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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Inspiração a cavalo

Ontem vi um cavalo desgarrado correndo insano pelas ruas daqui do bairro, pouco depois do meio-dia, quando me dirigia ao centro, de carro. Arremeteu pelo cruzamento coincidentemente no momento em que o sinal estava verde para ele, mas tenho dúvidas de que o tenha feito por ser um bom observador das leis de trânsito. O bom observador era eu, que estava parado ao vermelho do meu lado, o que foi uma previdente sorte a evitar ser abalroado pelo equino solto e apressado. Não sei para onde ia, mas na manhã seguinte pensei que aquele pequeno episódio poderia render uma crônica.
Mas não rendeu. Nem tudo que cruza o sinal rende crônica. Um cavalo, um motorista desrespeitoso, uma senhora de bengala. Quer dizer, tudo isso pode render, mas não rende obrigatoriamente, se é que me entendem. Abandonei o cavalo louco e fui para as pesquisas. Com as pesquisas, descubro que hoje, 25 de junho, é o Dia do Cotonete. É, sim, está lá, escrito. Não sei se é verdade ou sacanagem, afinal, a internet, assim como o papel e nossas mentes, aceita qualquer coisa, e pode muito bem ser piada de algum espertinho. Mas de qualquer forma, está lá: Dia do Cotonete. Fica difícil saber, uma vez que inventam dia para tudo, não seria surpresa existir mesmo o Dia do Cotonete. Bom, pode render crônica.
Fui estudar a origem do cotonete. Descubro que a haste higiênica flexível foi inventada por um polonês em 1920. Tem o nome do tal polonês. Tenho preguiça de copiar e escrever o nome. Sem falar que, daqui a seis anos, em 2020, talvez o assunto renda crônica, quando o cotonete fizer um século de existência. Mas agora, não. Abandono o cotonete ao lado do cavalo cruzador de sinais verdes.
Súbito, recordo as novas aventuras de meu afilhado, agora que ele já fala frases com sujeito, verbo e predicado; pede para visitar a casa dos dindos; conta episódios acontecidos na escolinha e conversa ao telefone. Concordo que é tudo terno e encantador e que renderia nova crônica sobre os passos do despertar de uma criança (ou sobre os passos do despertar de pais e de padrinhos/tios), mas estou bloqueado. Sou invadido por uma sensação de culpa ao colocar o afilhado junto aos temas descartados para esta crônica, sentado sobre o cavalo desgarrado, a segurar uma caixinha de cotonetes aniversariantes.

Tem dias em que não há nada de errado com o mundo, muito pelo contrário. Quem acorda na contramão é você mesmo. O segredo é reconhecer a coisa e não querer ficar botando a culpa no cavalo que cruza o sinal. Afinal, cruzou no verde. Não há nada de errado com ele. Talvez um cotonete me destampe os humores. Ou um abraço do afilhado. Amanhã prometo uma crônica.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de junho de 2014)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O cavalo do rei

“Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo”! Foi da imaginação genial de William Shakespeare que saíram essas poderosas frases, atribuídas ao Rei Ricardo III na peça de mesmo nome, escrita mais de 400 anos atrás.
Rei Ricardo III, grande tirano, está no campo de batalha, já no final da peça, e sabemos que ele vai morrer. Não vemos as cenas explícitas de combate (Shakespeare nos poupa do explicitismo e dos efeitos especiais que são a tônica das criações cênicas cinematográficas da modernidade), mas temos noção de sua selvageria devido aos efeitos delas, como o estado lastimável do Rei e seu desespero ao detectar que seu cavalo foi abatido e ele precisa de outro animal para se mandar dali e preservar sua vida.
O Rei implora aos ventos por um cavalo. Implora a quem quer que possa ouvi-lo e providenciar-lhe o único meio de fuga capaz de lhe evitar o destino trágico e certo (e predito em sonhos pelos espectros das vítimas de suas crueldades). Que alguém lhe faça surgir um cavalo! Ele está disposto a dar seu reino inteiro em troca de apenas um cavalo que lhe permita garantir a posse de seu bem mais precioso: a própria vida. Logo ele, que desvalorizou as vidas de quem quer que se interpusesse em seu caminho ao longo da peça. Só que agora é tarde, Rei Ricardo, afinal, você não tem mais poder de barganha, pois seu reino lhe escorre das mãos, e nada há para trocar.
Ricardo clama pelo cavalo, mas é abatido logo depois por espadas que redimem a ordem e a justiça ao final da peça shakespeariana. De nada adiantaram o desespero e a frase de efeito. Lembro do Rei Ricardo quase todos os dias pela manhã, quando sento-me aqui para escrever estas linhas diárias. “Uma crônica. Uma crônica. Meu reino por uma crônica!”, vou eu bradando em silêncio pelos cômodos do apartamento, na esperança de que as musas da inspiração se condoam de mim e me soprem um tema aprazível. Às vezes, funciona. Outras vezes, não. O problema é que nenhuma das musas acredita no meu poder de barganha, afinal, elas são antigas e já viram esse filme antes: Ricardo não tinha mais reino nenhum a ofertar em troca do cavalo. E eu, que reino haverei de ter para cambiar por uma crônica?
As musas sabem que meu desespero não é para tanto, nem chega aos pés daquele que acossava Rei Ricardo, o descavalado. Tenho a sorte de, nesses momentos de crise inspiratorial, poder lançar mão a uma metáfora presenteada por Shakespeare e resolver meu pequeno draminha. Sorte a minha não ser personagem shakespeariano. E de não precisar comprometer a entrega de meu reino, afinal, as prestações são a perder de vista...

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de junho de 2014)