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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Frio na pele, calor n´alma

Sobre uma coisa somos todos unânimes: unanimidade não existe. Poucos ou raros são os aspectos sobre os quais é possível deitar o véu da unanimidade. Os aviões, por exemplo, são uma delas. Afinal, todo o avião que sobe acabará descendo, de um ou de outro jeito. Sempre descem, é unânime. Difícil encontrar outra coisa que atinja esse grau de unanimidade. Reflito sobre isso nessa reta final (ainda pouco menos de um mês) de um inverno muito estranho na Serra gaúcha. O frio não é unânime. Há quem goste e há quem não goste, já que somos humanos e não pinguins, apesar de, algumas vezes, eu me sentir como se fosse um deles quando desavisadamente fixo o olhar no termômetro.
O frio não só não é unânime como também não é democrático. Pois que é difícil integrar o grupo dos bem-aventurados que dizem apreciar o inverno devido aos prazeres que ele proporciona, como uma lareira acesa, um bom vinho, um passeio a Gramado para ver a neve, o enrodilhar-se em um cobertor, um chocolate quente, essas coisas. Nem todos podem. E os que não podem, acabam vivenciando na pele os rigores malvados não só do frio, mas especialmente do ato de passar frio, essa vergonhosa mazela decorrente das incompetências da (in) civilização humana. Eu, de minha parte, quanto mais avanço nos anos, menos gosto do frio. Combato-o com as armas que tenho ao meu alcance e passo o inverno tiritando e torcendo para que as temperaturas subam.
Bom é saber que não estou só. Dia desses, encontrei um poema, elaborado provavelmente no alto do inverno serrano, em que o frio é desancado com ritmo e rima. Adorei. É de autoria do poeta caxiense Alfredo de Lavra Pinto (1887 – 1939), patrono da cadeira número 8 da Academia Caxiense de Letras, e só posso imaginá-lo compondo-o envolto em um cobertor, à noite, de tamancos e carpins, tremendo o queixo e irritado. Intitulado “Inverno”, reproduzo-o aqui, como uma arma a mais contra as cortantes friagens que nos assolam:
“Inverno, eu voto horror aos teus rigores,/ Eu abomino, em cólera fremente,/ O teu minuano, a sibilar, algente,/ E a música dos tristes amargores./ Detesto esses nevoeiros e tristores/ Que trazes, ó Briareu impenitente,/ Para nos torturar, horrivelmente,/ Para nos imergir num mar de horrores!/ Odeio o teu entono e o teu império!/ Odeio esse ar glacial, de spleen funéreo!/ Odeio o teu sinistro desvario!.../ E odiando-te, com toda a força da alma,/ Eu juro que prefiro a ardente calma/ Ao teu desesperado e intenso frio...”.

Essa impressão deve ser unânime: o frio esquentara bem a pena do poeta...
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 28 de agosto de 2017)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Saber mexer os pauzinhos

Nos anos 1990, a gastronomia típica italiana vigente na Serra Gaúcha sofreu uma ameaça de abalo a partir da inserção do javali entre as iguarias que por aqui aterrissavam nas mesas dos restaurantes e embalavam as reuniões de amigos que se aventuravam a escantear a polenta com formaggio e o frango al primo canto. A costela assada de javali, o lombo de javali ao forno acompanhado com molho de menta, o quarto de javali preparado para ser abocanhado à gaulesa fizeram sucesso entre os apreciadores do bem comer, adaptando-se ao tradicional acompanhamento do radicci com bacon a título de salada e à sobremesa de sagu quente (sobre a qual pairam controvérsias que agora não vêm ao caso).
Mas a onda durou pouco. Arrefecida a euforia inicial, a javalizada se reproduziu como praga, passou a vandalizar as lavouras em gangues descontroladas e decaiu no gosto popular, sendo varrida dos cardápios para o retorno triunfante da bela polenta com queijo, das sopas de capeletti e de agnoline, da codorna ao molho, do bígoli com guisado, do churrasco de gado e de porco, dos peixes fisgados das pesqueiras. Falando em peixe, registre-se a passageira fase das trutas ao molho de amêndoas, que não chegou a abalar o império das velhas e boas tilápias fritas na banha.
Mas, como tudo na vida é sazonal, uma nova onda gastronômica finca fundações sólidas por nossas serranices: o fascínio pelos sushis. Estamos determinados a apreciar os delicados sabores dos coloridos acepipes oriundos da gastronomia japonesa, inclusive trocando os talheres pela manipulação dos pares de pauzinhos. Problema sou eu, claro. Noite dessas, infiltrado em evento enogastronômico refinado, detectei, em um dos cantos, o (agora) já tradicional bufê de sushi. Como todo bom habitante da Serra, pensei “oba, sushi” e lá fui eu, pratinho em punho, pauzinhos na mão, a pinçar unidades para depois saborear com a esposa.

Só que, ainda destreinados, meus dedos não conseguiam manter paralelas as varetinhas, que insistiam em fazer um xis cruzado enquanto eu tentava capturar um encantador sushizinho recheado com algo verde, que acabou arremessado em efeito catapulta contra o meu peito, quicou e foi rolar no chão bem embaixo da sola de meu sapato que nesse instante pisava e achatou o rolinho, agora impróprio para consumo. Minha esposa, acometida por um incontrolável acesso de riso, saiu pela tangente e me deixou ali, imóvel, salivando de desejo secreto por uma suculenta picanha no espeto, nem que fosse de javali. Não adianta, na hora do aperto, sempre apelamos para a tradição.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de novembro de 2016) 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fome de ontem e de hoje

Os principais fatores que motivaram levas e levas de famílias europeias, especialmente alemãs e italianas, a abandonarem seus lares na segunda metade do século 19, cruzarem o oceano Atlântico e virem começar nova vida em terras brasileiras foram a fome e a crise econômica que assolavam seus países de origem. A falta de perspectivas de trabalho e a descrença na possibilidade de haver uma melhora na situação das classes menos favorecidas na Alemanha e na Itália foram os ventos que impulsionaram agricultores, artesãos e vários outros tipos de profissionais a se transformarem em imigrantes e protagonistas de um capítulo importante na história do Rio Grande do Sul.
Entre os colonizadores italianos que aqui chegaram 140 anos atrás, foi especialmente a paúra da fame que motivou na Mérica a busca pela cocagna. A propaganda oficial do governo brasileiro não dizia isso, mas também não desmentia as lendas e boatos que circulavam no Velho Mundo, dando conta de que na Mérica a fartura (cocagna) estava ao alcance de todos, pois que se tratava de uma terra paradisíaca, em que até o salame e o queijo frutificavam em árvores, bastava erguer a mão e colhê-los. Adeus, fame!
Claro que essa visão fabulosa não convencia a maioria dos imigrantes, que sabiam muito bem que o que lhes esperava aqui era muito suor, muito lavoro, muito esforço para que conseguissem realizar o sonho de transformar suas próprias vidas em algo melhor. Tão conscientes estavam do que a pretensa terra da cocagna lhes exigiria, que conseguiram, sim, fazer dessa história uma saga de sucesso, criando na região da Serra do estado mais austral do Brasil um polo de desenvolvimento referencial em toda a Mérica. A famigerada fame que atormentava o sono dos pioneiros foi exorcizada com o suor do trabalho e hoje em dia pode-se até falar em fartura exagerada de comida nas mesas da região, enquanto que na Europa moderna, agora distante das antigas crises, a cultura vigente é justamente a de evitar o desperdício.

No momento em que se comemora, com justeza, os 140 anos da imigração, talvez Caxias e região devam aproveitar para lançar um olhar mais atento à situação daquela parcela de sua população, pequena mas significativa, que ainda vive à margem da conquista da cocagna e em cujo cotidiano a fame segue encontrando morada. O desafio de hoje é estender os benefícios do sucesso da colonização a todos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de maio de 2015) 

sábado, 18 de abril de 2015

Amiga vegetal

Vejo ao longe, da janela de meu escritório, o balançar dos galhos da frondosa araucária que domina o centro de uma quadra no bairro ainda desprovida de concretos. A árvore ocupa lugar de destaque no centro do cartão-postal que os quadrangulares limites da janela definem sempre que abro-a todas as manhãs, deixando entrar o sol (quando o dia é de sol) ou a neblina (nos dias de nuvens) e as primeiras nuances de mais um dia.
“Bom-dia, bela árvore”, desejo a ela em todos os alvoreceres, ao que ela me responde sempre ao longe com um sutil menear de seus galhos robustos e silenciosos. Às vezes, quando dou uma pausa do trabalho frente à tela do computador, para dar uma folga ao pensamento e deixá-lo divagar, repouso o olhar sobre a imagem da árvore que de lá me faz companhia, e fico a admirar suas formas exuberantes: o longo tronco desnudo que se ergue do solo seguro, forte, para explodir no alto em um punhado de galhos arqueados a ofertarem em cada ponta um circular ramalhete de verdes folhas, como se fosse um doceiro de mil braços a vender algodões-doces vegetais. Elegante design da natureza, criado para encantar os olhos de quem os tem a serviço da pescaria do Belo, onde quer que ele se esconda.
Que idade terá esse exemplar da mata nativa que se exibe em sua exuberância nessas quebradas do bairro? Mais velho do que eu? Contemporâneo? Um irmão mais novo, um tio, um avô? Não sei, não sou cientista, não conheço e não sei capturar os sinais que a árvore certamente emite e que desvelam o tempo de sua existência. Ainda bem. Assim, posso colecionar em relação a ela mais um mistério, porque é de mistérios que se moldam os encantos e não quero perder um milímetro sequer do fascínio que cultivo por minha amiga vegetal solene, impávida, muda e presente.
Ontem amanheceu ventando forte. Acordei mais cedo com o chacoalhar das persianas contra os vidros das janelas e fui descerrar a do escritório para logo saudar a minha amiga araucária. Seus braços de polvo revolviam-se frenéticos pela ação do vento, em um aceno conturbado e tresloucado de galhos a chacoalharem revoltos. Ah, temos mais algo em comum, amiga araucária: esse vento norte também te transtorna! Mas, se ela segue firme, encontro em sua imagem a força para enfrentar também eu mais um dia. Sim, bom-dia para você também, e vamos à luta!

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de abril de 2015)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Quando chegavam os colonos

Neste ano de 2015 os municípios que integram a região conhecida como Serra Gaúcha, especialmente aqueles originários a partir da chegada de colonos oriundos da Itália, celebram os 140 anos da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul. Caxias do Sul, a “Pérola das Colônias”, conforme apelidou-a Júlio de Castilhos (então presidente da Província) na visita que fez ao município em 1897, também se insere na programação de festividades alusivas ao evento histórico.
Que os imigrantes italianos, depois de dias de viagem cruzando o Atlântico, chegaram aqui e tiveram de arregaçar as mangas para transformar a mata virgem em local de sustento, isso a gente sabe. Mas vale a pena, também, para compreender melhor que mundo era aquele do ano 1875, embarcar em uma máquina do tempo e fazer um rápido mundo-tour para ver o que rolava no planeta naquela época. Venham comigo.
No dia 3 de março de 1875, por exemplo, o compositor francês Georges Bizet (1838 – 1875) fazia a estreia de sua ópera “Carmen”, em Paris (Bizet morreria exatamente três meses depois da estreia de sua mais afamada obra). Personalidades importantes morreram naquele ano, como o enciclopedista francês Pierre Larousse, criador de uma coleção de enciclopédias que levava o seu nome; o político e desembargador brasileiro Cândido José de Araújo Viana, que ficou conhecido como Marquês de Sapucaí e o escritor e mago francês Eliphas Levi. Em 4 de agosto, morria em Copenhague, capital da Dinamarca, o escritor Hans Christian Andersen (1805 – 1875), famoso por criar histórias infantis hoje universais, como “O Patinho Feio”, “O Soldadinho de Chumbo”, “A Pequena Sereia” e outros.

Também foi um ano em que nasceu gente que depois alcançaria a fama, como o médico, filósofo e escritor alsaciano Albert Schweitzer (morto em 1965); o compositor francês Maurice Ravel (morto em 1937), autor do famoso “Bolero”; e o mágico e escritor inglês Aleyster Crowley (morto em 1947). Em novembro, no Brasil, era fundado o jornal “O Estado de São Paulo”. Enquanto isso, pelos morros da Serra Gaúcha, centenas de famílias de colonos começavam a transformar em realidade, por meio do trabalho, a meta de construir aqui um lugar propício para viver, trabalhar e moldar sonhos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 17 de abril de 2015)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O vinho do conde

Aconteceu no ano de 1865, no mês de agosto, em Rio Grande (a primeira cidade fundada na Província, em 1787), na época com 14 mil almas. Estava de passagem por ali o Conde D´Eu e seu séquito, rumo ao encontro do imperador Dom Pedro II, já aquartelado em Caçapava com suas forças somadas aos Voluntários da Pátria, a fim de combaterem o exército paraguaio de Solano López, que invadira terras brasileiras e já tomara São Borja e Uruguaiana.
O Conde D´Eu, francês da nobre Casa de Orléans, havia recém voltado da Europa, onde estivera em viagem de núpcias com sua esposa, a Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II. Ao chegar ao Brasil, descobriu que eclodira a Guerra do Paraguai (seu celular estivera fora de área a viagem toda e ele se recusara a acessar a internet para saber das notícias) e não tardou em ir se juntar ao sogro no Sul do país para ajudar a comandar in loco as tropas brasileiras combatentes. De barco e a cavalo, a viagem do Rio de Janeiro até Caçapava levou duas semanas.
No caminho, o séquito do Príncipe Consorte ia sendo recebido com pompas e gala nas localidades por que passava, sendo o Conde D´Eu hospedado nas luxuosas residências dos principais próceres de cada lugar. Assim também se deu em Rio Grande, onde foi recebido pelo distinto senhor Eufrásio Lopes de Araújo e sua família. No jantar, a esposa do anfitrião fez questão de que o Conde provasse o “vinho da terra”, uma vez que a Província do Rio Grande do Sul era a única do país, na época, que vinha produzindo vinho, a partir de cepas importadas dos Estados Unidos (os imigrantes italianos só começariam a chegar no Sul dali a dez anos).
O Conde provou, mas não gostou, relatando assim a experiência em seu diário de viagem: “É de cor vermelho-clara e tem um sabor que não é propriamente desagradável, mas que é acre e se não parece com o de nenhum vinho europeu”. Zero para o vinho gaúcho de 1865. Mas muita coisa mudou no cenário vitivinícola da região, passado um século e meio. Pena é que não seja mais possível convidar o Conde D´Eu para um jantar hoje na Serra Gaúcha, regado aos melhores rótulos das vinícolas da região. O que ele escreveu é imutável e traça o retrato de uma época. Felizmente, há coisas que mudam para melhor (quem procurar com afinco, acaba achando, nem que seja o vinho).

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de fevereiro de 2015)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Mãos prolixas

Pois é, mais de vinte anos morando aqui na Serra Gaúcha, não podia dar outra: acabei me aculturando em diversos aspectos. Absorvi hábitos, adotei costumes, ampliei o espectro de meus interesses gastronômicos, alarguei horizontes, coisa e tal. Vindo que sou da região noroeste do Estado, vizinho das Missões, até que passo por um gringo perfeito se me observarem de longe, à mesa, por exemplo. Viciei em radicci, pissacán, pien, codorna, sopa de agnoline e sopa de capeletti.
Mas, claro, há características que jamais nos abandonam, por mais que imaginemos estarmos imersos nas tradições, usos e costumes de determinada comunidade. Se me virem quieto, mastigando polenta com queijo e bebericando goles de vinho, tudo bem, me compram por gringo. Mas, se me escutarem pedir um copo de leiTE quenTE, que faz bem para a genTE, bom, aí entrego sem pudor as minhas origens alienígenas.
Mas o principal aspecto que comprova minha capacidade camaleônica de me inserir no meio em que passo a conviver é o fato de que há anos passei a “falar com as mãos”, como é costume antigo aqui por essas aragens serranas, em especial entre os descendentes de italianos. Ainda não falo alto, naquele volume dois tons acima do socialmente aceitável em outras localidades, mas definitivamente não consigo mais me comunicar se não puder utilizar as duas mãos e vários centímetros dos braços até os cotovelos, para auxílio gestual daquilo que estou dizendo.

Aprendi que não existe isso de usar somente o aparelho vocal e a língua portuguesa para dizer “eu fui até lá”, por exemplo. É preciso sublinhar a frase utilizando o braço todo, a mão em forma de punho, o dedo indicador em riste, e acompanhar o dito com um movimento largo de deslocamento, que explica a distância desse “lá” aonde andei indo. Mas ainda não tenho a destreza dos nativos, sou ainda um amador. Tanto é que, nos restaurantes, quando falo e narro uma história, minha mesa costuma estar permanentemente cercada por garçons que, de longe, imaginam que eu os esteja chamando com meus inábeis gestos. Preciso praticar mais e aprimorar minha comunicação, sei disso.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de novembro de 2014)

domingo, 8 de junho de 2014

O branco mais branco

Um moranguinho mergulhado no interior do glacê de uma torta de morangos. Perfeito! Depois de muito pensar, depois de passear por inúmeras tentativas para encontrar a comparação ideal, detectei na imagem de um solitário morango, afundado na alva camada de glacê da torta que ele compõe, a metáfora certeira para a densa, cerrada e espessa manta de neblina que se apoderou de Caxias do Sul desde as primeiras horas da manhã de sexta-feira.
Fora de casa, não era possível enxergar nada a uma distância além de um palmo do nariz. Somente a brancura da cerração estimulava o sentido da visão, monopolizando o cenário de uma cidade submersa em brumas. Teclo o termo “brumas” e me recordo do livro “As Brumas de Avalon”, da norte-americana Marion Zimmer-Bradley, romance de cavalaria que fez sucesso internacional no início da década de 1980. Não li a tetralogia nem assisti aos filmes, mas sempre fui capaz de imaginar a intensidade das brumas que recairiam e cercariam o mítico reino de Avalon, pelo qual transitavam donzelas indefesas e cavaleiros andantes. Nenhuma dessas brumas ficcionais chegou sequer aos pés das brumas que a realidade serrana fez se abaterem sobre Caxias do Sul nessa última sexta-feira.
Dei-me ao trabalho de comparar a brancura do mundo que o vidro da janela do quarto revelava com a brancura dos lençóis recém saídos da máquina de lavar (não venha com gracinhas caro leitor... nossos lençóis são branquíssimos, sim, senhor... mas nem se comparavam com as brumas de Caxias do Sul na manhã que aqui reporto). Deitei o olhar sobre a brancura da página ainda intocada, aberta na tela do computador, e mesmo assim não vi ali um branco mais branco que o do lado de fora da janela. Nada superava a brancura da neblina de sexta. Dificilmente algo a superará, nem mesmo os eventuais brancos que acometem a mente de um cronista instantes antes de dar início à produção de mais um texto, em busca da metáfora ideal que expresse com minúcia e beleza a alvura de um dia imerso em brumas.

Daí, então, o moranguinho mergulhado no interior do glacê de uma torta de morangos. Talvez só ele, o solitário moranguinho da torta de morango, consiga enxergar em seu entorno um bloco de brancura tão intenso quanto o que transportou Caxias para Avalon no dia 6 de junho de 2014. Nem mesmo as geleiras do Ártico. Nem mesmo a desinspiração de um poeta. Só mesmo Caxias e suas brumas. Ou o interior glaceado da cobertura daquela torta de morangos. Ai que fome. Para que lado fica a confeitaria mesmo?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de junho de 2014)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Feriados serranos

Véspera de feriado, como foi no domingo, é a melhor coisa do mundo, especialmente quando a folga cai em uma segunda-feira e você pode antever um longo dia de paz e sossego, longe dos afazeres atribulados do cotidiano, a dedicar-se apenas a aquilo que lhe dará prazer. Na noite anterior você se dirige para a cama já com um meio-sorriso nos lábios, recostando a cabeça e a mente no travesseiro, que se põe a aparar os pensamentos leves que você vai cultivando enquanto antegoza tudo aquilo que vai (ou que não vai) fazer no dia seguinte. E então adormece, tranquilo e sereno, como que acalentado por anjos.
No estado híbrido entre vigília e sono, você já se vê saltando da cama no dia seguinte na hora em que bem entender, o despertador desligado e enfiado embaixo da cama, a ditadura das horas varrida para o limbo pelo menos nesse dia. Caso tenha cônjuge e filhos, vai aproveitar para desenvolver programas em família, como caminhar no parque, brincar na pracinha, andar de bicicleta, fazer um churrasco, lavar o automóvel, dar um passeio até o interior, comer porcaria no shopping, ir ao cinema, visitar algum parente, passear de mãos dadas, levar o cachorro a cheirar terra, coisas do gênero.
Se for solteiro, vai dormir até a hora em que a cama, exausta de sua presença, o expelir para fora do quarto. Vai abrir a geladeira e fazer um sanduíche Torre-de-Babel, empilhando tudo o que houver pela frente (e que for digerível), a título de desjejum-almoço-lanche (para parecer chique, dirá a todos que fez um “brunch”). Depois vai se aparafusar no sofá da sala e ligará a televisão, ficando uma hora zanzando pelos canais e reclamando que não tem nada decente para assistir - isso se for homem. Se for mulher, vai telefonar para uma amiga, com quem vai passar essa mesma hora colocando uma parte da conversa em dia e marcando um encontro em uma confeitaria para dali a algumas horas, a fim de colocar em dia todas as outras partes que não deu para abordar pelo telefone. Coisas do gênero.

Mas, contudo, porém, entretanto... em morando em Caxias do Sul, ou na Serra Gaúcha, como acontece com boa parte de quem me lê, corremos o risco é de acordarmos com nosso feriadinho mergulhado na mais espessa e contundente neblina, o que levará nossos planos por água abaixo. Eu, que não me dou por derrotado, aproveitei para entocar os pés em meias e pantufas, degustar xícaras de cappuccino e proceder àquela prazerosa e intimista organização dos livros nas estantes, há tanto tempo protelada. Estão para inventar uma cerração capaz de nos estragar um feriado, pois não?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de maio de 2014)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Caprichem no galeto

Em tudo saindo conforme o esperado, Caxias do Sul recebe hoje a presidente da República Dilma Rousseff, que, dando sequência a uma tradição iniciada por Eurico Gaspar Dutra em 1950, prestigiará a abertura de mais uma edição da Festa da Uva. Além de todo o já tradicional e necessário aparato de segurança, de cerimonial e de estrutura que envolve uma visita da dirigente máxima do país, em se tratando de Caxias do Sul, de Serra Gaúcha e de Festa da Uva, existem também certas peculiaridades a serem levadas em conta. Dilma levou-as todas e, exercitando a diplomacia, a simpatia e o conhecimento de causa, manifestou o desejo de almoçar galeto nesta quinta-feira que passará conosco aqui na Pérola das Colônias. Em Roma, faça como os romanos, não é, presidente?
A notícia me causou certa preocupação ontem, por alguns instantes. Afinal, se a presidente deseja comer galeto na terra do galeto, da polenta, do queijo, do vinho e da uva, pois então que sirvam galeto para a presidente. Mas é preciso que seja um bom galeto, e não um galeto qualquer. Não podemos correr o risco de vermos ir-se de volta a Brasília uma presidente que eventualmente tenha sofrido o azar de degustar um galeto mal passado, mal temperado, chamuscado, cru ou borrachudo. Dilma, em explicitando seu desejo de comer galeto em Caxias, precisa necessariamente ser servida com um galeto de primeira, desses que só aqui, na Serra Gaúcha, se sabe fazer.
Mas logo meu temor foi sendo amenizado. Afinal de contas, Dilma estará em boas mãos. Basta ver que a organização desse manjar típico estrelado pelo galeto está a cargo do ministro do Desenvolvimento Agrário Gilberto Pepe Vargas, nosso ex-prefeito. Entre tantos outros assuntos que domina, Pepe, como bom representante da Serra que é, entende de galetos. Saberá determinar todos os detalhes prévios e, em sentando próximo da presidente, não deixará de ajudá-la a pinçar os exemplares mais atrativos.  Porque um bom galeto a gente reconhece de imediato pelo aroma e pelo visual, todos aqui sabemos.

E tem mais: além do fato de Dilma ter em Pepe um confiável cicerone gastronômico, quem é que ousa imaginar que se faça galeto ruim em Caxias do Sul? O bom galeto é uma questão de honra local e não haverá a mínima possibilidade de Dilma sair daqui sem ter seu desejo presidencial gastronômico saciado com louros. Ou, de preferência, com sálvia. Bem-vinda, presidente Dilma, e bom apetite!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de fevereiro de 2014)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Um convite sincero

Ao contrário do que você possa pensar, não é nada difícil chegar a Caxias do Sul, meu caro. Região serrana, instala-se a 817 metros acima do nível do mar, de cuja orla se distancia por cerca de 180 quilômetros. Se estiver vindo de Santa Catarina, pode acessar o município pelo norte, utilizando a BR-116. Se partir da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, utilize a mesma estrada federal, porém, acessará a cidade pelo sul. Conhece Passo Fundo? Pois, então. Também pode partir dali pela BR-285 rumo a Vacaria e de lá acessar Caxias pela afamada BR-116. Como pode ver, muitos são os caminhos capazes de conduzi-lo à nossa populosa, pujante, frenética cidade, que tanto gostaria de acolhê-lo com mais frequência.
Sim, porque somos um povo hospitaleiro, além de possuirmos várias outras características simpáticas e acolhedoras de que nos jactamos para atrair a sua atenção para essas nossas plagas. Mas eu andei gastando seu tempo com dicas de acessos viários terrestres, quando bem sabemos que, quando se decidir a finalmente dar as caras pela nossa cidade, você o fará vindo do alto, atravessando nuvens. Portanto, muito mais útil será oferecer-lhe coordenadas geográficas precisas. Assim, se olhar um mapa, conseguirá facilmente localizar nossa Caxias do Sul situada a 29 graus de latitude e 51 graus de longitude. Fácil, não?
Então fica o convite, feito de forma oficial e fraterna: venha nos visitar! Venha ver a beleza e a simpatia das nossas recém eleitas rainha e princesas da Festa da Uva 2014, o evento que realizamos aqui a cada dois anos para celebrar com orgulho o fruto de nosso trabalho e a concretização de nossos sonhos. Venha ver nosso interior colonial belo e repleto de história da imigração. Venha passear pelas nossas calçadas urbanas movimentadas de gente trabalhadora e faceira. Venha espiar para dentro das nossas casas por entre as frestas das janelas e detectar a alegria com a qual será recebido sempre por todos. Sorrisos se estamparão nos rostos de crianças, homens, mulheres, jovens e adultos, sempre que estiverem em contato contigo e isso será tão bom para cada um de nós quanto para você mesmo.

Garanto a você que será assim. Então venha, sol, venha nos visitar mais vezes. Venha para Caxias do Sul e nos proporcione estadas demoradas, sem data para ir-se de novo esconder por detrás das nuvens. Será recebido calorosamente por todos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de setembro de 2013)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Dia de cartão postal


Um doce e gélido espírito infantil nos invade quando acontece essa coisa de nevar. As pessoas saem às ruas com sorrisos largos a tomar-lhes a área dos rostos e lançam-se para fora do aconchego das casas sem dar bola ao frio de encarangar pinguim que rola na rua. Tudo para ver a neve, curtir a neve, produzir bolas de neve e jogar na namorada para vê-la dar gritinhos, fazer fotos para compartilhar com os amigos nordestinos pela rede social (eles lá, de calção e chinelo de dedo, morrendo de inveja de nós aqui, embalsamados em casacos e mantas), moldar desajeitados bonecos de neve com as crianças e fazer de conta que se está em Aspen.
Um espesso cobertor branco pairou ontem por sobre toda a cidade ao raiar do dia nessa nossa Caxias do Sul que, este ano, vem penando um inverno rigoroso como aqueles de nossa saudosa infância (nessas horas é que nos certificamos de que “saudosa” mesmo era a infância, mas não o rigor do inverno). Já de manhã cedinho a rua é invadida por vizinhos que desentocam para brincar e fotografar a paisagem de cartão postal europeu que se descortina no jardim de suas próprias casas. “Que belo presente”, me diz um desconhecido passante, em meio a um sorriso que mal aparece, ensanduichado entre a gola alta do blusão e as abas da touca a cobrir-lhe as orelhas.
Mais adiante, esquina abaixo, um automóvel para no meio-fio e despeja uma família completa que salta a construir bonecos de neve. Os dois que eu tentara fazer ainda na noite anterior, quando a nevasca se iniciara, jazem semimortos ao lado da cerca, meio derretidos, pendendo ambos para o mesmo lado. Coitados. Confesso que desde a origem eles pouco lembravam o formato clássico dos típicos bonecos de neve norte-americanos que vemos nos filmes, dada a minha incompetência (ou inexperiência) em produzi-los, haja vista a rara frequência de nevascas desse porte por aqui. Estavam mais era para anões estropiados de jardim e, se eu tivesse levado a cabo a intenção de construir sete deles, teria feito uma foto em meio à turma e postado na internet como “Marcos Frionando, o Branco de Neve e seus Sete Anões”, mas fui demovido da ideia por um providencial chamado para dentro porque eu iria acabar “pegando uma gripe daquelas”.

Essas neves decenais nos aliviam momentaneamente os espíritos e descongelam a criança que, quando queremos, ainda guardamos escondidinha nos freezer de nossas almas. Devia nevar mais por essas plagas...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de agosto de 2013)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Carta a São Pedro

Prezado senhor São Pedro:
Considerando que os meses de frio na região conhecida como Serra Gaúcha costumam se antecipar à chegada oficial do Inverno e se estender até depois de encerrado o prazo de validade dessa sazonal estação climática, fazendo-nos tiritar por cerca de oito dos 12 meses do ano;
Considerando que temperaturas desavergonhadamente baixas desestimulam a prática de esportes ao ar livre e também a prática de atividades quaisquer que sejam indoor, a não ser as relativas ao bate-queixo defronte às lareiras e aos fogões a lenha, quando muito o mergulho para baixo das montanhas de cobertores ainda cedo da noite sem mais nada querer de nada, colocando em risco até mesmo a manutenção da densidade demográfica serrana de que tanto nos orgulhamos, correndo riscos de extinção de toda uma cultura;
Considerando que até mesmo outras regiões como Santa Catarina e Paraná andam ultimamente anfitrionando a manifestação do fenômeno meteorológico conhecido como “neve”, que até então figurava como exclusividade das paisagens gaúchas e, entre elas, especialmente nas dos gaúchos destemidamente residentes na Serra, esvaziando para outras plagas o frio atordoante que até então os alegres turistas de longe só encontravam aqui entre nosotros;
Vimos nós, abaixo-assinados, reivindicar que os frios escorchantes - que nos encarangam as espinhas e gelam as almas até mesmo de quem não crê nelas - passem a ser optativos para cada habitante desta região serrana do Rio Grande do Sul. Que o senhor permita e exercite na prática a pluralidade climatológica individual, em que cada cidadão tenha o direito de vivenciar no inverno a temperatura que melhor aprouver à sua própria saúde, ao seu próprio bem-estar, ao seu pessoal e intransferível conceito individual de “frio” e de “inverno” (para mim, por exemplo, invernos poderiam estabilizar no meu entorno físico em temperaturas amenas que variem entre 15 e 20 graus centigrados, estamos combinados?).
Em sendo assim, agradecemos desde já a atenção dispensada e subscrevemo-nos, deixando-lhe as mais quentes, acolhedoras e aconchegantes manifestações de nossa estima e apreço, na certeza de que o senhor será sensível (e nãoinclemente) ao nosso apelo.

Assinado: Gente da Serra Gaúcha (Marcos Fernando Kirst e os seguintes leitores:..............)
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de agosto de 2013)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Coringa na manga

Já virou chacota na família de minha esposa a minha teima em não conseguir aprender as regras do jogo de bisca. Mais do que chacota, virou folclore em toda a cidade de Uvanova o fato de “o jornalista, o escritor” não ter jeito de meter na cachola as regrinhas de um dos jogos de cartas mais populares e tradicionais entre os descendentes de imigrantes italianos que povoam a Serra.
 “Mas que coisa, olha só, ele não aprende mesmo”, cochicham em alto e bom som entre si os tios e primos que se acotovelam ao redor da mesa do porão sobre a qual quatro de nós empunham as cartas e vamos jogando umas em cima das outras até que de repente um mais atilado arremata todo o monte de descartes gritando alguma coisa em italiano que eu obviamente não entendo, ao passo em que meu parceiro de dupla (o sogro, o cunhado, a tia, o primo) me fuzila com os olhos e de novo me repreende pela burrada que eu nem imagino como cometi, se na rodada anterior o ás de paus não valia nada e agora ele é o “cargueiro”, e tendo feito o que eu fiz ou deixado de fazer o que eu não fiz coloquei tudo a perder, porco cane!
Para sorte minha e para a manutenção da harmonia familiar, logo surge outro primo/tio/amigo/agregado disposto a assumir o meu lugar no jogo, com o que imediatamente concordam todos os demais jogadores e seguem a partida enquanto me consolo a um canto enchendo meu copo de vinho e mordendo um grostoli, atividades em que me saio bem melhor do que na bisca.
Eu não comento com ninguém, mas o fato é que, ali no cantinho, escorado em uma pipa, mergulhando grostoli no copo de vinho, reitero minha certeza de que esse jogo, a bem da verdade, não possui regra nenhuma. Cada um faz o que lhe dá na telha e os outros vão acompanhando até que um deles, mais rápido, faz uma jogada incisiva e grita “ganhei”, recolhendo as cartas e contando os pontos a seu bel prazer sob o olhar resignado dos demais, que farão a mesma coisa na rodada seguinte, sem que ninguém os conteste. Contestar seria correr o risco de receber uma reprimenda sobre as regras, que nunca vem porque na verdade ninguém as conhece, mas nenhum deles ousa admitir. A mim, o que falta é a manha e o vocabulário que me permitiriam enfrentá-los de igual para igual.

Assim, deixo-os irem jogando e eu é que não vou externar essa minha certeza. Vai que me proíbam o acesso ao vinho e aos grostolis e prá baúco eu também não sirvo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 8 de agosto de 2013)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Como gostais


Eu não sou daqui e esse irremediável aspecto de minha biografia às vezes me coloca em saias justas frente ao desconhecimento de algumas nuances típicas da cultura regional. Por exemplo: sempre levo petelecos na orelha quando me ponho a elogiar a sopa. Eu nunca acerto. É uma loteria de apenas dois números e eu sempre aposto no errado. Quando digo “slurrp, que maravilhosa essa sopa de capeletti”, logo levo um xingão da nona que fez a sopa: “não é de capeletti, é de agnoline, toseto”. Na vez seguinte, mando bala com segurança e arremeto, com uma colher numa mão e uma fatia de pão de forno na outra: “slurrp, mas que delícia essa sopa de agnoline”, e pá, levo outra da outra nona: “ma che agnoline o che, neno, isso é sopa de capeletti, non tá vendo?”.
Pois é, então desisto. Não de tomar as sopas, que adoro. Desisto é de tentar diferenciar agnoline de capeletti que, para mim, trata-se de absolutamente a mesmíssima e saborosa coisa. E che bela cosa, han? Mas mesmo assim, uma alma de repórter investigativo não desiste nunca e, apesar de minha prudente retração na hora dos elogios ensopados (minha avó já me aconselhava a não falar de boca cheia, pois bem feito para mim), decidi investigar a fundo a origem dessa celeuma.
Não vou revelar as fontes, mas minhas pesquisas andam indicando que a origem do problema remonta à região de Verona, na Itália, lá pelos idos da Idade Média. Havia duas famílias rivais que produziam massas para consumo. Uma delas, liderada por uma tal Julieta, fazia chapeuzinhos de massa recheados com carne bovina ou de frango, servidos em um caldo temperado, e os chamava de capeletti. Outra família, capitaneada por um Romeu, produzia chapeuzinhos de massa recheados com carne bovina ou de frango, servidos em um caldo temperado, e os chamava de agnoline. As duas famílias se odiavam por mais outros motivos relativos a um obscuro caso de amor que, séculos mais tarde, parece ter sido retratado nos palcos por um dramaturgo bretão, mas isso nada tem a ver com o nosso caldo.

Enquanto não desvendo todo o mistério, sigo sorvendo faceiro meus pratos fundos de agnolettis e capelines, especialmente nesses dias gelados, e as nonas que perdoem minha ignorância antes que isso se transforme em tragédia.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de julho de 2013)

quinta-feira, 25 de julho de 2013

E nem sou pinguim

Não sei para você, leitor, mas, para mim, o pior do inverno são os momentos em que é preciso ficar pelado (“não escreva ‘pelado’, escreva ‘nu’”, aconselhou-me a esposa). Respondi que jamais escrevo nu, sempre escrevo vestido, e que o ato de escrever não se encaixava naqueles que eu estava prestes a elencar como os momentos horrendos em que é preciso ficar pe... nu, nos longos dias de nossos invernos serranos.
Pois reitero e sustento que a momentânea necessidade de colocar-se nu em pelo é, sim, a maior tortura a que nos submetem essas temperaturas siberianas. É quando a pele entra em contato direto com o invisível e intangível poder do frio extremado ali, no banheiro, de manhã cedinho, ao despirmos o pijama e as pantufas para nos arremessarmos para dentro do box do chuveiro, peladinhos, peladinhos, os poros fechando e formando bolinhas pelos braços e pernas como se fôssemos frangos congelados prontos para irmos, a passarinho, direto ao forno. E assim como entramos debaixo do chuveiro, saímos, também pelados (minha esposa sai nua), tremelicando ao sabor das passadas rápidas da toalha que nos vai secando e preparando para o almejado contato com a camiseta e a roupa de baixo acolhedora, as primeiras camadas de vestes que nos irão ensanduichar e nos colocar aptos a irmos à luta diária pela sobrevivência por esses nossos Cárpatos gelados.
Depois de passarmos o dia caçando focas, armadilhando mamutes, perseguindo pinguins e rodando trenós, retornamos aos nossos iglus para, já no aconchego do (ge)lar, novamente termos de nos despir, ficarmos pelados (eu) ou nus (minha esposa) na hora de tirarmos as roupas do dia e recolocarmos os pijamas. Aqui na Serra, toda a nudez não sei se será castigada, mas, no inverno, tenho certeza de que toda a nudez será bem gelada, isso sim.
Em meus devaneios tiritantes, tenho muita inveja de Bruce Wayne e Dick Grayson que, na mansão milionária em Gotham City, pulam numa espécie de mastro de pole dance e chegam lá embaixo na Batcaverna instantaneamente vestidos de Batman e Robin. Ao menos, era assim que acontecia no seriado televisivo dos anos 1960. Que maravilhosa invenção que falta inventar essa, a da cápsula do vestimento automático. Ou isso ou, aqui na Serra, andar sete meses sem trocar de roupa... hummm... Tá bem, amor, tá bem, vou apagar isso...

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de julho de 2013)

terça-feira, 16 de julho de 2013

E aquele pratinho ali...

Acontece muito comigo. Basta eu me dispor a comparecer a algum almoço ou jantar comunitário, desses típicos encontros festivos que em nossa região costumam ter lugar em salões paroquiais, em que os extensos mesões de madeira abrigam animados grupos de amigos e familiares confraternizando entre si e com desconhecidos, que a coisa acontece. E é comigo o negócio.
Explico. A gente se abanca (normalmente em bancos mesmo, formados por compridos tabuões de madeira sustentados por cavaletes estrategicamente dispostos a cada três metros) em algum ponto da mesona e já vai tomando posse, cada qual, de seu prato de plástico (desemborco-o logo, para saberem que aquele tem dono), dos talheres e do palito de dente, que muito útil será dali a pouco após a passada repetida dos espetos com salsichão, galeto, costela, e mais a maionese e a salada de alface e a de tomate com cebola, além da massa e do pãozinho (que nunca toco).
Vai-se comendo alegremente enquanto acumulam-se, a um canto do prato, os despojos imastigáveis da saborosa comida circundante, como os ossos das costelas, os ossinhos e cartilagens dos frangos e algum pedaço mal passado daquele vazio que colocaram correndo no fogo porque o salão lotou demais e pegou os assadores quase que desprevenidos. Solícito e atento às necessidades de meus circundantes, costumo providenciar junto aos servidores um pratinho para fazer as vezes de “cemitério” comunitário, destinado a acumular os refugos vindos dos pratos de todos em volta.

Até aí, tudo muito lindo. O problema se estabelece a partir do momento em que, estando todos já servidos e chacoalhando os pés, ávidos para começarem as bailanças, passam a ser recolhidos das mesas os utensílios utilizados no ágape: talheres, copos, pratos, guardanapos, garrafas, vão sumindo sem deixar vestígios. Porém, via de regra, justamente o meu prato é sempre esquecido e acaba ficando ele ali, sozinho na minha frente, os ossinhos nus e frios das coxinhas de galinha a me olharem e a escancararem a todos em volta o tamanho de minha gula saciada, como se só eu tivesse me atracado selvagemente no repasto recém servido. Sempre, e só comigo. Vai ver isso quer dizer alguma coisa...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de julho de 2013)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Um brinde ao frio


Só de olhar a gente já encaranga

A gente dizia que estava de renguear cusco, enquanto descascávamos bergamotas ao tênue sol do pós-meio-dia, na frente de casa, na Rua dos Viajantes. Em Ijuí também fazia frio pra cachorro nos meus tempos de adolescência, quando a família se reunia à noite em semicírculo defronte à lareira, as luzes apagadas e a sala iluminada apenas pelas labaredas que iam lentamente consumindo o toco de pau-ferro, que estralava de vez em quando, pontuando as histórias que o pai e a mãe alternavam para nos embalar aconchegos. Chegada a hora, chispávamos para as camas, já quentinhas com o peso das cobertas-de-penas ali dispostas à nossa espera.
Depois em Santa Maria, estudante universitário, o Vento Minuano nos atocaiando nas esquinas da Boca-do-Monte ou então correndo solto a nos gelar as orelhas pelos largos descampados entre os prédios do campus. Naquela época, o melhor escudo que eu tinha contra o frio era um pala que me acompanhou na maioria das aulas de Jornalismo e também nas assembleias universitárias e passeatas por Diretas Já. Uma época em que o chimarrão nos aquecia de dia e a sopa reforçada feita pela mãe do amigo Jaime esquentava o rescaldo das longas noites de discussões políticas e literárias.
Mas a paixão mesmo pelo inverno se consolidou em mim a partir da forte nevasca que atingiu Caxias do Sul e que ganhei de presente de aniversário no dia 8 de julho de 1994, apenas dois anos depois de eu ter me enraizado na cidade. Fiz boneco de neve, escorreguei na calçada, gelei a ponta do nariz e cristalizei um sorriso interno permanente que sempre se reapresenta quando os termômetros voltam a despencar por aqui. Na época, cheguei a preservar uma bola de neve intacta dentro do congelador, a fim de exibi-la aos parentes em suas visitas posteriores, dizendo: “Já viu neve? Tá aqui, ó”, o mais faceiro de todos.
Um sapeco de pinhão na chapa do fogão a lenha em Uvanova, um rocambole de cobertores quentinhos, uma sopa fumegante de agnoline, um banho escaldante antes de ir para a cama, uma feijoada daquelas, uma garrafa de bom vinho, o sol da manhã derretendo a geada, a fumaça das chaminés das casas na colônia, um cachecol enrolado no pescoço, um aperto de mão enluvada e o melhor de tudo: no sofá da sala à noite, a esposa e o gato aninhados em cada lado de meu colo, me aquecendo corpo, alma e coração. Prazeres que só o inverno é capaz de proporcionar. Tem coisa melhor?
(Texto publicado na reportagem especial sobre o frio no jornal Pioneiro, em 8 de maio de 2013)