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terça-feira, 19 de maio de 2015

Sorte aos 13

Olha só que boa notícia divulgada pela imprensa esta semana: 13 obras literárias foram inscritas este ano para concorrer ao Prêmio Vivita Cartier, categoria integrante do Concurso Anual Literário da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer, de Caxias do Sul, que este ano chega à sua 49ª edição. O Prêmio Vivita Cartier foi criado há três anos para laurear obra literária de autor caxiense publicada no ano anterior, estimulando a produção literária na cidade.
A grana a ser entregue ao autor premiado é boa: 240 VRM (Valor de Referência do Município), índice que, em 2015, vai representar uma quantia bruta na ordem de R$ 6.374,40. Descontados os impostos, o premiado embolsará mais de R$ 4,5 mil. A notícia é positiva por toda essa plêiade de aspectos: número significativo de obras concorrentes, autores de carreira consolidada participando e prêmio em dinheiro atraente. É um privilégio escrever em Caxias do Sul.
Afinal de contas, raciocinem comigo. O Brasil possui 5.561municípios em todo o seu território (não fui eu quem contou, é o IBGE quem me jura esse número). Quantos desses municípios, pergunto-me, têm capacidade para ofertar um prêmio de mais de R$ 6 mil para agraciar os escritores que teimam em nascer e se criar em seus domínios? Não sei a resposta exata, mas ponho a mão no fogo ao afirmar que são raros, raríssimos. Caxias do Sul, entre eles. Um privilégio e um gol a favor da cultura na cidade do trabalho.

Fico apenas com dó da comissão julgadora, que vai ter trabalho frente à qualidade das obras concorrentes. Digo isso porque conheço a maioria dos livros e dos autores inscritos. Eis a lista: “Leituras da Madrugada”, de Dinarte Albuquerque Filho; “O Passo do Socorro”, de Paulo Ribeiro; “A Trilha Silenciosa”, de André William Segalla; “Diário de Um Homem Metropolitano”, de Álvaro Pertille; “O Mistério do Oito Deitado”, de Daniela Echevenguá Teixeira; “A Nova Trova Literária nas Páginas do Sul”, de Luiz Damo; “Delirium Tremens” e “O Homem Só”, ambas de Leandro Angonese; “O Menino da Terra do Sol”, de Flávio Luis Ferrarini; “Anko”, de Márcio P. Mussatto; “Mirabilia”, de Alessandra Rech; “Cartas a Amélia”, de Pedro Costi, e “Isabella Em Contos: Cem Anos Historiados”, de Luiz Carlos Ponzi. O vencedor será conhecido em junho. Boa sorte a todos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de maio de 2015)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sócio de livros

Foi no início de 1979 - eu tinha 12 anos de idade - quando meus pais, leitores contumazes, se associaram ao Círculo do Livro. Tratava-se de um clube de leitura sediado em São Paulo, ligado a uma editora, que produzia edições luxuosas (com capa dura, mancha gráfica requintada, ótimas traduções e arte de primeira) de obras nacionais e internacionais, disponibilizadas à aquisição dos sócios pelo sistema de reembolso-postal. Naquela época, havia poucas livrarias (especialmente nas pequenas cidades) e nem se sonhava com encomendas via internet, muito menos com a internet em si.
A cada três meses, os sócios recebiam em casa a “Revista do Círculo”, contendo centenas de reproduções das capas e resenhas sobre as obras e os autores disponíveis para a compra no trimestre. Era uma festa. A revista passava de mão em mão lá em casa, cada um assinalando os títulos que lhe despertavam a cobiça, para que integrassem a lista de encomendas. Eu e minha irmã tínhamos direito a pedir um ou dois livros cada um, por trimestre. Que alegria.
O primeiro que solicitei foi “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain (1835 – 1910), e lembro até hoje, passados quase 40 anos, do momento em que abri o pacote e toquei a linda capa dura de meu exemplar, ilustrado com um elegante desenho a ponta de lápis do artista espanhol Juan Ballesta. À noite, na cama, antes de dormir, saboreei o momento mágico de abrir o livro e dar início ao mergulho naquele mundo diferente do meu, protagonizado pelo personagem criança imortalizado pelo escritor norte-americano. “Tom! – Ninguém responde. – Tom! – Nada. – Gostaria de saber onde anda esse menino. Tom! – Silêncio absoluto”. Assim tinha início a saga de aventuras e travessuras que eu palmilharia noite após noite, página por página, a partir de meu quarto, já transmudado para sempre em um apaixonado leitor.

Elejo este livro para me ombrear na homenagem que faço ao dia de hoje, 2 de abril, consagrado como o Dia Internacional da Literatura Infantojuvenil. Meus parabéns a todos os autores que se dedicam a produzir obras cuja função principal, ao encantar, é justamente formar novos leitores. Caxias do Sul tem o privilégio de abrigar vários autores assim e, a eles todos, meus parabéns e meu desejo de que prossigam nessa boa batalha.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de abril de 2015)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Ai, que prazer

Costumamos saber muito bem quais são os elementos que nos dão prazer. Quais os produtos que nos embevecem, quais as ações que nos encantam, quais as pessoas que nos fascinam, enfim. Quanto mais convivemos com nós mesmos – situação a que somos individualmente submetidos desde nosso nascimento, sem choro nem vela -, melhor vamos desvendando as fontes de nossos maiores prazeres.
Para uns, as salas de cinema; para outros, as mesas dos restaurantes; para algoutros, as distantes paragens que se põem a visitar; para muitas delas, as compras, que lhes enfeitam os pezinhos; para muitos deles, o futebolzinho de final de semana, que lhes destrói os garrões; para os ricos, uma BMW novinha e reluzente; para os pobres, o sonho com uma BMW reluzente e novinha; para os remediados, que seja aquela fosca Brasília Muito Velha, mesmo que a piada seja batida; para o avô, o churrasquinho que reúne a familiagem no final de semana; para o adolescente, um final de semana acampando com os amigos, libertando-se dos almoços em família. Enfim, cada pé conhece o sapato que lhe massageia os calos (e essa inventei agora, eu que aprecio criar frases de efeito com gosto duvidoso).
Mas falando em mim mesmo, aproveito para revelar que já faz décadas que sou assolado por uma dúvida excruciante (tacar-lhe assim de supetão no leitor uma palavra incomum é outro de meus prazeres passíveis de repreensão). Eu, que sou chegado nessa coisa estapafúrdia de gostar de ler livros, não tenho jeito de descobrir qual desses atos me causa maior prazer: iniciar a leitura de um livro, concluir a leitura de um livro ou comprar um livro. Todas essas três ações me causam cascatas de prazer. Cascatas, não: cataratas (que imagino maiores do que as cascatas, haja vista a relação entre a do Caracol – cascata – e as do Niágara – cataratas, sem falar que aquela se usa no singular e, esta, no plural).

Como não consigo colocar em ordem de intensidade esses três prazeres, sigo a vida ininterruptamente concretizando, de forma alternada, todas essas ações: compro, começo a ler e termino de ler. Ai, que prazeres! “Cada louco...”, já dizia meu amigo Argentino, de canto de olho.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de dezembro de 2014)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Literalmente suspeito

“O fato de eu ser paranoico não significa que não possa haver alguém me perseguindo mesmo”, já dizia Argentino, um amigo meu que é muito paranoico. Admito que há certa lógica em seu raciocínio, apesar de distanciado da realidade. Ninguém nunca perseguiu Argentino, exceto os policiais que o detiveram dia desses no Parque dos Macaquinhos, a tempo de impedir que ele trouxesse para Caxias a onda dos peladões que invadiu nossa Capital pouco tempo atrás.
Tudo já devidamente amansado, fico aqui a refletir sobre os pontos de convergência que me permitem compreender essa sensação de crer estar sendo objeto dos olhares reprovadores e estranhados de todos ao redor, a ponto de sentir desconforto e surgir aquela percepção de que somos peixe fora da água. Sempre sinto isso quando circulo em público com um livro na mão. Viciado que sou nessa coisa estranha de ler livros, carrego-os comigo sempre que saio de casa e rumo a algum compromisso. Com exceção das aulas de natação, nas quais todos os meus membros ficam ocupados. Como, senhora? Não sabia que eu fazia natação? Não, senhora, não faço, justamente por esse impeditivo livresco. Sim, concordo, deveria, a senhora tem razão. Pensarei a respeito. Por ora, sigamos a crônica.
Como eu estava raciocinando, não preciso sair pelado pela aí para que fiquem me olhando de forma estranha, desconfiando de minha pessoa, de meus atos, de minha índole, de minha sanidade mental e de minhas intenções. Basta que eu circule com um livro e, pior, me bote a lê-lo em locais públicos. Na sala de espera da dentista, os colegas de espera me observam imaginando que errei de porta: “o psiquiatra fica ali ao lado, amigo”, é o que ouço de seus pensamentos. No shopping, enquanto a esposa perambula dilapidando minha fortuna, sento-me nos bancos e tenho a atenção desviada das páginas do livro para a presença dos vigilantes que se põem a me rondar, vigiando as ações desse estranhíssimo eu ali, com um livro, atitude das mais suspeitas.

O que argumentar no dia em que me abordarem? Que estou lendo? Melhor preparar desde já uma desculpa mais plausível, para evitar consequências constrangedoras...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de dezembro de 2014)

sábado, 25 de outubro de 2014

Vida nova

Ontem desisti de uma leitura. Pela primeira vez em minha longa vida de leitor (quatro décadas lendo), abandonei o projeto de ler determinado livro após ter dado início ao fruir de suas páginas. Tomei a decisão de fechar o volume e devolvê-lo à prateleira ao chegar, penosamente, à página 50 e detectar ter pela frente ainda outras 400 a serem enfrentadas no mesmo ritmo, no mesmo tom, com as mesmas dificuldades, com o mesmo sofrimento e desprazer.
“Vamos parar por aqui”, disse eu ao livro, e paramos. Recoloquei-o na estante do corredor e retornei à sala me sentindo leve, levíssimo. Sentei-me na poltrona em que costumo me sentar à noite quando me ponho a ler livros e fiquei tentando identificar que espécie de sensação se apossava de mim após ter tomado essa decisão histórica em relação a meus hábitos de leitura, eu, que jamais abandonara a leitura de um livro. “Livro começado é livro terminado”, sempre fora meu lema, até ontem.
Temi ser invadido por uma profunda e inevitável sensação de frustração e de derrota. Mas não foi o que aconteceu. Senti-me liberto não apenas da obrigatoriedade autoimposta frente a uma leitura penosa, mas também em relação à necessidade de manter atitudes pessoais que julgava serem determinantes da persona que eu havia criado em mim. Descobri que eu não preciso mais provar para mim mesmo que sou um leitor, característica pessoal de que tanto me ufano. Ao menos, não preciso mais provar dessa forma, me obrigando a dar sequência a uma leitura que não me agrada. Dessa forma, rompi grilhões, quebrei correntes, entreabri uma porta que sempre estivera trancada, deixei entrar uma luz nova e promissora em meu caminho.

Em outras palavras, com esse simples gesto de fechar o livro e abandonar sua leitura, desatei um paradigma pessoal e permiti em mim uma renovação de postura. Não houve desamparo, mas, sim, paz e segurança para seguir em frente com uma postura nova e libertadora. Tudo isso a partir de um pequeno e prosaico gesto efetuado sem testemunhas, no interior de meu aquário. A renovação interna às vezes se revela a partir de pequeníssimas grandes coisas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de outubro de 2014)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O autor analfabeto

Às vezes me questionam, em entrevistas, sobre desde quando eu escrevo. Minha resposta à pergunta sempre é cambiante, uma vez que faz décadas que prefiro ser uma “metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Mas ultimamente, já que a pergunta induz a pensar em retrospecto, venho respondendo que escrevo desde antes de ser alfabetizado. Ah, pois!
Sim, explico. Isso é verdade porque, muito antes de ingressar na escola e começar a aprender que bê com a faz ba e bê com e faz be, eu já elaborava historinhas em quadrinhos criadas em minha própria imaginação e as desenhava em cadernões repletos de folhas em branco, que minha mãe comprava para mim na Livraria Cultural, em Ijuí. Depois, quando ela chegava em casa do serviço à noitinha, eu ia lá atazanar e pedir para que inserisse os diálogos que havia criado para os personagens, já que eu ainda era um analfabeto. Ou seja: tecnicamente, quem exercitava o ato mecânico de colocar o texto nas páginas era minha mãe, mas quem os criava era eu. Eu, o autor. Eu, o escritor analfabeto, que escrevo desde antes de aprender a juntar letrinhas.
Por tabela, volta e meia surge também a questão sobre desde quando sou leitor, e a resposta é a mesma: desde antes de aprender a ler. Sim, porque minha mãe (de novo ela) lia livros do Monteiro Lobato para mim, na cama, antes de eu dormir à noite, e não tinha jeito de eu pregar o olho porque, antes de dormir, ficava era ligadão querendo saber o resto da história. Ao invés de adormecer, despertou em mim o leitor.

E Feira do Livro, desde quando participo? Também, desde sempre. Lá em Ijuí, meus pais me levavam toda a sexta-feira de tardinha até a Livraria Progresso e me deixavam pegar dois gibis à minha escolha. Desde os sete anos que eu faço minhas feiras de livros. Podem imaginar, então, como me sinto hoje, dia da abertura de mais uma edição da Feira do Livro de Caxias do Sul. Nos próximos 18 dias, a Praça Dante vai estar repleta de gente faceira por livro igual a mim. Vai lá dar uma olhada, é divertido, é lúdico, é criativo, é humano, é vida pura! Bem-vinda, 30ª edição!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de outubro de 2014)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Prudência impressa

Alguns livros de minhas estantes acordaram muito excitados ontem pela manhã. Logo ao me verem em pé, invadiram meu moroso processo de transição entre o sono e o despertar exigindo que eu escrevesse a crônica de hoje tendo como tema o significado importante da data de 30 de setembro para o universo da literatura. “Ué, mas ce qui se passe?”, perguntei a eles, misturando línguas, fenômeno típico de meus acordares, mas preocupante porque, desperto, sequer arranho o francês.
 Pulando nas prateleiras como passarinhos no ninho excitados com a chegada das minhocas no bico da ave-mãe, os livrinhos mais salientes me informaram que hoje, 30 de setembro, comemora-se a publicação da Bíblia de Gutenberg, ocorrida nesta data no ano de 1452, marcando o nascimento dos livros impressos. Motivo suficiente para estarem bem alegrinhos, uma vez que foi a invenção de Gutenberg que permitiu a existência de todos eles.
Achei justa a reivindicação e decidi que, sim, escreveria sobre isso. Porém, não pude deixar de estranhar o silêncio reservado de minhas enciclopédias, dicionários e biografias ali no canto. Sei que eles são mais contidos por natureza, mas ficou algo no ar, até porque, os arautos da reivindicação eram justamente aqueles meus livrinhos assim, digamos... mais superficiais.

Antes de meter dedos ao teclado, achei prudente investigar. Sim, a internet, em diversos blogs e sites, indica a data de hoje como sendo relativa à publicação da Bíblia de Gutenberg. Mas senti falta de uma fonte histórica mais confiável, uma vez que a internet aceita tudo e é muito fácil um blog copiar do outro sem proceder a uma peneirada mais criteriosa das informações. Após muito navegar, decidi me levantar e lançar mão à consulta direta daqueles meus sempre confiáveis dicionários, biografias e enciclopédias impressos, que esperavam por mim ali, no cantinho deles. E batata: há controvérsias. Gutenberg levou anos compilando sua primeira edição impressa da Bíblia, mas não se sabe exatamente quando ela veio a público. Portanto, não poderei escrever esta crônica. Afinal, é preciso confiar desconfiando, como nos ensina sempre a boa literatura... impressa!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de setembro de 2014)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Aqui, em Caxias

De ler. Eu gosto é de ler em Caxias do Sul. Em resumo, foi isso o que postei no mural do pioneiro.com ontem pela manhã, ao participar da promoção que o jornal Pioneiro está fazendo, em homenagem aos 124 anos que a cidade comemora dia 20 de junho. O jornal está convidando os leitores a acessarem o link citado e postarem lá sugestões de coisas legais para fazer na cidade. A intenção é reunir 124 postagens (número igual ao do aniversário de Caxias) e publicá-las.
Pensei dezenas de coisas legais para se fazer por aqui, mas na hora “h” optei pela questão da leitura, simplesmente porque é a mais pura verdade. Meu interlocutor poderia dizer que isso não vale, pois quem gosta de ler vai ter prazer em ler onde quer que esteja. Sim, correto, é verdade. Mas tem uma coisa, amigo: ler em Caxias do Sul possui um sabor diferente, pelo fato de se estar lendo em uma cidade que vive um momento especial no quesito da valorização da leitura, do livro e da escrita.
Nossa cidade abriga um número cada vez maior de escritores que se arriscam a tirar das gavetas suas obras e levá-las ao público. No meio dessa fartura, vão surgindo os bons autores, que vão se estabelecendo com a produção de boas obras. Caxias sedia editoras e gráficas que proporcionam obras de qualidade visual no patamar do que se faz nos grandes centros do país. Existem leis de incentivo que permitem o acesso de autores a recursos públicos para a edição de títulos de interesse comunitário, o que também estimula o envolvimento de empresas na parceria com a promoção da cultura local.
Existe um Concurso Anual Literário que revela novos talentos e consolida talentos antigos. Há até o prêmio Vivita Cartier para melhor livro publicado no ano. A Feira do Livro é a segunda maior do Estado e a cada ano cresce o número de crianças-leitoras na Praça Dante. A atividade literária na cidade é tão intensa que a Secretaria Municipal da Cultura chegou a criar um Departamento do Livro e da Leitura só para cuidar de ações voltadas ao setor. Várias entidades e grupos debatem a leitura e a promovem na cidade, como a Academia Caxiense de Letras-RS, o Grupo Órbita Literária, a Confraria Reinações, o grupo Skoob, o Litteris Te Deum e a seção local da Associação Gaúcha de Escritores, entre outras.

Ah, e tem as livrarias-cafeterias. Nada melhor do que sentar-se em uma delas, saborear um cappuccino e abrir as páginas de um bom livro. Especialmente em Caxias do Sul, um dos melhores lugares do mundo para ler.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de junho de 2014)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O leitor de rua

(Foto tirada por Ivonei de Carvalho em fevereiro de 2014 no bairro Glória, Rio de Janeiro)

Sempre que nos sentirmos desesperançados, sempre que estivermos a um passo de jogar a toalha na lona e abandonar o ringue, sempre que imaginarmos que a coisa não tem jeito mesmo então deixemos tudo para lá e vamos é cuidar de nossas próprias vidas, sempre que estivermos enxergando somente as nuvens em detrimento da réstia de luz solar que teima em se esgueirar por entre elas, sempre que esmorecermos... acabará surgindo de algum lugar aquela fonte de energia que renovará nossas esperanças e reabastecerá nosso tanque para prosseguirmos na batalha por aquilo que acreditamos, nem que saibamos que estamos a dar murros em ponta de faca.
Eu, por exemplo, sou um desses seres esquisitos que teimam em acreditar no poder transformador que o ato da leitura exerce sobre os espíritos humanos. Eu acredito fervorosamente que a aquisição do hábito de ler, do gosto pela leitura, do prazer do contato com o mundo dos livros, desperta na pessoa habilidades tais que o mundo, a vida, a existência passam a ser para ela um universo sem limites. Essa é a minha fé. A leitura forma. A leitura informa. A leitura liberta. A leitura diverte. A leitura entretém. A leitura consola. A leitura nos ensina a compreender o mundo e os seres humanos. A leitura nos ajuda a compreendermos a nós próprios.

A leitura é, pois, uma das mais elevadas ferramentas civilizatórias criadas pelo engenho humano. Privar-se deliberadamente de ler, no meu entender, é provocar contra si mesmo um dos mais tristes boicotes. Pois em um país em que uma funkeira recebe de professores de filosofia a alcunha de “grande pensadora moderna”, em que um ex-presidente da República afirma que “ler é uma chatice” e em que atores (?) revelam detestar ler, não faltam desestímulos para quem insiste em permanecer ativo na batalha em favor dos livros. Esta semana, porém, a redenção me veio a partir da cena que meu cunhado registrou um mês atrás na região central do Rio de Janeiro. Próximo a um bar, no bairro Glória, um morador de rua (foto) faz uma pausa para mergulhar silenciosa e atentamente na leitura. Ele redime a todos nós. De minha parte, preferiria conversar com ele do que com a funkeira pensadora, ou com o atorzinho ou com o ex-presidente.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de abril de 2014)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Enganando a maldita


Nas muitas vezes em que levo meus olhos a passear pelas estantes das livrarias, deixo eles se divertirem um pouco naquelas seções em que os livreiros amontoam os livros pertencentes a uma espécie muito estranha de literatura. Tratam-se daquelas obras concebidas com a pretensão de ajudar a organizar alguns aspectos de nossas vidas, orientando interesses e economizando esforços de busca.
Normalmente, os títulos desses livros dizem assim: “Cem filmes para assistir antes de morrer”, “150 livros para ler antes de morrer”, “200 lugares para conhecer antes de morrer”, “Os cem maiores escritores da Lapônia”, “As 100 melhores receitas de cachorro-quente”, “300 receitas para preparar para sua namorada”, “20 receitas para preparar para sua esposa”, “Mil receitas para preparar para sua amante”, “As 100 receitas que você não preparará para sua ex”, “Trinta receitas para forçar que ela o deixe”, “Como ficar rico em 10 lições”, “Como conquistar quem você quiser e como se livrar depois”, “Os 90 livros que você deveria ter lido mas que jamais lerá” e assim por diante.
Deixo meus olhos circularem pelos títulos e, dependendo do caso, até permito que minhas mãos entrem na jogada e retirem algum exemplar da prateleira para folheá-lo e fornecer, assim, aos olhos, uma ideia mais ampla do conteúdo ali impresso. Mas nunca permito a participação de meu bolso nesse processo. Não os compro. E não por preconceito bobo ou por soberba, altivez, esnobismo. É por medo mesmo.
Sou muito medroso. Especialmente em relação a essas listas que indicam o que fazer (ler, assistir, comer, visitar) antes de morrer. Eu, assim como a maioria das pessoas viventes, não desejo morrer. Prefiro pensar na morte como um acontecimento longínquo que pode ser mantido à distância enquanto eu fizer coisas como respeitar os limites de velocidade nas rodovias, me alimentar de forma mais saudável, não colocar os dedos molhados nas tomadas e coisas assim. Para que, então, brincar com fogo?
Para que comprar uma obra que me indica cem livros para ler antes de morrer? Dei uma folheada na centena de indicações ali inseridas e detectei que já li umas 75 delas. E todos os outros 25 títulos restantes me interessam. Dez deles, por sinal, já estão na pilha lá em casa, para serem lidos. Em o fazendo, estarei me colocando perigosamente no final da fila para o encontro com a Maldita, segundo as projeções do autor do livro.

Como não sou besta, está decidido: só vou ler mais 24.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Profecia com todas as letras


Vou fazer uma profecia. E, como todo bom Nostradamus que se preze, tomarei o cuidado de datar o cumprimento de minhas previsões em um futuro longínquo o suficiente para garantir que eu não esteja mais por aí quando do advento das datas. Em a previsão se cumprindo, terei a infelicidade de não poder colher em vida os louros pelo acerto, mas confio na honestidade da História, que saberá me incensar com a devida justiça devido ao feito. Em não se cumprindo, me esquivarei espertamente do constrangimento de ter de inventar explicações que limpem minha barra, e que se ralem meus futuros detratores.
Então, vamos lá, ei-la: a internet não será responsável pelo desaparecimento dos livros, das revistas e dos jornais impressos. Ao menos, não nos próximos 100 anos.
Pronto. O que estou afirmando é que nossos netos e bisnetos, em 2113, ainda estarão em contato, no seu cotidiano pessoal e profissional, com esses centenários objetos de leitura que tanto amamos, impressos em papel, dobráveis, inflamáveis, rasgáveis, riscáveis, molháveis, sujáveis, facilmente carregáveis (e esquecíveis), singelamente acessáveis por meio de marcadores de páginas (normalmente, também impressos em papel), sublinháveis com caneta esferográfica ou ponta-porosa, alheios à necessidade de baterias recarregáveis ou à existência de eletricidade (exceto à noite, para que haja iluminação no quarto onde nos colocamos a lê-los), maleáveis, cheirosos, belos, charmosos, elegantes, concretos e tácteis.
Não, senhores, a internet não vai matar os livros e as publicações impressas em geral. Podem dormir tranquilos. Existem hábitos que a civilização arraigou ao comportamento e à cultura humanas e, entre esses, o ato da leitura na plataforma impressa é um dos que dificilmente serão abandonados pelos representantes futuros de nossa espécie. Ao menos, os do futuro próximo (falo em 2113, lembrem). As notícias de nossas mortes ainda sairão publicadas em páginas impressas nos jornais, bem como as alegrias dos anúncios sociais dos casamentos de nossos bisnetos, creiam-me. Quem viver, verá. Ou melhor, lerá.
A favor de minha tese profética, trago uma notícia publicada em fevereiro deste ano na imprensa (impressa) mundial. Em 2012, a receita obtida com assinaturas e com a venda de exemplares impressos da empresa The New York Times Company cresceu 10,4% em relação a 2011. Ou seja, o grupo norte-americano que edita os jornais The New York Times, The Boston Globe e The International Herald Tribune está vendendo mais jornais impressos e assinaturas do que antes. Mas não era para ser o contrário? Os jornais impressos não deveriam estar tendo seu mercado retraído com o avanço e consolidação dos blogs noticiosos mantidos por essas mesmas companhias?
E os livros? Publica-se como nunca antes na história da humanidade. As feiras de livro, as bienais e os encontros literários reúnem públicos cada vez maiores de leitores em todos os cantos do mundo, e vendem-se mais e mais livros (impressos) nesses lugares. O que a internet vem fazendo é exatamente agilizar, democratizar e ampliar o processo de aquisição de livros (impressos), e não retraindo o setor.
Meu tablet vai estragar se eu o deixar rolar ao chão ao pegar no sono em meio à leitura, deitado no sofá da sala. Meu livro, meu jornal e minha revista, no máximo, sofrerão um amassadinho e estarão me esperando alegremente para prosseguir na leitura quando eu acordar, amanhã de manhã.
Não, senhores. As traças, os ratos e os humanos de biblioteca prosseguirão sendo supridos com seu vital alimento impresso durante muito tempo ainda. Amansai vossas almas e boas leituras.

 (Publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de maio de 2013)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

As cápsulas do tempo


Uvanova é uma pequena e simpática cidadezinha de colonização italiana encravada no alto da Serra Gaúcha na divisa entre Tapariu e o Rio das Antas, conhecida por seu povo amigável e pelo sagu de polenta cuja receita secreta as nonas não revelam nem no confessionário, apesar de muitos padres já as terem tentado a fazê-lo, infrutiferamente. Os uvanovenses são apaixonados por futebol e, agora em dezembro, coincidentemente, os dois clubes citadinos dedicados à prática do esporte bretão celebram 30 anos de chutes, caneladas, raros gols, rivalidade acalorada e muita alegria.
 Fundados no mesmo dia 3 de dezembro de 1982, tanto o Esporte Clube Que Lance quanto a Associação Atlética Canoa Furada dividem as emoções esportivas de toda a comunidade. Este ano, o prefeito Parreirino Della Merlota resolveu realizar um evento cuja intenção era promover a união entre os correligionários, atletas e diretores dos dois times, oferecendo-lhes um sopão de anholine grátis no domingo passado, no salão de festas da igreja.
Aproveitando a ocasião histórica, o secretário municipal de Cultura, Desportos, Educação, Agricultura e Saneamento Básico sugeriu que fossem abertas as duas cápsulas do tempo (urnas contendo material da época e documentos a serem legadas para as gerações vindouras) que haviam sido enterradas três décadas atrás em cada clube, junto com a pedra fundamental de cada estádio (que nunca saíram da planta). Abertas as urnas, a surpresa e a decepção: em uma delas, um disco em vinil contendo o hino do clube; uma fita cassete trazendo declarações dos dirigentes da época e dos jogadores e uma fita VHS com imagens e depoimentos relevantes. Nada foi aproveitado, pois ninguém em Uvanova encontrou um toca-discos para escutar o vinil, nem um gravador para rodar a fita e tampouco um videocassete para exibir o VHS. Já o outro clube, cuja cápsula do tempo trazia um livro narrando a história de sua criação, um jornal com entrevistas com os dirigentes e jogadores e um álbum de fotografias analógicas reveladas em papel, teve sua história revivida e apreciada por todos de forma imediata.
Ninguém mais em Uvanova discute a questão do fim do livro ou dos veículos impressos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de dezembro de 2012)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A Era das Laranjas de Amostra

Deve-se julgar um livro pela capa? Até que ponto o invólucro gráfico utilizado para embalar e apresentar de forma atraente o produto livro ao consumidor tem influência no momento da decisão de adquirir a obra, levá-la para casa e começar a lê-la? A julgar pela importância que as editoras do mundo inteiro vêm dedicando à qualidade artística de toda a parafernália que acompanha e antecede o folhear da primeira página do texto propriamente dito, a resposta é sim, os leitores modernos são altamente influenciáveis pelos atrativos estéticos visuais que envolvem as obras literárias. Uma capa bonita, em uma edição com orelhas atraentes e contracapa apresentando excertos de críticas laudatórias ao livro publicadas em veículos de imprensa renomados são expedientes seguros para garantir uma boa performance do título nas prateleiras das livrarias.
O fenômeno não é motivo de espanto, especialmente para quem tem consciência de estar vivendo em uma era em que o poder do apelo superficial do visual é a tônica que rege os estímulos de consumo da opressora maioria da população humana espalhada pela superfície do planeta. Quando se trata de pesar na balança os elementos “forma” versus “conteúdo”, o primeiro, infelizmente, anda levando desmesurada vantagem, e não é de hoje. O escritor que simplesmente aposta todas as fichas no sucesso de sua obra pelo simples fato de acreditar ser dono de um bom texto e desempenhar com competência e criatividade a condução narrativa está fadado a sucumbir à realidade dos fatos ditados pelas (rasas) exigências do público moderno. Será pouco lido, quando não simplesmente ignorado pelas massas, para seu desespero e frustração.
Paralelamente a isso, registra-se no meio literário outro fenômeno que vem chamando a atenção dos especialistas em literatura e teoria literária, como a pesquisadora gaúcha Lígia Cademartori recentemente explanou em Caxias do Sul, quando veio participar do I Seminário Internacional de Língua, Literatura e Produtos Culturais, promovido pela Universidade de Caxias do Sul. Conforme a estudiosa, não basta mais apenas apostar no luxo da edição, bem como na ampla divulgação do livro em todos os meios de comunicação de massa para obter uma boa performance no meio literário nos dias de hoje. Para alcançar o reconhecimento e o sucesso, é preciso que o escritor também se transforme, ele mesmo, em um showman, com desenvoltura capaz de arrebanhar atenções e (consequentemente) leitores por meio de palestras, bate-papos, entrevistas, presença em eventos sociais e assim por diante. Nas palavras dela, é preciso fazer “um pacto com a mídia” para sair do anonimato e conseguir um lugar ao sol no disputadíssimo mercado editorial da atualidade.
Ou seja: apenas escrever bem já não basta mais. E também não significa que quem canta e rebola – e por isso mesmo obtém espaço – é detentor das mais altas qualidades literárias. Tudo depende de um encaixe perfeito entre as peças do jogo de mercado que, na maioria das vezes, é injusto para com os quesitos qualidade, arte, competência, conteúdo. Como em tudo, aliás.
De minha parte, continuo julgando um livro pela qualidade de seu texto. Sigo sendo seduzido pelas arrebatadoras frases iniciais de excelentes obras literárias, que me acompanham por toda a eternidade de minha existência enquanto ela durar. A edição em que li a abertura de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, é uma brochura horrorosa pertencente a uma coleçãozinha barata com uma capa cuja arte é repugnante. Guardo até hoje a edição ordinária, que resguarda em si o teor de um dos mais belos livros já escritos, iniciado com as seguintes palavras: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo”.
Julgasse eu o livro pela capa, teria torcido o nariz para um diamante.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de dezembro de 2011)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Eu tenho um sonho

Eu tenho um sonho. Não exatamente igual ao do líder religioso e social norte-americano Martin Luther King (1929-1968), mas tenho também um sonho e, em minha fé de sonhador, julgo-o concretizável. Enquanto estou desperto, imagino esse meu sonho tão fervorosamente que chego a sonhar de fato com ele quando estou dormindo. Assim, o sonho-esperança que alimento acordado se transforma em sonho-sonhado quando durmo, ambos unindo forças psíquicas na construção do desejo de transformá-lo em parte integrante da realidade.
Meu sonho, esse, é ver, um dia, o livro transformado em objeto de desejo das massas planetárias, a ponto de ser disputado pelas pessoas, e a literatura transformada em obsessão intercontinental da mesma forma como acontece com o rock and roll e com a música sertaneja. Gostaria de viver em uma era em que seria temerário deixar um livro à vista em cima do banco traseiro do veículo quando estacionasse em algum parque e me afastasse, correndo o risco de ver meu carro arrombado e o livro furtado por temerários e destemidos ladrões de cultura. Tudo contra o crime de roubar, nada a favor do roubo de livros, mas tudo a favor do desejo incontrolável de possuí-los e querer lê-los, a ponto de ser arriscado deixá-los à solta, o que, atualmente, não é o que acontece.
Observe a solidão de um pobre livro abandonado em um banco de praça. Quantas horas você imagina que ele ficará ali, jogado ao sabor das intempéries e vulnerável à mira certeira dos pombos, antes que alguém se interesse me recolhê-lo e dar-lhe o abrigo de um lar e o aconchego de um par de olhos que se coloquem a lê-lo? Cruel mundo esse, que não se preocupa um pingo sequer com a orfandade dos livros. Até as baleias já têm quem as defenda e perca por elas o sono. Já os livros, disparam olhares esperançosos por detrás dos vidros das vitrines das livrarias a cada raro transeunte que para e olha, mas mais raros ainda são os que escutam o chamado, entram e adotam um deles, por módicos valores.
Quisera eu viver em um mundo em que uma palestra de um escritor lotasse estádios de futebol com pessoas interessadas em ouvir o que ele tem a dizer, além daquilo que já escreveu e que a tantos encantou por meio do deleite da leitura. Que surgisse uma revista semanal intitulada “Rostos, Folhas de”, esmiuçando a vida pessoal dos escritores para saciar a fome de conhecimento sobre suas interessantíssimas personalidades, as páginas com muitos textos e poucas fotos. Que as tiragens de suas obras fossem contadas às dezenas de milhares e que escritores fossem convidados para protagonizar comerciais de televisão e campanhas beneficentes. Que os escritores virassem celebridades a ponto de serem convidados para participar de reality shows televisivos intitulados “Casa dos Escribas” e ficassem confinados lá dentro meses e meses debatendo literatura e levando a audiência das televisões a estratosféricas alturas.
Mas, como eu disse lá no começo, o que eu tenho é um sonho. Acho que ando lendo demais...
(Publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de outubro de 2011)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Embarque na Praça Dante

Atenção senhores passageiros do voo 027 partindo de Caxias do Sul com destino às mais altas nuvens da literatura local, nacional e universal, favor dirigirem-se a partir desta sexta-feira ao portão de embarque da Praça Dante Alighieri. A decolagem está prevista para logo mais, às 18h30min, na plataforma do palco central da Feira do Livro de Caxias do Sul. Tenham em mãos seus cartões de embarque, constituídos pela vontade de ler, de vasculhar livros, de circular pelos estandes das livrarias, de encontrar pessoas, de bater papo com autores, de capturar autógrafos nas sessões de lançamento, de participar dos debates, de ler no Leiturário, de frequentar o café literário, de respirar cultura.
A previsão de duração de voo até o nosso destino, as paradisíacas praias do crescimento pessoal a partir da leitura, é de 17 dias, independentemente de sol ou chuva, uma vez que não existe mau tempo quando se trata de alçar a viagem da literatura. Sobrevoaremos ininterruptamente a Praça Dante, nos esforçando para proporcionar a todos os passageiros o melhor serviço de bordo capaz de agradar aos clientes de nossa companhia literária. No cardápio, oferecemos uma dieta de leitura farta, eclética e compatível com todos os gostos, da poesia à crônica, do romance à autoajuda, dos contos às fábulas, apta a alimentar os espíritos de todas as gentes.
Oferecemos às crianças que optam por nossos serviços um atendimento personalizado, com cabines especialmente projetadas para os seus interesses e gostos, bem como uma programação específica elaborada no sentido de fidelizá-las para sempre em nossa companhia e na dos livros. Em caso de turbulência, não se espantem: é apenas o tremor causado pela algazarra dos pequenos leitores correndo a bordo de nossa aeronave, entusiasmados com a diversidade de livros a seu dispor durante o passeio.
Não há distinções de classe em nossa aeronave, sendo permitido o acesso livre dos passageiros a todas as dependências existentes, criadas para o deleite de todos. Se a bagagem de mão forem livros, não há nenhum limite de peso por passageiro. Desapertem os cintos, circulem à vontade e uma ótima viagem a todos, sob os cuidados da comandante Luiza Motta e do patrono-piloto Marco de Menezes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de setembro de 2011)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A renovação de um deleite

Se a primeira impressão é a que fica, o mesmo se dá com as sensações. O contato primordial com algo que nos confere prazer vem carregado de tamanha força psíquica que nos fica impressa a sensação na alma de tal maneira que, no transcorrer de nossas existências, passamos em vão tentando resgatar com a repetição do ato, sempre sem sucesso.
O sabor do chocolate, por exemplo. Houve alguma vez, lá na longínqua infância, em que nossas papilas gustativas tiveram pela primeiríssima vez a alegria de se verem confrontadas com o gosto e o sabor apaixonante de uma barra de chocolate, amorosamente ofertada por algum de nossos parentes. Lambuzamo-nos as mãos e a boca em uma sessão de alegria infantil frente ao maravilhamento que aquela sensação primordial provocava em todos os nossos sentidos, descobrindo um deleite até então jamais vivenciado. Dali para adiante, sempre que rasgamos o invólucro de algum chocolate qualquer, inconscientemente estamos tentando repetir em nossos sentidos a mesma explosão de prazer que ocorreu naquela vez primeira, mas esse efeito jamais será repetido em igual intensidade. Nossa busca, no entanto, é incessante, e passamos a vida a comer chocolates, degustar vinhos, fazer amor, escutar (e reescutar milhares de vezes) a mesma música, praticar os mesmos atos.
O escritor francês Philippe Delerm publicou um livrinho intitulado “O primeiro gole da cerveja” (Editora Rocco), em que enfileira algumas dezenas de crônicas versando sobre a questão dos singelos prazeres que tornam nossas vidas mais deliciosas. E justamente o texto que dá título ao livro é o que se refere à sensação primeira de um prazer, no caso, o ato de saborear um copo de cerveja. Segundo Delerm, nenhum dos goles seguintes se equipara ao prazer do primeiro, fazendo eco à teoria que estou aqui defendendo.
Algumas vezes, no entanto, é possível acontecer um raro fenômeno de epifania, quando estamos a repetir pela milionésima vez um prazer já conhecido e, sem que esperemos, somos possuídos pela sensação explosiva e arrebatadora do novo. É a renovação do prazer, algo que ocorre uma vez em duzentos trilhões, conforme pesquisas recentes que eu gostaria que de fato existissem. Deu-se comigo anos atrás quando experimentei pela primeira vez um vinho chileno produzido com a uva carmenére, que me renovou a sensação de degustar algo realmente novo em termos de varietais viníferas. E dá-se comigo, na razão de uma vez a cada dez anos, no quesito da leitura.
Lá de vez em quando, em meio a tantos livros (e a tantos livros bons, importante ressaltar), ocorre de me cair em mãos a leitura de um texto que renova meu prazer primeiro de estar tendo o contato com um tecelão da genialidade da escrita. Que sensação deliciosa! Deu-se comigo cerca de dez anos atrás, quando li meu primeiro Ítalo Calvino (“As Cidades Invisíveis”), o que me obrigou a adquirir e ler de um fôlego só toda a sua obra. E deu-se agora, neste 2011, ao ler os dois únicos livros escritos pelo mexicano Juan Rulfo (1917-1986), “Pedro Páramo” (romance de 1955) e “Chão em Chamas” (contos, de 1953). Estou extasiado. Amortecido pela inundação do prazer primeiro de uma sedutora leitura, como se nunca tivesse lido algo tão bom antes.
Bom mesmo é ter a certeza de que, prosseguindo nesse ritual de leituras incessantes, haverei de ainda ser brindado com a repetição da unicidade deste prazer ainda várias vezes ao longo da vida. É a recompensa pela dedicação à leitura, que sempre está à espreita dos leitores por vocação.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, em setembro de 2011)

domingo, 28 de agosto de 2011

Guias da alma humana

Imponho-me algumas regras a serem seguidas nessa minha já longeva trajetória de leitor, a fim de manter aceso o interesse pela leitura, ampliar meus horizontes literários e aprofundar meus gostos. Na estante dos “livros a serem lidos”, divido-os em cinco grupos temáticos, aos quais vou recorrendo alternadamente, para atender assim a todo o espectro de leituras que julgo serem necessárias para que eu não me torne um leitor obtuso, preguiçoso, previsível.
As cinco divisões são as seguintes: clássicos da literatura universal (desde títulos consagrados pelas eras até trabalhos recentes que alcançaram projeção); obras de não-ficção (que versem sobre assuntos vários de meu interesse); literatura geral (tudo aquilo que por algum motivo me desperta a atenção); literatura brasileira (é preciso saber o que anda sendo – ou foi – produzido no país) e literatura local (é crucial conhecer os autores que produzem literatura em nossa própria aldeia). Isto posto, vou pirilampeando pelos volumes dispostos ordenadamente junto a seus respectivos grupos, puxando para perto aquele que o momento me induz a dar início à leitura.
Mas o que tenho percebido, no andar dos anos e das leituras, é que cada vez mais meu prazer em ler é recompensado pelos chamados clássicos da literatura universal. O termo “clássico” traz em si um ingrediente fundamental, que é a qualidade do texto, a profundidade da abordagem, a competência na caracterização dos personagens e das tramas. Como é bom ler o que é bom. Conferindo minhas anotações de leituras, detecto que, nos últimos 12 meses, tive a felicidade de debruçar minha alma sobre cinco dessas obras que me proporcionaram inesquecíveis momentos de fruição do melhor da arte da escrita, e que recomendo a todo o qualquer um que tenha o desejo de vivenciar a mesma experiência. Vamos a eles.
Começamos com “A Romana”, do italiano Alberto Moravia (1907-1990). Moravia, se não tivesse sido escritor, seria um psicólogo de primeira linha, tamanha a capacidade que possui de vasculhar a psiquê dos personagens que cria. É enternecedor e ao mesmo tempo angustiante acompanhar a vida da prostituta Adriana nessa obra que prima pelo estilo simples, direto e genial. Depois, passados alguns meses, fui para “A Boa Terra”, da autora norte-americana Pearl S. Buck (1892-1973), acompanhando a saga de vida do camponês chinês Wang Lung, em uma obra que marcou época por desvendar para o Ocidente os mistérios da cultura e das tradições chinesas.
Continuei a saga de leituras com “Orgulho e Preconceito”, da inglesa Jane Austen (1775-1817), precursora dos dramas de amor a partir de um texto refinadíssimo e também da construção convincente da personalidade de seus personagens. Na sequência, conferi a famosa novela “Morte em Veneza”, do alemão Thomas Mann (1875-1955) e, por fim, a também famosa novela do norte-americano Scott Fitzgerald (1896-1940), “O Grande Gatsby”, ambas lidando, em última instância, com as consequências da incapacidade de refrear impulsos hedonistas.
Além do prazer de saborear as mais belas páginas já escritas, o que esses autores nos presenteiam é com instrumentos para melhor conhecermos, por meio da leitura de suas tramas, as nuances da alma humana. E, por óbvio, a nós mesmos. Recomendo.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de agosto de 2011)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Vácuo nas estantes




É de menino que se torce o pepino, conforme já dizia minha avó, nos meus tempos de menino. Nunca vi, literalmente, ninguém torcer pepino algum. No entanto, o aforismo é um dos mais certeiros e criativos que já escutei, especialmente devido ao infinito grau de aplicabilidade que apresenta, servindo, inclusive, para fins de discussão sobre a importância da literatura na vida e na formação dos cidadãos, como se poderá ver aqui nessa coluna, esta vez.
Fiquei muito impressionado com os dados que li em uma reportagem publicada na imprensa nacional, em março deste ano, a respeito de um levantamento feito pelo do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2010, que envolveu 65 países ao redor do mundo. O objetivo da pesquisa foi detectar o grau de intimidade que os estudantes dos países avaliados demonstram com o objeto livro, e o Brasil, como infelizmente já era de se esperar, conquistou o pior desempenho possível. Os brasileirinhos lideram o ranking quando o assunto é medir a população de livros existentes nas casas em que eles moram. Lideram no quesito “estantes vazias”.
Ou seja, no Brasil, 39,5% das crianças e adolescentes disseram haver, no máximo, uma dezena de títulos em sua residência. Outros 30,4% admitiram que o número não supera os 25. Somente 8,1% convivem com mais de cem obras dentro de casa. São números que revelam a baixíssima intimidade que nossas crianças possuem com o artigo livro em suas moradas. É mais fácil haver aparelhos de televisão, DVDs, bolas de futebol, videogames etc do que livros dentro de casa. E isso por um único e preocupante motivo: seus pais não leem. Seus avós não liam. Seus tios e padrinhos também não leem. Os amiguinhos não leem. Os vizinhos não leem. E o que é pior de tudo: tampouco seus professores leem.
Não há como torcer o pepino se ninguém souber o que é um pepino, e se pepinos não forem levados para casa. Se nem mesmo os professores são leitores (e quando digo “leitores”, refiro-me à leitura sistematizada, contínua e habitual de literatura mesmo, não de livros técnicos), como é que vamos imaginar que pais e alunos o sejam? Ou o seu professor de matemática é leitor de Borges? Tomara que sim, tomara que sim...
Na fria, gélida, longínqua e pequena Islândia, conforme a pesquisa, mais da metade dos estudantes vivem em casas que possuem mais de cem livros em suas estantes. Já os índices brasileiros são piores do que Tunísia, México, Panamá, Quirguistão, Colômbia, Peru, Jordânia e Uruguai, para citar só alguns. Claro que apenas a simples presença de livros na estante não significa nada. Porém, a insistente inexistência de livros nas estantes dos lares brasileiros significa a certeza de que não formaremos gerações de leitores nem que a vaca tussa, ou que a porca torça o rabo, tudo antes de as vacas tossintes irem para o brejo na fazenda desprovida de pepinos torcidos.
Ainda bem que a pesquisa envolvia apenas 65 países. Ficamos na 65ª posição. Espero que não ampliem o leque dos países pesquisados no próximo ano. Mas ninguém precisa se envergonhar de nada. A pesquisa só foi publicada em jornal e por aqui ninguém lê nada mesmo. Problema que não é visto não incomoda, certo? O pepino não nos diz respeito, não é mesmo? E vamos lá, que logo chega nova versão do Playstation....
(Texto publicado na seção "Planeta Livro", da revista Acontece Sul, de Caxias do Sul, edição de maio de 2011)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Um alento aos leitores

Os catastrofistas de plantão provavelmente entraram em pânico no início de março deste ano, ao depararem com as notícias sobre o pedido de concordata feito pela cadeia de livrarias norte-americana Borders, com o consequente fechamento de 200 lojas (das 650 que possui) em todo o território daquele país. “É o fim dos tempos da literatura”, exclamaram alguns; “é a prova de que a morte dos livros não tem mais volta”, gemeram outros; “eu disse, eu disse, eu disse”, repetiram os pessimistas. Mas isso é o que dá restringir-se a ler apenas os títulos das notícias. É igual a julgar conhecer os meandros da Montanha Mágica de Thomas Mann só devido ao título, e supor que se trata de uma saga juvenil em que um mago poderoso treina jovens adolescentes no topo de uma colina. As coisas não são bem assim, como bem sabem quem leu A Montanha Mágica e quem analisou com mais cuidado os meandros das notícias.
É verdade que o fechamento súbito de 200 pontos de venda de livros de uma rede de livrarias representa um baque e um enxugamento claro no setor, afetando o cotidiano de leitores nos Estados Unidos. Mas não representa, por si só, o início de um efeito dominó que resulte, em tempo recorde, no sumiço das livrarias físicas em favor das virtuais e no banimento ao limbo dos livros impressos e palpáveis. Conforme mostram as notícias sobre a concordata da Borders, o problema foi consequência direta de má gestão financeira (mal que acomete empresas de todos os setores da economia, sem distinções) e imobilidade estratégica para se posicionar frente às novas demandas do mundo moderno. Ao frigir dos ovos, a Borders acusava dívidas de U$ 1,29 bilhão contra um patrimônio de U$ 1,27 bilhão. Devia mais do que possuía, igual aos brasileiros que fazem financiamentos para comprar camionetes de luxo e apartamentos duplex, mas não têm dinheiro na poupança nem para comprar um cotonete. Entenderam? Mesmo assim, a rede segue ainda com 450 lojas nos Estados Unidos, o que não é exatamente “pouca coisa”.
Mas bastou para tirar o sono de quem pensa que os livros vão acabar. Calma. As coisas não são bem assim. Para equilibrar a balança entre más e boas notícias, e devolver a paz no sono dos amantes dos livros, vale dar atenção à notícia divulgada também em março pela Associação Nacional de Livrarias (ANL), demonstrando que o mercado livreiro cresceu 9,6% no Brasil em 2010. Que tal essa? E sabe o que mais? A pesquisa, realizada anualmente no setor livreiro brasileiro pela ANL, demonstra também que 78,3% das livrarias no país pretendem fazer investimentos ao longo de 2011, que se concretizam na forma de capacitação profissional de seus funcionários, ampliações ou reformas nas lojas, mais tecnologia e abertura de novos pontos de venda. Bom, não? Isso sem falar no setor editorial brasileiro que segue firme e forte, com lançamentos de livros inundando as prateleiras a cada semana e editoras novas surgindo em todo o território nacional.
Se o livro vai desaparecer, aviso aos navegantes que não é para tão logo. Por enquanto, só me tiram mesmo o sono são os livros que desaparecem de minha estante quando os empresto e não me devolvem. Mas isso não é de hoje...
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, de Caxias do Sul, edição de abril de 2011)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Livros na tomada


A evolução tecnológica, que tantos bons frutos proporciona, traz consigo seus poréns, como bem sabemos todos que eventualmente temos de trocar um pneu furado (mas que maravilha os automóveis!), substituir a resistência do chuveiro (mas que conforto uma ducha quentinha!) ou mesmo aguentar os debates sobre o assassinato do Totó (mas que espetáculo a televisão!). Semana passada, enquanto vituperava contra o azar de ver-me um turno inteiro desprovido ao mesmo tempo dos serviços de telefonia fixa, internet e tevê a cabo devido a um problema técnico, fui brindado pela súbita compreensão de que os temores que alguns intelectuais sofrem frente ao pesadelo do possível desaparecimento dos livros impressos são completamente infundados. Pelo menos, enquanto dependermos de energia elétrica e de provedores externos para animar a grande maioria dos brinquedinhos que a tecnologia nos oferece.
Cheio de serviço como eu estava naquela fatídica manhã em que não podia acessar a internet, nem telefonar para minhas fontes e tampouco relaxar assistindo ao Multishow, o que foi que eu me vi fazendo? Lendo um livro. Não que eu somente pegue um livro para ler nas raras ocasiões em que a minha aparelhagem tecnológica dá xabú, longe disso. O que estou querendo dizer é que o objeto livro, como defende Umberto Eco na obra “Não Contem Com o Fim do Livro”, é uma invenção acabada, pronta, tão genial quanto a colher e a roda, e não tem mais para onde avançar; não existem “melhorias tecnológicas” a serem efetuadas sobre ele.
Os Kindles e os iPads, aparelhinhos ultramodernos que permitem baixar livros (e-books) pela internet, acumular uma biblioteca inteira na memória e transportá-la com facilidade, não representam nem a evolução e tampouco a morte dos livros impressos. Representam outra coisa, outra invenção, outra plataforma de comunicação, que vai encontrar o seu lugar no mundo. Os livros da minha estante não precisam de bateria e nem de energia elétrica para serem acessados. Posso lê-los longe de uma tomada, e, se faltar luz, ligo uma lanterna ou acendo uma vela e sigo a leitura, da mesma forma como meu bisavô fazia. Mesmo assim, não vejo a hora de adquirir meu iPad...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de janeiro de 2011)