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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Três a zero

Esta semana de julho que se iniciou na sexta-feira passada pegou pesado na tarefa de empobrecer o cenário cultural e intelectual brasileiro. A julgar pelo foco que “A Ceifadora” apontou em sua foice colhedora de existências, pode-se concluir que andava faltando mentes brilhantes lá do “outro lado” e que foi expedida a ordem de vir aqui buscar uma remessa farta e qualitativa do produto.
Como resultado disso, estamos tendo de assimilar de uma vez só as partidas de três importantes e insubstituíveis nomes da cultura contemporânea brasileira, um atrás do outro. Na sexta-feira da semana passada, dia 18, chegou-nos a notícia da morte repentina do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, aos 73 anos de idade, acometido em casa por uma embolia pulmonar. Membro da Academia Brasileira de Letras, Ubaldo assinou obras que integram o seleto time dos clássicos brasileiros da atualidade, como “Sargento Getúlio”, “O Sorriso do Lagarto”, “A Casa dos Budas Ditosos”, “Viva o Povo Brasileiro”, entre outras.
Mal começávamos a assimilar a dimensão dessa perda e, já no dia seguinte, 19 de julho, segue-lhe o mesmo caminho o educador, teólogo e escritor mineiro Rubem Alves, aos 80 anos de idade, por falência múltipla dos órgãos. Alves era vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura e asfaltara uma longa carreira de vida dedicada a refletir sobre temas psicanalíticos, educacionais e existenciais. Um intelectual de primeira linha, atuante e que fazia a diferença. Deixou extensa obra literária que aborda as questões filosóficas que tanto lhe absorviam e também uma vasta produção destinada às crianças, a quem dedicava especial atenção.
Agora, a quarta-feira desta semana, dia 23, é chacoalhada com a morte do escritor paraibano Ariano Suassuna, aos 87 anos, devido a um acidente vascular cerebral. Também integrava a Academia Brasileira de Letras, tendo se dedicado ao romance, à poesia, ao ensaio, à dramaturgia. Sua obra mais conhecida é a peça teatral “Auto da Compadecida”, que foi encenada diversas vezes e virou filme.

Espero que pare por aí, ao menos, momentaneamente. Fico sempre possuído por uma sensação de esvaziamento pesado quando desaparecem de nosso convívio essas figuras referenciais da cultura que fazem tanto a diferença. Claro que suas obras permanecem e seguirão fazendo a diferença sempre que revisitadas, mas o ponto final de suas existências define o fechar da porta da produção que advém de suas lavras, o que sempre é uma pena. Assim como cada um de nós, são todos obviamente insubstituíveis.  São perdas bem mais significativas do que um sete a um em Copa do Mundo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de julho de 2014)

domingo, 23 de dezembro de 2012

O centenário do mestre Braga




Os apaixonados pela boa literatura escrita em língua portuguesa produzida no Brasil têm uma boa razão para celebrar a data de 12 de janeiro de 2013. Ela marca o centenário de nascimento do maior cronista gerado em solo pátrio, um dos grandes mestres desse gênero literário que, aos poucos, em função dos esforços de seus discípulos, começa a receber a importância literária que lhe é devida. Trata-se do capixaba Rubem Braga, nascido em 12 de janeiro de 1913 na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, que legou às letras nacionais uma vasta obra composta quase que totalmente pela produção de crônicas publicadas nos diversos jornais com os quais colaborou, perenizadas sob a forma de antologias em livros que seguem encantando leitores e ensinando os escritores os segredos da produção dessas pequenas grandes obras-primas carregadas de sensibilidade, lirismo, literariedade e gênio.
Cachoeiro de Itapemirim é um município brasileiro que tem o orgulho de poder se ufanar por legar ao país duas celebridades em duas áreas de expressão artística nacionais: Rubem Braga na literatura e outro Braga, Roberto Carlos, na música (apesar de compartilharem sobrenome e cidade natal, não são parentes). Devia haver alguma coisa especial, mágica e inspiradora na água bebida pelas mães cachoeirenses ao longo da primeira metade do século passado para gerar gênios da criação como a dupla Rubem e Roberto. Boa sugestão de homenagem seria ler algumas crônicas do escritor tendo como trilha sonora de fundo algumas das mais belas canções compostas pelo cantor, que tal?
Rubem Braga começou cedo a se dedicar ao ofício da escrita diária, uma vez que, já aos 15 anos de idade, era repórter do jornal “Correio do Sul”, em Cachoeiro de Itapemirim. Aos 19 anos formava-se em Direito em Recife, mas jamais exerceu a profissão. Seu currículo como jornalista, atividade que praticou até a morte em 19 de dezembro de 1990, inclui passagens por jornais em São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro (onde trabalhou na Rede Globo de Televisão como redator). Acompanhou, como correspondente de imprensa, a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista (1932), bem como foi correspondente de guerra nos anos de 1944 e 1945 acompanhando a atuação dos pracinhas da FEB nas batalhas na Itália durante a II Guerra Mundial. Seus relatos do front e do cotidiano no campo de batalha mesclam o tino típico do poder de observação do repórter com o lirismo poético narrativo que marca toda a produção literária do cronista.
Rubem Braga, devido à qualidade ímpar do seu estilo, praticamente lança as âncoras que vão definir o estilo literário da crônica no país, ao lado, claro, de outros grandes nomes como João do Rio, Sérgio Porto, Stanislaw Ponte Preta, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Millôr Fernandes e outros. Sua fórmula consistia em deitar um olhar romântico e lírico sobre os temas do cotidiano, expressando suas impressões no papel por meio de uma escrita desprovida de rebuscamento e de excessos. A estética da simplicidade é a tradução de seu gênio, como, aliás, o é na obra da maioria dos gênios. Seu legado pode ser saboreado nos livros que permanecem e também nas crônicas produzidas na atualidade por alguns de seus discípulos que beiram os pés de sua qualidade, como Luís Fernando Verissimo, Fabrício Carpinejar, Jimmy Rodrigues e alguns poucos outros.
(Texto publicado na revista Acontece Sul, na seção Planeta Livro, edição de dezembro de 2012)