Existem dois tipos de pessoas no mundo. “As gremistas e as coloradas”, apressa-se a pensar o apressadinho. “As inteligentes e as antas”, aligeira-se a classificar o preconceituoso. “As trabalhadoras e as preguiçosas”, já sentenciaria meu avô e todos os demais avós existentes. “As que vão para o céu e as que vão para o inferno”, determina a carola no primeiro banco da igreja. “As boas e as más”, catequiza o determinista. “As sortudas e as azaradas”, reflete o aposentado na fila da agência lotérica. “As felizes e as infelizes”, amarga a moça triste, em sintonia de pensamento com a senhora alegre sentada ao seu lado no ônibus. “As vegetarianas e as carnívoras”, adivinha o dono da churrascaria. “As otimistas e as pessimistas”, arrisca o pragmático, chegando próximo do conceito que o cronista pretende abordar rapidamente nas linhas que se seguem.
A bem da verdade, como podemos perceber, existem é bilhões de tipos de pessoas no mundo, todas elas classificáveis em dois grandes grupos opostos sempre que se pretende contrapor dois tipos excludentes e antagônicos de comportamento ou de formas de pensar. Hoje, aqui, quero me referir à diferença existente entre as pessoas que eu chamaria de propositivas e aquelas que eu classificaria como as impeditivas. As primeiras são aquelas que fazem o mundo andar, responsáveis pelo girar da roda. São a minoria absoluta. As segundas são aquelas que facilmente se vergam aos empecilhos, que trombam com tudo nas pedras existentes no meio do caminho, que empacam frente ao primeiro obstáculo e não sabem se desvencilhar da burocracia. São a esmagadora maioria.
As pessoas impeditivas são aquelas que, quando surge um problema, imediatamente param tudo e ficam à espera de uma solução que venha do céu, ou de algum superior, e optam direto por frases como “volte amanhã”, “não, não há o que fazer”, “não, não dá”. Já as propositivas usam da boa vontade, da inteligência e da criatividade para encontrar e apresentar soluções, fazendo a carroça andar porque atrás vem gente, minha filha.
Precisamos urgentemente, no Brasil, de um fermento que faça surgirem mais pessoas propositivas em todos os ambientes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de janeiro de 2012)
Blog destinado à publicação de crônicas e textos assinados pelo jornalista e escritor Marcos Fernando Kirst em jornais e revistas, além de textos aleatórios quando for o caso.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Olha os godos
Passar a mão na cabeça é uma figura de linguagem utilizada sempre que pretendemos demonstrar que alguém está sendo conivente com atitudes e posturas de outras pessoas que, a bem da verdade, deveriam ser alvo de reprimendas ou de uma reorientação mais determinada. Tapar os olhos, fazer vistas grossas, dar um tapinha nas costas do infrator ou do mal-educado são atitudes que correm o risco de pavimentar o caminho para a alimentação de monstros que serão difíceis de controlar mais tarde.
Veja Hitler na Europa na primeira metade do século passado, por exemplo. Tanto na Alemanha quanto fora dela, ninguém se preocupou muito com as consequências dos discursos histriônicos daquele falastrão de bigodinho a la Charlie Chaplin. Só que de palhaço ele não tinha nada, e a fatura mundial que teve de ser paga por ninguém ter tido o trabalho de cortar as suas asinhas de morcego enquanto ainda era tempo resultou em um valor altíssimo em vidas humanas. Quando resolveram reagir, ele já tinha mais da metade da Europa e boas partes de outros continentes subjugados ao delírio insano com que via o mundo, e quase que foi tarde demais.
O que a História tenta nos ensinar é que não devemos deixar as coisas beirarem o limite perigoso que se manifesta quando se chega próximo de cruzar a linha entre o “ainda é possível fazer alguma coisa” e o “é tarde demais”. Resgatar e ressaltar a importância do cultivo e do exercício de valores básicos de convivência em sociedade, especialmente entre as novas gerações, é um esforço que precisa ser empreendido por todos aqueles que lidam com gente enquanto ainda é tempo, para que não seja tarde demais. Para que o barbarismo não volte a imperar. Godos, ostrogodos e visigodos foram algumas das hostes bárbaras que levaram à bancarrota o Império Romano. Temos de impedir que essas hordas renasçam, e a única arma capaz de fazê-lo é a educação.
Mas eu me refiro aqui a uma educação mais abrangente, que signifique principalmente o esforço em gerar conceitos de civilização e de civilidade nos jovens, e mais, que também se manifeste no sentido de resgatar esses valores em cidadãos não mais tão jovens assim e que parecem ter esquecido completamente o sentido das lições que recebiam de seus pais, tios e avós. É equivocado o conceito de que devemos preparar um mundo melhor para nossos filhos e netos. Isso é passar a mão na cabeça deles, lustrando a irresponsabilidade e gerando pessoas que esperam receber as coisas de mãos beijadas. Precisamos, isso sim, é preparar melhor nossos filhos e netos enquanto cidadãos civilizados que sejam capazes de eles mesmos, com seus próprios méritos e esforços, construírem um mundo melhor para viver.
O ex-Beatle Paul McCartney costumava conversar com sua esposa Linda Eastmann a respeito do que almejavam para seus filhos, e revelou que “tudo o que poderíamos querer para eles era que tivessem bom coração”. Conseguir alcançar isso já é fazer muito pela humanidade: botar no mundo pessoas que tenham bom coração. O resto tem de ficar por conta deles.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em junho de 2010)
Veja Hitler na Europa na primeira metade do século passado, por exemplo. Tanto na Alemanha quanto fora dela, ninguém se preocupou muito com as consequências dos discursos histriônicos daquele falastrão de bigodinho a la Charlie Chaplin. Só que de palhaço ele não tinha nada, e a fatura mundial que teve de ser paga por ninguém ter tido o trabalho de cortar as suas asinhas de morcego enquanto ainda era tempo resultou em um valor altíssimo em vidas humanas. Quando resolveram reagir, ele já tinha mais da metade da Europa e boas partes de outros continentes subjugados ao delírio insano com que via o mundo, e quase que foi tarde demais.
O que a História tenta nos ensinar é que não devemos deixar as coisas beirarem o limite perigoso que se manifesta quando se chega próximo de cruzar a linha entre o “ainda é possível fazer alguma coisa” e o “é tarde demais”. Resgatar e ressaltar a importância do cultivo e do exercício de valores básicos de convivência em sociedade, especialmente entre as novas gerações, é um esforço que precisa ser empreendido por todos aqueles que lidam com gente enquanto ainda é tempo, para que não seja tarde demais. Para que o barbarismo não volte a imperar. Godos, ostrogodos e visigodos foram algumas das hostes bárbaras que levaram à bancarrota o Império Romano. Temos de impedir que essas hordas renasçam, e a única arma capaz de fazê-lo é a educação.
Mas eu me refiro aqui a uma educação mais abrangente, que signifique principalmente o esforço em gerar conceitos de civilização e de civilidade nos jovens, e mais, que também se manifeste no sentido de resgatar esses valores em cidadãos não mais tão jovens assim e que parecem ter esquecido completamente o sentido das lições que recebiam de seus pais, tios e avós. É equivocado o conceito de que devemos preparar um mundo melhor para nossos filhos e netos. Isso é passar a mão na cabeça deles, lustrando a irresponsabilidade e gerando pessoas que esperam receber as coisas de mãos beijadas. Precisamos, isso sim, é preparar melhor nossos filhos e netos enquanto cidadãos civilizados que sejam capazes de eles mesmos, com seus próprios méritos e esforços, construírem um mundo melhor para viver.
O ex-Beatle Paul McCartney costumava conversar com sua esposa Linda Eastmann a respeito do que almejavam para seus filhos, e revelou que “tudo o que poderíamos querer para eles era que tivessem bom coração”. Conseguir alcançar isso já é fazer muito pela humanidade: botar no mundo pessoas que tenham bom coração. O resto tem de ficar por conta deles.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em junho de 2010)
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Lição de além-mar
Erico Verissimo passeava pelas ruas da Filadélfia, na Pensilvânia, no início de 1941, quando um cartaz afixado junto ao caixa de um estande de jornais lhe chamou a atenção pelo que nele estava escrito:
- Se nós não lhe dissermos muito obrigado, pode pedir o dinheiro de volta.
O escritor gaúcho classificou o aviso como “curioso”, e seguiu sua perambulada observando outros aspectos do cotidiano, dos hábitos e dos costumes dos norte-americanos, conforme relatou depois da viagem, no livro “Gato Preto em Campo de Neve”, lançado em 1941 e que agora eu leio. Verissimo passou algumas semanas em solo americano a convite do Departamento de Estado daquele país, que desenvolvia uma “política de boa vizinhança” com o Brasil, às vésperas de ingressar no conflito que viria a ser conhecido como a Segunda Guerra Mundial. Era interesse dos EUA propagandear o “estilo de vida americano” para intelectuais brasileiros que amplificassem as benesses da democracia livre e da sociedade capitalista, afastando a sombra do namoro que, na época, o governo getulista insinuava com os países do Eixo.
Verissimo relatou tudo o que viu em um saboroso livro de crônicas e reflexões de viagem, no qual exercita a capacidade de registrar o curioso e espantar-se com as pequenas coisas que revelam a alma de um povo. Como uma placa assegurando ao consumidor o seu direito inalienável de ser bem tratado pelos funcionários do estabelecimento. A frase da plaquinha significa que todos os clientes do tal estande de jornais eram tratados com cortesia pelo estabelecimento que escolhiam para deixar seu dinheiro. É o mínimo que se pode esperar, especialmente em uma sociedade cuja economia é embasada no princípio da livre concorrência, onde qualquer detalhe faz a diferença, podendo significar a conquista eterna ou a debandada decidida de milhares de clientes, determinando a saúde do negócio.
Decidi imprimir centenas de milhares de plaquinhas com o mesmo dizer e vendê-las a preços módicos a comerciantes, empresários e prestadores de serviços em geral aqui na Serra. A acachapante maioria deles está precisando do conselhinho básico. E prometo agradecer e até sorrir a todos os que adquirirem meu produtinho.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de janeiro de 2012)
- Se nós não lhe dissermos muito obrigado, pode pedir o dinheiro de volta.
O escritor gaúcho classificou o aviso como “curioso”, e seguiu sua perambulada observando outros aspectos do cotidiano, dos hábitos e dos costumes dos norte-americanos, conforme relatou depois da viagem, no livro “Gato Preto em Campo de Neve”, lançado em 1941 e que agora eu leio. Verissimo passou algumas semanas em solo americano a convite do Departamento de Estado daquele país, que desenvolvia uma “política de boa vizinhança” com o Brasil, às vésperas de ingressar no conflito que viria a ser conhecido como a Segunda Guerra Mundial. Era interesse dos EUA propagandear o “estilo de vida americano” para intelectuais brasileiros que amplificassem as benesses da democracia livre e da sociedade capitalista, afastando a sombra do namoro que, na época, o governo getulista insinuava com os países do Eixo.
Verissimo relatou tudo o que viu em um saboroso livro de crônicas e reflexões de viagem, no qual exercita a capacidade de registrar o curioso e espantar-se com as pequenas coisas que revelam a alma de um povo. Como uma placa assegurando ao consumidor o seu direito inalienável de ser bem tratado pelos funcionários do estabelecimento. A frase da plaquinha significa que todos os clientes do tal estande de jornais eram tratados com cortesia pelo estabelecimento que escolhiam para deixar seu dinheiro. É o mínimo que se pode esperar, especialmente em uma sociedade cuja economia é embasada no princípio da livre concorrência, onde qualquer detalhe faz a diferença, podendo significar a conquista eterna ou a debandada decidida de milhares de clientes, determinando a saúde do negócio.
Decidi imprimir centenas de milhares de plaquinhas com o mesmo dizer e vendê-las a preços módicos a comerciantes, empresários e prestadores de serviços em geral aqui na Serra. A acachapante maioria deles está precisando do conselhinho básico. E prometo agradecer e até sorrir a todos os que adquirirem meu produtinho.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de janeiro de 2012)
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Como encarar 2012
Vou logo avisando: este é um texto de autoajuda. De autoajuda econômica, para ser mais específico. É que decidi auxiliar você, caro leitor, a organizar suas finanças no vindouro ano de 2012. Estou exercitando minha generosidade como uma das metas pessoais que deveria cumprir em 2011, e nunca é tarde para começar, nem que seja no dia 30 de dezembro. Vamos lá.
Partamos do princípio de que você é um cidadão plenamente inserido no sistema em que vive, ajustado e obediente às demandas impostas pela mídia e pela sociedade de consumo. Concordemos que você é, caro leitor, antes e acima de tudo, um CONSUMIDOR, muito mais do que um cidadão, um pai (mãe) de família, um ser humano pleno, um estudante, um profissional etc. O que importa mesmo é que você está sempre pronto a atender aos apelos de consumo que invadem a sua vida por todos os lados, por todos os meios.
Você não está em busca de qualidade de vida. Você está, sim, em busca de acúmulo de bens de consumo, imaginando que é por meio desse expediente que obterá qualidade de vida, correto? Você PRECISA de um novo modelo de automóvel, de mais de um automóvel, trocar seu aparelho celular, trocar os aparelhos celulares de sua família, comprar uma televisão maior, comprar mais televisões, comprar um tablet, comprar outro tablet mais moderno, comprar, comprar, comprar... Para isso, claro, precisa aumentar os turnos de trabalho, fazer hora extra, adotar dupla jornada, fazer entrar mais dinheiro para que seja possível deixar sair mais dinheiro, para assim dar no bico do seu vizinho e nos bicos da família toda.
Portanto, anote já todas as datas em que terá de adquirir presentes, para mostrar que você também é um cidadão de bem que gasta dinheiro como forma de expressar seus sentimentos, para depois não se surpreender desprovido de reservas na hora H: Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, Páscoa, Dia dos Namorados, Halloween, Natal, Ano Novo, aniversários em geral e amigos secretos. Feito isso, estrebuche-se trabalhando e fazendo dinheiro, para poder gastar bastante, ter e dar muitas coisas e ser um pleno cidadão do século 21.
Eu falei em texto de autoajuda. Não falei em dicas para a felicidade.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de dezembro de 2012)
Partamos do princípio de que você é um cidadão plenamente inserido no sistema em que vive, ajustado e obediente às demandas impostas pela mídia e pela sociedade de consumo. Concordemos que você é, caro leitor, antes e acima de tudo, um CONSUMIDOR, muito mais do que um cidadão, um pai (mãe) de família, um ser humano pleno, um estudante, um profissional etc. O que importa mesmo é que você está sempre pronto a atender aos apelos de consumo que invadem a sua vida por todos os lados, por todos os meios.
Você não está em busca de qualidade de vida. Você está, sim, em busca de acúmulo de bens de consumo, imaginando que é por meio desse expediente que obterá qualidade de vida, correto? Você PRECISA de um novo modelo de automóvel, de mais de um automóvel, trocar seu aparelho celular, trocar os aparelhos celulares de sua família, comprar uma televisão maior, comprar mais televisões, comprar um tablet, comprar outro tablet mais moderno, comprar, comprar, comprar... Para isso, claro, precisa aumentar os turnos de trabalho, fazer hora extra, adotar dupla jornada, fazer entrar mais dinheiro para que seja possível deixar sair mais dinheiro, para assim dar no bico do seu vizinho e nos bicos da família toda.
Portanto, anote já todas as datas em que terá de adquirir presentes, para mostrar que você também é um cidadão de bem que gasta dinheiro como forma de expressar seus sentimentos, para depois não se surpreender desprovido de reservas na hora H: Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, Páscoa, Dia dos Namorados, Halloween, Natal, Ano Novo, aniversários em geral e amigos secretos. Feito isso, estrebuche-se trabalhando e fazendo dinheiro, para poder gastar bastante, ter e dar muitas coisas e ser um pleno cidadão do século 21.
Eu falei em texto de autoajuda. Não falei em dicas para a felicidade.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de dezembro de 2012)
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Goleada didática
Muito se falou, ao longo desta semana, sobre uma suposta “aula de futebol” que o time do Santos – e por tabela todo o Brasil – teria recebido em campo do Barcelona, no último domingo, na partida decisiva pelo Mundial de Clubes da Fifa, disputada no Japão. Após definir o placar em quatro a zero a seu favor (e poderia ter sido mais, como todos os que assistiram à partida, como eu, perceberam), o Barcelona levou o título e os aplausos pela qualidade do espetáculo futebolístico apresentado.
Mas o que aconteceu naquela manhã de domingo foi, em termos de futebol, apenas isso: um espetáculo. Em momento algum houve ali uma “aula” de futebol. O Brasil, leitores, convenhamos, não precisa de nenhuma “aula de futebol”. Isso é um daqueles jargões de efeito que um comentarista televisivo expele no calor do momento e, devido à criatividade intrínseca, logo se transforma em mantra repetido a torto e a direito, de norte a sul, sem nenhum pingo de reflexão. Reflitamos, então, agora, um pouco.
O Brasil não precisa de “aula de futebol”. Leva-se a sério o futebol neste país há mais de um século. Existem agremiações profissionais dedicadas à prática, ao ensino, ao treino, ao cultivo e à formação de jogadores no nobre esporte bretão em nosso país tropical e lindo por natureza desde a alvorada do século passado. Somos detentores de cinco títulos mundiais, marca até agora inigualada por ninguém outro no planeta, e a qualidade dos jogadores com RG brasileiro é cobiçada e reconhecida nos quatro continentes. Não precisamos de “aula de futebol”.
Precisamos, sim, é da verdadeira lição que o Barcelona deu em campo a todo o Brasil na manhã do último domingo. Que foi, em resumo, uma aula completa de profissionalismo, de seriedade, de comprometimento, de envolvimento, de trabalho em conjunto, de cidadania, de proatividade, de humildade, de foco, de abnegação, de método, de maturidade. Essa foi a verdadeira lição, e não poderia ser diferente, uma vez que, como também se repete à exaustão por aqui, “o futebol imita a vida”. O furo foi bem mais embaixo, senhoras e senhores. Precisamos abrir os olhos e perceber que nós, brasileiros, andamos levando goleada do mundo em muitos aspectos. Até no futebol.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de dezembro de 2011)
Mas o que aconteceu naquela manhã de domingo foi, em termos de futebol, apenas isso: um espetáculo. Em momento algum houve ali uma “aula” de futebol. O Brasil, leitores, convenhamos, não precisa de nenhuma “aula de futebol”. Isso é um daqueles jargões de efeito que um comentarista televisivo expele no calor do momento e, devido à criatividade intrínseca, logo se transforma em mantra repetido a torto e a direito, de norte a sul, sem nenhum pingo de reflexão. Reflitamos, então, agora, um pouco.
O Brasil não precisa de “aula de futebol”. Leva-se a sério o futebol neste país há mais de um século. Existem agremiações profissionais dedicadas à prática, ao ensino, ao treino, ao cultivo e à formação de jogadores no nobre esporte bretão em nosso país tropical e lindo por natureza desde a alvorada do século passado. Somos detentores de cinco títulos mundiais, marca até agora inigualada por ninguém outro no planeta, e a qualidade dos jogadores com RG brasileiro é cobiçada e reconhecida nos quatro continentes. Não precisamos de “aula de futebol”.
Precisamos, sim, é da verdadeira lição que o Barcelona deu em campo a todo o Brasil na manhã do último domingo. Que foi, em resumo, uma aula completa de profissionalismo, de seriedade, de comprometimento, de envolvimento, de trabalho em conjunto, de cidadania, de proatividade, de humildade, de foco, de abnegação, de método, de maturidade. Essa foi a verdadeira lição, e não poderia ser diferente, uma vez que, como também se repete à exaustão por aqui, “o futebol imita a vida”. O furo foi bem mais embaixo, senhoras e senhores. Precisamos abrir os olhos e perceber que nós, brasileiros, andamos levando goleada do mundo em muitos aspectos. Até no futebol.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de dezembro de 2011)
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
A Era das Laranjas de Amostra
Deve-se julgar um livro pela capa? Até que ponto o invólucro gráfico utilizado para embalar e apresentar de forma atraente o produto livro ao consumidor tem influência no momento da decisão de adquirir a obra, levá-la para casa e começar a lê-la? A julgar pela importância que as editoras do mundo inteiro vêm dedicando à qualidade artística de toda a parafernália que acompanha e antecede o folhear da primeira página do texto propriamente dito, a resposta é sim, os leitores modernos são altamente influenciáveis pelos atrativos estéticos visuais que envolvem as obras literárias. Uma capa bonita, em uma edição com orelhas atraentes e contracapa apresentando excertos de críticas laudatórias ao livro publicadas em veículos de imprensa renomados são expedientes seguros para garantir uma boa performance do título nas prateleiras das livrarias.
O fenômeno não é motivo de espanto, especialmente para quem tem consciência de estar vivendo em uma era em que o poder do apelo superficial do visual é a tônica que rege os estímulos de consumo da opressora maioria da população humana espalhada pela superfície do planeta. Quando se trata de pesar na balança os elementos “forma” versus “conteúdo”, o primeiro, infelizmente, anda levando desmesurada vantagem, e não é de hoje. O escritor que simplesmente aposta todas as fichas no sucesso de sua obra pelo simples fato de acreditar ser dono de um bom texto e desempenhar com competência e criatividade a condução narrativa está fadado a sucumbir à realidade dos fatos ditados pelas (rasas) exigências do público moderno. Será pouco lido, quando não simplesmente ignorado pelas massas, para seu desespero e frustração.
Paralelamente a isso, registra-se no meio literário outro fenômeno que vem chamando a atenção dos especialistas em literatura e teoria literária, como a pesquisadora gaúcha Lígia Cademartori recentemente explanou em Caxias do Sul, quando veio participar do I Seminário Internacional de Língua, Literatura e Produtos Culturais, promovido pela Universidade de Caxias do Sul. Conforme a estudiosa, não basta mais apenas apostar no luxo da edição, bem como na ampla divulgação do livro em todos os meios de comunicação de massa para obter uma boa performance no meio literário nos dias de hoje. Para alcançar o reconhecimento e o sucesso, é preciso que o escritor também se transforme, ele mesmo, em um showman, com desenvoltura capaz de arrebanhar atenções e (consequentemente) leitores por meio de palestras, bate-papos, entrevistas, presença em eventos sociais e assim por diante. Nas palavras dela, é preciso fazer “um pacto com a mídia” para sair do anonimato e conseguir um lugar ao sol no disputadíssimo mercado editorial da atualidade.
Ou seja: apenas escrever bem já não basta mais. E também não significa que quem canta e rebola – e por isso mesmo obtém espaço – é detentor das mais altas qualidades literárias. Tudo depende de um encaixe perfeito entre as peças do jogo de mercado que, na maioria das vezes, é injusto para com os quesitos qualidade, arte, competência, conteúdo. Como em tudo, aliás.
De minha parte, continuo julgando um livro pela qualidade de seu texto. Sigo sendo seduzido pelas arrebatadoras frases iniciais de excelentes obras literárias, que me acompanham por toda a eternidade de minha existência enquanto ela durar. A edição em que li a abertura de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, é uma brochura horrorosa pertencente a uma coleçãozinha barata com uma capa cuja arte é repugnante. Guardo até hoje a edição ordinária, que resguarda em si o teor de um dos mais belos livros já escritos, iniciado com as seguintes palavras: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo”.
Julgasse eu o livro pela capa, teria torcido o nariz para um diamante.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de dezembro de 2011)
O fenômeno não é motivo de espanto, especialmente para quem tem consciência de estar vivendo em uma era em que o poder do apelo superficial do visual é a tônica que rege os estímulos de consumo da opressora maioria da população humana espalhada pela superfície do planeta. Quando se trata de pesar na balança os elementos “forma” versus “conteúdo”, o primeiro, infelizmente, anda levando desmesurada vantagem, e não é de hoje. O escritor que simplesmente aposta todas as fichas no sucesso de sua obra pelo simples fato de acreditar ser dono de um bom texto e desempenhar com competência e criatividade a condução narrativa está fadado a sucumbir à realidade dos fatos ditados pelas (rasas) exigências do público moderno. Será pouco lido, quando não simplesmente ignorado pelas massas, para seu desespero e frustração.
Paralelamente a isso, registra-se no meio literário outro fenômeno que vem chamando a atenção dos especialistas em literatura e teoria literária, como a pesquisadora gaúcha Lígia Cademartori recentemente explanou em Caxias do Sul, quando veio participar do I Seminário Internacional de Língua, Literatura e Produtos Culturais, promovido pela Universidade de Caxias do Sul. Conforme a estudiosa, não basta mais apenas apostar no luxo da edição, bem como na ampla divulgação do livro em todos os meios de comunicação de massa para obter uma boa performance no meio literário nos dias de hoje. Para alcançar o reconhecimento e o sucesso, é preciso que o escritor também se transforme, ele mesmo, em um showman, com desenvoltura capaz de arrebanhar atenções e (consequentemente) leitores por meio de palestras, bate-papos, entrevistas, presença em eventos sociais e assim por diante. Nas palavras dela, é preciso fazer “um pacto com a mídia” para sair do anonimato e conseguir um lugar ao sol no disputadíssimo mercado editorial da atualidade.
Ou seja: apenas escrever bem já não basta mais. E também não significa que quem canta e rebola – e por isso mesmo obtém espaço – é detentor das mais altas qualidades literárias. Tudo depende de um encaixe perfeito entre as peças do jogo de mercado que, na maioria das vezes, é injusto para com os quesitos qualidade, arte, competência, conteúdo. Como em tudo, aliás.
De minha parte, continuo julgando um livro pela qualidade de seu texto. Sigo sendo seduzido pelas arrebatadoras frases iniciais de excelentes obras literárias, que me acompanham por toda a eternidade de minha existência enquanto ela durar. A edição em que li a abertura de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, é uma brochura horrorosa pertencente a uma coleçãozinha barata com uma capa cuja arte é repugnante. Guardo até hoje a edição ordinária, que resguarda em si o teor de um dos mais belos livros já escritos, iniciado com as seguintes palavras: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo”.
Julgasse eu o livro pela capa, teria torcido o nariz para um diamante.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de dezembro de 2011)
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Palmas aos pinguins

Entre as 70 mil pessoas que circularam pelos superpopulacionados corredores do Shopping Iguatemi no domingo do dia 11 deste mês, em busca de presentes natalinos, figurávamos eu e minha esposa. Ela, estupefaciadamente cortejando vitrines. Eu, exasperadamente desviando de cotovelos. O resultado obtido após duas horas de permanência dentro do templo erigido ao Deus Consumo foi tão esperado quanto diverso: ela, plena de satisfação, carregando pacotes de regalos; eu, repleto de hematomas físicos e psicológicos decorrentes de minha fobia a multidões (só tolero aglomerações humanas quando em shows de rock protagonizados por ex-beatles e em manifestações por eleições diretas para presidente da República).
Cumprida a inevitável, anual e decembrina tarefa, lancei-me no sofá da sala pretendendo liberar ali aos poucos a carga psíquica que me atormentava quando fui informado por ela da situação: somente metade da lista de presentes havia sido solucionada. Precisávamos, portanto, empreender nova ida ao templo, a fim de completar a incumbência natalina. Gelei mais que a cerveja.
Felizmente, conseguimos organizar nossas agendas a ponto de efetivarmos o retorno ao shopping na manhã da quarta-feira seguinte, quando minhas previsões se confirmaram: corredores repletos de espaços vazios, lojas ocupadas só por gerentes e atendentes, muito ar para respirar. Chegamos às dez horas em ponto e presenciamos o abrir das portas do local, sendo os primeiros a ingressar por aquela entrada. Na área em que figuram a árvore de Natal e a decoração repleta de bonecos, fomos surpreendidos, em nossa caminhada rumo aos presentes faltantes, pelo início de uma canção natalina entoada por um coro de simpáticos pinguins cantantes, animada pelas brincadeiras de papais noéis com ursos polares que agitam o pedaço ao som de “Noite Feliz”.
No shopping ainda vazio, éramos, nós dois, a única esperança de plateia para aquela generosa apresentação exclusiva protagonizada por máquinas pré-programadas. Decidimos parar e apreciar o show até o final, para não desapontar pinguins, ursos e papais noéis tão simpáticos. Deve ter sido um rasgo de espírito natalino que esvoaçou sobre nós naquele instante. Só pode.
Cumprida a inevitável, anual e decembrina tarefa, lancei-me no sofá da sala pretendendo liberar ali aos poucos a carga psíquica que me atormentava quando fui informado por ela da situação: somente metade da lista de presentes havia sido solucionada. Precisávamos, portanto, empreender nova ida ao templo, a fim de completar a incumbência natalina. Gelei mais que a cerveja.
Felizmente, conseguimos organizar nossas agendas a ponto de efetivarmos o retorno ao shopping na manhã da quarta-feira seguinte, quando minhas previsões se confirmaram: corredores repletos de espaços vazios, lojas ocupadas só por gerentes e atendentes, muito ar para respirar. Chegamos às dez horas em ponto e presenciamos o abrir das portas do local, sendo os primeiros a ingressar por aquela entrada. Na área em que figuram a árvore de Natal e a decoração repleta de bonecos, fomos surpreendidos, em nossa caminhada rumo aos presentes faltantes, pelo início de uma canção natalina entoada por um coro de simpáticos pinguins cantantes, animada pelas brincadeiras de papais noéis com ursos polares que agitam o pedaço ao som de “Noite Feliz”.
No shopping ainda vazio, éramos, nós dois, a única esperança de plateia para aquela generosa apresentação exclusiva protagonizada por máquinas pré-programadas. Decidimos parar e apreciar o show até o final, para não desapontar pinguins, ursos e papais noéis tão simpáticos. Deve ter sido um rasgo de espírito natalino que esvoaçou sobre nós naquele instante. Só pode.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de dezembro de 2011)
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