levar. Pizza em restaurante eu prefiro a la carte ao invés de rodízio e, assim, acaba sempre sobrando um ou dois pedaços daquela maravilhosa pizza portuguesa, ou de atum. Eu levo e traço o pedaço na manhã do dia seguinte, sacado direto da geladeira para a mesa do café da manhã, junto a uma xícara de café com leite.
E não gosto de leite. Não gosto de leite, mas tomo café com leite de manhã, quase todos os dias. E lá de vez em quando tomo um copão de leite gelado no meio da tarde, para empurrar junto um pedaço de bolo, quando tem bolo em casa, o que é pra lá de raro. E se dá na telha, faço um copo de leite com achocolatado e tomo. Só que não gosto de leite, dá para entender? É, nem eu. Durante os dias da semana, nas refeições, costumo tomar água. Água sem gás. Isso ou chá gelado. Chá de pêssego, de marcela, de boldo, do que quer que a esposa tenha produzido no dia. Tomo.
E tem outra. Gosto de pão com manteiga, mel e uma fatia de queijo por cima. Nessa ordem: o pão, a manteiga, o mel e o queijo. A manteiga tem a função de tapar os buraquinhos do pão e impedir que o mel escorra, veja bem, tem lógica nessas coisas. E o queijo, bem, o queijo porque sim. E adoro comer pão com banana. É, pão e banana. Especialmente pãozinho d´água, com uma banana dentro. Experimente. Não? E que tal o mesmo pãozinho com uma barrinha de chocolate dentro? Delícia!

Fora isso, sou bem tradicional.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de março de 2015)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Índios e maionese

O churrasco na casa de meu avô paterno era tradição aos domingos de meio-dia. Ao menos uma vez por mês, a família toda se reunia lá. Eventualmente, alguém levava algum amigo. Foi um desses amigos adultos, comensal casual em um daqueles encontros, provavelmente cliente de meu avô, quem me chamou a atenção infantil devido a uma frase que soltou em alto e bom tom em meio à conversa que travava com meu avô, meu pai e alguns tios. “Eu não vivo para comer, eu como para viver”.
Não sei em que contexto a frase foi dita, uma vez que, aos oito, nove anos de idade, eu não participava de conversa de adultos e estava focado mesmo era na defesa do meu Forte-Apache, que meus dois primos, manipulando os bonequinhos-índios, desferiam com ferocidade ali no chão. Mas a frase invadiu meus ouvidos e se alojou em minhas lembranças, provavelmente porque deve ter gravado alguma sensação dentro de minhas primeiras reflexões de vida. “Ora (devo ter pensado, enquanto dispunha soldados no alto da casamata para melhor alvejar os índios de meus primos), o que esse homem está querendo dizer com isso? Será que ele está ousando recusar e desdenhando a maravilhosa maionese de batatas que minha avó produz sempre nesses almoços de domingo? Ou está recusando nacos do suculento churrasco assado por meu avô? Ou não quer a cebola no espeto que meu pai sempre insere na churrasqueira, que depois de assada vai à mesa cortada e regada com sal e azeite de oliva?”
Independentemente do contexto em que o personagem proferiu a frase, ela segue sendo um mantra entre as pessoas que pretendem expressar o fato de que optaram por uma visão somente utilitária dos alimentos, abrindo mão do prazer que eles podem proporcionar. Isso porque, sempre que pensamos em “prazer gastronômico”, imaginamos que ele só pode ser alcançado mediante o consumo de pratos suculentos e engordativos, desprovidos de valores nutricionais, o que está longe da verdade. Hoje aprendi que é possível unir as duas coisas: comer de forma saudável e ter prazer nisso, sem abrir mão de eventuais churrascos e maioneses de batatas.

São ensinamentos que a experiência de vida acaba nos fornecendo. Mas ainda bem que, naquele dia do passado, mesmo tendo escutado a tal da frase, eu não descuidei em nada da defesa de meu Forte-Apache.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de fevereiro de 2015)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A batata do outro

Como já dizia Machado de Assis: é batata! Não, nosso escritor maior nunca disse isso. Quer dizer, até pode ter dito informalmente, no refúgio de seu lar ou entre amigos, afinal, fora a genialidade literária incomum, não passava de um ser humano comum e seres humanos comuns dizem, vez em quando: é batata! Machadinho (que é como o chamamos, os íntimos) pode, então, sim, também ter dito alguma vez a expressão, mas não a ponto de que ela o caracterizasse.
Como, minha senhora? Eu estou confundindo? Machado escreveu sobre batatas, mas foi diferente, é isso? Sim, isso mesmo. Como era, mesmo, minha senhora? O que ele escreveu, e que o caracteriza, é a expressão “ao vencedor, as batatas”? Sim, exato! Eu sabia que havia batatas na jogada machadiana. Obrigado, minha senhora. Fico-lhe em dívida por essa.
Mas, se o que Machado escreveu foi “ao vencedor, as batatas”, e não simplesmente “é batata!”, então Machado não serve para ilustrar e engalanar o início desta minha crônica, porque o que eu quero expressar é exatamente a exclamação “é batata!”, e, portanto, não posso evocar Machado, o que empobrecerá a pretensão do texto. Pena. Deixemos Machado, não sem tristeza, e fiquemos somente nas batatas, que é o que nos resta. E vamos logo, que o espaço se vai extinguindo.
Pois é batata, diria eu mesmo, então! O prato do vizinho é sempre mais saboroso, mais aromático e mais apetitoso do que o seu prato. Vá a um restaurante que serve empratados, que é quando a comida já chega toda enfiada (“disposta” seria mais elegante, mas estamos escrevendo sem a companhia de Machado, lembra?) dentro do prato, que você logo vai notar. O pedido do seu companheiro de mesa, no prato que lhe chega ao lado, sempre parecerá superior ao seu. É batata, mesmo que não haja batatas.

Foi por isso que desenvolvi uma tática. Sempre tento ser o último a pedir e simplesmente digo ao garçom: “quero igual ao dele”. Só que não adianta: minutos depois, chegam à mesa os pratos contendo o mesmo pedido, e sempre o filé do outro estará melhor preparado do que o meu, o arroz mais soltinho, a batata mais batata. É batata. Batata que é batata será batata sempre.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de janeiro de 2015)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Chuchus e melões

Todo criador sabe que o segredo para o sucesso reside no exercício de um procedimento conhecido como “erro e acerto”. A gente até pode se convencer de que possui um talento para determinada atividade, mas essa habilidade só vai ser desenvolvida com a sucessão de tentativas de produção, quando os erros nos ensinam a aprimorar o trabalho, que vai sendo coroado com os posteriores acertos.
Beethoven não nasceu compondo sua Nona Sinfonia lá no berço, chacoalhando o chocalho. Não. Ele foi moldando seu talento com erros e acertos. Provavelmente, fez como todo mundo: escondeu os erros e exibiu os acertos, que é a dica que fica aqui de lambuja para quem quiser brincar de gênio. Van Gogh deve ter começado rabiscando uma folha em branco com lápis de cor e mostrando a obra para seu pai, que olhou estranhado e disse: “que que é isso, Vincent, uma tempestade de areia?”, quando, na verdade, o futuro gênio impressionista imaginava desenhar uma catedral gótica. Erros, acertos. Com eles, a gente chega lá.
Exemplo disso é a Natureza, que, por ser quem é, tem a primazia de não eliminar da face da Terra seus erros, permitindo que os comparemos aos acertos, a fim de comprovarmos a evolução de seu talento criador. Na questão gastronômica fica fácil observar isso. Primeiro, veio o insosso e pálido chuchu, sem gosto, sem personalidade. Para saborear um chuchu, precisamos agregá-lo a temperos e condimentos, caso contrário, teremos a sensação de estarmos a mastigar água. Mas depois veio a moranga, aquela abóbora alaranjada, saborosíssima quando refogada, misturada a um guisado ou mesmo pura. A moranga é a evolução do chuchu, assim como a melancia é o aprimoramento do melão.

Outra lição que a Natureza ensina é o perigo da soberba do gênio. Nem sempre o criador produz genialidades, e pode incorrer no risco da inversão do processo, partindo de acertos para produzir erros. A Natureza, que não esconde nada, deixa à mostra também seus equívocos. Primeiro, fez o macaco, selvagem e inocente. Mas daí foi involuindo, involuindo, até chegar aos melões e chuchus que hoje controlam o planeta. Pecado de gênio, pois não?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de dezembro de 2014)

sábado, 6 de dezembro de 2014

Bauru honesto

Tudo exige empenho, dedicação, capricho, esforço, estudo, sangue, suor e, se necessário, até lágrimas. O mundo de hoje não tem mais lugar para chutadores e amadores, em nenhuma esfera de atuação. Não basta conhecer para acreditar que sabe fazer. É preciso habilitar-se a saber fazer. Caso contrário, morre-se na praia, ou, no melhor das hipóteses, se é atropelado pelo trem lotado das competências alheias, que estão aí, fazendo bafo na nossa nuca. E quem é que gosta de bafo na nuca? Eu não, eu não, eu não, nem eu, eu é que não...
A fim de ilustrar o argumento acima proposto, podemos deitar olhos sobre um exemplo singelo, prosaico, comum, banal. Tipo o que presenciei ontem à noite, quando fui com minha esposa jantar em um restaurante que não é nenhum dos da moda, nenhum dos dez mais citados nas pesquisas de preferência, mas, sim, um honesto e esforçado estabelecimento de bairro, daqueles em que a simpatia do atendimento rima em total sintonia com a qualidade do que é posto na mesa (e com preços justos, justíssimos, por sinal). Chegamos, sentamos, recebemos o cardápio e escolhemos: bauru com molho e acompanhamentos. Pedido simples, corriqueiro, humano e brasileiro.
E o que aconteceu? Ora, surpresa das mais agradáveis: fomos brindados com um bauru bem proporcionado (eu ia escrever “bem fornido”, mas mudei de ideia), elaborado a partir de uma peça de filé de primeira, coberto com generosas fatias de presunto e queijo e um molho vermelho de dar água na boca (inundou minha boca ontem, inunda minha boca agora, enquanto escrevo e evoco a lembrança), guarnecido por uma tigela de arroz branquinho e soltinho e dois pãezinhos aquecidos na manteiga e salpicados com orégano. Aiaiaiaiai, que manjar dos deuses!

E onde a frescura, onde o nhe-nhe-nhe, onde o balagandã e o fru-fru? Não havia nada disso. Havia, sim, a expressão materializada de um trabalho bem feito, sério, profissional, diferente de muitos outros pseudobaurus a que já fui apresentado por aí. Não basta achar que sabe fazer. É preciso saber fazer mesmo, de verdade. A era da enganação está perdendo terreno. Posso dizer isso de barriga cheia.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de dezembro de 2014)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Coligação de sabores

Minha mãe gosta de cozinhar e cozinha como hobby para desestressar da correria que suas demandas profissionais lhe impõem. Herdou a habilidade de minha avó, que cozinhava não como passatempo, mas como uma das atribuições da dona de casa que era. Outros tempos, outros ingredientes de vida e de panelas, mas em ambas a mesma competência em administrar sabores, o mesmo amor pela arte da gastronomia, seja ela a simples do dia-a-dia ou a requintada dos chefs.
Minha mãe cultiva há décadas um caderno no qual vai lançando as receitas que experimenta e julga terem tido tal sucesso a ponto de querer perenizar ali os ingredientes e o modo de fazer, a fim de repetir a experiência da transformação alquímica de ingredientes solitários em compostos deliciosos. Como o acúmulo de prática e experiência gera conhecimento e segurança, ela usa a imaginação na criação de pratos novos ou mesmo no incremento, com seu toque pessoal, daqueles cardápios batidos que se renovam ao mexer de suas colheres.
Está enjoado de estrogonofe? Isso porque nunca experimentou o estrogonofe feito por minha mãe. Boeuf bourgignon, sabe o que é? Buenas, nunca comeu lá em Ijuí, azar o seu. E uma torta salgada de cebola, o que acha? Uma mousse de pepino? Uma galinha a escabeche? Um ratatouille? Pimentões verdes recheados, que acha? E goulash com páprica picante, já comeu? E guisado com mandioca? Ah, isso você conhece? Sim, mas já experimentou o feito pela minha mãe? Não, né? Ah pois...
Ontem, em homenagem ao dia das eleições, baixou nela o santo do cozinheiro inventão e ela se foi para as panelas, inventar moda culinária. Telefonou para mim lá de Ijuí, só para me encher de água a boca, ao narrar a nova estripulia, batizada de Coligação de Sabores. Não sei como é nem que gosto tem, mas a julgar pelo relato dos ingredientes, logo terei de ir a Ijuí experimentar. É à base de PV (pimentão vermelho), PAF (pimentão amarelo da feira), PCCF (punhado de cubos de carne fritos), PAR (porção de abobrinha refogada), PS e PP (pouco sal e pitadas de pimenta). Eis uma coligação que não vai revoltar o estômago de ninguém!

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de outubro de 2014)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Os javalis bandoleiros

Tenho ficado grilado com essas notícias sobre os javalis haverem se tornado uma praga descontrolada pelo interior do Estado. Por serem exóticos ao ecossistema e não terem predadores naturais, eles viraram uma ameaça ao ambiente nativo, a ponto de o próprio Ibama liberar o abate da bicharada que anda à solta e aos bandos pelas matas e fazendas gaúchas. Que coisa isso!
Na minha imaginação semeada pelas décadas de leituras, caçar javalis sempre foi uma atividade prosaica relacionada ao preparo de lautos banquetes em uma certa aldeia localizada na região da Normandia francesa, por volta de 50 antes de Cristo, a fim de encerrar com foice de ouro mais uma aventura dos gauleses mais famosos das histórias em quadrinhos. Asterix, Obelix, Ideiafix, Panoramix e Abracurcix não precisavam mais do que os próprios punhos para penetrar na mata e saírem de lá com alguns pares de javalis que refestelariam o jantar da tribo.
Só vim a conhecer o sabor da carne dos javalis que meus heróis da ficção consumiam anos mais tarde, já morando em Caxias do Sul, em meados da década de 1990. Foi por essa época que alguns criadores passaram a introduzir o javali em suas fazendas, imaginando estarem a abrir um novo filão de mercado. E de fato, instalou-se certa febre pela carne de javali pelo Estado. Restaurantes que serviam a iguaria exótica eram disputados e comíamos deliciosos javalis assados puros ou cozidos ao molho.
Mas depois aquela cisma foi passando, sabe como é: nós, a gauchada, até que não somos de muita frescura alimentar, a gente experimenta uns nacos de carne exótica e comemos, vá lá, um pedaço de javali, um veado campeiro, uma capivara, um coelho, essas coisas. Mesmo nas churrascarias, beliscamos o salsichão, o franguinho, tá, vai. Mas carne, índio veio, carne assim carne, mesmo, para lambuzar os bigodes e arrebentar a guaiaca, para nós, é e sempre será a de boi.
E foi assim que o javali foi saindo de fininho do cardápio, até se transformar nesse bandoleiro indômito que toca o terror pelo Estado. Diferentemente dos quadrinhos, na vida real não há poção mágica de druida gaulês a gerar solução fácil para o problema.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de outubro de 2014)

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O cão ou a salsicha?

Existem mistérios filosóficos que jamais desvendaremos. Entre eles, aquele que instiga a pensar sobre a precedência de algumas coisas sobre as outras, como “quem veio primeiro: o ovo ou a galinha”? Isso, jamais elucidaremos. Mas há outros que, com um pouquinho de pesquisa e de raciocínio, é possível sanar. Por exemplo: todos achamos que a raça de cachorro dachshund é apelidada de “salsicha” por causa de seu formato semelhante ao do embutido comestível, mas é o contrário. Surpresa, não?
Pois é, e como foi que descobri isso? Ora, minha senhora, pesquisando. Para sua informação, saiba que hoje, 9 de setembro, comemora-se a invenção do cachorro-quente, ocorrida há 130 anos, em 1884, nos Estados Unidos. Sim, até o prosaico cachorro-quente, sucesso das festinhas infantis de sábado à tarde, teve de ser inventado pelo engenho humano, não nasceu pronto em árvores como o xis-bacon ou o salame.
Pois consta que foi um imigrante alemão que se estabeleceu nos Estados Unidos em 1880 e passou lá a vender com sucesso uma salsicha quente criada por um patrício seu na Alemanha, décadas antes. Esse alemão na Alemanha, o das salsichas, batizou seu embutido compridinho de “salsicha dachshund”, devido à semelhança do acepipe com o formato de seu cãozinho de estimação. Assim, as salsichas eram inicialmente conhecidas como “dachshund” e também como “salsichas cachorrinho”. Como eram vendidas quente, viraram hot-dogs. Então, foi o cão que batizou a salsicha, e não o contrário. Não existe o cachorro tipo salsicha, mas sim a salsicha tipo cachorro. Porque obviamente o cachorro veio antes, né!

Já o alemão migrado para os Estados Unidos vendia seu lanche inicialmente acompanhado por um par de luvas, para que os clientes protegessem as mãos do calor e da gordura. Só que a maioria não devolvia as luvas e ele começou a ter prejuízo. Daí que (bingo!) veio a ideia de envolver a salsicha em um pãozinho sovado, dando origem então ao maravilhoso invento culinário que exatamente hoje faz anos. Já pode imaginar o que vou sugerir para celebrar a data e a ingestão de tanta informação nova...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de setembro de 2014)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Arroz sonífero

Quem me lê há tempos lembra que eu tenho um amigo chamado Argentino, cujo principal traço de personalidade consiste em ser crédulo ao extremo, especialmente em relação ao que vê na imprensa falada, escrita, televisionada e clicada. Argentino acredita em tudo o que lê e leva ao pé da letra qualquer notícia, atropelando entrelinhas, ignorando metáforas. Para ele, quadrado é quadrado, dia é dia e lua é lua.
É por isso que Argentino tem fissura por notícias sobre resultados de pesquisas feitas ao redor do planeta, revelando descobertas inimagináveis. Agora, por exemplo, está obcecado por arroz, desde que leu reportagem sobre pesquisas realizadas com dois mil voluntários que se atracaram a comer arroz e, como resultado, passaram a dormir melhor, muito melhor. Os arrozentos demonstraram ter conquistado uma qualidade de sono superior à qualidade de sono atingida pelos outros voluntários que comeram macarrão e pão antes de dormir. Conclusão da pesquisa: arroz produz bons sonhos. Resultado da divulgação da pesquisa: Argentino passou a devorar quilos de arroz por mês, na busca por uma melhor qualidade de sono.
Mas Argentino anda desconfiado de que justamente ele encarna a exceção que confirma a regra, pois, ao contrário do que esperava, anda mesmo é tendo pesadelos, dores de barriga e noites mal dormidas. Já sugeri a ele que passasse a comer apenas uma singela tigelinha de arroz antes de deitar ao invés dos dois pratos fundos de risoto, mas ele não me escuta. Afinal, a pesquisa não cita a quantidade ideal de arroz a ser consumida antes do apagar das luzes do quarto. Falha a pesquisa, ou falha o redator da notícia. Ou falha Argentino, esse exagerado.

Certo é meu avô, que há décadas dorme no chão, por acreditar que dorme melhor quem se posiciona com a cabeça para o nascente e fica o mais próximo possível do solo. Ele habita o quinto andar do prédio, mas segue firme dormindo embaixo da cama, de onde ninguém o tira até o amanhecer. Fazer o que, se diz que dorme bem. E eu aqui, com chazinho de alface, lençol cheiroso e colchão fofinho, peleando contra as insônias...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de setembro de 2014)

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A cara da polenta

Dizem que quem vê cara não vê coração. Ou seja, não basta uma avaliação superficial do visual de alguém ou de alguma coisa para definir sua essência ou seu conteúdo. A língua inglesa utiliza metáfora com outros termos para expressar a mesma ideia: não se pode julgar um livro pela capa.
Serve para livros, sem dúvida. Você só vai poder julgar a obra depois de passar pelo trabalho de lê-la. Não basta apenas apreciar a eventual beleza gráfica de sua capa, normalmente produzida por artista que não é o autor do texto. Serve para pessoas, especialmente a versão brasileira do ditado, citada na abertura do texto. Um rostinho bonito não representa necessariamente uma pessoa confiável, íntegra, de bom coração. É fácil maquiar uma má essência com artifícios e recursos de embelezamento. Para conhecer “o coração” de alguém, precisamos privar a companhia dessa pessoa, a fim de, somente assim, termos elementos para sabermos quem de fato ela é.
Pois tudo muito bem quanto ao ditado em relação a livros, pessoas e uma série de outras coisas. Mas há uma falha na abrangência do axioma que o impede de ter aplicação universal (a meu ver, é claro, pois que não sou dono da verdade). Ele não se aplica à gastronomia. Nesses domínios, quem vê cara, normalmente vê coração, sim. E na maioria das vezes, é possível julgar a polenta frita somente ao lançar os olhos sobre o douradinho da crosta crocante que a envolve, recém chegada da cozinha.
Aquele salmão rosadinho que aterrissa em seu prato, coberto com uma malha de alcaparras e amêndoas, além de um raminho de alecrim, qual a chance de seu sabor não corresponder ao visual que o antecede? Nenhuma! Nenhuminha! E como resistir nas ruas da cidade, especialmente aos domingos, ao visual sedutor dos frangos assados às dezenas nas assadeiras de calçada, colocadas ali justamente para que as unidades sejam vendidas justamente pelo visual atraente? Qual a chance de o frango assado não proporcionar um almoço suculento para toda a família? Zero, né.
Sim, claro, acontecem exceções. Mas são raras, e a regra geral, na culinária, é de que o visual costuma antecipar a qualidade do sabor. Polenta linda é igual a polenta gostosa. Polenta feia provavelmente proporcionará uma refeição desagradável. Até porque, são justamente os elementos como o cuidado no preparo da comida, a observância dos rituais certos e o talento empregado na confecção do alimento que irão resultar tanto na comida de qualidade quanto no aspecto belo e revelador.

Nesses casos, dá até para julgar de olhos fechados. Mas só nesses casos, ressalte-se.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de junho de 2014)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Ração para o ego

A novidade culinária do momento, nas cozinhas dos grandes chefs, dos grandes restaurantes, das grandes cozinheiras, dos grandes gourmets e dos grandes enganadores de avental (como eu), é uma panela modernérrima que agrega as funções de um forno sobre a chama do fogão. Além de visualmente linda, a tal panela é fabricada com material de última geração, sob as mais avançadas técnicas de feitura de panelas antiaderentes e mantenedoras de calor, resultando em um artefato útil, prático, fácil de lavar e de manusear, realmente revolucionário.
Temos a tal panela aqui em casa, providenciada pela senhora minha esposa, que sempre é muito mal intencionada no quesito cozinha, uma vez que decidiu que eu cozinho bem e, amparada nesse argumento (que meu ego altamente influenciável resiste em refutar), sempre que é preciso cozinhar ela empurra a mim para o fogão, vai me enfiando o avental e tacando a cebola na minha mão, enquanto se some apartamento adentro esperando ser chamada de volta só quando minhas estripulias gastronômicas estiverem prontas. Aí ela volta, se senta à mesa e aprecia tudo aquilo que eu vou enfiando no prato dela, abrindo generosamente as comportas de seus inesgotáveis estoques de elogios.
Sim, o amor é lindo. O amor ou a perspicácia, porque, na estratégia de não ter de assumir a administração do fogão, ela não só elogia todo o arroz queimado que eu faço (ou o feijão aguado, o bife arranca-dente, o estrogonofe com gosto de mar, o suflê murcho e pálido e a sopa de capeletti com sabor de agnoline), como divulga amplamente para a família e os amigos o fato (ou a versão dela dos fatos) de que eu seria (“ele é”, afirma ela) um cozinheiro de mão cheia. Esperta, ela. Faz a minha fama e não precisa cozinhar.
Claro que, frente a essa propaganda toda, a fila de amigos e parentes querendo vir jantar aqui em casa para conhecer os sabores de minha propalada competência cozinheira é cada vez mais longa. Mas eu, que não sou besta e não quero perder amigos nem ser deserdado pelos parentes, vou enrolando como posso. Enquanto isso, minha esposa, por tabela, vai conseguindo manter “inexplicavelmente” a forma. Como é possível ela andar na linha, leve e saltitante, se alega ter em casa um “personal chef” de meu quilate? A fórmula é simples: inventiva, arranja panela, senta à mesa, dá duas garfadas, rasga elogios e, depois, inteligentemente, fecha a boca. Resta a mim engordar o ego com os elogios e a pança com o resto do macarrão borrachudo. Sou uma anta... e cada vez mais gorda.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de maio de 2014)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Aos cancerianos, abacaxi

Domingo de tarde, nada para fazer, resolvo optar por navegar pela internet ao invés de acompanhar pela televisão os 90 longos e penosos minutos do pouco e pobre futebol normalmente apresentado por aquele time pelo qual torço desde que me conheço por gente. Clique pra cá, clique pra lá, em determinada página me deparo com uma matéria leve e suave, típica para ser digerida em um dia como aquele, e é ali mesmo que embarco.
A materiola se debruça sobre um livreto de uma escritora norte-americana, agora lançado no Brasil, intitulado “Chocolate para arianos, camarão para taurinos”. Curioso como sou, fui adiante na leitura da resenha. A autora, Sabra Ricci, é uma chef famosa que cozinha para grandes astros como Julia Roberts e Jim Carrey e, além disso, é aficionada por astrologia. Nessa obra de sua autoria, decidiu reunir suas duas paixões, elaborando dicas gastronômicas que seriam compatíveis para cada signo do zodíaco.
Adomingadamente leve como estava, decidi dar uma espiada nas dicas para os cancerianos, grupo zodiacal no qual me enquadro com entusiasmo desde que nasci. Como a autora decidiu (talvez não ela, mas os astros, ok) que os cancerianos são suscetíveis a problemas estomacais (eles de fato me atazanam, mas isso só quando cancerianamente exagero no grostoli e na polenta), o livro recomenda que nós, os nascidos entre 21 de junho e 20 de julho, ampliemos a ingestão de chá verde, abacaxi e melancia, que seriam elementos facilitadores da boa digestão.
Tá, chá verde, tudo bem, gosto bastante. Mas as frutas selecionadas para meu signo não poderiam ser de mais fácil manuseio? Pô, abacaxi, nem é preciso tecer maiores considerações, afinal, todos o conhecem e não é para menos que ele protagoniza uma das expressões mais populares referentes a dificuldades em geral, uma vez que descascá-lo é um ato que exige habilidade e paciência superiores ao que se necessita para, por exemplo, desfrutar de uma banana (indicada no livro para os capricornianos). E melancia também, né, convenhamos... Além da dificuldade no transporte devido às suas dimensões, trata-se de fruta para degustar em grandes grupos, justamente o quadro em que cancerianos se sentem deslocados e intimidados.

Fiquei com inveja dos piscianos, para os quais é recomendada a ingestão de iogurte grego. E também dos escorpianos, para quem o caviar cai como uma luva. Como não posso mudar de signo sem nascer de novo, decidi que, ao menos à mesa, passarei a me comportar como um leonino.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de abril de 2014)