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terça-feira, 13 de maio de 2014

Sob o império da barbárie

A delação, a desconfiança mútua e o medo são alguns dos mais hediondos legados que os regimes totalitários produzem no cotidiano das relações sociais entre as pessoas comuns obrigadas a viver sob a escuridão dessas ditaduras. Acusar o vizinho para salvar a própria pele passa a ser a tônica a reger o penoso passar dos intermináveis dias de subjugação ao terror. Foi assim na Alemanha nazista, no Brasil da ditadura militar e na Rússia barbarizada pelo regime de Stálin, só para citar alguns exemplos macro que marcaram o século que recém terminou.
Mas o horror assume variadas formas e não depende somente do estabelecimento de um regime ditatorial de governo para se manifestar e barbarizar a vida cotidiana das pessoas comuns. O horror também pode fincar suas raízes em sociedades cujo estado de direito faliu por incompetência e má-fé dos responsáveis legais por sua gestão, fazendo com que a ordem institucional dê lugar ao caos. E quando o caos passa a imperar, a sensação de que a carroça desgovernou sem freios ladeira abaixo passa a ser uma triste realidade palpável.
Tenho a sensação de que estamos, no Brasil, embarcados dentro dessa carroça do caos social sem freios, ladeira abaixo. Mal começo a conseguir deglutir a tenebrosa notícia do linchamento escabroso da dona-de-casa em Guarujá, no litoral paulista, ocorrido há pouco mais de uma semana, por ela ter sido injustamente acusada de ser uma sequestradora de crianças e praticante de magia negra, e já me pousa no colo, como uma bomba-relógio pronta a explodir, a notícia de que em Osasco, na Grande São Paulo, uma manicure de 26 anos foi torturada e morta, acusada de roubar um saco de biscoitos. Uma mulher acusou a moça de ter furtado os biscoitos de sua casa e contratou uma dupla de homens para sequestrá-la, torturá-la e matá-la.

O trio de acusados foi preso no final de semana. Apesar disso, não foi possível recuperar o saco de biscoitos. Tampouco será recuperada a vida da manicure, que, pelo visto, valia menos do que o produto que ela foi acusada de roubar. Fico aqui a me perguntar, neste início de semana, se ainda é possível recuperar a humanidade das gentes que nos cercam. E se ao sair de casa hoje alguém apontar para mim na rua e me acusar de ter roubado um pacote de grôstolis? Voltarei para casa à noite? Reitero que ando preocupado.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de maio de 2014)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A invasão bárbara

Precisamos resistir ao avanço da barbárie. Ela se manifesta de muitas e variadas formas, o que exige estarmos permanentemente atentos a seus movimentos. A melhor (e única) arma capaz de deter seu avanço, combatê-la e mesmo eliminá-la, é a civilidade. Civilização é antônimo de barbárie.
A barbárie só viceja e só se alastra sobre terreno destemperado de civilização. Se semearmos civilidade, estaremos criando escudos naturais contra a barbárie. A fórmula é simples, mas executá-la na prática é muito complicado. Requer esforço e envolvimento. Requer desejo de resistir. Exige que adotemos essa atitude de forma determinada. Requer tudo de nós, e o melhor de nós. De cada um de nós. Para que não sucumbamos à barbárie. Meu medo, meu maior temor, é que sucumbamos todos à barbárie. E a barbárie não dorme no ponto. Precisamos estar alertas.
Em tempos passados, distantes na História, o termo “bárbaros” era utilizado para designar povos violentos e desconhecidos, vindos de longe para conquistar, destruir, matar, estuprar, pilhar aquilo que as outras culturas haviam levado séculos para construir. Isso mudou. Hoje, os bárbaros estão entre nós, moram ao lado, são semelhantes a nós e, o pior de tudo, muitas vezes, habitam nossas próprias almas em segredo, onde são alimentados com nossas raivas, com nossos ódios acumulados, com nossas intolerâncias, com nossa tendência ao pensamento autocentrado, com nossa vontadinha de passar a perna em todos os demais em benefício próprio, com a violência que vamos acalentando e deixando latente lá dentro de nossos íntimos. E, quando menos esperamos, na primeira oportunidade, o bárbaro vem para fora e se manifesta com toda a sua selvageria característica.
Foi assim no final de semana em Guarujá, no litoral paulista, quando uma multidão linchou e assassinou uma dona-de-casa inocente, acusada erradamente de ser uma sequestradora de crianças. Não precisou muito para que a barbárie se instalasse, camuflada de justiça, pelas mãos de uma turba de gente que se imaginava “do bem”. Linchar não é fazer justiça. Linchar é crime. É barbárie. Mesmo que a moça fosse culpada daquilo que a acusavam (e não era), o linchamento seguiria sendo o mesmo crime horroroso que foi.

Foi barbárie. Pura e simples barbárie. Precisamos resistir a ela. A barbárie não vem mais de além-mar em embarcações lotadas de vikings distantes. Ela está aqui ao lado. Ela está dentro. E, se não cuidarmos, ela planta sementes dentro de cada um de nós. Precisamos urgentemente resistir. Confesso que ando bastante preocupado.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 8 de maio de 2014)