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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A expertise do amador

Uma coisa é ser um amador; outra coisa é ser um enganador. Ambas as coisas diferem de ser um expert, e não é necessário que sejamos experts em tudo na vida. Podemos (e até devemos) ser experts em algumas coisas, especialmente naquelas relacionadas à atividade que escolhemos para ser nossa profissão. Aí, nessa área, nos cabe empreender todos os esforços no sentido de buscarmos incansavelmente a excelência, sim senhor, sim senhora, senhorita e senhorito.
Não podemos ser amadores (e muito menos enganadores) dentro do âmbito de nossa atividade profissional. Se escolhemos ser médicos, precisamos saber diferenciar baço de pâncreas (coloquem os dois órgãos à minha frente, um de cada lado, e sou capaz de oferecer ao público 100% de bola fora ao tentar identificar um e outro); se decidimos ser sapateiros, precisamos saber pregar um salto e recauchutar uma palmilha; se queremos ser jornalistas, precisamos saber escrever com correção e identificar o que é notícia; e assim por diante. É mister que busquemos excelência naquelas atividades que nos definem perante a sociedade.
Mas a coisa pode pegar mais leve quando se trata das atividades das quais nos aproximamos por simples afinidade diletante, o que pode ser traduzido e resumido como lazer, hobby, passatempo. Se não sou um churrasqueiro profissional e não trabalho em uma churrascaria, posso me dar ao luxo de colocar o avental e me fantasiar de churrasqueiro aos finais de semana, para júbilo, gáudio e saliva de meus amigos e familiares. E tudo bem se, eventualmente, minha tradicional picanha bem passada esturricar feito carvão vez que outra. Tudo bem vírgula, desde que haja à mão o número da telepizza, claro. Minha fama de assador não será abalada por um eventual deslizamento de competência (desde que o mico não se repita com frequência constrangedora).

Mas é aí, nessa esfera, na dos prazeres e brincares, que podemos nos largar ao luxo das eventuais incompetências, porque é ali que o erro pode revestir-se de humor. Ali. Só ali. Fora isso, é incompetência e, aí, não tem desculpa nem tapinha nas costas. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é coisa outra, até barbeiro está careca de saber.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de dezembro de 2014)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

De fora da festa

“De onde você menos espera, dali é que não sai nada mesmo”. A brilhante frase é de autoria de Apparício Torelly (1895 a 1971), o “Barão de Itararé”, jornalista criador do suplemento “A Manha”, que entrou para a história do jornalismo humorístico e crítico no Brasil por suas máximas repletas de humor, ironia e finas alfinetadas. O dito dele, com que abro a crônica de hoje, escrito há mais de meio século, ao invés de caducar com a passagem do tempo, me parece ter sua validade revigorada a cada dia que passa. Basta que olhemos à nossa volta.
Nosso entorno hoje é basicamente composto pelo sucesso das nulidades. A incompetência, o despreparo, o descomprometimento, o arrivismo, o jeitinho, a preguiça, a falta de zelo, a burrice, a mediocridade, o compadrio, a malandragem tomam conta de todos os setores da sociedade e vão moldando o perfil desse nosso país que, imaginam ainda alguns, é o “do futuro” e o “que vai para a frente”. Quem corre para o precipício também está indo para a frente e o futuro da mediocridade é a reprodução, a manutenção e o aprofundamento da própria mediocridade. Sob esse viés, concordo que sejamos o “país do futuro” (porém, dos néscios) e um “país que vai para a frente” (rumo às profundezas do abismo humano).
Passar o abacaxi adiante é o lema instaurado na cultura nacional e não me venham dizer que estou falando novidade aqui. “Não é comigo”, “não fui eu”, “não dá para fazer”, “a culpa não é minha” são as frases que escutamos a torto e a direito de quem tem uma tarefa a cumprir, mas se exime das consequências de sua falta de responsabilidade. “Minha parte eu fiz”, é o que nos dizem aqueles que obviamente não chegaram nem perto de sequer começar a fazer a parte que lhes cabia. Mas é assim que somos, nós, brasileirinhos, que precisamos que criem leis para multar quem joga lixo nas calçadas, coisa que no Japão não se faz não porque existam leis para isso (e elas não existem), mas porque cada cidadão lá habita um nível civilizatório inimaginável para a brucutança humana que se reproduz por estas nossas vergonhosas plagas.
O baile da mediocridade não tem hora para acabar, meus amigos. Trata-se de uma festa em que eternamente cabe mais um e a turma não para de chegar. De minha parte, só me resta fechar a porta, colocar tampões nos ouvidos e abrir um livro. Divirtam-se.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de agosto de 2013)