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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Cumprimento ambiguo

Tudo depende do ponto de vista. Tudo. Nada é absoluto. Nada. As coisas na vida apresentam, no mínimo, dois lados. Sabem muito bem disso os jornalistas, que passam suas vidas profissionais lidando com versões dos fatos, e o Tio Patinhas, o maior dono de moedinhas do mundo, esses objetos que, por essência, possuem dois lados.
 Já matemáticos e arquitetos têm intimidade com objetos repletos de lados, como cubos, pirâmides, tetraedros, pentágonos, coisas assim. É lado que não acaba mais. E cada lado apresenta um universo infindo de versões possíveis, fazendo do mundo uma teia de complexidades impossível de ser reduzida a um pequeno e raso denominador comum. A vida e o universo desconhecem os denominadores comuns, os ignoram e os subvertem. Por isso que viver é uma aventura desprovida de manual e de tutoriais definitivos. É preciso ir vivendo e procedendo às avaliações das coisas da melhor forma possível.
Essas considerações se apossaram de minha mente manhã dessas em que eu perambulava pelas dependências de um shopping de malhas situado em cidade vizinha, fazendo companhia e guarda às necessidades aquisicionais da senhora minha esposa. Mal começamos a flanar pelos corredores no ziguezague típico de quem olha uma vitrine do lado de cá e cruza para olhar a vitrine do lado de lá, quando uma moça, atendente de uma das lojinhas, saiu porta afora a fim de dar um pulinho sei eu lá aonde e, ao cruzar por nós, reconheceu minha esposa, abriu um largo sorriso e disse-lhe “oi, tudo bem?”.

Opa! O sinal de alerta ligou. Quando a atendente de uma loja, em um shopping situado a cerca de 30 quilômetros de distância, reconhece a sua esposa a ponto de cumprimentá-la efusivamente, é porque algo vai mal. Quer dizer, algo vai muito bem no que tange à simpatia da atendente e sua capacidade de reconhecer clientes. Mas, ao mesmo tempo, talvez algo possa estar indo mal com a saúde financeira de meu cartão de crédito e com a frequência com que a senhora minha esposa, a mesma citada no meio deste texto, coloca os pés e a carteira naquele estabelecimento. É preciso verificar.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de janeiro de 2015)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A medida de cada fobia

Cada um com as suas fobias, já dizia uma tia minha, que não podia ver borboleta que saía sapateando pela casa. Existem fobias esdrúxulas e fobias compreensíveis, porém, fobias são fobias e sempre atazanam a vida de quem sofre de uma delas, independentemente de ser enquadrável em um ou em outro grupo.
Entendo como fobias compreensíveis aquelas que fazem as pessoas terem medo incontrolável de pitt-bull, ou de cobra, ou de aranha, ou de político carreirista. Já as esdrúxulas são aquelas que parecem inofensivas para a maioria das pessoas, mas fazem algumas suarem frio, como os medos de joaninha, de dia ímpar, de cor amarela, de letra de funk, coisas assim.
Eu, de minha parte, venho cultivando uma crescente e irreversível fobia de atendente de loja. Basta eu me aproximar de uma loja (para onde normalmente só entro arrastado pelos cabelos por minha esposa, por isso que procuro mantê-los bem curtos, os cabelos), que já começo a suar frio, a tremer o queixo, a trolavras as pacar... quer dizer... a trocar as palavras. Tenho muito trauma de atendente de loja.
Mas como tenho, por outro lado, paixão pela compra de discos e livros, procuro controlar minha fobia de atendente de loja sempre que me vejo posicionado dentro de uma livraria ou de uma loja de discos, para onde minhas pernas costumam me conduzir irracionalmente sempre que estou a trotear pela cidade, a despeito de minha vontade. Procuro sempre passar despercebido para tentar vasculhar discos e livros sem que os atendentes me vejam, mas nem sempre isso é possível, e os encontros costumam resultar sofríveis, salvo exceções que, confesso, existem.
Semana passada, por exemplo, vi-me dentro de um sebo de livros aqui da cidade, em busca de um exemplar de “Os Pesos e as Medidas”, lançado em 1980 pelo ilustre caxiense Ítalo Balen, em que retrata de forma poética e bem-humorada, em dialeto vêneto e em português, um episódio ocorrido em Caxias na década de 1920. O jovem atendente me viu e perguntou o que eu queria. Já tremendo, informei que desejava o livro “Os Pesos e as Medidas”, ao que ele me olhou intrigado, querendo saber se tratava-se de livro de dieta. Corri para fora, sem livro, tremendo.

Duvido que um dia eu me livre desse trauma.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de abril de 2014)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Roda travada


Havíamos recém solucionado uma quarta parte da lista de compras no supermercado (adoro elaborar listas de compras de mercado), ali pela altura da seção do creme de leite (adoro creme de leite), quando uma das rodinhas da frente do carrinho de compras enguiçou (detesto carrinhos de compras). Na hora do rancho semanal, cabe a mim (entre outras tarefas) pilotar o carrinho (o que adoro fazer, quando ele não enguiça) enquanto minha esposa pirilampeia livre e saltitante por entre as gôndolas, comparando preços das mercadorias, verificando datas de validade, sopesando as vantagens e desvantagens existentes entre as diferentes marcas.
De minha parte, atenho-me a dirigir o carrinho com habilidade, desviando dos atravessados que atravancam os corredores, estacionando em lugares seguros que não atrapalhem o tráfego de compradores, organizando os produtos já selecionados para não misturar suco de pomelo (adoro suco de pomelo) com ração para gato (adoro meu gato), essas coisas. Mas toda essa idílica harmonia foi subitamente quebrada com o travar da tal rodinha, que imediatamente transformou meu ponderado carrinho em um bólido desgovernado por entre as gôndolas, a guinar tresloucadamente para a esquerda quando minha intenção era dobrar à direita e chocar-se contra a pilha de fraldas descartáveis (ufa que não era a dos vinhos chilenos) e a beliscar os calcanhares da senhorinha que ia à frente (em tempo: adoro vinhos chilenos e não tenho nada a declarar em relação a calcanhares de senhorinhas).
Eu macaqueava para um lado, usando todas as minhas forças e me contorcendo, e o carrinho creeeeeeeeec, volteava para o outro, rebeldíssimo. Minha mulher viu e começou a rir por entre gôndolas. Fomos assim até o final do périplo, na fila do caixa, quando ainda tive de dar uns últimos trancos no dito cujo. Foi quando ela não aguentou mais e explodiu em um riso contido, que se externava em lábios arreganhados, soluços e lágrimas a lhe rolarem pelas faces. Chorava ela de rir, enquanto, na fila ao lado, a senhorinha dos calcanhares esfolados me fulminava com olhares raivosos, pensando: “Além de barbeiro, faz a esposa chorar no mercado”. Aqui, não há parêntesis que remendem a situação.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de maio de 2013)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Mistérios à vista


Quem não aprecia um mistério? Eu aprecio. Os mistérios conferem um tempero picante ao comum de nossas existências, quebra a monotonia da rotinização do cotidiano, instiga a curiosidade, excita a imaginação, desentorpece os sentidos, açula a inteligência, abre as cancelas para o livre fluir da adrenalina do espírito. Os mistérios produzem a saudável expectativa que move nossa ação no sentido de desvendá-los ou, na impossibilidade de fazê-lo, de passar a vida deliciando-se com a construção de teorias que os expliquem.
A repetitiva transmutação do dia em noite já foi mistério para os primevos seres humanos que rachavam os pés sobre os pedregulhos da Terra jovem e, para amansar o terror da incompreensão que aquela magia gerava no íntimo de suas nascentes almas, criaram os ritos, dos quais surgiram as religiões e a compreensão do divino. Os mistérios da natureza inspiraram mentes que gestaram as alquimias e depois as ciências, e os do espírito seguem gerando buscas que dão à luz as humanidades e as artes. Pobres dos que não cultivam mistérios, pois, repletos de certezas, colocam cadeados nas portas que lhes dariam acesso ao mundo infinito do maravilhamento.
De minha parte, ando há alguns anos duelando com um mistério que me alvoroça o espírito sempre que paro o carro em um dos semáforos que regulam o tráfego no acesso principal ao município de Veranópolis, no entroncamento da RST-470. Enquanto o sinal não abre, minha atenção invariavelmente é atraída pela placa que indica o nome de uma loja, situada à direita de quem segue rumo a Nova Prata, vindo de Bento Gonçalves, prometendo o ingresso em um universo inacreditável. Afinal, o que será que me espera quando eu finalmente tomar a coragem de mudar o rumo e adentrar as portas de “O Fantástico Mundo das Variedades”? Encontrarei ali tudo o que sempre busquei na vida e até hoje não encontrei? Objetos raros e perdidos? Lembranças apagadas pelo tempo? Amigos esfumaçados pelo desencontro? Ou isso e ainda mais tudo aquilo que o nome da loja permitir imaginar? Ainda não ousei desviar a rota e ingressar ali. Tenho achado mais prudente manter viva a chama de pelo menos esse mistério...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de agosto de 2012)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Me dá um dinheiro aí


Informações publicadas no jornal Pioneiro na última quarta-feira, a respeito do descompasso abissal existente entre as visões de consumidores e lojistas caxienses quanto ao fator que mais importa para efetuar uma compra/venda, me deixaram pasmo. Uma pesquisa realizada pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Caxias do Sul (CDL) junto a consumidores e lojistas detectou uma dessintonia tão assustadora quanto reveladora a pautar as relações entre clientes e comerciantes na cidade. O quesito “bom atendimento” foi apontado como fundamental por 49,4% dos clientes ouvidos pela pesquisa. Mas apenas 10,7% dos estabelecimentos consultados indicam esse item como importante para o incremento das vendas.
Taí então. Tá tudo explicado. Esse é o pensamento vigente entre a acachapante maioria dos donos de lojas existentes em Caxias do Sul. E se o dono julga que atender bem o cliente é algo desimportante para garantir suas vendas e seus adorados lucros, por que diabos haveriam seus funcionários de pensar diferente? Para que gastar saliva e energia dando “bom dia” e dizendo “obrigado” com um sorriso nos lábios na hora do pagamento, no caixa? Para que sair andando de lá do fundo da loja e receber o cliente que entra e fica zanzando perdido entre as prateleiras? Para que tanto esforço, se o que conta mesmo, na visão subdesenvolvida e autofágica do setor, o que importa é a beleza das vitrines (como indica a pesquisa) aliada à qualidade dos produtos e à facilidade nas formas de pagamento?
Agora está claro. É a pesquisa quem revela: cliente, para a maioria dos nossos lojistas, é coisa. É objeto utilitário. Serve para entrar na loja feito caçamba e despejar dinheiro no caixa. E que saia rápido, desocupe o espaço, para que entre outra caçamba. Assustador e esclarecedor. Agora sabemos com quem estamos lidando, fora as raras exceções.
Eu, de minha parte, enquanto consumidor, sou um fidelizador dessas exceções. Coloco no caderninho os estabelecimentos, as instituições e os fornecedores de serviços que me tratam mal e nunca mais volto (e ainda falo mal deles para todas as pessoas de minhas relações). Confesso que minha lista de fidelizações anda bem curta em Caxias do Sul, ultimamente.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de maio de 2012)