Mostrando postagens com marcador etiqueta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador etiqueta. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de julho de 2010

A gangue dos sinceros

O senso comum, as ideias pré-estabelecidas, os jargões, as frases feitas, os preconceitos, as verdades dos outros repetidas mecanicamente, são coisas que sempre me incomodaram e parece que têm o poder de me incomodar com maior intensidade à medida em que avanço calendário adentro. Escolho um representante desse grupo de atitudes para servir de exemplo a ser explorado na crônica de hoje.
Sinto calafrios terríveis que me sobem do dedinho do pé espinha acima até eriçar os pelinhos do meu pescoço quando escuto alguém repetir a malfadada frase “ah, eu sou uma pessoa muito autêntica, eu digo tudo o que penso, sou muito sincera”. Imediatamente meu Radar Tabajara Para Frases Feitas entra em ação e coloca em alerta todas as minhas defesas sociais. “Cuidado”, penso eu, “estamos diante de um grosso em potencial”. Ato contínuo, se comprovada a tese derivada do alerta (e quase sempre a comprovação vem rapidinho), dou um jeito de me afastar do dito-cujo “autêntico”, porque seguramente lá vem bomba. E das grossas.
Essas minhas quatro décadas - e mais o troco - de vida e de convivência com meus semelhantes me ensinaram algumas coisas, e cheguei à conclusão de que existe uma fronteira muito frágil separando a tal “autenticidade” e a tal “sinceridade” da simples permissão autoconferida para ser meramente grosso. Dizer o que pensa nem sempre é uma atitude civilizada, ou elegante, ou mesmo socialmente estratégica. Na maioria das vezes, acaba descambando, além da já citada grossura, para a mais banal burrice mesmo.
Exemplo prático que ajuda a ilustrar aquilo que até agora só se está falando em tese: um amigo convida você e sua esposa para jantar na casa dele, sábado. Você não sabe (já se pensasse um pouquinho, poderia pelo menos imaginar), mas seu amigo ficou a semana inteira elaborando o cardápio, foi ao mercado, escolheu ingredientes frescos, não economizou na compra do melhor vinho para acompanhar, deixou de lado o descanso do final de semana e passou a tarde inteira na cozinha se esmerando para oferecer-lhe um manjar inesquecível. E você, autentiquinho como gosta de dizer que é, não poupa “sinceridades” à mesa: “o arroz deveria ter ficado mais tempo cozinhando”, dispara você, com sinceridade. “Os filés fritaram demais”, emenda, autêntico. Resultado: se tivesse usado a boca para simplesmente mastigar o rango e de vez em quando grunhir um “hummm” de satisfação, certamente voltaria a ser convidado. Já faz uns dois anos e nunca mais foi chamado, não é mesmo? Pois é: viva a sua sinceridade.
O que aprendi (bem cedo, aliás), é que o exercício da elegância requer saber relevar os eventuais erros dos outros e valorizar as boas intenções. Para nosso próprio bem, sugiro usarmos mais a elegância ao invés dessa duvidosa “sinceridade” que anda pautando as posturas das gentes. Sinceramente...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, em 23/07/2010)