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sexta-feira, 25 de abril de 2014

A medida de cada fobia

Cada um com as suas fobias, já dizia uma tia minha, que não podia ver borboleta que saía sapateando pela casa. Existem fobias esdrúxulas e fobias compreensíveis, porém, fobias são fobias e sempre atazanam a vida de quem sofre de uma delas, independentemente de ser enquadrável em um ou em outro grupo.
Entendo como fobias compreensíveis aquelas que fazem as pessoas terem medo incontrolável de pitt-bull, ou de cobra, ou de aranha, ou de político carreirista. Já as esdrúxulas são aquelas que parecem inofensivas para a maioria das pessoas, mas fazem algumas suarem frio, como os medos de joaninha, de dia ímpar, de cor amarela, de letra de funk, coisas assim.
Eu, de minha parte, venho cultivando uma crescente e irreversível fobia de atendente de loja. Basta eu me aproximar de uma loja (para onde normalmente só entro arrastado pelos cabelos por minha esposa, por isso que procuro mantê-los bem curtos, os cabelos), que já começo a suar frio, a tremer o queixo, a trolavras as pacar... quer dizer... a trocar as palavras. Tenho muito trauma de atendente de loja.
Mas como tenho, por outro lado, paixão pela compra de discos e livros, procuro controlar minha fobia de atendente de loja sempre que me vejo posicionado dentro de uma livraria ou de uma loja de discos, para onde minhas pernas costumam me conduzir irracionalmente sempre que estou a trotear pela cidade, a despeito de minha vontade. Procuro sempre passar despercebido para tentar vasculhar discos e livros sem que os atendentes me vejam, mas nem sempre isso é possível, e os encontros costumam resultar sofríveis, salvo exceções que, confesso, existem.
Semana passada, por exemplo, vi-me dentro de um sebo de livros aqui da cidade, em busca de um exemplar de “Os Pesos e as Medidas”, lançado em 1980 pelo ilustre caxiense Ítalo Balen, em que retrata de forma poética e bem-humorada, em dialeto vêneto e em português, um episódio ocorrido em Caxias na década de 1920. O jovem atendente me viu e perguntou o que eu queria. Já tremendo, informei que desejava o livro “Os Pesos e as Medidas”, ao que ele me olhou intrigado, querendo saber se tratava-se de livro de dieta. Corri para fora, sem livro, tremendo.

Duvido que um dia eu me livre desse trauma.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de abril de 2014)

sábado, 12 de abril de 2014

Com a faca no hall

Eu tinha raiva mesmo era do Senhor Marinho. A carranca fechada, o olhar furtivo sobressaindo por sobrancelhas espessas, a careca reluzente, tudo concorria para que o aspecto físico do personagem me levasse sempre, no início de cada partida, não só a desconfiar dele como a torcer para que fosse ele sempre o assassino do Senhor Ninguém, o dono da mansão na qual era invariavelmente morto em todas as partidas de “Detetive”, o jogo de tabuleiro que pautou muitas horas de minha adolescência.
Mas apesar de meu preconceito estabelecido contra o Senhor Marinho, nem sempre ele era o culpado. Uma das graças do joguinho era justamente a possibilidade de alternância do criminoso, bem como a arma utilizada e o cômodo em que a atrocidade havia sido cometida. “Coronel Mostarda, com a faca, na cozinha”, alguém acusava. E pá: de repente, alguém livrava a cara do Coronel Mostarda, com seu monóculo e bigodão. “Dona Branca, com a chave-inglesa, no hall”.
Mas, a Dona Branca? Com aquela carinha de governanta assustada? Assassinar o Senhor Ninguém com uma chave-inglesa? Não poderia ser. Passavam uma, duas rodadas... e nada de alguém aliviar a barra da Dona Branca... Será? De minha parte, estava mais era desconfiando da sexy, esguia e esbelta Senhorita Rosa, estirada no divã com sua piteira elegante, cujo charme não me enganava. Nas minhas fantasias, imaginava a Senhorita Rosa fazendo par com o Professor Black, o típico rato-de-biblioteca com cujo perfil eu me identificava por supô-lo um leitor. Se bem que até mesmo ele, na rodada anterior, não havia pensado duas vezes antes de eliminar o Senhor Ninguém com o cano no salão de festas. Pô, tandem tu, Professor Black?
Ah, e não esqueçamos da Dona Violeta, minha segunda suspeita preferida, logo depois do Senhor Marinho. Uma velhinha com cara de megera cujo nome permitia o trocadilho para “Dona Violenta”, uma vez que cometia seus crimes alternando o revólver, a corda e o candelabro, umas vezes na biblioteca, outras na sala de música e até mesmo na cozinha, vejam só. Pobre do Senhor Ninguém.

O que ficou daquelas tardes lúdicas com amigos e familiares ao redor do tabuleiro, na Rua dos Viajantes, em Ijuí, foi o aprendizado de que as aparências enganam. Nem sempre o feioso Senhor Marinho é o culpado. Às vezes, o pior da humanidade pode se esconder sob o sorriso encantador de uma aparentemente inocente Senhorita Rosa.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de abril de 2014) 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A questão postergada

Flagrante de Sir Parsifal cavalgando em busca do Santo Graal e do crescimento pessoal

Leio livros de literatura (ou seja, ficcionais) de maneira ininterrupta desde os dez anos de idade e fico estarrecido quando vejo depoimentos sustentando que esse tipo de leitura é perda de tempo. “Não perco tempo lendo historinhas”, já escutei alguém dizer. “Ao invés de ficar em casa lendo, prefiro sair para fora e viver”, disse outro, como se um coisa impedisse a outra.
Mesmo sabendo sair para fora e viver, e adorando as tais “historinhas”, minhas décadas de dedicação à leitura me têm proporcionado o recebimento de presentes inestimáveis sob o ponto de vista da compreensão da alma humana, o que, para mim, ao menos, se afigura como algo de vital importância e utilidade. Uma das “historinhas” que mais aprecio é a saga de Parsifal, o cavaleiro andante, descrita em livro ainda no século 13 pelo trovador alemão Wolfram von Eschenbach.
Numa versão livre de minha lavra, resumo a “historinha” assim: Parsifal vestiu sua armadura, pegou a espada, montou o cavalo e saiu ao mundo em busca do Santo Graal, o cálice sagrado no qual Cristo teria bebido o vinho na Santa Ceia. Em andanças repletas de aventuras, acaba deparando por acaso com o Castelo do Rei do Graal, onde é recebido na Corte. Porém, Parsifal percebe que o Rei está doente e, com sua doença, adoentado está o reino todo: a rainha, os vassalos, os animais, a natureza, tudo está doente. Jovem e inexperiente, Parsifal vê tudo aquilo e vai-se embora, mudo e calado.
Anos depois, um Parsifal mais maduro encontra-se novamente com o Castelo do Rei do Graal e entra. O Rei continua doente, bem como todo o seu reino. Dessa vez, no entanto, Parsifal faz a ele a pergunta: “Tio, o que te aflige?”. Ao levantar a questão que na visita anterior havia sido postergada, demonstrando preocupação, interesse e compaixão, imediatamente é restaurada a saúde do Rei e de todo o reino, e Parsifal recebe de presente o Santo Graal que tanto buscava. Tudo porque simplesmente fez a pergunta certa e estava disposto a ouvir.

O que aprendi com essa “historinha” é que, ao sairmos às vezes de nosso egoísmo autocentrado, nos dispondo a ouvir o outro com interesse, podemos estar redimindo o reino interior de alguém, com pouco esforço. Aprendi na literatura, com essas “historinhas”. Não acho que perdi tempo.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro" em 7 de junho de 2013)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A mais pura verdade


Mentir, queiramos ou não, admitamos ou não, é um atributo da natureza humana. Quem afirma que não mente, mente. Mentiu quem disse que jamais mentiu. Mentimos todos os dias, para os outros ou – principalmente – para nós mesmos. Mentimos em voz alta ou no silêncio de nossos ensimesmares. Mentimos no anseio de amenizar o peso da realidade que, via de regra, pesa demais em diversos aspectos. Nos aspectos em que a realidade não pesa, usufruímos da verdade redentora que advém de sua aceitação. Mas sempre que pesa, mentimos. Mentimos, na maioria das vezes, pequenas mentirinhas inócuas que não ferem ninguém e nos auxiliam a conduzir nossas vidas de maneira mais indolor. Mentir mentirinhas é humano, catártico, saudável, até.
Respondemos mecanicamente que “sim” sempre que nos perguntam se tudo vai bem. Nem sempre vai bem tudo, mas quase sempre vai bem a resposta (mentirinha) de que “sim”. A mais frequente mentira entre os casais, por exemplo, se dá nos momentos de introspecção. Você percebe sua parceira pensativa, há vários minutos silenciosa, aparafusada no sofá da sala, o olhar fitando o vazio, a revista aberta repousada no colo sem ter página virada há muito tempo, e você faz a pergunta: “em que está pensando, amor?”. Ao que ela, de imediato, responde: “Em nada”.
Pois, mentira. Ela está pensando é em tudo. Em tudo e em mais um pouco, e esse tudo inclui necessariamente você, seus atos, suas desatenções, suas insensibilidades, suas ausências, suas descortesias. Ela mente para não escancarar o peso da verdade. Ela pensa em tudo, mas diz ser em nada, obrigando-o, assim, a também refletir sobre as verdades de sua própria existência. Tem sido assim desde que Ug retornou à caverna ao pé do vulcão de mãos abanando, culpando-se por não ter caçado o mastodonte, e sentiu o peso do silêncio reprovador de Aga. “Tudo bem, amor?”, inquiriu Ug. “Claro”, disse Aga. Claro que não estava tudo bem, conforme Ug perceberia dali a pouco, gerando um padrão para a humanidade.
Ao chegar ao final deste texto, leitor, eu lhe pergunto: “Em que esta crônica o fez pensar?”. “Em nada, não”, você me dirá, dando a resposta correta, pois nela reside a verdade de nossas mentirinhas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de dezembro de 2012)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Filosofia de sexta

Certa vez um repórter que me entrevistava pediu que eu resumisse meu próprio perfil em algumas poucas palavras. Criou-me ele com essa demanda tamanha paralisia cerebral que tenho a sensação de que, respondesse o que quer que fosse, permaneceria sempre sendo infiel à verdade. Não pelo fato de eu me considerar pessoa complexa e significante demais para ser resumida em pouca palavras, meu ego não me leva a tamanhas lonjuras. Mas por ser esse um questionamento que considero um dos mais inquietantes da existência humana: como exatamente somos? Quais os parâmetros que devemos utilizar para definir a essência daquilo que torna cada um de nós único e inigualável frente aos demais bilhões de habitantes do planeta?
Nossa tendência, quando confrontados com o tema, é logo oferecer a visão que possuímos de nós mesmos como a resposta mais equalizada com a realidade. Quem sou eu? Eu sou como eu mesmo me vejo, e ponto final, afinal, “qua comando mi”. Porém, a visão que temos sobre nós mesmos é apenas uma ponta do emaranhado novelo que se chama nossa personalidade.
Tão ou mais importante quanto a visão que temos de nós mesmos é a forma como os outros nos veem. O outro (e todos os outros) não tem acesso a nossas motivações mais íntimas, aos pensamentos e sentimentos que movem nossos atos. O outro só vê a concretização de nossos atos, e é por meio disso que vai forjando em seu próprio íntimo a visão que nutre sobre aquilo que somos. Minha timidez pode ser detectada como arrogância, só para dar um exemplo de fácil digestão.
E não é só isso. Também sou aquilo que eu mesmo penso que os outros pensam sobre mim. Ou seja, se eu me vejo como tímido, pode ser que eu creia que Zuleika me julgue prepotente. Quando, na verdade, Zuleika me vê é como energúmeno mesmo, mas eu não sei de nada. E para finalizar, somos também aquilo que os outros acham que nós pensamos de nós mesmos. Eu sou tímido, acho que Zuleika me vê como arrogante, Zuleika na verdade me vê como energúmeno mas ela pensa que eu, energúmeno que sou, me vejo como gênio da lâmpada.
O que somos, então, afinal das contas? Ora, a soma de tudo isso, o que nos torna indecifráveis e instigantes esfinges para nós mesmos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de janeiro de 2012)