Refletindo sobre o assunto em um de meus filosóficos banhos embaixo do
chuveiro, nesses gélidos dias em que o lugar mais aconchegante é justamente sob
os pingos que descem quentinhos enquanto o box do banheiro se transforma em
réplica de uma esquina londrina sob denso fog e o contador de luz lá fora gira
feito carrossel desgovernado, cheguei a uma conclusão. Pelo menos, não gastei
água e luz à toa. Percebi que o elemento que prioritariamente deve pautar as
relações comerciais entre as pessoas é a credibilidade, em todos os seus
desdobramentos possíveis dentro desse setor.
Por parte do cliente, é preciso haver credibilidade no que tange ao
cumprimento fundamental de sua parte, que é honrar o compromisso financeiro que
ele assume ao adquirir um produto ou um serviço. Da parte do fornecedor de
produtos ou serviços, o espectro das obrigações que lhe cabem, pelas quais
precisa prover credibilidade, é bem mais amplo, passando pela qualidade daquilo
que oferece, pelo cumprimento de tudo o que prometeu na hora da venda, pelo
atendimento cortês e por aí afora. Não se admite vender gato por lebre.
Se o estabelecimento afirma ser uma galeteria, os garçons devem lotar o
seu prato com unidades fumegantes e cheirosas de galetos prontos para o
consumo. Se vem polenta junto, é outra história, mas, convenhamos, é preciso
haver galeto. Se sobre a porta de entrada do estabelecimento está escrito
“Livraria”, espera-se encontrar lá dentro obras literárias prontas para serem
adquiridas e lidas, e não apenas lápis, borracha, apontador e mochila com
rodinhas. Se a placa diz “Tudo por R$ 1,99” , devo entrar e supor que aquele cobiçado
Playstation ali na prateleira custa isso e pode ir baixando dez que vou
presentear até a Tia Carolina, que sequer sabe manusear um joystick.
Se a moça no pavilhão me chama dizendo que a revista é brinde, pego o
exemplar e saio andando. Não adianta vir atrás querendo condicionar o “brinde”
à assinatura de um dos títulos da editora. E gosto de pagar no caixa exatamente
o valor que a mercadoria apresentava na prateleira. Ah... e de receber o troco
bem certinho, para depois possuir todos os centavos que me permitem cruzar o
pedágio, né.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de julho de 2012)