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domingo, 30 de março de 2014

Leitores no automático

Pronto! Pra quê! Foi só eu escrever aqui na sexta-feira sobre as aprontadas que nosso cérebro faz quando nos botamos a agir no piloto automático, narrando o sumiço momentâneo da minha tigelinha com pêssegos em calda produzidos por minha sogra, para que diversos leitores se entusiasmassem em me enviar relatos sobre episódios esdrúxulos protagonizados pelos pilotos automáticos de estimação de cada um deles. Compartilho alguns desses relatos, na intenção de justificar minha preocupação em relação a permitir que os pilotos automáticos tomem conta do timão das barcas de nossas vidas (“timão das barcas de nossas vidas”, eita eu, hein?).
Não direi nomes, nem dos remetentes dos e-mails e nem dos seus pilotos automáticos, para evitar constrangimentos alheios. Sou um cronista consciente. Mas a Sofia, por exemplo (nome fictício, bobinhos), me disse que isso que aconteceu comigo não é nada. “Aérea mesmo é minha tia Riette, que perdeu a bolsa dentro de casa e teve de ir para o trabalho sem ela. Só de noite, de volta, é que descobriu ter enfiado, na pressa, a bolsa dentro da geladeira”. Essa, sim, passou a semana distribuindo cheques frios pela cidade. Evitem cheques da tia Riette, ela navega no piloto automático.
Outro me escreve delatando um tio (por que é que, na maioria dos casos, são os pilotos automáticos dos tios dos leitores que aprontam, hein?) que, movido pela fome atroz que lhe acomete quando o relógio soa meio-dia (não importa se no horário de verão ou no horário que deveria), quis se botar a apurar o preparo do almoço, se enfiou na cozinha, meteu a mão na travessa de salada cheia de radite e regou-lhe generosamente com detergente, achando que era vinagre. Eita, tiooooo! Desliga o piloto!
Uma leitora que sempre me escreve confessou ter, ela mesma (só pode ser tia de alguém), saído às pressas do trabalho porque o marido a esperava já há tempos no carro do outro lado da rua. Atravessou correndo, abriu a porta do veículo, sentou no banco do carona, disse “oi, amor” e, quando foi dar o beijinho, deparou-se com um barbado que não era o dela. Entrara no carro errado. No piloto automático, por pouco não comete um inusitado caso de autossequestro.
Sem falar nos outros e-mails e naquelas três outras histórias que minha esposa não me deixa contar. O bom do piloto automático é que, pelo menos, temos a quem atribuir a culpa das mancadas. A ele, ou aos tios, né, tia Riette.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de março de 2014)

sexta-feira, 28 de março de 2014

No piloto automático

Até admito que possa ser uma grande invenção da humanidade, mas vocês vão me desculpar, eu não confio no piloto automático. Basta ver o que ele anda aprontando por aí afora, a começar pelas nossas vidinhas cotidianescas (“cotidianescas” inventei agora e quero royalties pelo uso).
Noite dessas, por exemplo. Cheguei em casa, vindo do escritório (meu escritório fica no quarto ao lado, junto com as estantes dos livros, mas é onde trabalho e quem é que disse que eu tinha de dar satisfação?), tirei os sapatos, calcei as pantufas (sim, porque trabalho em casa, mas sempre de sapatos, nada de chinelinhas flanando de um lado para o outro em horário de expediente) e decidi que, para o relax ser completo, cairia bem, naquela hora, uma tigela com o doce de pêssego em calda produzido por minha sogra. A compota estava ali na geladeira e lá fui eu: lotei a tigelinha com nacos saborosos de pêssego cobertos por aquela calda grossa, doce, cremosa, que logo estaria banhando de sabor minhas papilas, as tais das gustativas, de que gosto tanto.
Mas foi terminar de lotar a tigelinha que uma lembrança me assaltou a mente e, antes de me botar a comer, corri para o escritório para anotar na agenda uma tarefa profissional que teria de realizar no dia seguinte. Vai que esquecesse! Pronto, anotação feita, estava apto a retornar à sala para fazer companhia à esposa, ao sofá e à televisão, saboreando meus pêssegos. Só que... cadê os pêssegos?
E quem disse que eu encontrava a tigela farta de pêssegos em calda da sogra que eu recém havia servido, antes da interrupção da lembrança da dita tarefa profissional? Onde é que eu largara a tralha? Refiz o trajeto da geladeira até a escrivaninha, vasculhei as estantes do escritório, voltei à cozinha, abri a geladeira, revirei o sofá, ergui almofadas, mandei a esposa parar de rir e sair um pouco para o lado e nada, nada, nada da tigelinha de pêssego em calda. E não tinha mais nem gato em casa para levar a culpa.
Bom, é claro que, ao fim da celeuma, a tigelinha reapareceu espiando por detrás do balcão da cozinha, sem sair do lugar onde eu a havia deixado no momento do apagão causado pela lembrança (pode isso?) para, em pleno piloto automático, ir anotar a tarefa na agenda. Não gosto de navegar em piloto automático porque sempre dá nisso: perde-se tigelinha com pêssego em calda, cruzam-se sinais vermelhos, fala-se o que não devia, defende-se o indefensável... e, vem cá... cadê a crônica do Pioneiro que eu havia escrito agora?
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de março de 2014)