sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Teorias conspiratórias

Alguns leitores me escrevem afirmando serem aficionados pelas mensagens contidas nas entrelinhas das crônicas que aqui cometo neste espaço. Afirmam encontrar verdadeiras lições de vida e mesmo reflexões profundas no meio de textos em que aparentemente apenas discorro sobre a sensação desagradável de sentir cócegas no nariz quando lavo a louça ou quando falo sobre o prazer que tenho em encontrar conhecidos cruzando sobre uma faixa de segurança. Juram esses leitores que, nessas minhas crônicas, há muito mais entre uma linha e outra do que pensa nossa vã filosofia.

Apreciam mais eles, portanto, tudo aquilo que eu não escrevo e que julgam estar ali, visível somente para a leitura atenta praticada pelos iniciados, do que aquilo que efetivamente digito. Gostam mais do ghost writter que eu sou de mim mesmo, do que do eu-próprio que redige o que acaba sendo publicado aqui. Dia desses produzi uma aparentemente inocente crônica em que discorria bobamente sobre sacos de lixo esquecidos no porta-malas do meu carro e recebi e-mails de leitores me parabenizando pelo sutil recado que subliminarmente eu teria passado contra a extinção do mico-leão-dourado. Eu não sabia que existiam micos-leões-dourados, tampouco que estavam em extinção. Mas o leitor enxergou exatamente isso nas entrelinhas. Que medo começam a me dar essas entrelinhas que andam se enfiando entre minhas linhas sem me solicitar a devida autorização...

Só espero que meus leitores não cheguem ao extremo da paranóia que atingiu um amigo meu, chamado Argentino, que certa vez ficou impressionadíssimo com aquelas teorias conspiratórias que pregam haver mensagens diabólicas em certas músicas, se escutadas de trás para diante. Convenceu-se Argentino de que o mesmo ocorria com os livros de Paulo Coelho, e botou-se a ler de trás para frente “O Alquimista” em busca de mensagens demoníacas, a fim de desmascarar as verdadeiras intenções daquele autor. Por favor, leitores, evitem ler minhas crônicas de trás para diante. Não lhes quero provocar pesadelos além dos já advindos da leitura normal dessas mal-digitadas linhas.

(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de fevereiro de 2012)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Civilizai-vos uns aos outros

Vivemos numa sociedade que se mostra cada vez mais incivilizada no aspecto da capacidade dos seres humanos de se relacionarem uns com os outros respeitando regras básicas de convivência. “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a si próprio” é um preceito tão antigo quanto desdenhado. As leis da boa convivência vão sendo diariamente varridas para debaixo do tapete sob os olhos estupefatos de quem ainda conta com atos de civilidade no trânsito, na escola, nas ruas, nos restaurantes, nos condomínios, no ambiente de trabalho, nas relações profissionais e pessoais. Viver próximo aos próximos está distanciando os semelhantes.

Os mais otimistas veem no incremento da educação o estandarte que deve ser levantado para confrontar o problema e encaminhar a humanidade para a construção de uma sociedade menos acotoveladora e mais harmoniosa. Enquanto investimento a longo prazo, concordo; porém, acho vital o uso de outro remédio que obtenha resultados imediatos, para evitar que a barbárie tome conta de tudo antes que os efeitos futuros da educação sejam colocados em prática.

O artefato para amenizar um pouco, e já, a selvageria da vida em sociedade, a meu ver, reside no incremento e na disseminação do uso desbragado da gentileza. Defendo a gentileza como elemento civilizador. Expressão de fácil compreensão, se aplicada no dia-a-dia, a gentileza produz efeitos instantâneos e é capaz de transformar o cenário da convivência urbana num piscar de olhos. Imagine o uso da gentileza nas situações do trânsito, no sair e entrar de portas giratórias e elevadores, nas filas dos buffets, no trato de assuntos conflitantes, no comportamento cotidiano que passa a levar em consideração a existência das demais pessoas que nos cercam. Deixar de ver o outro como um inimigo mortal que deseja capturar nosso pedaço de osso é um exercício que vale a pena ser praticado.

Sorrir um pouco mais; dar bom-dia/boa-tarde/boa-noite; empregar as palavrinhas mágicas “obrigado”, “por favor”, “desculpe”, “com licença”; saber reconhecer quando somos alvo de uma gentileza e saber agradecê-la. E retribuir, não necessariamente para a mesma pessoa, mas para outro desconhecido que não a espera de nós. Acredite: pouparemos vidas sendo mais gentis. Ajudaremos a aplacar o inferno, asseguro. Claro que isso não significa sermos tolerantes e/ou coniventes com a malandragem alheia, com os abusados, com os mal-educados, com os espertinhos que querem levar vantagem. Mas precisamos abandonar o pressuposto de que a sociedade é composta por seres que nos odeiam e aos quais devemos direcionar ódio. Porque, do jeito como anda a coisa, está, sim, ficando odioso conviver.

(Crônica publicada no jornal Pioneiro em junho de 2010)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Na ponta do nariz

Não sei se isso acontece também com você, caro leitor, mas comigo é batata: sempre que estou empenhado na doméstica tarefa de lavar a louça, acomete-me uma incômoda e irritante coceira na ponta do nariz. Com todas as mãos envolvidas na tarefa, molhadas e ensaboadas com detergente, é impossível proceder ao ato automático de levar a ponta dos dedos ao contato com a ponta do nariz para eliminar a sensação de coceira que, ao andar do lavar de xícaras e colheres, só se intensifica.
O que fazer nesses casos?
Normalmente, o primeiro impulso é contorcer o pescoço fazendo a cabeça girar cerca de 45 graus e elevar um pouco um dos ombros a fim de tocar com parte do antebraço a ponta coçante do nariz, esfregando um contra o outro em movimentos frenéticos deflagrados pela ânsia de livrar-se daquela ânsia. É uma operação complicada e de efeitos normalmente desastrosos para quem não possui a destreza física de um contorcionista de circo, como eu, que a muito custo hoje em dia dobro os joelhos para resgatar do chão a fatia de pão que sempre cai com o lado da manteiga para baixo. Sem falar que não funciona. Coceira na ponta do nariz só se esvai com o toque certeiro da ponta dos dedos e ponto final. Não há ombro, cotovelo, palma de mão, joelho ou umbigo que exorcize a angustiante sensação.
É como se de repente, ao começar a esfregar com o bombril aquela panela em cujo fundo o arroz queimado do meio-dia grudou-se todo, uma etérea teiazinha de aranha flanasse no ar e fosse pousar tal qual um lençol fantasmagórico sobre a ponta do seu nariz, provocando a comichão que lhe envesga os olhos e lhe vai gerando uma sensação indescritível de impotência contra o incontrolável, a ponto de dar vontade de sair correndo. Uma vez saí correndo. Nem é bom lembrar aqui o que aconteceu e deixemos assim.
Já tentei usar isso como argumento para livrar-me da incumbência de lavar a louça, mas o olhar 37 que me lança minha esposa sempre que avento a possibilidade me provoca calafrios em todas as demais partes do corpo. Ainda prefiro a coceirinha, que se restringe à ponta do nariz.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de fevereiro de 2012)

domingo, 29 de janeiro de 2012

Fôlego curto

Algumas senhoras leitoras minhas me têm escrito reclamando deste meu estilo às vezes resfolegante de escrever, a partir do qual edifico parágrafos mais longos do que os discursos de Fidel em seus melhores momentos, o que invariavelmente lhes exige inspirações de ar e uma manutenção prolongada de fôlego nem sempre exatamente saudáveis para a idade em que se encontram. Concordo, mas não é sempre assim. Prova está na frase imediatamente anterior a esta.
É verdade que há momentos em meu escrever em que me empolgo e passo a encarrilhar argumentos um atrás do outro, despejando sem parcimônia os ditos-cujos utilizando-me com despudor das vírgulas, dos traços, dos parêntesis e, às vezes, até mesmo dos pontos-e-vírgulas, todos eles artifícios que, quando bem empregados, auxiliam a manter em suspenso o fôlego do leitor sem proporcionar pausas que, entre um gole de café e outro, ou após uma ida ao banheiro, podem me fazer correr o risco de perder a sua preciosa atenção. Porém, não é sempre. Também tenho lá meus períodos curtos.
O uso das sentenças longas não é invenção minha e tampouco característica única deste que vos escreve, muito pelo contrário, vem sendo empregado por grandes próceres da literatura universal que fizeram a fama e espero que também a fortuna exigindo dos leitores o emprego de uma atenção redobrada quando surpreendidos no súbito ato de verem-se emaranhados no labirinto de ideias acolheradas entre pontos situados a distâncias excruciantes entre um e outro, como este mesmo período que agora deslindamos juntos. Marcel Proust era um deles. O cronista gaúcho João Bergman, o Jotabê, era outro. Eu, um simulacro prolixo incomparável a nenhum deles.
Mas a leitura de períodos decorrentes de um “estilo asfixiante”, como tão bem definia o vício escritural o já citado beletrista Jotabê, não deve ser obstáculo que se apresente como interposição intransponível entre autor desmedido e leitores de fôlego curto, uma vez que as ideias neles contidas são de fácil apreensão após duas ou três releituras pausadas e atentas, sendo sempre bom lembrar que a síntese do que eles encerram muitas vezes só vai ser encontrada mesmo é na frase que vem a seguir. Sim, às vezes eu enrolo.
Mas para não afugentar de vez os leitores e as leitoras de todas as idades que ainda me restam, proponho uma técnica de leitura a ser empregada naquelas crônicas em que o tal do estilo asfixiante se faz claramente presente, a fim de resguardar a saúde física e mental dos que lêem, e a permanência da sua atenção aos escritos deste que ainda escreve. Sugiro a leitura intercalada dessas frases, evitando as longas e pulando diretamente às mais curtas, substituindo o exaustivo exercício respiratório pela simulação de uma corrida de obstáculos literal. Afinal, ler não deve ser prejudicial à saúde.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em junho de 2010)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Socializando na faixa



Não é em coquetéis, não é em bares, não é em eventos beneficentes, não é em festinhas de final de semana, não é em eventos culturais nem em reuniões sociais. A bem da verdade, meu local preferido para contatar pessoas, rever amigos, encontrar conhecidos há muito desaparecidos, fazer contatos importantes, mostrar-me vivo, trocar cartões ou números de telefone e socializar em geral é... a faixa de segurança! As faixas de segurança, todas elas, assim, no plural.
Sou vidrado em faixa de segurança. Gosto do formato rápido, jovial e direto que caracteriza os encontros que se materializam sobre as faixas zebradas que adornam as esquinas dos centros urbanos. Ali não há espaço e nem tempo para rodeios. Encontrar-se com alguém sobre uma faixa de segurança requer uma muito bem desenvolvida capacidade de síntese e foco social, habilidade essa cultivada por poucos, muito poucos.
Ali, em meio às passadas rápidas que damos mirando a segurança da outra margem da calçada (sim, porque, segurança, mesmo, só obtemos nas calçadas, e não sobre as faixas que levam esse nome), é preciso saber ser objetivo quando ocorre o encontro com outro frequentador desses ambientes urbanos. Se ficar enrolando, o resultado do encontro poderá vir a ser uma estada mais prolongada em um leito de hospital (isso, na melhor das hipóteses) depois que o sinal trocar do vermelho para o verde. É um esporte radical, sim, mas para poucos.
Outro dia encontrei Jair na faixa localizada na esquina da Sinimbu com a Visconde de Pelotas. É ali que normalmente nos encontramos. Mais uma vez, desenvolvemos nosso habitual diálogo de faixa de segurança:
“E aí, como v...?”, perguntei eu, vindo.
“... do ótimo, e tu?“, respondeu ele, indo.
Pronto! Mais um tapinha nas costas que acabou pegando no cotovelo e estava solucionado outro produtivo, simpático, moderno, civilizado e agradável encontro social casual de faixa de segurança com o Jair. E quem disse que é preciso muito mais do que isso? Já trocamos discos e livros sobre a faixa de segurança. Já contei e escutei fofocas nelas. Mandei lembranças, prometi ligar, falei piadinhas, sorri. Semana que vem, marquei um café sobre uma delas. Veremos se sobrevivo...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de janeiro de 2012)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Filosofia de sexta

Certa vez um repórter que me entrevistava pediu que eu resumisse meu próprio perfil em algumas poucas palavras. Criou-me ele com essa demanda tamanha paralisia cerebral que tenho a sensação de que, respondesse o que quer que fosse, permaneceria sempre sendo infiel à verdade. Não pelo fato de eu me considerar pessoa complexa e significante demais para ser resumida em pouca palavras, meu ego não me leva a tamanhas lonjuras. Mas por ser esse um questionamento que considero um dos mais inquietantes da existência humana: como exatamente somos? Quais os parâmetros que devemos utilizar para definir a essência daquilo que torna cada um de nós único e inigualável frente aos demais bilhões de habitantes do planeta?
Nossa tendência, quando confrontados com o tema, é logo oferecer a visão que possuímos de nós mesmos como a resposta mais equalizada com a realidade. Quem sou eu? Eu sou como eu mesmo me vejo, e ponto final, afinal, “qua comando mi”. Porém, a visão que temos sobre nós mesmos é apenas uma ponta do emaranhado novelo que se chama nossa personalidade.
Tão ou mais importante quanto a visão que temos de nós mesmos é a forma como os outros nos veem. O outro (e todos os outros) não tem acesso a nossas motivações mais íntimas, aos pensamentos e sentimentos que movem nossos atos. O outro só vê a concretização de nossos atos, e é por meio disso que vai forjando em seu próprio íntimo a visão que nutre sobre aquilo que somos. Minha timidez pode ser detectada como arrogância, só para dar um exemplo de fácil digestão.
E não é só isso. Também sou aquilo que eu mesmo penso que os outros pensam sobre mim. Ou seja, se eu me vejo como tímido, pode ser que eu creia que Zuleika me julgue prepotente. Quando, na verdade, Zuleika me vê é como energúmeno mesmo, mas eu não sei de nada. E para finalizar, somos também aquilo que os outros acham que nós pensamos de nós mesmos. Eu sou tímido, acho que Zuleika me vê como arrogante, Zuleika na verdade me vê como energúmeno mas ela pensa que eu, energúmeno que sou, me vejo como gênio da lâmpada.
O que somos, então, afinal das contas? Ora, a soma de tudo isso, o que nos torna indecifráveis e instigantes esfinges para nós mesmos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de janeiro de 2012)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Essas gentes do mundo

Existem dois tipos de pessoas no mundo. “As gremistas e as coloradas”, apressa-se a pensar o apressadinho. “As inteligentes e as antas”, aligeira-se a classificar o preconceituoso. “As trabalhadoras e as preguiçosas”, já sentenciaria meu avô e todos os demais avós existentes. “As que vão para o céu e as que vão para o inferno”, determina a carola no primeiro banco da igreja. “As boas e as más”, catequiza o determinista. “As sortudas e as azaradas”, reflete o aposentado na fila da agência lotérica. “As felizes e as infelizes”, amarga a moça triste, em sintonia de pensamento com a senhora alegre sentada ao seu lado no ônibus. “As vegetarianas e as carnívoras”, adivinha o dono da churrascaria. “As otimistas e as pessimistas”, arrisca o pragmático, chegando próximo do conceito que o cronista pretende abordar rapidamente nas linhas que se seguem.
A bem da verdade, como podemos perceber, existem é bilhões de tipos de pessoas no mundo, todas elas classificáveis em dois grandes grupos opostos sempre que se pretende contrapor dois tipos excludentes e antagônicos de comportamento ou de formas de pensar. Hoje, aqui, quero me referir à diferença existente entre as pessoas que eu chamaria de propositivas e aquelas que eu classificaria como as impeditivas. As primeiras são aquelas que fazem o mundo andar, responsáveis pelo girar da roda. São a minoria absoluta. As segundas são aquelas que facilmente se vergam aos empecilhos, que trombam com tudo nas pedras existentes no meio do caminho, que empacam frente ao primeiro obstáculo e não sabem se desvencilhar da burocracia. São a esmagadora maioria.
As pessoas impeditivas são aquelas que, quando surge um problema, imediatamente param tudo e ficam à espera de uma solução que venha do céu, ou de algum superior, e optam direto por frases como “volte amanhã”, “não, não há o que fazer”, “não, não dá”. Já as propositivas usam da boa vontade, da inteligência e da criatividade para encontrar e apresentar soluções, fazendo a carroça andar porque atrás vem gente, minha filha.
Precisamos urgentemente, no Brasil, de um fermento que faça surgirem mais pessoas propositivas em todos os ambientes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de janeiro de 2012)