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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Salvo pela beterraba

Havia notícias policiais estampando a página de abertura do site do jornal local, dando conta do estado de violência urbana que rege o cotidiano comum a quase todas as cidades do país. Uma mulher fora assaltada dentro da própria casa no meio da tarde por bandidos que sabiam da existência de joias e dólares dentro de um cofre. Um foragido da cadeia havia sido descoberto em um bar na periferia, trocado tiros com os policiais e morto ali mesmo, no início da noite. Uma dupla de menores fora detida trafegando pelo centro em uma moto roubada, transportando drogas.
Deu um longo suspiro frente à tela do computador e decidiu não passar além dos títulos, evitando clicar sobre as chamadas para ler as histórias completas. Sentiu-se meio cansado, a dor nas costas parecia ter aumentado depois da olhadela no site. Fechou a página e digitou o endereço do noticioso estadual, que também sempre acompanha. Uma larga foto do céu estampava a página, prevendo calor de até 40 graus e chuva em grande parte do Estado ao longo do dia. Pois, então, poderia chover como poderia não chover, pensou, afinal, previsão é previsão e Nostradamus foi mais esperto ao empurrar suas profecias para os séculos vindouros, quando já não estaria mais aí para ter de responder pelos eventuais erros. Dane-se a matéria sobre a meteorologia, pensou. Rolou com o mouse a página para baixo e cruzou reto pelas chamadas de variedades, pois não estava interessado pelas pegações do BBB e tampouco pelo novo affair da Grazi Massafera.
Havia notícias sobre novos investimentos feitos por grandes empresas gaúchas, que ampliavam seus mercados, criavam novos produtos, firmavam parcerias internacionais. Deu de ombros. Arrependeu-se de ter dado de ombros, porque a dor das costas subiu mais algumas vértebras em direção ao pescoço. Logo ao lado, pediam a sua atenção as chamadas sobre as articulações políticas para as eleições do final do ano. Lembrou, então, que 2014 seria ano de eleições. E de Copa do Mundo. E quase deu de ombros de novo, mas dessa vez se controlou.

Quando já ia fechar a página, encontrou a salvação de seu dia e de seu humor: uma receita para fazer uma sobremesa com uva rubi, e outra de pão de beterraba com gergelim. Oba, agora sim, encontrara o que ler! Felizmente, era um cidadão persistente.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de janeiro de 2014)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Por que pensar em Ingrid?


Ingrid que faça o que bem entender com o cotovelo dela ou com o que quer que seja...

Ditados populares são sábios. Tem aquele que diz assim: “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Gosto desse. Diz profunda verdade. Tão profunda que permite criar versões dele mesmo e aplicá-las às mais variadas situações da vida, que ele segue valendo. Por exemplo: “diga-me o que te interessa e eu te direi quem és”. Quais são os assuntos que chamam a sua atenção nesse mundo moderno em que as mídias todas competem para atrair os preciosos minutos de nosso tempo pingado a conta-gotas? Quais programas de televisão recebem a benesse de seu olhar contemplativo de lá do fundo do fofo sofá de sua sala? Quais as notícias dos jornais merecem o debruçar de seus olhos para além dos títulos?
Pois é. As respostas a todas essas questões, meus amigos, ajudarão a dizer quem somos. Só para ilustrar, vejamos. Nas últimas semanas, detectei um tema que figurou entre os dez mais comentados por onde quer que se estivesse: nas mesas do café literário, na internet, nos jornais, nos programas de debate na televisão, nos táxis, nas salas de espera, enfim, por tudo. Não houve quem não dedicasse alguns minutos de sua vida para expressar sua opinião a respeito do caso da jovem catarinense Ingrid Migliorini (a Catarina), que aos 20 anos de idade resolveu leiloar a virgindade, obtendo R$ 1,6 milhão para ofertá-la em um voo transatlântico ao comprador japonês que deu o maior lance. De minha parte, nada contra, nem a favor, cada um faz com seu cotovelo o que bem entender. O interessante é que, independentemente do julgamento de cada um, o assunto foi notícia e ganhou repercussão porque as pessoas se interessaram por ele. Quem determina o tamanho da relevância de uma notícia é o interesse que as pessoas depositam nela. E ponto.
Mais do que questionar os motivos que levaram a jovem a decidir fazer o que fez, julgo que seria bem mais significativo para cada um de nós se dedicássemos uma parcela desse tempo para questionar as razões que nos levam a julgar esse tema tão relevante. Da mesma forma como a todas as demais questões às quais damos, às vezes, valor sem nem mesmo perceber. É um bom exercício para conhecermos melhor a nós mesmos, já que temos de andar conosco nossas vidas inteiras.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de novembro de 2012)