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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O caminho e a pedra

Não, não tinha. Não tinha pedra nenhuma no meio do caminho, e no meio do caminho não tinha uma pedra. Nunca teve. Não tinha uma pedra, nem duas, nem pedregulho, nada. Chega uma hora em que se faz necessário desmistificar as coisas e, lamento revelar, mas o caminho estava livre e desimpedido, como sempre estivera. Quem botou aquela pedra lá, meus senhores, minhas senhoras, fomos nós, e desprovidos de qualquer motivação poética. Pronto, falei.
A verdade é que fizemos aquilo movidos por um daqueles típicos arroubos juvenis inexplicáveis que acometem as gentes quando elas são adolescentes e sentem vontade de fazer uma travessura da qual possam rir mais tarde, narrando aos amigos, para ver se ganham pontos na escala de popularidade entre os colegas e, principalmente, entre as colegas, pois é imperioso pavonear-se de atitudes sem sentido para se fazer notar, como bem sabe quem já foi (ou ainda é) adolescente alguma vez na vida. E nós não éramos diferentes. Quando nos demos por conta, já estava feito, e o caminho, de uma hora para a outra, passou a ter uma pedra, bem no meio.
Éramos três, os patet... digo, os amigos envolvidos na trama que, a bem da verdade, em nada foi tramada, mas, sim, deu-se de supetão. Um de nós já era maior de idade e tinha um Jipe cor salmão, muito velho, com o qual passeávamos pelas ruas emparalelepipedadas de Ijuí nas horas vagas das aulas. O dono do Jipe lá na frente e nós dois (eu e o outro amigo) na parte traseira, saltitando com os solavancos. E, dentro, havia uma grande pedra, que era usada a título de calço de roda para estacionamento, uma vez que o veículo andava desprovido de freio-de-mão. Ao subirmos uma ladeira, olhamo-nos um para o outro e tivemos a mesma ideia ao mesmo tempo: abrimos a porta traseira e pimba: arremessamos a pedra fora, que rolou por alguns metros e parou, no meio do caminho, pedra que era.

Ato totalmente sem sentido, mas que rendeu e rende até hoje boas risadas. Afinal de contas, decidimos que, naquele momento, havíamos materializado em atos a essência de uma grande poesia. Nem que fosse a réstia de poesia que talvez resida em uma pequena traquinagem de adolescente. A partir dali, fomos aprendendo a desviar das pedras que se interpunham em nossos caminhos. Como sempre digo, tudo pode ser metáfora. Até a pedra no meio do caminho de um poeta e de um bando de adolescentes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de agosto de 2015)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Para os poetas em seu dia

Quisera ter tido a capacidade de tecer a crônica de hoje em versos, para homenagear o Dia do Poeta. Mas, sem talento, meus esforços são dispersos, não posso fazê-lo, minha arte não é completa. Mesmo sem ter dom para exercitar a arte suprema da poesia competente, quero ao menos aqui poder ressaltar meu apreço por essa arte maior, à qual me vergo, humildemente.
Um dia para erguer ao bom poeta as loas e os brindes é algo a ser bem sublinhado. Em especial por quem, como eu, reserva melindres em palmilhar um terreno tão bem representado. É dia para recordar com terna doçura de versos brilhantes por gênios escritos. E também para evocar uma ou outra figura de hoje e de antes que fez ditos bem ditos. Do outro lado dos mares e também em nossas terras vão surgindo nomes aos pares de versejadores cujas obras derrotam as eras. Façamos jus então a essa data boa evocando alguns deles à luz, em uma ou outra loa.
Lembremos então de Drummond, Quintana e Pessoa; nenhum deles de alma pequena, nenhum deles a versejar à toa. Vinícius também evocaremos, e ainda Neruda e Quintana. Nomes que sempre lembraremos, por tornarem nossa vida bacana. Sem esquecer dos mestres desses mestres todos, evocaremos Keats, Shelley, Byron e mesmo o Poe. Com suas penas não faziam engodos, diziam o que eram para que eu saiba quem sou. E agora, em fileira dispersa, se mostram a Safo, a Hilda, a Ana Cristina. Poetisas que tantos gostam por tecerem a poesia mais fina.
Tantos mais haveria a evocar aqui nessas linhas de uma crônica à toa. Porém, para terminar, falemos dos que entre nós fazem poesia da boa. É daí vão saltando nomes de tantos amigos, entre vivos e já partidos. Dal´Alba, o Eduardo; Bertholdo, o Oscar. E agora, tão recente, também Petry, o Odegar.

E junto a todos esses, temos aqui o Pozenato, o Paviani, o Angonese, o Dhynarte, o de Menezes. Autores que em um ou outro ato já nos brindam com Poesia sem aparte, e da mais alta, todas as vezes. Parabéns, poetas, senhores da Poesia. Celebrem com suas musas e com merecida alegria. Eu, se fosse poeta, também sem escusas o faria.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de outubro de 2014)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Dica das boas

Se eu possuísse o lirismo e a mansidão de um Rubem Braga, eu conseguiria escrever crônicas líricas que mansamente pediriam permissão para adentrar como visitas as salas das almas de meus leitores a fim de, ali assentadas, transbordarem para eles as pequenas grandes coisas da existência humana que passam despercebidas a todos, menos a um cronista da cepa dele. Se eu tivesse a cultura, a inteligência e o refinado humor de um Luis Fernando Verissimo, produziria para meus leitores textos hilariantes, ágeis e profundos, capazes de divertir ao mesmo tempo em que proporcionariam, aos mais sagazes, pistas para a reflexão sobre assuntos os mais cruciais da existência humana.
Fosse eu dotado da paixão profunda que um Antônio Maria acalentava pelo tema do amor, seus derivados e múltiplos desdobramentos, botar-me-ia também a redigir crônicas singelas e saborosas, muitas vezes repletas de personagens cativantes pinçados das esquinas da vida real e transformados em personas literárias, a fim de compartilhar com meus leitores os questionamentos que fazemos todos nós, humanos, que amamos amar. Quiçá fosse eu agraciado com o estilo proustiano de longo fôlego igual ao João Bergman, formataria, a exemplo dele, crônicas satíricas nas quais a forma da escrita abusando do uso impudico das vírgulas causaria assombro e riso no público, que acompanharia os períodos intermináveis só para ver no que iria dar o malabarismo maroto do autor daquelas linhas nas quais o prazer mesmo residiria em ler o dito pela forma do dito e menos pelo conteúdo do que ali se diria, e ponto.
Tivesse eu credencial suficiente de sensibilidade para esmiuçar a imensidão das nuances do universo feminino, faria coro aos textos de Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector e Martha Medeiros, que escreviam e escrevem com essa força feminina tão característica e tão profunda, capaz de arrebatar almas e pensamentos de quem for gente o bastante para com elas respirar o sopro de vida que emerge das linhas que tecem. E falando em sensibilidade, que textos não faria, se possuísse ao menos alguns quilates daquela que caracterizava um Caio Fernando Abreu, um Vinícius de Moraes, um Carlos Drummond de Andrade, um Fernando Sabino.

Mas tudo bem. Sendo o que sou, escrevo o que posso e, pelo menos, sirvo de bandeja ao leitor uma boa lista de dicas de leitura aptas a lhe fazerem a melhor das companhias aos meses de sol, sal, sorvete e mar.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de dezembro de 2013)