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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fome de ontem e de hoje

Os principais fatores que motivaram levas e levas de famílias europeias, especialmente alemãs e italianas, a abandonarem seus lares na segunda metade do século 19, cruzarem o oceano Atlântico e virem começar nova vida em terras brasileiras foram a fome e a crise econômica que assolavam seus países de origem. A falta de perspectivas de trabalho e a descrença na possibilidade de haver uma melhora na situação das classes menos favorecidas na Alemanha e na Itália foram os ventos que impulsionaram agricultores, artesãos e vários outros tipos de profissionais a se transformarem em imigrantes e protagonistas de um capítulo importante na história do Rio Grande do Sul.
Entre os colonizadores italianos que aqui chegaram 140 anos atrás, foi especialmente a paúra da fame que motivou na Mérica a busca pela cocagna. A propaganda oficial do governo brasileiro não dizia isso, mas também não desmentia as lendas e boatos que circulavam no Velho Mundo, dando conta de que na Mérica a fartura (cocagna) estava ao alcance de todos, pois que se tratava de uma terra paradisíaca, em que até o salame e o queijo frutificavam em árvores, bastava erguer a mão e colhê-los. Adeus, fame!
Claro que essa visão fabulosa não convencia a maioria dos imigrantes, que sabiam muito bem que o que lhes esperava aqui era muito suor, muito lavoro, muito esforço para que conseguissem realizar o sonho de transformar suas próprias vidas em algo melhor. Tão conscientes estavam do que a pretensa terra da cocagna lhes exigiria, que conseguiram, sim, fazer dessa história uma saga de sucesso, criando na região da Serra do estado mais austral do Brasil um polo de desenvolvimento referencial em toda a Mérica. A famigerada fame que atormentava o sono dos pioneiros foi exorcizada com o suor do trabalho e hoje em dia pode-se até falar em fartura exagerada de comida nas mesas da região, enquanto que na Europa moderna, agora distante das antigas crises, a cultura vigente é justamente a de evitar o desperdício.

No momento em que se comemora, com justeza, os 140 anos da imigração, talvez Caxias e região devam aproveitar para lançar um olhar mais atento à situação daquela parcela de sua população, pequena mas significativa, que ainda vive à margem da conquista da cocagna e em cujo cotidiano a fame segue encontrando morada. O desafio de hoje é estender os benefícios do sucesso da colonização a todos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de maio de 2015) 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Quando chegavam os colonos

Neste ano de 2015 os municípios que integram a região conhecida como Serra Gaúcha, especialmente aqueles originários a partir da chegada de colonos oriundos da Itália, celebram os 140 anos da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul. Caxias do Sul, a “Pérola das Colônias”, conforme apelidou-a Júlio de Castilhos (então presidente da Província) na visita que fez ao município em 1897, também se insere na programação de festividades alusivas ao evento histórico.
Que os imigrantes italianos, depois de dias de viagem cruzando o Atlântico, chegaram aqui e tiveram de arregaçar as mangas para transformar a mata virgem em local de sustento, isso a gente sabe. Mas vale a pena, também, para compreender melhor que mundo era aquele do ano 1875, embarcar em uma máquina do tempo e fazer um rápido mundo-tour para ver o que rolava no planeta naquela época. Venham comigo.
No dia 3 de março de 1875, por exemplo, o compositor francês Georges Bizet (1838 – 1875) fazia a estreia de sua ópera “Carmen”, em Paris (Bizet morreria exatamente três meses depois da estreia de sua mais afamada obra). Personalidades importantes morreram naquele ano, como o enciclopedista francês Pierre Larousse, criador de uma coleção de enciclopédias que levava o seu nome; o político e desembargador brasileiro Cândido José de Araújo Viana, que ficou conhecido como Marquês de Sapucaí e o escritor e mago francês Eliphas Levi. Em 4 de agosto, morria em Copenhague, capital da Dinamarca, o escritor Hans Christian Andersen (1805 – 1875), famoso por criar histórias infantis hoje universais, como “O Patinho Feio”, “O Soldadinho de Chumbo”, “A Pequena Sereia” e outros.

Também foi um ano em que nasceu gente que depois alcançaria a fama, como o médico, filósofo e escritor alsaciano Albert Schweitzer (morto em 1965); o compositor francês Maurice Ravel (morto em 1937), autor do famoso “Bolero”; e o mágico e escritor inglês Aleyster Crowley (morto em 1947). Em novembro, no Brasil, era fundado o jornal “O Estado de São Paulo”. Enquanto isso, pelos morros da Serra Gaúcha, centenas de famílias de colonos começavam a transformar em realidade, por meio do trabalho, a meta de construir aqui um lugar propício para viver, trabalhar e moldar sonhos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 17 de abril de 2015)