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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Ô de baixo!

Sempre me perguntava a razão que faz os trabalhadores da construção civil falarem tão alto uns com os outros ao longo dos dias em que estão envolvidos na tarefa de erguer novos edifícios e residências nessa nossa pujante Caxias do Sul, há anos transformada em um imenso canteiro de obras. Além do ruído intenso proveniente dos afazeres típicos decorrentes da construção (você não martela um tijolo de mansinho e nem corta chapas de aço com o poder silencioso de sua mente), existe a conversação entre os pedreiros e mestres-de-obras, invariavelmente entabulada aos brados retumbantes, a ecoarem por entre os ambientes de cimento ainda vazios de habitantes. Por quê?
Ora, basta pensar um pouco para decifrar o enigma. Eles falam alto para serem ouvidos uns pelos outros, ora. Como fazer Pedro, que está a erguer a parede de um banheiro no quinto andar, para se comunicar com Wellington, que passa massa corrida nas paredes do primeiro pavimento, pedindo a ele que, quando subir, traga junto a espátula dourada, se não for por meio da elevação do tom de voz às alturas? E como comentar dali do terraço os lances bola-murcha e bola-cheia dos jogos do final de semana quando o Robinson atulha o carrinho-de-mão com sacos de cimento lá no térreo, o Anderson descarrega a areia que chegou de caminhão ali na esquina e o Jeferson alinha uma parede no sétimo, senão aos gritos?
A construção inteira é o escritório deles. Estivessem todos ao mesmo tempo realizando tarefas na suíte do casal na cobertura, ninguém gritaria, mas não é assim que a coisa funciona. E querer que não se comuniquem justamente em nossa tão exaltada Era das Comunicações seria um contrassenso repressivo démodé, deixemos disso.

Eu sou do tempo em que as redações de jornais, repletas de máquinas de escrever, aparelhos de fax e de telex e telefones barulhentos, faziam com que a jornalistada passasse falando alto entre si, com os editores, com os revisores, com os diagramadores e repórteres, e estes com suas fontes, e mesmo assim escrevíamos e nos concentrávamos. A informatização e o advento dos fones de ouvido transformaram as redações em ambientes sisudos, silenciosos e insípidos, iguais a salas de espera. Espero que jamais o mesmo aconteça nos canteiros de obras, nos quais a vida humana ainda se faz notar por meio da palavra. Em alto e bom som.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de setembro de 2013)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Um joelho e duas luvas

“Pois, então, me traga dois niples de cobre de meia polegada, duas luvas de quarenta para esgoto e dois joelhos meia polegada, de cobre e com rosca interna”. Eram essas as derradeiras peças que ainda faltava providenciar para que o encanador pudesse finalmente concluir o processo de instalação das novas torneiras adquiridas para a casa. Com a chave do carro em punho, pronto para decolar rumo à loja de materiais de construção a duas quadras dali, flagrei-me desprovido de caneta e papel para anotar as encomendas. Belo jornalista esse, sem caneta, sem papel, nem mesmo um gravadorzinho para portar o pedido em viva-voz.
Mas havia meu cérebro, que sempre me acompanha para onde quer que eu vá, municiado internamente com um aplicativo de memória repleto de neurônios que já estava acionado e ser-me ia muito útil. “Já volto”, anunciei, enquanto o profissional se botava a rosquear uma das torneiras. Cinco minutos depois, eu adentrava as portas da loja despejando aos ouvidos do atendente rapidamente a lista de minhas necessidades, antes que me esquecesse: “Preciso de duas luvas de cobre de meia polegada, dois niples para esgoto e quatro joelhos de quarenta qualquer coisa”, disparei, convicto.
O atendente me olhou meio espantado, afirmou que não existiam niples para esgoto, mas mesmo assim eu que o acompanhasse até o final da loja, onde se localizavam essas peças, para vermos juntos o que eu precisava. Aquilo me desconcertou um pouco, mas no fim, com a boa vontade do rapaz, saí da loja faceiro, portando uma sacolinha recheada com um joelho de meia polegada com rosca externa, oito niples de plástico de meia polegada, seis luvas de vinte para esgoto, um serrote que não sei como se enfiou no meio da história e uma bela chave de fenda com cabo azul.

“Não era nada disso que eu te falei”, sentenciou, sem dó, o objetivo e prático encanador, mexendo com os dedões dentro da sacolinha plástica e misturando joelhos com niples e luvas, mas detectei nele um olhar de cobiça desferido à minha chave de fenda com cabo azul, que logo tratei de levar a um lugar seguro no quarto das visitas, por onde ele não tinha nada que circular. Enfadado, o encanador achou melhor voltar junto comigo à loja, a fim de fazer pessoalmente o pedido correto. Agora estou eu aqui, com esses niples e joelhos errados, sem saber que destino dar-lhes. Mas antes urge providenciar um bloquinho e uma caneta.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de setembro de 2013)