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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Reinações de lá e de cá


Enquanto aqui em Caxias do Sul celebramos a goles de graspa e vino rosso a coroação do novo trio de soberanas da Festa da Uva, entronizadas na noite do último sábado, os britânicos espalhados pelo planeta seguem elevando brindes com suas “pints” ao enlace matrimonial de seu Príncipe Harry com a atriz norte-americana Meghan Markle, ocorrido também no sábado, devidamente distanciados os dois eventos em termos de fuso, pompa, gala e gastos. Conforme me ia relatando o barbeiro, na gélida manhã de sábado da semideserta Caxias encarangada de frio, enquanto conduzia por minha cabeça a máquina de corte (que pouca resistência capilar encontrava pelo caminho), informado que estava a respeito dos dois majestosos eventos, soube que só o vestido de noiva da sorridente Meghan custara cerca de 500 mil reais. Coisa de arrepiar os cabelos, caso eu os tivesse em volume suficiente que justificasse idas mais frequentes ao encontro do atilado profissional da tesoura, do corte e da costura de dados curiosos.
Quinhentos mil reais por um vestido de noiva é coisa que dá o que pensar. Bem, né, madama, dá o que penar às cabeças de nosotros, terceiro-mundistas militantes das plagas de cá das mazelas do mundo, espevitados que andamos com os escândalos financeiros envolvendo políticos nacionais, cujas cifras permitiriam financiar vestidos de casamentos reais por gerações e gerações de sangues azuis sem pestanejar. A sorridente Meghan deve ser a última mortal do mundo a encasquetar-se com isso, especialmente hoje, em que já deve estar saboreando as delícias da sua edílica lua-de-mel com a real barba-ruiva de seu marido em um hotel de luxo lá na Namíbia, sul da África, emoldurada ao pôr-do-sol e ao rugir dos leões e das zebras. Das zebras não, que zebra não ruge, né, madama. Dos leões e dos tigres, então. Como? Tigres também não, pois não há tigres na África, só na Ásia? Ora, madama, Ásia, África, tigre, leão, vestido caro, e lá a norte-americanice natural de Meghan e seu sorriso haverão de se importar com esses frivolidades? Ela está é dedicada a usufruir de sua suíte de 2,5 mil reais a diária, isso sim, onde há de haver um cofre grandão para guardar seu vestido de meio milhão de dinheiros.
Ou isso, ou está analisando as provas da estátua de cera de sua pessoa, a ser instalada no Museu da Madame Tussauds, em Londres, para que nós, da plebe mundial, possamos fazer selfies ao lado de sua agora nobre imagem. Tudo isso fiquei sabendo ao longo do corte, por meio do barbeiro esclarecido. Pena que pouco me sobrou sobre a cabeça para sair dali devidamente arrepiado.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro" em 21 de maio de 2018)

segunda-feira, 19 de março de 2018

E a Poesia era vedete


As coisas mudam bastante com o passar do tempo, algumas para melhor, outras, nem tanto. Apenas cem anos atrás (o “apenas” aqui empregado para induzir uma imagem de passagem rápida dos anos, o que se justifica em se tratando do ritmo do tempo em relação à História da humanidade, em que um século frente a milênios é quase irrisório), apenas cem anos atrás, repito, a poesia, por exemplo, recebia tratamento especial nas páginas de alguns jornais, onde ela tinha espaço privilegiado. E isso não se dava devido a uma concessão benemerente por parte dos editores do início do século passado, nada disso. Isso se dava porque a poesia encontrava eco nas atenções, nos corações e nas mentes dos leitores daqueles dias, e esse anseio era atendido pela imprensa, via de regra sintonizada aos apelos de seu público. Hoje, bom, hoje as coisas são bem diferentes.
Um século atrás, em 1918, Caxias do Sul possuía pelo menos cinco jornais periódicos em circulação, disputando as atenções dos leitores regionais: “A Pérola”, Cittá di Caxias”, “Stafetta Rio-Grandense”, “O Brazil” e “O Estímulo”. Desses, pelo menos três (60% do total) destinavam espaços generosos em suas páginas para a publicação de poemas, tanto de autores regionais quanto de poetas reconhecidos em âmbito nacional e internacional. E isso em seções nobres, como a capa de alguns deles, ou seja, a poesia não era tratada como “tapa-buraco” ou “calhau” (como se diz na gíria jornalística para designar um texto usado para suprir algum espaço que tenha ficado sobrando). Em jornais como “A Pérola”, “O Brazil” e “O Estímulo”, a poesia era tratada como vedete, como insumo especial e vital a integrar o cardápio periódico de material impresso a ser fornecido aos leitores, ao lado das notícias tradicionais..
A edição de 23 de março de 1918 (daqui a quatro dias completando exato um século) do jornal “O Brazil”, por exemplo, trazia na capa, em destaque, um poema de autoria da poetisa Vivita Cartier (1893 – 1919), então enfurnada em Criúva para combater, por meio dos ares serranos, a tuberculose que lhe encerraria a vida no ano seguinte. Intitulado “Matinal” e composto por 15 quadras, o poema virou um dos mais conhecidos da poetisa, cuja obra permanece até hoje praticamente inédita, fora meia dúzia de versos publicados em vida em jornais e revistas de Caxias e Porto Alegre e alguns resgates posteriores por conta de memorialistas. Eram outros tempos, em que a poesia ocupava o lugar da aridez das atuais redes sociais repletas de ódio e fel. Haverá poesia nessas saudades de tempos que não vivi?
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 19 de março de 2018)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O meio-sorriso do Pozenato

Desconfie de quem anda aparentemente muito quietinho. Esse conselho é antigo, nossas mães já levavam em conta quando as crianças sumiam do raio de visão e não se escutava mais nada delas durante algum tempo. Quando isso acontece, é bom ir verificar, que elas devem estar aprontando. Aprendemos isso também com os Beatles, décadas atrás. Era maio de 1967, já havia nove meses que a maior banda de rock do planeta não lançava nada de novo depois do álbum “Revolver”, de agosto de 1966, e decidira acabar com as turnês ao vivo para se recolher em longas férias. Férias altamente produtivas, como se veria depois. Quando a imprensa questionava Paul McCartney sobre as razões da prolongada (e aparente) inércia, ele apenas respondia “wait” (“aguardem”), com um sorriso enigmático no canto da boca.

E foi assim que surgiu o explosivo, revolucionário e genial álbum “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, que chacoalharia o conceito de música pop, provando que os Beatles não estavam quietinhos coisa nenhuma, mas, sim, produzindo com afinco. Jornalistas também aprendem essa lição no que se refere a alguns dos artistas que compõem o cenário cultural do entorno em que atuam, e é por isso que o prolongado (e aparente) período de inércia de um escritor da envergadura de José Clemente Pozenato, por exemplo, gera desconfianças. Estaria o autor de “O Quatrilho” e tradutor dos poemas de Petrarca fazendo nada? Há! Ledo Ivo engano! “Wait”, responde Pozenato, com seu também característico meio-sorriso de canto de boca. O que vem por aí, preparem-se, é de arrepiar. Depois de termos lido o livro, assistido à peça montada pelo Miseri Coloni e visto o filme produzido pelo diretor Fábio Barreto, agora seremos brindados com a trama de “O Quatrilho” encenada na forma de ópera. O trabalho está sendo gestado há dois anos pela Bell´Anima Produções Artísticas em parceria com a Fundação Antonio Meneghetti, do município gaúcho de Restinga Seca, e tem estreia prevista para agosto de 2018 no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Ao todo serão 16 apresentações em cinco estados brasileiros para, depois, sair em circuito internacional. As duas sopranos que, no elenco da ópera, representam as personagens Pierina e Teresa, integram a orquestra do famoso violinista holandês André Rieu. Pozenato responde pela adaptação do texto original para o formato ópera, que, segundo analisa, direciona a ênfase artística aos momentos de emoção existentes na trama. E o escritor tem mais coelhos na cartola. Parece quietinho, mas é melhor ir ver o que anda aprontando...
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 18 de dezembro de 2017)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Frio na pele, calor n´alma

Sobre uma coisa somos todos unânimes: unanimidade não existe. Poucos ou raros são os aspectos sobre os quais é possível deitar o véu da unanimidade. Os aviões, por exemplo, são uma delas. Afinal, todo o avião que sobe acabará descendo, de um ou de outro jeito. Sempre descem, é unânime. Difícil encontrar outra coisa que atinja esse grau de unanimidade. Reflito sobre isso nessa reta final (ainda pouco menos de um mês) de um inverno muito estranho na Serra gaúcha. O frio não é unânime. Há quem goste e há quem não goste, já que somos humanos e não pinguins, apesar de, algumas vezes, eu me sentir como se fosse um deles quando desavisadamente fixo o olhar no termômetro.
O frio não só não é unânime como também não é democrático. Pois que é difícil integrar o grupo dos bem-aventurados que dizem apreciar o inverno devido aos prazeres que ele proporciona, como uma lareira acesa, um bom vinho, um passeio a Gramado para ver a neve, o enrodilhar-se em um cobertor, um chocolate quente, essas coisas. Nem todos podem. E os que não podem, acabam vivenciando na pele os rigores malvados não só do frio, mas especialmente do ato de passar frio, essa vergonhosa mazela decorrente das incompetências da (in) civilização humana. Eu, de minha parte, quanto mais avanço nos anos, menos gosto do frio. Combato-o com as armas que tenho ao meu alcance e passo o inverno tiritando e torcendo para que as temperaturas subam.
Bom é saber que não estou só. Dia desses, encontrei um poema, elaborado provavelmente no alto do inverno serrano, em que o frio é desancado com ritmo e rima. Adorei. É de autoria do poeta caxiense Alfredo de Lavra Pinto (1887 – 1939), patrono da cadeira número 8 da Academia Caxiense de Letras, e só posso imaginá-lo compondo-o envolto em um cobertor, à noite, de tamancos e carpins, tremendo o queixo e irritado. Intitulado “Inverno”, reproduzo-o aqui, como uma arma a mais contra as cortantes friagens que nos assolam:
“Inverno, eu voto horror aos teus rigores,/ Eu abomino, em cólera fremente,/ O teu minuano, a sibilar, algente,/ E a música dos tristes amargores./ Detesto esses nevoeiros e tristores/ Que trazes, ó Briareu impenitente,/ Para nos torturar, horrivelmente,/ Para nos imergir num mar de horrores!/ Odeio o teu entono e o teu império!/ Odeio esse ar glacial, de spleen funéreo!/ Odeio o teu sinistro desvario!.../ E odiando-te, com toda a força da alma,/ Eu juro que prefiro a ardente calma/ Ao teu desesperado e intenso frio...”.

Essa impressão deve ser unânime: o frio esquentara bem a pena do poeta...
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 28 de agosto de 2017)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Dante e o Pokémon

Um pouco de filosofia para introduzir a crônica de hoje e revesti-la com certa dose de consistência, uma vez que com leveza nem mesmo a balancinha aqui de casa está acostumada: por meio da experiência e da observação, aprendemos que as nuances da vida não são unas. Nada é absoluto e único. A dualidade permeia tudo e Janus, o deus das duas faces, parece ser quem baila a baqueta e dirige o coro da vida. Tudo tem dois lados. Sempre há mais de um viés por meio do qual ressignificamos o que nos cerca. Bem, feitos os rasgos filosóficos, desbarranquemos logo ao mundanismo crônico e vamos adiante com isso.
Porque tudo pode ter mais de um ponto de vista, alguns leitores atilados (e os leitores destas semanais mal-traçadas são bastante atilados) me ensinaram a debruçar um olhar diferente ao fenômeno da caça aos Pokémons, atividade viralizada que vem pautando o cotidiano de dezenas de centenas de milhares de pessoas virtuais (é, tem gente que já virtualizou quase que completamente sua própria existência) ao redor do planeta. O joguinho conhecido como Pokémon Go, que espalha pelas esquinas do mundo a turba de caçadores atrás dos bichinhos escondidos virtualmente em cenários reais e visitados ao vivo, apresenta como característica positiva o fato de fazer as pessoas circularem pelos ambientes físicos reais que as circundam em suas cidades. Assim, a turma levanta o sentante da poltrona e do sofá e se bota a caminhar pela aí, tudo bem que com a fuça mergulhada na tela do celular, mas ao menos botando os pés em praças, parques, ruas.

Vejo gente caçando Pokémon na Praça Dante Alighieri, no centro de Caxias do Sul. Olha, tem um ali sentado no colo da estátua de Beatriz. Seria interessante se o Pokémon, antes de ser capturado, pudesse informar ao caçador alguma coisa sobre o local em que estava escondido, pois não? A estátua de Beatriz, por exemplo, Pokémon, foi criada pela artista plástica caxiense Dilva Conte e instalada ali no ano passado, pertinho do busto de Dante, para lhe fazer companhia, sabia? Beatriz era a musa inspiradora do poeta italiano Dante Alighieri (1265 – 1321), autor do famoso livro “A Divina Comédia”, Pokémon. Pouco mais de um século atrás, a comunidade de Caxias do Sul empreendeu altos esforços para arrecadar a verba necessária para produzir o busto de Dante, com bailes artísticos, saraus etc, sabia? Nossa praça tem mais coisas, Pokémon, vem. Quer ver? Ah, está sem tempo, precisa se esconder? Tá, vai ali atrás do Monumento Gigia Bandera. Outra hora falamos sobre ele, Pokémon. Agora, go!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de setembro de 2016)

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Livre-se na praça

Começa hoje em Caxias do Sul, na Praça Dante Alighieri, uma programação na qual pretendo me livrar. Não, madame, a senhora não leu errado, tampouco eu cometi deslize de concordância, muito menos o revisor deixou passar bobagem, até porque a figura do revisor há muitos anos extinguiu-se das redações dos jornais, o que é, sim, aí concordamos, uma lástima das mais tristes. O que eu escrevi era o que eu queria escrever mesmo: pretendo me livrar na (e não “da”) programação que tem início hoje na praça e se estende até o dia 18 de outubro.
Afinal, o que uma criatura como eu e como tantas milhares de outras como eu, leitores e amantes dos livros, poderia fazer ao longo de 17 saborosos dias de Feira do Livro se não livrar-se por inteiro nela, mergulhando fundo no planeta dos livros, locupletando-se de livros, livros e mais livros? Afinal, esta é a festa anual de quem sofre alegremente da doença da paixão pela literatura! São as bacanais de outubro para os leitores, livreiros, leitores, escritores, leitores, professores, leitores, agentes de leitura, leitores, produtores culturais e leitores. Tudo sob o olhar benévolo e atento de Dante Alighieri (1265 - 1321), o poeta italiano que dá nome ao logradouro e cujo busto adorna a praça há mais de um século, ali bem do ladinho. Poeta, aliás, que em breve deixará de estar sozinho na sua contemplação diuturna da cidade, mas isso é outra história, para outra ocasião. Falemos de Feira do Livro.
Nossa Feira chega este ano à sua 31ª edição, tendo como Patrono o escritor Uili Bergamin e como Homenageada a escritora Maria Helena Binelli Catan, ambos integrantes da Academia Caxiense de Letras. A “Entrelinhas”, programação cultural especial da Feira que este ano está em sua segunda edição, homenageia desta vez o artista, músico e cantor Samuel Sodré. Um trio afinado que irá acolher e apadrinhar todas as pessoas que aparecerem na praça ao longo desses dias, trazendo a alegria de transitar entre a literatura e as gentes que a fazem ser uma realidade transformadora ao longo de todo o ano.

Vá à Praça, leve a ela o melhor de si e comungue com quem estiver lá essa capacidade que temos de, em meio à cultura e à literatura, provarmos que a humanidade avança, sim, rumo à civilização, por meio de pequenos atos cotidianos de confraternização pública, como uma Feira do Livro. A abertura oficial acontece hoje na própria Praça Dante, a partir das 18h30min. Todos convidados e boas leituras!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de outubro de 2015)

sábado, 5 de setembro de 2015

Monarquia em alta

Francamente, venha cá, vamos combinar: estamos carecas de saber que não faz o menor sentido viajar a Roma e não ver o Papa, ainda mais agora, sendo o Papa um tomador de chimarrão igual a todos nós. Todos os outros deslizes semelhantes são até desculpáveis, como ir à Inglaterra, ficar mosqueando na frente do Palácio de Buckingham durante horas e não ver a Rainha, como fez certo cronista mundano caxiense um par de meses atrás, e nem vou dizer quem, para não gerar constrangimentos e intrigas literárias.
Ou atravessar a Grã-Bretanha até o Lago Ness, no norte da Escócia, e não avistar nem sinal de Nessie, o monstro pop-star que habita aquelas escuras e misteriosas águas, como fez outro mundano cronista de nossa cidade na mesma época, e de novo não vou revelar quem, para não ser tachado de destruidor de reputações literárias. Tudo isso, exceto a questiúncula ali relativa a Roma e ao Papa, é plenamente justificável e compreensível, perdoável, até, quando for o caso. Mas não se aplica perdão nenhum ao sujeito e à sujeita que (igual à questão do Papa e a viagem a Roma), estando em Caxias do Sul neste feriadão, mais especificamente no sábado à noite, não direcionar suas atenções à escolha do novo trio de soberanas da Festa da Uva, evento que mobiliza a comunidade inteira, onde, conforme diria minha avó, se o pudesse, “só se fala em outra coisa”.
Perdoável não ver a Rainha em Buckingham; perdoável não avistar Nessie no Lago Ness e, vá lá, perdoável também não ver sequer o Papa em Roma, porque o Papa é o Papa e perdoaria tamanha distração. Mas não ter candidata a Rainha da Festa da Uva, ah, convenhamos! Até eu tenho! Nunca vi o Papa ao vivo, nem Nessie e tampouco a Rainha da Inglaterra, mas vou acompanhar o evento de escolha no sábado à noite, e torcer pela minha candidata. Afinal, sou filho adotivo desta terra há 23 anos e também me sinto, sim, representado pela simpatia, pela inteligência, pela cultura, pelo carisma e pelo charme (pela beleza não, porque elas, belas que são, não representam nem de longe minha cara de uva chupada pelo Monstro do Lago Ness) das futuras Rainha e Princesas, sejam elas quem forem. Façam suas apostas e boa torcida a todos.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de setembro de 2015)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Quem pesquisa, sabe

Dedicado a fazer algumas pesquisas, acabei descobrindo certas coisas que até então, antes de começar as pesquisas, eu não sabia, fato que, por si só, revela, demonstra e atesta o bom termo a que vieram dar essas tais minhas pesquisas, uma vez que o mínimo resultado que se espera de uma pesquisa, quando iniciada, é que a seu cabo ela forneça dados que se configurem na condição de novidades, ao menos, para o pesquisador, porque senão, do contrário, de que serviria dedicar-se a fazer pesquisas não fosse pela iminente certeza de obter delas novos conhecimentos? Como é, madame? Gostaria de dar uma paradinha para recuperar o fôlego? A frase foi quilométrica sem que houvesse aviso inicial para os de pouco preparo? Ok, percorra então devagar o espaço em branco após o ponto final e nos encontramos no início do segundo parágrafo. Aguardo-a lá.
Oi, tudo bem? Recuperada? Tentemos seguir com frases mais curtas, a partir de agora. Tipo esta. Assim está bom? Ok. Então, como eu ia dizendo (a senhora pode dar uma paradinha também nos dois pontos, como agora): devido às minhas pesquisas, cujo teor não vem ao caso, acabei descobrindo, por tabela, o significado do nome da cidade catarinense de Blumenau, que se chama, vejam só, Blumenau. E por que motivo Blumenau se chama Blumenau? A senhora sabe? Não? Nem eu, mas fiz pesquisas. A senhora fez pesquisas? Pois se fizesse, talvez descobrisse, como eu descobri, que Blumenau evoca o sobrenome de uma figura importante para aquela cidade, o senhor Hermann Bruno Otto Blumenau, um imigrante alemão, filósofo e químico, que fundou aquela cidade, na metade do século 19. Fundou a cidade e foi homenageado e eternizado dando-lhe o nome. Seu próprio nome. Sabia? Eu não sabia.

Assim se dá também, madame, com várias outras cidades de nosso país, e nem nos damos por conta. Florianópolis homenageia Floriano Peixoto. Petrópolis (“a cidade de Pedro”) homenageia o Imperador Dom Pedro II, que a fundou. Caxias do Sul homenageia o Duque de Caxias, que também é homenageado em Caxias, no Maranhão, e em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Eu não tenho nenhuma homenagem citadina, uma vez que desconheço Marcópolis ou Kirstópolis (não, senhora, Patópolis não é em minha homenagem, a senhora está me tirando?). Mas, enfim, isso mostra como são importantes as pesquisas para o aprimoramento de nosso conhecimento geral. Aguardem os próximos compartilhamentos...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de setembro de 2015)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Talento centenário

A memória é uma ferramenta complexa, versátil e multifacetada, cuja função principal é ordenar um escopo de fatos e sensações únicas que, reunidos, configuram a essência de nossas personalidades individuais (até parece que o mundano cronista botou-se a ler livros de filosofia, da noite para o dia, mas não o fez, ao menos, não que ele lembre, o que comprova que a memória, mesmo sendo tudo aquilo ali em cima descrito, também pode ser falha). Recordações podem ser despertadas do leito em que repousam em sono profundo a partir de um odor, a partir da repetição de determinado gesto, a partir de uma melodia, de um déjà vu, do dobrar uma esquina, do mergulho em um álbum de fotografias, enfim, vários são os mecanismos capazes de evocar lembranças e torná-las de novo presentes e significativas em nossas vidas.
Eu sou dado a déjà vus e a súbitos ataques de lembranças, uma vez que minha alma é temperada com altas doses de nostalgia e fortes pitadas de melancolia. Não são poucas as vezes em que me vejo enredado em profundos resgates da memória, tanto pessoal quanto geral, e é por isso que me são tão significativas as datas, como já deve ter percebido aquela abnegada parcela de leitores que insistem em continuar lendo aquilo que aqui neste espaço venho deixando impresso. Dessa forma, fazendo jus ao que sou, não poderia deixar passar em branco a data de 18 de agosto de 2015, centenário de nascimento de Aldo Locatelli, o pintor italiano que veio deixar a marca de seu talento artístico em tantos monumentos religiosos e civis no Brasil, em especial no Rio Grande do Sul e na Caxias do Sul em que vivemos.

Eu não me lembro exatamente da primeira vez em que botei os pés dentro da Igreja de São Pelegrino, mas certamente foi em algum momento no segundo semestre de 1992, quando me mudei de mala e cuia para Caxias do Sul. O que lembro com vivacidade é da profunda emoção que me invadiu quando me deparei pela primeira vez com as telas de sua Via Sacra e com as pinturas que ele produziu em todo o ambiente da igreja. Emoção que segue viva a cada vez que retorno ao templo, uma vez que a arte legada por um artista como ele (que morreu em 1962) sobrevive à sua passagem e renova a chama da vida em todas as pessoas, a partir da contemplação do Belo. Um privilégio caxiense!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de agosto de 2015)

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fome de ontem e de hoje

Os principais fatores que motivaram levas e levas de famílias europeias, especialmente alemãs e italianas, a abandonarem seus lares na segunda metade do século 19, cruzarem o oceano Atlântico e virem começar nova vida em terras brasileiras foram a fome e a crise econômica que assolavam seus países de origem. A falta de perspectivas de trabalho e a descrença na possibilidade de haver uma melhora na situação das classes menos favorecidas na Alemanha e na Itália foram os ventos que impulsionaram agricultores, artesãos e vários outros tipos de profissionais a se transformarem em imigrantes e protagonistas de um capítulo importante na história do Rio Grande do Sul.
Entre os colonizadores italianos que aqui chegaram 140 anos atrás, foi especialmente a paúra da fame que motivou na Mérica a busca pela cocagna. A propaganda oficial do governo brasileiro não dizia isso, mas também não desmentia as lendas e boatos que circulavam no Velho Mundo, dando conta de que na Mérica a fartura (cocagna) estava ao alcance de todos, pois que se tratava de uma terra paradisíaca, em que até o salame e o queijo frutificavam em árvores, bastava erguer a mão e colhê-los. Adeus, fame!
Claro que essa visão fabulosa não convencia a maioria dos imigrantes, que sabiam muito bem que o que lhes esperava aqui era muito suor, muito lavoro, muito esforço para que conseguissem realizar o sonho de transformar suas próprias vidas em algo melhor. Tão conscientes estavam do que a pretensa terra da cocagna lhes exigiria, que conseguiram, sim, fazer dessa história uma saga de sucesso, criando na região da Serra do estado mais austral do Brasil um polo de desenvolvimento referencial em toda a Mérica. A famigerada fame que atormentava o sono dos pioneiros foi exorcizada com o suor do trabalho e hoje em dia pode-se até falar em fartura exagerada de comida nas mesas da região, enquanto que na Europa moderna, agora distante das antigas crises, a cultura vigente é justamente a de evitar o desperdício.

No momento em que se comemora, com justeza, os 140 anos da imigração, talvez Caxias e região devam aproveitar para lançar um olhar mais atento à situação daquela parcela de sua população, pequena mas significativa, que ainda vive à margem da conquista da cocagna e em cujo cotidiano a fame segue encontrando morada. O desafio de hoje é estender os benefícios do sucesso da colonização a todos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de maio de 2015) 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Leitura adolescente

A matéria de capa do caderno “Comportamento” , do Pioneiro de segunda-feira, trazia um dado interessante relativo ao movimento registrado nas barraquinhas da Feira do Livro, cuja 30ª edição segue na Praça Dante Alighieri até domingo, dia 18. A equipe do caderno circulou entre os livreiros inquirindo a respeito dos títulos mais procurados pelos leitores até o momento, e o resultado proporciona, no mínimo, algumas reflexões curiosas.
Dos três livros mais vendidos na maioria dos estandes, eu não conhecia nenhum. Os títulos das obras não me diziam nada e seus autores não me evocavam referências. Isso, em si, não quer dizer nada. Do alto de minha soberba, poderia eu pensar que tratam-se de obras insignificantes, já que eu, leitor calejado, não as conhecia. Mas descendo do pedestal, poderia ser que eu não as conhecesse por simplesmente ser impossível hoje em dia saber de tudo e conhecer tudo. Dito e feito, era isso.
Que fiz? Fui para a internet. E foi assim que descobri que os livros “Se Eu Ficar” (de Gayle Forman), “A Culpa é das Estrelas” (de John Green) e “O Sangue do Olimpo” (de Rick Riordan) são os grandes hits literários que fazem sucesso hoje entre o público adolescente. Ou seja, os três livros mais vendidos da Feira estão sendo adquiridos pelos adolescentes, quebrando o mito de que criança lê, adulto lê, mas adolescente não lê. Adolescente lê, sim senhores. Lê, vai à Feira e compra livro. Que boa notícia que nos trouxe segunda passada o Pioneiro, em sua matéria de capa do caderno de cultura e variedades!

Não se trata aqui de fazer juízo de valor a respeito da qualidade literária existente ou não (não sei, não li, podem ser obras excelentes) nessas obras. O que é significativo é que a gurizada, por meio delas, está enraizando dentro deles mesmos o hábito da leitura, que significa domesticar o próprio ser para dar a si mesmo esses momentos de introspecção, de silêncio, de ensimesmamento que o ato da leitura requer. E é só assim que se forma o cidadão que reflete, que absorve arte e cultura e a traduz na forma de cidadania. Que boa notícia!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de outubro de 2014)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O autor analfabeto

Às vezes me questionam, em entrevistas, sobre desde quando eu escrevo. Minha resposta à pergunta sempre é cambiante, uma vez que faz décadas que prefiro ser uma “metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Mas ultimamente, já que a pergunta induz a pensar em retrospecto, venho respondendo que escrevo desde antes de ser alfabetizado. Ah, pois!
Sim, explico. Isso é verdade porque, muito antes de ingressar na escola e começar a aprender que bê com a faz ba e bê com e faz be, eu já elaborava historinhas em quadrinhos criadas em minha própria imaginação e as desenhava em cadernões repletos de folhas em branco, que minha mãe comprava para mim na Livraria Cultural, em Ijuí. Depois, quando ela chegava em casa do serviço à noitinha, eu ia lá atazanar e pedir para que inserisse os diálogos que havia criado para os personagens, já que eu ainda era um analfabeto. Ou seja: tecnicamente, quem exercitava o ato mecânico de colocar o texto nas páginas era minha mãe, mas quem os criava era eu. Eu, o autor. Eu, o escritor analfabeto, que escrevo desde antes de aprender a juntar letrinhas.
Por tabela, volta e meia surge também a questão sobre desde quando sou leitor, e a resposta é a mesma: desde antes de aprender a ler. Sim, porque minha mãe (de novo ela) lia livros do Monteiro Lobato para mim, na cama, antes de eu dormir à noite, e não tinha jeito de eu pregar o olho porque, antes de dormir, ficava era ligadão querendo saber o resto da história. Ao invés de adormecer, despertou em mim o leitor.

E Feira do Livro, desde quando participo? Também, desde sempre. Lá em Ijuí, meus pais me levavam toda a sexta-feira de tardinha até a Livraria Progresso e me deixavam pegar dois gibis à minha escolha. Desde os sete anos que eu faço minhas feiras de livros. Podem imaginar, então, como me sinto hoje, dia da abertura de mais uma edição da Feira do Livro de Caxias do Sul. Nos próximos 18 dias, a Praça Dante vai estar repleta de gente faceira por livro igual a mim. Vai lá dar uma olhada, é divertido, é lúdico, é criativo, é humano, é vida pura! Bem-vinda, 30ª edição!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de outubro de 2014)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Aqui, em Caxias

De ler. Eu gosto é de ler em Caxias do Sul. Em resumo, foi isso o que postei no mural do pioneiro.com ontem pela manhã, ao participar da promoção que o jornal Pioneiro está fazendo, em homenagem aos 124 anos que a cidade comemora dia 20 de junho. O jornal está convidando os leitores a acessarem o link citado e postarem lá sugestões de coisas legais para fazer na cidade. A intenção é reunir 124 postagens (número igual ao do aniversário de Caxias) e publicá-las.
Pensei dezenas de coisas legais para se fazer por aqui, mas na hora “h” optei pela questão da leitura, simplesmente porque é a mais pura verdade. Meu interlocutor poderia dizer que isso não vale, pois quem gosta de ler vai ter prazer em ler onde quer que esteja. Sim, correto, é verdade. Mas tem uma coisa, amigo: ler em Caxias do Sul possui um sabor diferente, pelo fato de se estar lendo em uma cidade que vive um momento especial no quesito da valorização da leitura, do livro e da escrita.
Nossa cidade abriga um número cada vez maior de escritores que se arriscam a tirar das gavetas suas obras e levá-las ao público. No meio dessa fartura, vão surgindo os bons autores, que vão se estabelecendo com a produção de boas obras. Caxias sedia editoras e gráficas que proporcionam obras de qualidade visual no patamar do que se faz nos grandes centros do país. Existem leis de incentivo que permitem o acesso de autores a recursos públicos para a edição de títulos de interesse comunitário, o que também estimula o envolvimento de empresas na parceria com a promoção da cultura local.
Existe um Concurso Anual Literário que revela novos talentos e consolida talentos antigos. Há até o prêmio Vivita Cartier para melhor livro publicado no ano. A Feira do Livro é a segunda maior do Estado e a cada ano cresce o número de crianças-leitoras na Praça Dante. A atividade literária na cidade é tão intensa que a Secretaria Municipal da Cultura chegou a criar um Departamento do Livro e da Leitura só para cuidar de ações voltadas ao setor. Várias entidades e grupos debatem a leitura e a promovem na cidade, como a Academia Caxiense de Letras-RS, o Grupo Órbita Literária, a Confraria Reinações, o grupo Skoob, o Litteris Te Deum e a seção local da Associação Gaúcha de Escritores, entre outras.

Ah, e tem as livrarias-cafeterias. Nada melhor do que sentar-se em uma delas, saborear um cappuccino e abrir as páginas de um bom livro. Especialmente em Caxias do Sul, um dos melhores lugares do mundo para ler.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de junho de 2014)

domingo, 27 de abril de 2014

A reflexão do Pineto

O último recenseamento oficial do IBGE, de 2010, apresenta Caxias do Sul como uma cidade de 435 mil habitantes (a estimativa para 2013 era de 465 mil). A projeção é de que o meio milhão de almas seja atingido já em 2015, porém, o ritmo alucinado da vida, detectado em cada esquina, em cada cruzamento do cenário urbano e adjacências, insiste em consolidar em todos a impressão de que esse número já é real hoje. E tudo indica que não vamos parar por aí.
Transformar-se em uma metrópole é uma vocação que já veio impressa no DNA dessa cidade desde suas origens, o que fica claro para quem quer que se debruce um pouco sobre os aspectos de sua história, desde seu surgimento, passando pelas aceleradas etapas de desenvolvimento que vêm moldando esse perfil proativo, trabalhador e pioneiro que tanto conhecemos. Mas todas as moedas possuem dois lados e o segredo do sucesso, como nos ensina há milênios a sabedoria ancestral, consiste na busca do equilíbrio entre essas duas faces. Será que estamos atentos a isso?
Essa preocupação também não é nova e permeia a atmosfera da cidade desde seus primórdios. Uma prova disso é o teor de algumas páginas do livro “Os Pesos e as Medidas”, de autoria do jornalista, escritor e tabelião caxiense Ítalo João Balen (1917 – 1981), lançado postumamente no mesmo ano de sua morte. Em dado momento da obra, Balen traz à cena o personagem Quelbel Pineto, um velho imigrante italiano que compartilha suas filosofias com o então menino Ítalo, sentado em uma venda na Caxias do final da década de 1920.
Pineto diz assim: “Sabes, filhinho, a mim me aprazaria prolongar minha vida cinquenta anos, até lá pela década de oitenta, quando o ar daqui talvez não seja o mesmo! Quando nesta cidade – digo-o eu – não se farão mais casas de madeira – porque os pinheiros já se foram todos – mas de tijolos, pedra ou só cimento; quando vocês terão, em cada canto, escolas, vias, fábricas e carros e coisas que em pensar me causam medo. E se a existência nesta nossa terra, no porvir, será inferno ou paraíso, é algo que não sei te predizer”.

Hoje, em 2014, já nos distanciamos quase quatro décadas além do cenário preocupante que o personagem Quelbel Pineto profetizou ao menino Ítalo. Inferno ou paraíso é o que construímos e estamos a moldar em Caxias? Cabe a nós, no dia a dia, definirmos para que lado desejamos que pendam os pesos e as medidas dessa nossa vida socializada de meio milhão de gentes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de abril de 2014)

terça-feira, 4 de março de 2014

A sporta básica

Confesso que não entendo nada de economia. No máximo, sei economizar, ou seja, essa coisa que se aprende desde criança ao guardar moedinhas no porquinho de plástico durante um tempo para depois carneá-lo com o canivete surripiado do pai a fim de torrar as economias de meses em uma rodada voraz de picolés sob a sombra de um jacarandá, com os coleguinhas e primos, em uma tarde de férias de verão. Mas de economia mesmo, essa de gente grande, abordada em páginas como o “Caixa-Forte”, do jornal Pioneiro, não entendo patavinas.
Números, para mim, servem para monitorar a situação da caderneta de poupança (amadurecimento natural dos cofrinhos carneáveis), quando não a ataco para pagar contas (a evolução natural dos inocentes picolés da infância); para detectar o aumento dos preços nas gôndolas do supermercado; e para marcar o número da página do livro que estou lendo. Fora isso, preciso da ajuda dos universitários. No caso, da titular do “Caixa-Forte”, mesmo, que me presta assessoria personalizada em questões numérico-econômico-financeiras (privilégio que detenho há anos e nem morto revelo as artimanhas que utilizei para obtê-lo).
Mas como não entendo de economia, é com prazer que às vezes me entrego ao encanto de saborear as surpresas que me causam alguns informes econômicos sem que eu os compreenda. A tal da cesta básica, por exemplo. Eu, na minha ingenuidade desinformada, sempre acreditei que os produtos que a compunham seriam aqueles inventariados como de primeiríssima necessidade (feijão, arroz, carne, leite, café, farinha de trigo, açúcar, óleo, manteiga...), desconsiderados os supérfluos. Qual a minha surpresa ao descobrir, na lista da cesta básica de Caxias do Sul, artigos como cerveja, cigarros, maionese, pêssegos em lata, refrigerante, leite condensado, mamão e capeletti (se tem capeletti, então não é cesta, mas sporta básica).

Claro, cada região, cada povo, cada cultura, possui uma visão específica do que seriam artigos de primeira necessidade. Meu vizinho pode valorizar mais uma lata de leite condensado (ou uma garrafa de cerveja, ou um maço de cigarros) do que um quilo de arroz. Todos merecem poder comprar leite condensado, mas isso não transforma o leite condensado em necessidade básica. Entusiasmado com a relatividade desse conceito, botei-me a listar a minha “sporta” básica personalizada. Lúcida, a titular do “Caixa-Forte” aconselhou-me a não publicá-la. Melhor dar ouvidos a quem entende...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de março de 2014)

domingo, 1 de setembro de 2013

Bem mais que sorrisos

 Aportei de mala e cuia em Caxias do Sul em agosto de 1992. Não vim de vapor da Europa em viagem de 33 dias cruzando o Atlântico, tampouco tive de pegar em enxada para abrir picada a fim de ajudar a colonizar a área do Campo dos Bugres. Quando cheguei, a Pérola das Colônias já se configurava há décadas como uma das mais pujantes cidades brasileiras, orgulhosa do fruto do trabalho de seus fundadores e determinada a seguir crescendo em todos os aspectos. Mas cheguei compartilhando o objetivo de todos os imigrantes que para cá vieram e continuam vindo: a busca pela realização de sonhos pessoais.
E foi só vivenciando o cotidiano da cidade que comecei a absorver a amplitude do significado da Festa da Uva, evento sazonal que eu conhecia de passagem na adolescência e por acompanhar de longe as notícias na mídia estadual. Quando aqui tomei posse de meu primeiro endereço, corria o reinado de Catiana Rossato, eleita para a Festa do ano anterior à minha chegada. Já como jornalista do Pioneiro, acompanhei mais de perto a movimentação da cidade que resultou na escolha da nova rainha para a 20ª edição, Cristina Briani. Na Festa seguinte, a de 1996, vi a coroa ser entregue a Patrícia Horn Pezzi, no trio que marcou época com a beleza e simpatia advindas também das princesas Márcia Maróstica e Valéria Weiss. Dali em diante, nunca mais o evento me passou em branco e assumi também em mim, enquanto cidadão caxiense, o orgulho pelo significado que a eleição das soberanas representa.
Caxias do Sul, com sua escolha de rainha e princesas da Festa da Uva, vem consolidando uma visão diferente do conceito do belo. Nossas rainhas, princesas e embaixatrizes vêm se configurando, desde os primórdios, em grupos de moças cuja beleza extrapola os limites da mera composição física. A isso, elas agregam carisma, simpatia, desenvoltura social, cultura, conhecimento, gentileza, inteligência, curiosidade, perspicácia, envolvimento comunitário e outros atributos que as tornam belas, sim. Não apenas mulheres bonitas, mas belas pessoas, possuidoras das melhores características que desejamos ver expressas no conjunto dos habitantes de nossa comunidade.
Sejam quem forem as escolhidas no sábado, tenho certeza de que a coroa e as faixas da cidadania caxiense estarão mais uma vez muito bem representadas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de agosto de 2013)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Espiada pelo retrovisor

Que bonito que é quando você está em Paris circulando de táxi ou de carro alugado e de repente, lá na frente, vem se aproximando na paisagem a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo ou a Notre Dame. Mesma sensação de aproximação paulatina com o belo se dá em Buenos Aires em relação ao Obelisco fincado no meio da Avenida 9 de Julio. Coisa igual ocorre em diversas outras partes do mundo nas quais os belos cartões postais exibem-se majestosos aos olhares dos visitantes e mesmo dos habitantes, aos quais não negam as delícias visuais de suas formosuras nem aos transeuntes pedestres e tampouco aos motorizados.
Mas não em Caxias do Sul.
Desde que resido aqui (são 22 anos de habitança), incomoda-me o sentido do trânsito de veículos nas ruas Os 18 do Forte e Sinimbu, justamente por obrigarem a nós, motoristas, trafegarmos eternamente de costas ao visual arquitetônico de duas de nossas mais belas igrejas, respectivamente, a de Nossa Senhora de Lourdes e a de São Pelegrino. Sempre que circulo a pé por essas duas artérias vitais da cidade, divido minhas atenções entre os desníveis das calçadas e o admirar da paisagem que vai se embelezando com o aproximar dessas duas construções, cujas estéticas me encantam. São igrejas bonitas e mereceriam ocupar um destaque maior nos estímulos visuais a que somos submetidos durante os trajetos que nossas tarefas diárias impõem.
Especialmente nesses dias em que os engarrafamentos não têm mais hora específica para ocorrer, quando o trânsito lento dá a tônica do ritmo de nossos deslocamentos motorizados, imagino o bálsamo que seria ir se aproximando dos bairros Lourdes e São Pelegrino tendo no horizonte do para-brisas a visão desses dois templos de apelo turístico e de fé. Creio que esses cenários poderiam auxiliar como gatilhos para suscitar reflexões em nossos espíritos, desarmar nossa irritação e ansiedade cotidianas, aplacar os pensamentos, amansar momentos de nossas existências, trazer um dedo de poesia para dentro do carro, do ônibus, da van, do caminhão, da motocicleta. Humanizar-nos.

Não estou levantando a bandeira da inversão do sentido do trânsito em nosso centro. “Só me faltava essa”, vai pensar o Alceu. Sugiro apenas ao motorista aproveitar o sinal que fecha para dar uma espiadinha pelo espelho retrovisor. Às vezes, o que ficou para trás tem muito a oferecer.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de agosto de 2013) 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

E nem sou pinguim

Não sei para você, leitor, mas, para mim, o pior do inverno são os momentos em que é preciso ficar pelado (“não escreva ‘pelado’, escreva ‘nu’”, aconselhou-me a esposa). Respondi que jamais escrevo nu, sempre escrevo vestido, e que o ato de escrever não se encaixava naqueles que eu estava prestes a elencar como os momentos horrendos em que é preciso ficar pe... nu, nos longos dias de nossos invernos serranos.
Pois reitero e sustento que a momentânea necessidade de colocar-se nu em pelo é, sim, a maior tortura a que nos submetem essas temperaturas siberianas. É quando a pele entra em contato direto com o invisível e intangível poder do frio extremado ali, no banheiro, de manhã cedinho, ao despirmos o pijama e as pantufas para nos arremessarmos para dentro do box do chuveiro, peladinhos, peladinhos, os poros fechando e formando bolinhas pelos braços e pernas como se fôssemos frangos congelados prontos para irmos, a passarinho, direto ao forno. E assim como entramos debaixo do chuveiro, saímos, também pelados (minha esposa sai nua), tremelicando ao sabor das passadas rápidas da toalha que nos vai secando e preparando para o almejado contato com a camiseta e a roupa de baixo acolhedora, as primeiras camadas de vestes que nos irão ensanduichar e nos colocar aptos a irmos à luta diária pela sobrevivência por esses nossos Cárpatos gelados.
Depois de passarmos o dia caçando focas, armadilhando mamutes, perseguindo pinguins e rodando trenós, retornamos aos nossos iglus para, já no aconchego do (ge)lar, novamente termos de nos despir, ficarmos pelados (eu) ou nus (minha esposa) na hora de tirarmos as roupas do dia e recolocarmos os pijamas. Aqui na Serra, toda a nudez não sei se será castigada, mas, no inverno, tenho certeza de que toda a nudez será bem gelada, isso sim.
Em meus devaneios tiritantes, tenho muita inveja de Bruce Wayne e Dick Grayson que, na mansão milionária em Gotham City, pulam numa espécie de mastro de pole dance e chegam lá embaixo na Batcaverna instantaneamente vestidos de Batman e Robin. Ao menos, era assim que acontecia no seriado televisivo dos anos 1960. Que maravilhosa invenção que falta inventar essa, a da cápsula do vestimento automático. Ou isso ou, aqui na Serra, andar sete meses sem trocar de roupa... hummm... Tá bem, amor, tá bem, vou apagar isso...

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de julho de 2013)

terça-feira, 11 de junho de 2013

Tristeza em Tapariu


Jimmy Rodrigues
A notícia da morte do jornalista Jimmy Rodrigues pegou de surpresa e entristeceu toda a vila de Tapariu, a Capital do Brócoli, a pequena cidade de colonização italiana incrustada em algum ponto da Serra Gaúcha. Não se falava em outra coisa em toda a Rua Rechercha, e foi a pauta de discussão entre o Epaminondas, o Francisquinho e o Professor Alcides, a pessoa mais ilustrada da vila, que recordavam a longa vida dedicada ao jornalismo, às crônicas e ao serviço público municipal do notável cidadão.
O Circo Sarrazani emudeceu com a tristeza do Palhaço Vira Cambotas e o Alcaide decretou luto oficial por três dias, recebendo apoio no ato até do Vereador Evandir. No Bar Bicha, na Pensão Familiar, na Casa de Pasto Prato de Ouro e no Bar da Esquina, localizado “bem no meio de uma das quadras laterais” da Praça do Fundador, todos recordavam a memória do saudoso repórter.
O Clube Invicto e o Arranca Toco Futebol Clube jogaram um amistoso em homenagem ao jornalista, e os correligionários do PUT (Partido União de Tapariu) e do PIC (Partido do Impávido Colosso) deixaram de lado as diferenças para prestar homenagem conjunta na Câmara de Vereadores, onde ele tinha sido funcionário durante anos. A rádio “A Voz de Tapariu” e o jornal “O Tapariuense” recordaram a biografia do seu ex-colaborador, autor de centenas de crônicas que refletiram a vida cotidiana da Serra Gaúcha, retratadas no cenário e nos personagens da fictícia Tapariu.

A verdadeira Caxias do Sul se une aos órfãos personagens concebidos pela imaginação do escritor e também imprime na memória a já saudosa lembrança de um de seus mais ilustres filhos. Uma prova desse talento eu tive o privilégio de conhecer ao selecionar e organizar as 100 crônicas de sua autoria que integram o livro “A Voz e a Palavra” (Editora Belas-Letras, 2008), que agora fica como um perene mostruário de seu estilo único e bem-humorado de retratar o cotidiano.(Texto publicado no jornal "Pioneiro" em 10 de junho de 2013)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Apadrinhando a Leitura

Uma mescla de sensações me toma desde o início da noite de quinta-feira da semana passada, 29 de julho, quando recebi oficialmente o convite (e o aceitei) para ser o Patrono da 26ª edição da Feira do Livro de Caxias do Sul, que ocorre de 1º a 17 de outubro, na Praça Dante Alighieri. Apaixonado pela leitura e pelo universo dos livros desde sempre, tenho meu histórico de quatro décadas mergulhado em literatura coroado pelo surpreendente convite, que traz consigo uma responsabilidade inimaginável. Excitado, nervoso, feliz, lisonjeado, preocupado... todas essas sensações encontram um pouco de amparo na consciência de que estarei trafegando em meio ao aquário em que mais me sinto à vontade desde que me conheço por gente: o planeta composto por livros, autores, livreiros, editores e leitores.
Sou muito grato pela confiança depositada pela Secretaria Municipal da Cultura, pelo Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), pela recém-criada Associação dos Livreiros Caxienses e pela Secretaria Municipal de Educação, entidades que puxam a frente da Feira. Espero desempenhar à altura das expectativas o papel que se almeja de um Patrono de Feira do Livro, a exemplo das brilhantes participações recentes que pude presenciar nas figuras de outros ex-patronos.
Meu inesgotável encantamento com a leitura e com o universo dos livros deve ter nascente em alguma fonte secreta escondida nos subterfúgios de minha psiquê. É nela que buscarei as energias para apadrinhar a Feira, junto com o apoio de familiares, amigos e colegas amantes dos livros. A companhia de Frei Aldo Colombo abrilhanta a empreitada, uma vez que ele compartilha comigo o desafio na condição de justíssimo homenageado desta edição.
O tamanho do desafio aceito é a chave para engrandecer o desafiado, já dizia Herman Melville, ao compartilhar a grandeza da narrativa que ele se punha a escrever em seu “Moby Dick”: “Dai-me uma pena de condor! Dai-me a cratera do Vesúvio por tinteiro! Amigos, firmai meus braços!”. A sorte está lançada, o desafio está aceito. Uma boa Feira do Livro 2010 a todos, repleta de boas leituras.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 06/08/2010)