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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Anzóis poéticos

Nem sempre há poesia em um poema. Deveria haver, mas nem sempre há. Também não é somente dentro dos poemas que pulsa a poesia. Ela pode escolher como habitat o mundo inteiro, especialmente as pequenas coisas do mundo. Poesia pode haver no voo errante de um inseto, no entardecer em qualquer lugar, nos olhos de quem vê, nos ouvidos de quem escuta, no coração de quem vive, no cimento da construção, nas linhas de um secreto diário íntimo, nos risos, nas lágrimas. Até mesmo nos poemas.
Quem ensina isso com propriedade (e com poesia) é o professor e poeta caxiense Jayme Paviani, que, aliás, conversará sobre temas poéticos na segunda-feira, dia 17, a partir das 20h, dentro da programação do Grupo Órbita Literária, na Livraria e Café Do Arco da Velha (Rua Dr. Montaury, 1570), com entrada franca. Lembro essas coisas porque andou me caindo a ficha de que a poesia está se transformando em um poderoso auxiliar na busca pela sanidade humana nesses tempos tão duros, conturbados, ansiados e violentos que vivemos. Podemos não perceber, mas estamos precisando de grandes cargas de poesia dentro de nós para recarregar nossas energias vitais e prosseguirmos firmes nessa saga que é vivermos nossas vidas.
E viver a vida sem poesia nos enfraquece, fragiliza, desequilibra, endurece. Se endurecidos, vamos à batalha da vida desprovidos do jogo de cintura psíquico que uma alma plena de poesia consegue proporcionar. E sem jogo de cintura a gente dança. Precisamos de doses diárias de poesia, não apenas dessa poesia contida nos poemas dos poetas. Precisamos de poesia na vida, precisamos treinar nossos sentidos para que eles se transformem em anzóis pescadores da poesia que há no ar, já que ela não é vendida em cápsulas.

O Brasil perdeu esta semana um de seus maiores semeadores de poesia, o mato-grossense Manoel de Barros. Ele pegava a pinça de sua alma e extraía gravetos de poesia das pedras, dos rios, dos grilos. Semeou no mundo a poesia que germinava dentro dele. Compartilhava generosamente sua alma poética. Um grande mestre da vida. Também temos os nossos por aqui. Aprendamos poeticamente com eles.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de novembro de 2014)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Noites de aconchego e arte

Que a Poesia é uma Arte, e entre elas uma das mais nobres, isso estamos todos pós-graduados em saber. Que produzir Poesia, e Poesia verdadeira, com qualidade, com alma e talento, e ainda com literariedade e valor estético, é também uma Arte, isso sabemos todos nós que lemos e apreciamos Poesia. Aliás, chegamos até à ousadia de admitir como Arte o próprio ato de ler Poesia, pois que Poesia não se lê assim de supetão como se faz com uma notícia de jornal para se informar ou com um cartaz afixado na porta do banco informando sobre o horário de atendimento.
Não, não, nada disso. Saber usufruir da essência existente nas linhas escritas e especialmente naquelas apenas insinuadas no texto poético requer entrega da alma, requer atenção, exige o reassentamento daquele silêncio interno que muitas vezes relegamos ao esquecimento durante a correria das horas de nossos cotidianos amalucados. Saber ler Poesia é também uma Arte, assim como saber produzi-la e assim como ela, a Poesia, em si, o é. Isso tudo sabemos. O que eu não sabia até terça-feira de noite é que saber narrar Poesia para um grupo de pessoas, narrar Poesia com Poesia na fala, é também uma expressão artística de primeira grandeza.
Quem me ensinou isso, na prática, ao vivo, foi o professor, escritor e poeta Jayme Paviani, ao longo do aconchegante bate-papo que protagonizou terça-feira passada, na condição de um dos convidados da VII Semana do Escritor, promovida pela Academia Caxiense de Letras e que acontece todas as noites desta semana, desde segunda, no terceiro andar da Biblioteca Pública Municipal, ali na Casa da Cultura, defronte à Praça Dante Alighieri. As pouco mais de 30 pessoas que decidiram sair de suas zonas de conforto na noite fria de terça foram privilegiadas com o presente humano e estético ofertado pelo palestrante, que mesclou um verdadeiro sarau poético com observações esclarecedoras, enriquecendo a bagagem pessoal de cada um que esteve ali.
Houve mais Poesia pairando no ar naquela noite. Um dos participantes da plateia trouxe junto suas duas filhas de cerca de 12 anos de idade, para compartilharem em família o encanto pela literatura. O ato do pai foi poético, e o das filhas, em acompanhá-lo, também foi. Houve Arte na palestra de abertura com Gilmar Marcílio, conduzida pelo Grupo Órbita Literária, como também houve no encontro de ontem à noite com José Clemente Pozenato.

O compartilhamento de Arte, aconchego e experiências estéticas segue hoje com a professora Cecil Zinani e, amanhã, com a jornalista Mariana Kalil. Sempre a partir das 20h, e de graça. Ainda há tempo para dar uma curva na zona de conforto e aconchegar o espírito com esses encontros poéticos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de junho de 2014)