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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Bilhete premiado

Pois é, essa coisa de ganhar na loteria, esse sonho esdrúxulo do dinheiro fácil que todo o brasileiro acalenta e que parece estar ali, ao alcance da mão, em cada casa lotérica, bastando, para concretizá-lo, acertar a canetada nos quadradinhos com os números exatos que serão sorteados dali a alguns dias, e pimba, todos os nossos problemas estarão resolvidos! Todos, não, porque a fortuna também traz suas dores-de-cabeça, a começar por aqueles parentes distantes que então, de uma hora para a outra, resolvem eliminar a distância e abrem sorrisos na porta de sua casa... quer dizer... de sua mansão.
Meu avô que o diga! Toda a semana ele renova suas esperanças na Megasena, na Lotomania e na Lotofácil (ele ainda chama as apostas de “volantes”, é do tempo dos bilhetes da Loteria da Caixa Econômica Estadual e, quando sai para a rua, informa que está indo “jogar na Esportiva”), mas a expectativa gera nele uma angústia sem par. Não porque acredite que realmente possa “tirar a sorte grande” (aliás, diz aqui pra mim, você conhece alguém que tenha ganhado mesmo nesses jogos, hein?), mas porque teme ter de pagar muitos impostos caso seja sorteado com a bolada. Sofre muito com essa perspectiva, mas mesmo assim, insiste, uma vez que o prazer maior reside justamente no acalento da expectativa inverossímil.
De minha parte, já faz anos que deixei de gastar meu suado troquinho nessas coisas, primeiro por preguiça de ter de enfrentar as filas das agências lotéricas, e segundo porque, na real, não acredito em dinheiro fácil. Em nenhuma espécie de dinheiro fácil. Nunca ganhei dinheiro fácil, nem mesmo na época da mesada recebida dos pais, afinal, quem disse que ser criança não tem lá suas exigências, esforços e agruras?

Ganhar na loteria, para mim, virou metáfora diária para o prazer de viver, que procuro renovar a cada novo saltar da cama. Tenho prazer em estar vivendo minha história, seja o dia ensolarado, ou chuvoso, ou frio ou quente. Ganho na loteria todos os dias por ser quem sou, conviver com quem convivo, fazer o que faço e viver onde vivo. E nem pago impostos por isso. Venho, assim, acumulando uma incalculável fortuna em bens imateriais. O segredo é renovar todos os dias o bilhete premiado da vida com ânimo e bom-humor, na medida do possível. Pronto, entreguei o ouro...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de fevereiro de 2015)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Quem quer dinheiro?

Pronto, agora não tem mais nem choro nem vela. Desde metade da semana passada, acabaram-se todos os prazos que a Caixa Econômica Federal havia concedido para que o felizardo sortudo paranaense de Ponta Grossa, apostador da Mega-Sena, retirasse seu prêmio de 22,9 milhões de reais. O sorteio correu no dia 10 de julho e as apostas têm validade de 90 dias. O prazo se encerrava em 10 de outubro, mas a CEF deu uns dias a mais para resgatar o valor, até 16 de outubro, devido à greve dos bancários.
Mas apesar de todo o auê feito pela imprensa, ainda alguns dias antes de vencer o prazo legal, não teve jeito de o apostador sortudo se apresentar para retirar o prêmio. E não é qualquer prêmio, convenhamos. Arredondemos, para fins de crônica, o montante para 23 milhões de reais. Baita grana, hein? E me pergunto, e pergunto a você também, leitor: o que faz um sujeito negligenciar assim, dessa forma quase acintosa, o resgate de um valor de tamanho vulto?
Sim, porque não teve jeito. O sujeito não foi porque não foi e não foi mesmo lá na agência da Caixa pegar a grana. Ele não quer os 23 milhões de reais. Não lhe fazem falta esses trocaditos. Será que foi o Eike Batista quem fez a aposta? Não, claro que não. O Eike Batista de alguns meses atrás, multibilionário, até poderia se encaixar no perfil do sortudo negligente. Mas o Eike Batista atual (e real), quebrado e afundado em dívidas, iria correndo conversar com o gerente, bilhetinho na mão, para meter nos bolsos os milhõezinhos esses.
Não foi o Eike Batista, então. O mistério permanece. Quem além do antigo Eike Batista seria tão rico a ponto de esnobar o acréscimo de um punhado de novos milhões em sua conta? Não consigo imaginar nomes. Mas e se o sujeito apostou e morreu? Pode ser, é uma possibilidade plausível. Para fins de efeito de crônica, imagino um velhinho aposentado que há anos faz a sua aposta e confere toda a semana os números que, se sorteados, solucionariam para sempre as agruras de sua vida. E quando finalmente a sorte lhe sussurra os números da mudança, ele morre de mal súbito dois dias antes do sorteio.
Enterrado em vala comum, só deus sabe onde é que meteu o bilhete. A vida real tem dessas coisas. Às vezes ela é pródiga em abortar sonhos.


 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de outubro de 2013)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Não conte com a sorte


Sonhou com os cinco números, e na sequência em que seriam sorteados pela Caixa Econômica Federal. Foi um sonho claro e vívido, como há muito tempo não lhe acontecia. Viu os globos imensos girarem e as moças bonitas de pernas de fora sacando uma a uma as cinco bolinhas contendo os números sorteados da Plurasena da Virada.

Foi assim, um atrás do outro... pim... pim... pim... pim... pim! Pronto! O bom da coisa é que acordou imediatamente após o sorteio onírico do último número. Assim, conseguiu saltar da cama no meio da madrugada e correr tateando até o quarto ao lado, sem acender luz alguma, atrás de caneta e papel para anotar as cinco dezenas que lhe transformariam a vida. Rabiscou os números na folha de um bloco de rascunho, aproveitando a fraca iluminação que entrava pelas frestas da persiana, e só então começou a se acalmar.

Acendeu a luz e mirou fixamente os números, que a essa altura já sabia de cor. Pim... pim... pim... pim... pim... Barbaridade! Dessa vez não havia errada! Claro que eram as dezenas que seriam sorteadas no dia seguinte, na edição extra de final de ano da Plurasena! Não era um apostador regular, jogava quando lhe dava na telha, e tampouco era ligado em superstições. Mas um sonho desses, desse jeito, ah não, isso não podia ser ignorado. Era um sinal, e não deixaria de escutá-lo.
Viajaria no dia seguinte à sua cidadezinha natal, para passar a virada do ano com os familiares que lá ainda moravam, e, como chegaria ainda antes do meio-dia e as apostas podiam ser feitas até as duas da tarde, decidiu que jogaria seu certeiro palpite lá mesmo, em Uvanova, onde certamente as filas nas agências lotéricas seriam bem menores do que em Tapariu, onde vivia. No dia seguinte, chegou em Uvanova, abraçou a parentada, almoçou a galinhada feita pela avó e correu para a única agência lotérica da cidade às 13h30. Porém, o dono da lotérica, frente ao parco movimento naquele último dia no ano, decidira fechar as portas ao meio-dia e já se fora para Nova Tomatina.

A magia do sonho se transformou em pesadelo devido às decisões erradas que tomara no mundo desperto. Nem é preciso dizer que se recusou a acompanhar o sorteio dos números... pim... pim... pim... pim... pim...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de fevereiro de 2013)