Que
a sociedade humana é uma entidade em constante processo de transformação, isso
estamos empanturrados de saber. Detectar as mudanças exercidas no cotidiano a
partir da evolução tecnológica, com o surgimento de parafernálias eletrônicas e
novas invenções e descobertas em todas as áreas do conhecimento, é a parte
fácil de perceber nessa marcha incessável. O mais complicado mesmo é conseguir
distinguir as sutis alterações no comportamento das pessoas, que se dão de
maneira paulatina, até se consolidarem como novas formas estabelecidas de ser,
de pensar e de agir, originando novos conceitos e visões de mundo. Algumas se
dão para melhor. Outras, preocupam.
Dentro
do quesito das que me preocupam, reside uma transformação que, a meu ver,
decorre diretamente do recrudescimento da postura competitiva, narcisista e
individualista que parece começar a reger e caracterizar a nova humanidade
deste século 21, ainda nascedouro. Trata-se da forma como nós estamos vendo o
humor, principalmente o televisivo, nos dias atuais. Para mim, sentado no sofá
da sala frente à televisão, a maioria dos novos programas humorísticos
nacionais é fonte de preocupação e de horror, muito distantes daquilo que eu
assistia com prazer (e rindo desbragadamente) nos anos 1970 e 1980.
Humor,
para as novas gerações de humoristas (e, pior, para seu imenso público), é
sinônimo de reduzir-se a imitar de forma achincalhada figuras famosas, colocar
em saia justa ao vivo e de surpresa essas mesmas personalidades, tirar sarro da
cara dos outros, agredir gratuita e irresponsavelmente quem não pode se
defender no mesmo momento, enfileirar palavrões, gritar histericamente,
reforçar preconceitos e estereótipos, abusar do mau gosto e do riso nervoso e
fácil. Foi-se o tempo do humor ingênuo e do humor calcado em textos
inteligentes e na atuação competente e criativa de roteiristas e humoristas de
primeira linha. Trocou-se o conceito de
“rir junto” pela agressão imatura e prevalecida do “rir às custas de”.
Sinal
preocupante (apesar de aparentemente insignificante) das transformações que
estamos presenciando na nossa forma de conviver. Nossa passividade, claro, nos
torna coniventes, o que é ainda mais preocupante.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de dezembro de 2012)