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terça-feira, 14 de abril de 2015

Tiro o chapéu

Recebi um telefonema do Pioneiro solicitando que eu comparecesse ao jornal dia tal, horário tal, para renovar a foto de minha cara, que encima esta coluna, porém, desta vez, usando um chapéu típico dos imigrantes italianos. Lá fui e cá estou, devidamente enchapelado, conforme o amigo leitor e a senhora leitora já devem ter percevisto, ali em cima.
Isso de estar de chapéu é algo que soa um pouco estranho para quem nasceu já na segunda metade do século 20, quando o uso dessa elegante peça do vestuário masculino estava em franco declínio. Cresci com a cabeça desprotegida do aconchego dos chapéus, os cabelos loiros (isso no antanho, bem no antanho) a esvoaçarem pelas ruas de Ijuí, os pensamentos a correrem soltos pelos paralelepípedos da cidade, as lições da tabuada e as conjugações no pretérito do subjuntivo fugindo livres e não criando raízes em meu cérebro oco e deschapelado. Sim, porque, além do valor que possui como estética, tenho convicção de que os chapéus cumprem também a importante e educativa função de manter coesas e latentes dentro da cabeça as informações e os temas que estudamos, auxiliando no aprendizado e na memorização. Tivesse eu estudado de chapéu em casa na adolescência, não teria até hoje de mexer os dedinhos na hora de calcular mentalmente quanto é sete vezes oito.
Apesar de charmoso e útil, o chapéu foi perdendo espaço na sociedade devido a uma série de fatores conjugados. Entre eles, por exemplo, o advento do automóvel no cotidiano das pessoas. Sim, porque, uma vez que uma das principais funções do chapéu sempre foi proteger a cabeça dos cidadãos contra as intempéries, as queimaduras do sol e a atividade metabólica das pombas, ele passou a ser supérfluo a partir do momento em que começamos a dispender boa parte de nosso tempo encapsulados dentro dos automóveis, que são bem mais difíceis de pendurar nos cabides dos salões de dança, por sinal.

O movimento contracultural dos hippies nos anos 1960 também teve seu peso, uma vez que a moda passou a ser deixar os cabelos crescerem livres, leves e soltos, impossíveis de serem embalados dentro de qualquer espécie de chapéu, cartola ou sombrero. Assim, foram-se os chapéus e ficaram as cabeças, ocas ou não, ralas ou melenudas. Mas para a criativa iniciativa do Pioneiro, ah, para isso, eu tiro o chapéu!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de abril de 2015)

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Beijo do cronista

Senhora minha leitora, meu amigo leitor, acreditem se quiserem, mas hoje, 13 de abril, é o Dia Internacional do Beijo. Pois é, eu também não sabia, sequer beliscava de longe minha cabeça a ideia de que pudesse haver uma data especial destinada a celebrar essa popularíssima manifestação universal de afeto, mas existe, e é hoje.
Mas antes que você se entusiasme e saia por aí porta afora tascando-lhe beijos a torto e a direito, amparado na desculpa de que um certo cronista da cidade disse que hoje é o Dia do Beijo e por isso “é hoje que você não me escapa”, é melhor puxar o freio e ficar sabendo de algumas coisinhas, para o seu próprio bem. Para começo de conversa, não seja impulsivo, né. Pense antes de fazer as coisas. Bom, pacto feito, sigamos, que temos crônica pela frente ainda.
Fui, então, investigar um pouco sobre essa história de Dia Internacional do Beijo e descobri algumas coisas interessantes (uma delas, para o senhorzinho mais afoito ali atrás, é que são transmitidas, em média, cerca de 250 mil bactérias a cada beijo, portanto, prudência, amigo, prudência). Olhem só: dizem que essa coisa começou no início dos anos 1980, inspirada na lenda de um jovem italiano metido a galanteador, chamado Enrique Porchelo, que se gabava de haver beijado todas as mulheres residentes na vila em que morava. Indignado com aquele diz-que-disse a atrapalhar as missas com os cochichos entre os fieis, o padre resolveu oferecer uma quantia em ouro como prêmio à primeira mulher da vila que se apresentasse afirmando não ter sido beijada pelo carinhoso e beijoqueiro concidadão. Como ninguém apareceu para reivindicar o prêmio, reza a lenda que o ouro segue escondido em algum lugar da Itália. Ou seja, as mulheres da vila preferiam o doce beijo de Porchelo ao punhado de ouro oferecido pelo padre. Eita, Porchelo, hein!

Situação oposta aconteceu em 1439 na Inglaterra, quando o então rei Henrique VI proibiu todo e qualquer tipo de beijo entre seus súditos em todo o reino, devido à paranoia relativa à transmissão de bactérias. Que coisa! Não posso atestar a veracidade de nenhuma dessas histórias que, se não são reais, pelo menos são saborosas. Iguais ao sabor de um beijo sincero, seja do tipo que for. Parafraseando o famoso apresentador de televisão, aqui vai então um “beijo do cronista”!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de abril de 2015)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O carnaval das agendas

Dezembro é o mês das agendas. Esquecidas ao longo dos demais onze meses do ano, colocadas a hibernar quietinhas no fundo dos balcões das papelarias, é no derradeiro mês do calendário que as agendas têm a oportunidade de despertar para a vida e fazem o seu carnaval.
Basta entrar dezembro que agendas passam a saltar indiscriminadamente em nossos colos, vindas de todos os lados. Agendas com capa de couro, agendas simples e agendas elegantes, agendas temáticas, agendas literárias, agendas com informações, agendas grandes, pequenas, médias, com pesos e medidas, com a conversão de moedas, com os dias da semana em inglês e espanhol (algumas até em alemão), agendas permanentes, agendas impermanentes, agendas com páginas em branco para anotar pensamentos profundos, agendas-diários, agendas com marcador, sem marcador, espiraladas ou em brochura, ecológicas com papel reciclado, infantis com desenhinhos fofos, empresariais sóbrias e respeitáveis, agendas ao gosto de cada freguês, em suma.
Eu fico faceiro nesta época do ano, porque me confesso um agendólatra assumido: sou viciado e dependente das agendas. Atingi tal ponto de dependência que preciso lançar todo e qualquer compromisso nas páginas da agenda, para que me lembre de cumpri-los. Se não está na agenda, esqueci. Se lancei na agenda, tenha a certeza de que cumprirei o compromisso. Não chego ao ponto de anotar lá tarefas prosaicas do dia-a-dia como escovar os dentes, tomar banho, pentear o cabelo, jantar, porque são coisas que aprendi a fazer ainda antes de me alfabetizar e de precisar de agendas. Mas não irei à dentista se isso não estiver apontado na agenda. Não pagarei as contas, não trocarei o óleo do carro, não comparecerei às reuniões, não felicitarei conhecidos pelos aniversários, essas coisas todas. Desagendado, eu não sou eu. Então, que venham as agendas! E elas vêm mesmo.

Mas vem cá, isso de coisas impressas em papel, não estava com os dias contados para acabar? Volumes físicos tácteis nos quais se lê e se escreve com canetas, não era coisa do passado? Pois é, vai ver que esqueceram de agendar essa extinção...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de dezembro de 2014)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Lixo descartável

Poucas cenas me deixam tão incomodado quanto presenciar pessoas arremessando lixo pela janela de um veículo em movimento. Papel de bala, casca de banana, bagana de cigarro, sacolas plásticas, latinha de refrigerante, já vi de tudo. Não importa a marca do carro nem seu ano de fabricação, muito menos a condição social dos ocupantes do veículo. A porquice, infelizmente, é democrática e atinge igualmente a todos.
Minha vontade, nesses casos, seria possuir superpoderes para conseguir sair de meu próprio carro, juntar a lixeira descartada em via pública, voar e emparelhar com o veículo dos porcos ambulantes, arremessando de volta pela janela tudo aquilo que eles expeliram em público logo ali atrás. Infelizmente, não possuo superpoder nenhum, e tenho de me conformar em observar quieto à repetição de cenas degradantes como essa no cotidiano do trânsito das cidades e das estradas. Como sabemos que o exemplo vem de casa, esses condutores estão repassando seus maus hábitos a seus próprios filhos ali no banco de trás, que naturalmente irão reproduzir a porcalhice dali em diante, lógico.
Jogar lixo pela janela de seu carro pode significar muitas coisas, e os psicólogos aqui que me socorram. Não só os psicólogos, mas também os sociólogos e os doutores em evolução do comportamento cultural de uma sociedade. Nós, brasileirinhos, temos uma relação de completo descaso para com aquilo que é público. Na via pública, jogamos lixo. Na vida pública, amealhamos o dinheiro público. Quando protestamos, quebramos tudo. Não temos zelo por nada, exceto por aquilo que nos pertence. E se o que for público puder ser amealhado para nosso patrimônio pessoal, o fazemos e, aí sim, passamos a cuidar como nosso. Mas enquanto for público, desdenhamos, sujamos, depredamos, estelionatamos, roubamos, espezinhamos, ignoramos.

O que esquecemos e ignoramos é que cada um de nós, cidadãos, também somos um bem público. As pessoas da nação são o maior bem da nação, por isso tantas leis que protegem nossas vidas e nossos direitos. Pena que, agindo assim, nos transformamos em bens de quinta categoria e, esses sim, plenamente descartáveis.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de dezembro de 2014)

sábado, 29 de novembro de 2014

Ora, Papai Noel

Estava andando pelas ruas centrais da cidade manhã dessas e de repente recebi um encontrão de um Papai Noel apressado. Ele acotovelou-me nas costas, abrindo passagem entre o grupo de pessoas que aguardavam na esquina a abertura do sinal para pedestres, e foi-se reto rumo não à casa de alguma criança comportada que merecerá ganhar presentes, mas provavelmente em direção à loja ou ao shopping que o contratou para animar as vendas.
Mas a questão aqui é que ele não pediu desculpas. Quem esbarrou foi ele; quem recebeu o encontrão fui eu. E a matemática da vida em sociedade, nesses casos, tem uma equação bem clara: quem esbarra deve pedir desculpas a quem é esbarrado. Mesmo que o esbarrante seja o Papai Noel. A não ser que Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Bicho-Papão e a Cuca tenham imunidade que lhes absolve da necessidade de pedidos de desculpas. Ou talvez eles pensem que, uma vez que são celebridades perenes, a lógica deva atuar de forma invertida e o esbarrado pedir a eles desculpas pelo esbarro que eles próprios provocaram. Mas acho que não.
O fato é que isso comprova que muita coisa anda mudando e andando do avesso nesses dias de hoje. Primeiro, que Papai Noel não tem de ficar andando a pé e apressado pela cidade, mas o que fazer se, com esse trânsito caótico, precisou estacionar o carrinho com as renas várias quadras longe de seu objetivo? E hoje em dia também não importa mais se a criança se comportou e tirou notas boas no colégio. O comércio deseja vender, as pessoas querem consumir e a presentaiada forra tanto os sacos do Papai Noel que ele precisa empregar representantes diversos para dar conta do recado.

No meu tempo, criança que não se comportava recebia uma varinha de marmelo que Papai Noel colocava no topo do pinheirinho de Natal. Nunca era usada, mas funcionava como aviso. Hoje em dia, quem é que vai exigir bom comportamento das crianças se os adultos, que deveriam dar o exemplo, jogam lixo nas ruas, desobedecem às regras de trânsito, furam filas, sonegam impostos? E eu aqui, me impressionando com um pobre e apressado Papai Noel esbarrante...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de novembro de 2014)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Basta de mimimi

Estranha essa tendência que boa parte das pessoas tem de gastar energias reclamando de seus problemas, ao invés de direcionar esse esforço para as soluções. Na maioria das vezes, pequenas parcelas desse empenho já seriam suficientes para desemaranhar as questões que as incomodam, mas não: preferem passar ao largo da atitude proativa que transforma o entorno para permanecerem atoladas no mar das lamúrias, dos ataques, da raiva grosseira, da purgação verborrágica de suas insatisfações. Estranho.
Não é difícil verificar essa atitude ao redor. Basta dar uma olhadela e já é possível detectar ali um choramingas convicto, agarrado a um poste de lamúrias, reclamando do chefe, do colega, do marido, da esposa, do (da) namorado (a), dos pais, dos filhos, dos amigos, do prefeito, do presidente, do mundo, da chuva, do sol, e pipipi e popopó e mimimi. Vejo e fico me perguntando a razão pela qual o dito chorão não vai lá e enfrenta o chefe, externando a ele suas insatisfações e suas observações? O tempo e a energia dispensados reclamando, posso assegurar, são infinitamente menores do que o esforço necessário para enfrentar e solucionar a situação. Mas quem opta pela alternativa B? Poucos. Raros.
A tendência, no geral, é adotar a máxima do repasse do abacaxi. Mas isso fica realmente estranho quando as pessoas resolvem passar para você os abacaxis que são estritamente delas, criados por elas, decorrentes de demandas que são delas. Mas decidem que é você quem precisa resolver. É a materialização da tendência cultural de que os problemas devem ser resolvidos pela Providência e que nós, indefesas criancinhas, temos o direito de receber tudo solucionado dentro de nossos biquinhos de passarinhos abertos no ninho, esperando a minhoca que cai do céu.

De braços cruzados e roncando grosso do alto da colina, esperam que alguém faça por eles. Ah, e são cientes de seus direitos, possuem claríssimas as ideias de como acham que as coisas devem ser, mas não lhes peçam para trabalharem por elas. As soluções que se materializem a seus pés ao sabor de seus desejos. E assim segue adiante a nau dos insensatos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de novembro de 2014)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

As sombras de Suzane e Raquel

Vai virar filme a história de vida de Suzane Von Richthofen, a bonita loira paulista de classe média alta que, em outubro de 2002, arquitetou o assassinato dos seus próprios pais, crime que foi cometido com crueldade pelo seu namorado e o irmão dele, dupla que ficou conhecida como Os Irmãos Cravinhos. Suzane, a exemplo dos Cravinhos, cumpre longa pena na cadeia, mas vem figurando constantemente na imprensa, pois seus atos seguem chamando a atenção.
Agora, vai virar filme e, provavelmente, sua história vai lotar as salas de cinema em todo o país, evocando o mesmo sucesso obtido anos atrás quando a atriz Deborah Secco interpretou nas telonas a biografia da ex-prostituta de luxo e blogueira Raquel Pacheco, a Bruna Surfistinha. O que elas têm em comum que atrai como um irresistível ímã a atenção de todos nós aos detalhes de suas trajetórias e de suas psiquês? Nesses dois casos específicos, Raquel e Suzane convergem em um aspecto crucial: ambas são belas moças provenientes de famílias de classe média, das quais o senso comum espera que sigam vidas consideradas “normais” e “socialmente aceitáveis”, cursando faculdade, virando profissionais de carreira, mães de família.
Em algum momento, no entanto, ambas resolvem protagonizar uma guinada decisiva para caminhos distintos e inesperados, ao menos, para a maioria das pessoas inseridas nas mesmas condições de vida que elas. Uma, opta pelo crime bárbaro; a outra, pelo mergulho no mundo da prostituição, sem que, aparentemente, precisassem optar por isso. Por quê? Aí é que está. A resposta não é simples e jamais consegue satisfazer o tamanho do mistério que segue existindo.

Procuramos nelas os pontos de convergência junto a nossos lados obscuros, da mesma forma como tentamos nos identificar com nossos ídolos positivos. Em que aspectos existem pedaços de mim na maldade de Suzane ou na transgressão de Raquel? O fascínio reside nessa busca inconsciente (ou consciente) por essas respostas. Elas acabam purgando as sombras que carregamos conosco e que (felizmente) não ousamos concretizar.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de novembro de 2014)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Ao ritmo das baterias

Nos tempos de antanho, nossos adereços para sairmos de casa se resumiam ao chapéu, à bengala, às luvas, às perucas, aos relógios de bolso, às gravatas, às sombrinhas, às echarpes, aos lenços perfumados, aos bigodes, às suíças e costeletas. Tudo muito simples, tudo muito romântico e elegante. Ataviávamo-nos defronte ao espelho, conferíamos se tudo estava no seu devido lugar (o lenço elegantemente dobrado no bolso da frente do paletó, pronto para ser alcançado a alguma indefesa dama espirrante na primeira esquina na rua, por exemplo) e saíamos ao mundo, desfilando garbosidades.
Ah, isso sem falar no delicado estojinho de rapé, aquele pozinho provocador de suaves espirros que foi moda em várias partes do mundo durante algum tempo, pois não é mesmo? E também as polainas, aquelas alvas capinhas protetoras de calçados, tão úteis na época em que calçadas e paralelepípedos eram luxos existentes só nas ruas das áreas mais centrais das cidades. Ademais, era poeira e barro mesmo e não sei como é que as damas mantinham limpas as barras dos brancos vestidos rodados com que desfilavam pelas praças e avenidas nas horas do “trottoir”.
Alguém ali lembrou também dos elegantes estojos dourados ou prateados para as cigarrilhas, claro, como olvidar? E as piteiras, lembrou a senhorinha que ergueu o dedo! Sim, as piteiras, é verdade, que finura que eram, a senhora tem razão. E os colares de pérolas, pérolas de todas as cores: brancas, alaranjadas, azuis... a sua tia guarda até hoje? Sim, a minha também... que lembranças bonitas!
Hoje, dizem que o mundo ficou mais prático, mais fácil, mais informal. Ninguém precisa mais de chapéu, cartola, fraque, relógio de bolso, caderneta e lapiseira, essas coisas. Solucionamos tudo saindo de casa correndo e passando a mão nas parafernálias eletrônicas que se transformaram nas bengalas de nossas vidas: celular, ipad, tablet, notebook, iphone, smartphone, netbook... Mas ai de você, ai de mim e ai de qualquer um de nós se esquecermos de dar em casa a maldita carga na bateria. Abandonamos as piteiras para nos tornarmos escravos dos cabos dos carregadores. “Que fim levou o carregador do celular? Não, esse é o do ipad...”.

Ontem, por exemplo, fiquei feliz porque esqueci o guarda-chuva na livraria. O lapso de memória me fez sentir gente de novo. Diferentemente do outro eu que esqueceu de carregar a bateria do celular antes de sair para a rua e me tornar assustadoramente incomunicável durante algumas horas. Se eu sem celular tenho a impressão de me apagar para o mundo moderno, ao menos eu molhado de chuva tenho a sensação de respirar vida real de novo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de junho de 2014)

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Senhor, eu?

Tenho uma boa notícia a dar aos meus leitores. Cheguei à conclusão de que a velhice não existe. Existe, sim, o passar ininterrupto dos anos. Existem as limitações que vão se impondo sobre o corpo. Existe o acúmulo de experiências, de frustrações, de alegrias, de descobertas, de percepções, de emoções, de perdas e de ganhos. Mas essa coisa de velhice, por si só, não existe, podem respirar aliviados.
Cabelos brancos invadindo a cabeça? Sabedoria acumulada, apenas isso, e podem ir respeitando aí e chamando de “senhor”, que é bom, obrigado. E, se possível, também cedendo o lugar no banco, isso, muito gentil, rapazinho, fez bem. Falta de fôlego? Pernas pesadas? Bem, bem, não precisamos ser todos atletas, e para que a pressa, não é mesmo? Há tanto a saborear na mansidão do mover-se, coisa que só aprendemos depois de muito tempo vivido. Vista fraca? Não quer dizer nada, eu usava óculos desde os cinco anos de idade, antes mesmo de ser alfabetizado.
Não, não, a velhice não existe. Ao menos, não existe para nós. Para os outros, sim, claro, a gente se depara com velhos todos os dias, por todos os lugares. Nossos avós eram velhos. Nossos pais vão ficando velhos. Até nossos ídolos envelhecem. Nós, não. Que bom, mas conosco isso não acontece. “Velho”, já dizia alguém, “velho é toda a pessoa que tem 15 anos a mais do que nós”. Verdade. Como eram velhos meus tios de 30 anos de idade quando eu os via do alto dos meus adolescentes 15. Como pareciam velhos os professores de 40 na faculdade de meus vinte e poucos. Nos meus 30, velhos eram os de quase 50. Agora, vejam só: quase 50 tenho eu, e não sou nada velho. Ou seja, comigo, não acontece. E se não acontece comigo, então, não existe.
O que existe é o olhar embaçado e deturpado de alguns jovenzinhos de vinte e poucos que insistem em me chamar de “senhor” e não escondem a cara de espanto quando descobrem que gosto é de rock and roll e que andam querendo me oferecer seu lugar no banco com medo de que eu me canse se ficar muito tempo em pé. Só porque tenho cabelos brancos e pelo menos (por baixo) 15 anos de idade a mais do que eles. Velhos são os pais deles, de trinta e poucos. Os avós, de cinquenta e tantos.

Eu, aqui, com meus 47 e uma floresta de cabelos brancos, não sei o que é velhice, ou juventude, ou adolescência ou maturidade. Eu sou eu mesmo todos os dias, simplesmente isso. Velhice não existe. Tá, tá, só não me convidem para um rolezinho pelo shopping, que não é minha praia. Nesse caso, vou preferir mesmo as pantufas e o chambre, sabe?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de maio de 2014)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Um toque de rosa

Tem coisas que ficam muito lindas quando escritas pelos escritores e lidas pelos leitores, mas que, quando confrontadas com as dificuldades impostas pela vida real, correm o risco de se transformarem em discurso vazio ou, o que é pior, aumentar ainda mais nosso grau de irritabilidade. Essas bem-intencionadas dicas sobre como driblar a monotonia estafante do cotidiano raramente conseguem assentar banco na agenda do nosso dia-a-dia, apesar de, na teoria, concordarmos que sua prática seria deliciosa.
 Quem sabe muito bem disso é a amiga leitora aí, que precisa levantar cedo pela manhã (antes ainda do que o próprio sol, esse folgado), vestir a criançada, escovar-lhes os dentinhos, dar-lhes café e preparar o lanche, levá-los para a escola, ir para o trabalho, solucionar a pepinada que brota sobre a mesa, atender ao telefone, receber e-mails raivosos, lembrar de comprar papel higiênico porque acabou em casa, buscar as crianças, ouvir de noite as reclamações do marido contra o chefe dele, botar a turma para dormir, desmaiar na cama e preparar-se para mais um round no dia seguinte. Tá, e aquela pausa para o relax, com a esticadinha nas pernas e nos braços, os quinze minutos para o cafezinho tranquilo a olhar para a beleza do céu, que tanto nos sugerem esses textos, como é que fica?
Pois não fica, não é mesmo? Não fica, não sobra tempo para essas poetices dos escritores. Sem falar que você se esqueceu de ligar para o encanador e, raios, a torneira do banheiro segue pingando a nooooite inteiraaaaa. Pois é, não é fácil, concordo e admito.
Concordo, admito, porém, leitora, não se esqueça de que eu sou escritor também, e não posso me furtar das responsabilidades inerentes à minha atividade. Assim sendo, permita-me também fazer uma singela sugestão nesse sentido de enrosar (criei agora... significa “tornar mais rosa”) a sua rotina. Que tal experimentar, por exemplo, um dia desses, burlar a hora do almoço e usar esse tempo para ir sentar-se em um banco da pracinha ou parque aí perto e olhar a vida passar, sem nada mais? Não tem pracinha ou parque próximos? Bem, apenas dê umas voltas na quadra, você vai ver o poder recuperador de células estressadas que algo assim tem.

Ou faça como umas vizinhas minhas, que final de semana passado, em pleno frio, viajaram para a praia e adoraram o céu encoberto e a tranquilidade na estrada e à beira-mar. Ou ainda, à noite, deixe descansar a rede social e convide o marido para um jogo de cartas, ou qualquer outra coisa que sua imaginação sugerir. Não é tão difícil assim enrosar seu dia. Pronto, falei.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de maio de 2014)

terça-feira, 20 de maio de 2014

Em plena temporada

Os sinais dos tempos estão aí, o tempo todo, para serem vistos por quem quiser (ou por quem puder) vê-los. Lida assim, sem maiores senões, a frase de abertura deste texto pode dar a impressão de que o cronista vai abordar temas apocalípticos. Como não se trata disso, vamos logo aos necessários senões, senão já viu, né...
Pois os sinais dos tempos a que me refiro são aqueles hábitos, comportamentos e ações que passamos a adotar em nossas vidas cotidianas, decorrentes diretos do estágio em que a sociedade se encontra no momento atual, e que ajudam a revelar e a definir a época em que vivemos (pois sim, falar em “sinais dos tempos” de forma apocalíptica também é um sinal dos nossos tempos, mas deixemos isso para lá, já disse). Em termos culturais, chama a atenção um aspecto que até há pouco era irrelevante no momento de se traçar o perfil de alguma pessoa, mas que, nesses nossos tempos, vem ganhando um significado crucial quando se deseja conhecer os gostos de alguém e detectar pontos de convergência de interesses.
Trata-se dos seriados televisivos, que nos últimos anos vêm se transformando em fenômeno cultural em boa parte do mundo ocidental, o Brasil incluído. Nos dias de hoje, não basta mais desejar que a pessoa (especialmente as personalidades que por um ou outro motivo são entrevistadas para perfis na imprensa) indique os livros que prefere, os autores que gosta de ler, os filmes que marcaram, os atores e atrizes e diretores que mais aprecia, as músicas de que mais gosta e quais suas bandas mais queridas (ah sim, e tem ainda a cor preferida, a frase marcante, um lugar, um ídolo, uma comida, o número da sorte, o signo...). Para sabermos bem quem ela é, precisamos também que nos diga quais são os seriados televisivos que anda acompanhando.
Porque todo mundo tem um seriado televisivo (ou, normalmente, diversos seriados televisivos) que gosta de acompanhar. Valem também aqueles seriados antigos cujas temporadas já foram canceladas, mas que permanecem vivos nas reprises dos canais pagos e podem ser adquiridos em caixas de DVDs nas lojas. Um dos sinais dos tempos é esse: diga-me ao que assistes e dir-te-ei quem és. Como é? Quer saber quais são os meus seriados preferidos? Bom, eu até diria, mas terminou o espaço da coluna...

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de maio de 2014)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Godzilla sou eu

Andei escrevendo aqui neste espaço, no final de semana, a respeito do novo filme do Godzilla, que está estreando nos cinemas do mundo todo. Godzilla, todos sabem, mas sempre é bom recordar para os incautos, é aquele lagartão gigante que tem o reprovável vício de sair do mar e devastar cidades a caudadas, só baixando a bola depois da ação de algum super-herói voador, ou do exército ou de cidadãos comuns que viram heróis pelas mãos dos criativos roteiristas.
Bom, mas foi só eu me botar a escrever algumas reflexões a partir disso para minha esposa passar a dizer que não precisa se dar ao trabalho de ir ao cinema para ver o Godzilla, uma vez que ela tem o discutível privilégio de vê-lo em ação aqui casa todos os dias, promovendo estragos relativamente semelhantes ou até maiores do que os danos causados pelo réptil original. Refere-se ela, com essa observação cínica, a mim mesmo, como o esperto leitor já deve ter desconfiado.
E se for esperto mesmo o leitor como julgo que seja, antecipará também a compreensão de que ela está coberta de razão em sua comparação metafórica entre mim e o astro-lagarto, haja vista minhas mais recentes atuações dentro do lar que com ela compartilho. Minha arrepiante capacidade de destruir não exige atributos reptilianos, pelo contrário: basta para tanto o uso descoordenado de minhas mãos e do restante de meu corpo que, a julgar pela forma como o manejo, bem que poderia ser dotado de uma cauda a fim de lhe proporcionar o equilíbrio que tanta falta faz quando me locomovo me esgueirando entre os pufes da sala, as cadeiras e as quinas das prateleiras.
Sábado, por exemplo, consegui torrar um aparelho de DVD ao tentar estabanadamente ligá-lo junto à tevê da sala. Esqueci que o trouxera de Porto Alegre e que a voltagem lá é 110, e não 220, como aqui em Caxias. Bastou enfiar a flecha na tomada para que eu desaparecesse com minha cara abobalhada por trás da nuvem de fumaça que saltou do aparelho, junto com o estouro denunciador da bobagem, que atraiu minha esposa aos saltos de lá de dentro para ver o que estava acontecendo.

Não era nada, apenas eu, Kirstzilla, em ação, mais uma vez, fazendo coro com a reaparição do lagarto original nos cinemas. A heroína aqui em casa acaba sendo minha esposa, que tenta proteger nosso patrimônio material e físico das minhas investidas, me despachando para o quarto a ler um livrinho. Minha esposa sabe domesticar Godzillas. Como é que Hollywood ainda não a descobriu?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 19 de maio de 2014)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A pedra no sapato

Somos criaturas incompreensíveis e insaciáveis, mesmo. Renegamos aquilo que desejamos a partir do instante em que o desejo é saciado. Conquistamos benesses que passam a nos parecer estorvos e depois criamos mecanismos para burlá-las. Ou não sabemos o que queremos, ou queremos o que não conhecemos, ou desejamos o que não precisamos ou sei lá qual é a nossa. Somos humanos, alguém aí vai fazer questão de lembrar, e eu vou responder dizendo que sim, somos, mas o que somos de fato é uns humanos bem chatinhos.
Reflexões como essas eram as que eu fazia noite dessas ao chegar em casa após um longo dia de trabalho que me exigiu praticar caminhadas exaustivas entre um ponto e outro da cidade a fim de cumprir as metas estipuladas por mim mesmo para aquela data. A meteorologia estava colaborativa e me proporcionara um dia ensolarado e com temperatura amena, o que me permitiu caminhar sem correr o risco de me ensopar com chuva ou com suor, aparecendo penteado, apresentável e sorridente em todos os lugares previstos.
Cumpridas todas as tarefas, a jornada se encerrava com o chegar em casa e trocar de roupa para então relaxar jantando e compartilhando os fatos do dia com a esposa. Sentado à beira da cama, desfazia os nós dos cadarços e liberava um longo suspiro de prazer ao desarrolhar para fora dos pés cada um dos sapatos. “Ahh, que prazer iningualável esse o de tirar os sapatos após um longo dia de trabalho caminhando”, pensava aquela parte de mim que produz pensamentos-chavões em modo piloto-automático.
 Mas logo a outra parte entrou em cena, aquela que tem como prazer próprio contradizer e questionar os pensamentos-padrões da parte Polyana, e me induziu a refletir que a humanidade precisou de séculos pisando em gravetos e espinhos para inventar os primeiros calçados para proteger os pés na caça aos mamutes ou nas fugas da fome dos tigres-de-bengala (o que seria da nossa linhagem humana se aquela tigrada não precisasse de bengala, hein?) e agora, que temos sapatos, ficamos nos achando no direito de pensar que o prazer reside em tirá-los dos pés, quando deveríamos era imaginar o horror a que estaríamos submetidos se, sem a invenção dos sapatos, tivéssemos de ir visitar os clientes tropicando nos paralelepípedos e grudando o calcanhar nos chicles jogados nas calçadas.

Viram como é difícil saciar um ser humano? E de quebra, o leitor ainda é brindado com um exemplo prático de como é complexo filosofar. Especialmente quando há uma pedra dentro do sapato.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de maio de 2014)

Aprendendo a ouvir

Um dos segredos para conseguir obter uma vida mais sadia é aprender a conhecer a linguagem de seu próprio organismo. Desde muito cedo, até mesmo porque se trata de instinto, aprendemos a detectar, por exemplo, algumas de nossas necessidades mais básicas, como fome e sede, e imediatamente tratamos de encontrar meios de saciá-las (no início, metendo a boca no mundo para ganhar a teta materna e, mais tarde, aprendendo a dizer “papá” e “mamá”, o que enche nossos pais de orgulho por imaginarem que os estamos a chamá-los, mas o que queremos é rango mesmo, e rápido).
À medida em que vamos crescendo e nos tornando seres mais complexos, nosso rol de necessidades vai também ampliando e se tornando mais cheio de melindres e requififes. Tirando de lado frescuras como a vontadinha de comer sorvete de rapadura ou de assistir a um novo filme estrelado pela Scarlet Johansson, alguns de nós, mais atentos e sensíveis aos sinais emanados pelos seus próprios corpos, aprendem a perceber que o organismo está necessitando, por exemplo, de glicose, ou de frutas, ou de verduras, ou de um pouco de carne, essas coisas. Cientes de que o corpo fala, vamos aprofundando canais de comunicação conosco mesmo, processo que, se bem organizado, resultará em indiscutíveis ganhos para nossa saúde física.
Padrões semelhantes ocorrem, a meu ver, também no âmbito intangível de nossas essências, ou seja, em nossa parcela não-física, que alguns podem batizar de alma, ou de porção espiritual, ou inteligência, essência, self, o que seja. Essa nossa parte de nós mesmos também tem fomes, desejos e necessidades, que gritam e precisam ser supridas de vez em quando, a bem de nossa sanidade mental (e/ou espiritual).
Noite dessas, por exemplo, detectei em mim uma necessidade grande de voltar a observar estrelas. Felizmente não chovia, a noite estava clara, enluarada. Peguei a cadeira de praia e assentei-me na sacada, a fim de saciar essa saudade que repentinamente se abateu sobre mim, de privar por alguns instantes da companhia muda e apaziguadora das estrelas que, incrível, continuavam lá, nos mesmos lugares em que eu as havia visto da última vez em que nos encontráramos, sei lá eu quanto tempo atrás.

Recarreguei-me nessa minha parte não corporal e voltei para dentro de casa e de mim mesmo, saciado. Quantas dessas necessidades não palpáveis será que andam gritando dentro de nós sem que lhes estejamos dando ouvidos? É fundamental aprender a não ser surdo a esses clamores.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de maio de 2014)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

E vamos xingando

A deselegância, para não dizer o descontrole e a falta de educação, do técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Luiz Felipe Scolari, ao xingar com palavrões o fotógrafo Roni Rigon, do jornal Pioneiro, que no domingo passado fazia seu trabalho ao cobrir a visita de Felipão ao Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, em Farroupilha, causou espécie. O perfil pouco polido do treinador já é conhecido de longa data, porém, o que causou espanto foi a truculência das palavras aliada a um estado de espírito agressivo, carrancudo, hostil às manifestações naturais da população e da mídia à sua presença, haja vista a figura pública que ele encarna.
Mas eu não me espanto. O Felipão utilizou-se de palavreado de baixíssimo calão contra o fotógrafo e seu trabalho, lá no terreno sagrado do Santuário, sob os olhares escandalizados da santa que teoricamente foi homenagear, por uma simples razão: xingar e mandar as pessoas irem para “aquele lugar” são atitudes que, infelizmente, são encaradas como “naturais” no ambiente futebolístico. Prova disso é aquele outro fato recentemente ocorrido também aqui em nossas plagas serranas, que abordei em crônica recente, quando torcedores do Esportivo de Bento Gonçalves agrediram o árbitro com palavras e atos racistas em partida do Gauchão. Chamado às contas, um dos acusados, na tentativa de se defender, afirmou que não proferiu frases racistas, mas que apenas fez “xingamentos normais contra o juiz”. Xingar, então, é considerado “normal” no futebol por torcedores, jogadores, treinadores e todos os demais personagens das tramas desenvolvidas nos gramados.
O problema é que tudo aquilo que se transforma em “normal” devido ao uso comum, mesmo não o sendo (matar é “normal” nas guerras; estuprar também; justiçar com as próprias mãos é “normal” no submundo do crime e por aí vai), acaba virando regra de conduta, e é aí que mora o perigo. O xingamento, no cenário do futebol, de tão corriqueiro que é, se transformou em banal e usual. O problema é que o uso comum cria a falsa impressão de normalidade, levando as pessoas envolvidas a esquecerem que normal é que não é. Pode ser corriqueiro, mas não é normal, nem aceitável, nem louvável, muito menos justificável.

Daí a irmos nos xingando no trânsito, no trabalho, em casa, na escola, na vida, nos santuários, é só um passo. Driblar essa falsa normalidade é o desafio que se impõe às celebridades como Felipão e a cada um de nós.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de maio de 2014)

terça-feira, 6 de maio de 2014

A customização dos costumes

Hoje em dia você precisa customizar a sua vida. Na ânsia urgente de se mostrar diferente, de afirmar sua personalidade e seus valores frente a um mundo cada vez mais superlotado, as pessoas buscam ansiosamente, em tudo, maneiras de fugirem à massificação e acreditarem-se únicas. Para tanto, customizam a tudo e a si mesmas.
O mercado já percebeu essa tendência e, claro, está um passo à frente de todos nós, não só dentro da onda como na crista dela, ditando tendências. Sim, tendências da customização. Trata-se de uma contradição em termos, mas é isso mesmo o que acontece, basta observar em volta. Tempos atrás, a garota decidia chocar seus pais, seus familiares e amigos e, para tanto, pintava os cabelos de azul (alguém aí lembrou de Esther Pillar Grossi? Não? Ninguém? Aquela senhora ali, com o sorrisinho... lembrou, né? Ah, não quer revelar a idade... certo, certo... prossigamos...). Mas o espanto e o escândalo de outrora deram lugar para a customização da rebeldia e, hoje, a menina rebelde tem à disposição uma gama infinita de cores, matizes e combinações para pintar seu cabelo do jeito que bem desejar, isso sem falar nos modelos de cortes.
Quer pintar as unhas? Pode ser uma de cada cor, ou de cores alternadas, ou com desenhinho ou sem, enfim, customize suas unhas. Tatuagem? Pode ser feita onde bem entender, do tamanho que quiser, da cor que preferir. Customize o seu corpo. Quer refazer suas orelhas, diminuir o nariz, furar a testa? Customize o seu corpo a seu bel prazer, tudo é possível. Vai construir? Customize cada ambiente de sua nova casa, em cada detalhe. Cada centímetro quadrado de seu novo lar pode ser feito do jeito como você quiser, o impossível não é mais o limite. Customize sua viagem ao Exterior, sua férias na praia, seu sorvete, seu prato no bufê. Customize seu cafezinho com ou sem chantilly, grande ou pequeno, com raspas de limão ou de chocolate, frio ou quente, com ou sem graspa.
No mundo de hoje, você tem a oportunidade de ser mais você muito mais do que se tinha décadas atrás. Porém, nuca foi tão difícil, frente a tantas alternativas, perceber quem você realmente é, haja vista a gama imensurável de “vocês” que você pode ser. Corre-se o risco de, ao dobrar a esquina, a moça de cabelos verdes e camiseta dos Ramones dar de cara com outra moça de cabelos verdes com camiseta customizada dos Ramones. E vai que, ainda por cima, ambas gostem de sorvete de queijo com calda de morango?

Raios! Terão de aprender a se acostumar à customização em massa.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de maio de 2014)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sob a clava de Grogh

O CENÁRIO: Em algum lugar do mundo.
A ÉPOCA: No futuro próximo, ano de 2020 d.C.
A CENA: Durante uma palestra sobre algum tema qualquer, o palestrante emite uma opinião relativamente banal, afirmando que, para ele, a cor mais bonita do mundo é o amarelo. Imediatamente, em meio à plateia, um ouvinte se levanta, saca uma arma, desfere cinco tiros contra o palestrante, que morre ali mesmo, sobre o palco. Enquanto o adorador do amarelo agoniza, o ouvinte/assassino, em pé em meio aos demais, afirma em alto e bom som: “Ele está errado. A cor mais bonita do mundo é o verde”. Ninguém ousa discordar. Ele guarda a arma e se retira do recinto. Afinal, a discussão estava encerrada. Ele vencera.
OUTRO CENÁRIO: Em algum lugar do mundo.
OUTRA ÉPOCA: No passado distante, ano de 10.000 a.C.
OUTRA CENA: Ugh está caminhando com sua clava à sombra do vulcão. Ugh acha o vulcão bonito, desde que não esteja ativo. Ugh é um adorador de vulcões e, sempre que encontra um deles, aponta para a formação rochosa, extasiado, e exclama “Nhoof, ugh, urgah”. O problema é que, pelas proximidades, circula Grogh, também com sua clava. A clava de Grogh é mais pesada que a de Ugh, pois Grogh é mais fortão do que Ugh. Não se sabe se Grogh odeia vulcões, ou se odeia Ugh, ou se simplesmente não entende o que Ugh quer dizer com “Nhoof, ugh, urgah”. O fato é que Grogh senta-lhe a clava em Ugh e racha sua cabeça ali mesmo, à sombra do vulcão, matando-o e encerrando também qualquer princípio de discussão.
MAIS UM CENÁRIO: Em todos os lugares do mundo.
MAIS UMA ÉPOCA: Os dias atuais, ano de 2014 d.C.
MAIS UMA CENA: Cada vez mais, a ferramenta preferencial utilizada pelas pessoas para afirmar seus pontos de vista, para discordar ou debater, é a agressão física e verbal, com violência e desrespeito. Pouco diferem de Grogh e Ugh e caminham a passos largos rumo ao futuro sombrio visualizado no início do texto. O insulto pessoal, a baixaria transportada na boleia do anonimato, as agressões físicas aos diferentes e aos que não pensam igual, o matar pelo matar, o cuspir, o xingar, o atacar, cada vez mais integram o conceito de convivência (?) de muitos.

Não sei, mas algo anda muito mal por aí. Começo a achar que era mais seguro passear à sombra de vulcões milênios atrás, apesar das poderosas clavas dos Groghs alheios.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de abril de 2014) 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Mão na enxada

Da janela da sala em meu apartamento, observo o andamento de uma obra pública lá embaixo, que, quando concluída, resultará em uma área de lazer inédita para o bairro, com pista para caminhadas, banquinhos, pracinha, aparelhos de ginástica, essas coisas. Com tudo isso a meu dispor a poucas quadras de casa, prevejo em mim o redespertar do ânimo para empreender caminhadas diárias e exilar o sedentarismo, o que me anima.
Mas o que me desanima é o ritmo da obra. Ao longo da tarde em que passo no meu escritório caseiro (“home office”, em bom português), dirijo-me de tempos em tempos à janela da sala para verificar em que estágio se encontra o andamento do trabalho lá embaixo, ávido que estou pela sua conclusão. E aí, me desespero. Vejo lá os três homens de sempre, que já reconheço como os incumbidos da tarefa, mas seus ritmos diferem entre si. O de camisa azul está lá no canto da quadra, enxada em punho, puxando e nivelando a terra que tira de um montinho ao lado. Já os outros dois, um de camisa branca e outro de cinza, escoram as mãos sobre os cabos de suas respectivas enxadas, cada um ao lado de seu intocado montinho de terra, e conversam.
O quadro não se altera nos cinco minutos em que os observo, até retornar ao computador e às minhas próprias tarefas. Uma hora mais tarde, faço nova pausa e volto à janela, para espiar. E tudo segue igual como dantes. O de azul, puxando terra. Os dois outros, olhando e conversando. “Bom, Marcos, se o que você quer é exercício, por que não desce lá, arranca uma das enxadas do queixo de um daqueles dois e se bota a puxar terra junto com o outro?”, pergunta meu Grilo Falante. Mando-o calar a matraca e volto ao trabalho.
Mais uma hora se passa. Assento-me em minha torre de observação e, dessa vez, detecto que o cenário se alterou um pouco, com a chegada de um quarto elemento, esse, de camisa amarela. Camisa amarela e enxada na mão. Mas nem a camisa amarela e nem a enxada parecem exercer sobre o quarto elemento o efeito de injetar ânimo ao trabalho, porque opta pelo grupo dos conversadores de queixo escorado.

O de azul segue lá, impávido, puxando e aplainando terra, sozinho, a tarde inteira. Não fica sabendo das fofocas compartilhadas pelos outros três. Apenas puxa e aplaina terra para que, um dia, eu retome minhas caminhadas. Até lá, ainda tenho muito a fazer. Volto ao computador, porque a minha terra ninguém puxa.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de abril de 2014)

segunda-feira, 31 de março de 2014

Aperta o cinto

Eu não estava em Caxias do Sul: estava em Uvanova. Eu não estava na minha casa: estava na casa dos sogros, em Uvanova. Eu não estava no meu quarto: estava em um dos quartos da casa dos sogros, em Uvanova. Eu não estava frente ao meu guarda-roupas nem frente à minha cama: estava frente ao guarda-roupas e à cama em um dos quartos na casa dos sogros, em Uvanova.
Como podem ver, eu estava completamente fora do meu ambiente natural, no qual consigo me vestir direitinho até de olhos fechados. Naquela ocasião, defronte ao guarda-roupas e à cama em um dos quartos na casa dos sogros, em Uvanova, eu estava de olhos bem abertos, é verdade. Porém, faltou luz. Faltou luz e eu tinha de me vestir rapidamente, pois era padrinho de casamento de alguém da família e, para adiantar serviço e evitar trapalhadas (de minha parte, claro), a esposa já havia organizado as roupas que eu deveria vestir depois do banho, sobre a cama (aquela cama ao lado do guarda-roupas existente em um dos quartos na casa dos sogros, em Uvanova). Bastava eu, em resumo, botar as calças, vestir a camisa, as meias, os sapatos, o cinto e deu.
Só que faltou luz, tá ligado? Bem na hora em que eu iria começar a me vestir. Mesmo sendo dia, o ambiente escureceu bastante. Porém, havia uma penumbra que me permitiu colocar as calças, a camisa e o pacote todo, e me fui para a sala, onde o sogro já aguardava e para onde rumavam os demais membros da família à medida em que iam também se aprontando. Assim que minha esposa surgiu e me olhou, foi acometida por um mastodôntico e incontrolável acesso de riso que passou a esculhambar sua maquiagem. Apontava para mim e ria à larga. Mesmo sem saberem o motivo daquela graça, os outros me olhavam e também riam, já que não é difícil cair no riso em olhando para mim com atenção, sei disso, já estou acostumado.
O mistério se desfez quando ela finalmente conseguiu dizer que eu havia me enganado e vestido as calças de meu sogro ao invés das minhas e estava lá, todo pimpão, pronto para apadrinhar casamento. Detalhe: meu sogro é bem mais magro do que eu. Bem que eu senti, ao fechar o botão da calça, a necessidade de dar uma profunda inspirada de ar e murchar a barriga, mas calças encolhem, não é mesmo?

Essa foi a prova do quão difícil costuma ser a gente se colocar no lugar dos outros...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de março de 2104)

domingo, 30 de março de 2014

Leitores no automático

Pronto! Pra quê! Foi só eu escrever aqui na sexta-feira sobre as aprontadas que nosso cérebro faz quando nos botamos a agir no piloto automático, narrando o sumiço momentâneo da minha tigelinha com pêssegos em calda produzidos por minha sogra, para que diversos leitores se entusiasmassem em me enviar relatos sobre episódios esdrúxulos protagonizados pelos pilotos automáticos de estimação de cada um deles. Compartilho alguns desses relatos, na intenção de justificar minha preocupação em relação a permitir que os pilotos automáticos tomem conta do timão das barcas de nossas vidas (“timão das barcas de nossas vidas”, eita eu, hein?).
Não direi nomes, nem dos remetentes dos e-mails e nem dos seus pilotos automáticos, para evitar constrangimentos alheios. Sou um cronista consciente. Mas a Sofia, por exemplo (nome fictício, bobinhos), me disse que isso que aconteceu comigo não é nada. “Aérea mesmo é minha tia Riette, que perdeu a bolsa dentro de casa e teve de ir para o trabalho sem ela. Só de noite, de volta, é que descobriu ter enfiado, na pressa, a bolsa dentro da geladeira”. Essa, sim, passou a semana distribuindo cheques frios pela cidade. Evitem cheques da tia Riette, ela navega no piloto automático.
Outro me escreve delatando um tio (por que é que, na maioria dos casos, são os pilotos automáticos dos tios dos leitores que aprontam, hein?) que, movido pela fome atroz que lhe acomete quando o relógio soa meio-dia (não importa se no horário de verão ou no horário que deveria), quis se botar a apurar o preparo do almoço, se enfiou na cozinha, meteu a mão na travessa de salada cheia de radite e regou-lhe generosamente com detergente, achando que era vinagre. Eita, tiooooo! Desliga o piloto!
Uma leitora que sempre me escreve confessou ter, ela mesma (só pode ser tia de alguém), saído às pressas do trabalho porque o marido a esperava já há tempos no carro do outro lado da rua. Atravessou correndo, abriu a porta do veículo, sentou no banco do carona, disse “oi, amor” e, quando foi dar o beijinho, deparou-se com um barbado que não era o dela. Entrara no carro errado. No piloto automático, por pouco não comete um inusitado caso de autossequestro.
Sem falar nos outros e-mails e naquelas três outras histórias que minha esposa não me deixa contar. O bom do piloto automático é que, pelo menos, temos a quem atribuir a culpa das mancadas. A ele, ou aos tios, né, tia Riette.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de março de 2014)