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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Os sete neopecados

Luxúria, preguiça, inveja, ira, gula, avareza e soberba. Todos conhecem esses sete atributos, ou melhor, esses sete defeitos da condição humana, agrupados há séculos sob o conceito de pecados capitais, ou seja, erros difíceis de serem perdoados aos olhos da maioria das religiões. Se são difíceis de serem perdoados, fica intrinsicamente dado o alerta de que o melhor mesmo seria evitá-los.
Segundo o teólogo e monge grego Evágrio Pôntico (345 a 399 d.C.), essas deturpadas paixões humanas seriam o resultado de desequilíbrios que a ausência do divino provocaria nas pessoas. A luxúria seria o resultado do desequilíbrio na esfera do prazer e do sexo. A gula seria um desequilíbrio da alimentação; o orgulho, um desequilíbrio da autoestima e assim por diante. Com o passar dos séculos, os pecados capitais perderam o peso de condenações divinas para assumirem um papel de desvios comportamentais sociais a serem tratados especialmente nos divãs dos psicanalistas.
Claro, seguem valendo, seguem preocupando e suas consequências ainda podem trazer efeitos devastadores aqui mesmo nessa vida. Excesso de ira pode levar à cadeia; preguiça em demasia pode resultar em derrocada financeira; muita gula ameaça a saúde; luxúria demais pode trazer doenças e complicações passionais; inveja corrói por dentro; avareza afasta as pessoas e soberba produz antimarketing pessoal.

Mas nesses nossos tempos modernos, as notícias vindas pela mídia e a nossa própria experiência pessoal diária parecem apontar o surgimento de outro septeto de defeitos de caráter humano, que poderiam ser classificados como “Os Sete Pecados Atuais”. A meu ver, são esses: Intolerância (berço de aberrações como homofobia e racismo), Violência; Leviandade; Individualismo; Desamor; Materialismo e Imediatismo. As más notícias que nos chegam ao conhecimento todos os dias decorrem desses fatores que, a julgar pelas consequências nefastas que trazem, configuram-se em males maiores do que apenas pecados. Se o inferno religioso anda preocupando a poucos, o inferno na Terra é uma realidade perigosa que precisa ser duramente combatida.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de setembro de 2015)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O tribunal apressadinho

O imediatismo e a pressa, essa dobradinha de mesmo sangue que caracteriza a época em que vivemos, tem lá suas benesses, mas também engendra armadilhas em relação às quais seria saudável manter-se atento. Esses conceitos, que parecem pautar o mundo e a vida particular de cada um de nós, nos dão a impressão de estarmos inseridos em um contexto único na história da humanidade, em que as transformações são tão rápidas que, se piscarmos os olhos, passarão por nós sem que as tenhamos percebido e corremos o risco de perdermos o bonde.
Daí a tal da ansiedade que gruda em nossas costas desde o instante em que saltamos da cama de manhã até a hora de retornarmos a ela à noite, rezando para que ao menos os sonhos nos transportem para aquela ilha serena e deserta, o que nem sempre acontece. Daí advém boa parte dos males físicos e espirituais que passam a encontrar habitat convidativo em nossos corpos e mentes.
Bom, mas isso é só um aspecto da coisa toda. Outro, também decorrente da pressa e do imediatismo, diz respeito à nossa atual tendência de julgarmos as coisas superficialmente, de forma instantânea, adotando certezas e razões sem a devida avaliação ponderada que a maioria dos assuntos da vida requer. Estamos nos tornando imediatistas em nossa capacidade de julgar e de avaliar o mundo, e isso, sim, traz consequências preocupantes para o perfil da sociedade que estamos moldando nesse início de novo milênio.
Ao mesmo tempo em que não paramos mais para nos alimentar direito, não paramos mais para aprimorar nossos espíritos lendo e meditando, não paramos mais para cultivar nossas relações reais com as pessoas (redes sociais virtuais são o engodo do século nesse aspecto), não paramos mais para respirar o pulsar da vida, também não paramos mais para analisar com profundidade a avalanche de informações que nos são despejadas todos os dias, por todos os lados. Mesmo assim, não represamos nossa tendência natural de nos posicionarmos a respeito delas, julgando tudo superficialmente e ampliando os riscos de produzir e reproduzir julgamentos equivocados.

Nos transformamos em maniqueístas instantâneos. Sem maiores reflexões, somos rápidos em rotular as pessoas como boas ou más, os fatos como certos ou errados, e pronto, feito isso, vamos para cima. E daí surgem as monstruosidades que vão encharcando os noticiários com fatos horrorosos. Não por culpa dos noticiários, mas sim por culpa de quem protagoniza esses fatos. Ou seja: nós mesmos. Que tal pararmos para pensar um pouquinho, de vez em quando?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de maio de 2014)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Carol e os dinossauros

Pois é, eu não acredito em dinossauros. Não adianta, não adianta: não acredito. Já fui fascinado por esses bichos pré-históricos nos tempos da minha (também mesozóica) infância, mas hoje, quanto mais velho fico, menos fé neles deposito. Por que é que não consigo acreditar na veracidade desses esqueletos encontrados quase intactos nos mais diferentes pontos do planeta? Mas o que há de errado com meu aplicativo de crença? Será que precisa ser baixado de novo?
Lembro-me das figuras que ilustravam os livros de história e de biologia nos quais estudávamos no primeiro grau (na Era Mesozóica, que habitei, o ensino fundamental se chamava primeiro grau), mostrando que o petróleo, sugado por possantes máquinas lá do fundo dos desertos e dos oceanos, era um líquido viscoso fruto da sedimentação orgânica de restos de dinossauros. Ou seja: nos locomoveríamos em nossos automóveis hoje em dia enfiando dentro dos tanques um mingau de dinossauros. Balela! Eu, hein? Petróleo é petróleo assim como ouro é ouro, rabanete é rabanete, uma rosa é uma rosa e a Carol Portaluppi é a Carol Portaluppi. Falando em Carol Portaluppi, o que é que ela tem a ver com dinossauros? Nada, né, e deixemo-la de fora disso.
Eu não sei como é que se deu esse processo de eu ir desacreditando nos dinossauros ao longo dos anos de minha jurássica existência. Os pedacinhos da fé que eu tinha neles devem ter ido se desprendendo aos poucos e se estilhaçando nas calçadas da vida junto com minhas crenças nas religiões, na reencarnação, na vida depois da vida, nos discos voadores, no Papai Noel, na revolução socialista, no trotskismo, na fraternidade universal, nos números da mega-sena, nos partidos políticos, no Cid Moreira, na ONU, na boa fé alheia, nas relações desinteressadas, na previsão do tempo, no último reforço pro meu time, no respeito ao consumidor, na velocidade de minha banda larga, na digna aposentadoria do brasileiro, no crescimento espiritual da humanidade. No Bicho-Papão e no Lobo Mau eu ainda acredito, porque tenho encontrado diversos exemplares dessas espécies por aí, camuflados sob os disfarces mais variados, inusitados e inesperados.

Acredito na Carol Portaluppi, por enquanto. Mas, por favor, não me venham mais com dinossauros.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de julho de 2013) 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Um dia cinzento


Hoje acordei num daqueles dias em que me vejo meio pessimista em relação à humanidade, devido ao acúmulo de más notícias que me chegam por todos os lados, relativas a fatos escabrosos ocorridos em minha cidade, em meu estado, no país em que vivo, no planeta que habito. Sei que a culpa pelas notícias ruins não é da imprensa, que tem a obrigação profissional de divulgá-las, mas sim da própria humanidade, que parece   cada vez mais empenhada em produzi-las e protagonizá-las.
Corrupção, fraudes, estelionatos, violência, terrorismo, crimes brutais, trânsito assassino, egoísmo, trapaças, ganância, materialismo, individualismo, mentiras, brigas, ofensas... A sensação às vezes é de que a coisa saiu definitivamente de controle. Instaurou-se o “salve-se quem puder”. Angústia, medo, aflição, desesperança, abandono, são as sensações que me assolam em dias em que acordo assim. Sequer sou amigo do bispo, para ter o consolo de ir me queixar a ele.
Muitos foram os cineastas e escritores que, ao projetarem o futuro da humanidade em suas obras, sob o pano de fundo das evoluções tecnológicas, se dedicaram a antever o possível caos em que a sociedade corria o risco de mergulhar. Um caos de violência, de gangues armadas, de ausência de leis, de cidadania, de ética, de valores que permitem a civilizada e sadia convivência humana. Ao pensar nisso, dois títulos me vêm logo à mente: “Laranja Mecânica” (1971), de Stanley Kubrick, a partir da obra de Anthony Burguess; e “Blade Runner” (1982), de Ridley Scott, inspirado em um texto de Philip K. Dick.
Basta rever as duas películas para ser possuído pela perturbadora impressão de que as sensações de angústia, medo, insegurança e claustrofobia geradas pelos filmes se equivalem cada vez mais aos sentimentos que nos acometem nos dias sombrios de hoje, ao sermos confrontados com a vilania humana que saiu dos cinemas e das ficções de horror para pular as cercas de nossos quintais e bater às nossas portas. Poucos anos atrás, perdíamos o sono temendo uma guerra atômica. Hoje, tememos é a explosão de violência e incivilidade que reside latente no íntimo de quem nos cruza ao lado.
Mas nem tudo é tão cinza. Amanhã posso acordar sintonizado em passarinhos...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de maio de 2013)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Nunca dá nada


O brasileiro ainda é um cidadão imaturo que adora brincar com fogo, mas não gosta de se queimar. E, quando isso ocorre, apesar dos insistentes avisos preventivos recebidos, se julga injustiçado. A analogia é triste, mas se impõe às vésperas de completar uma semana a tragédia de Santa Maria, que interrompeu a vida de mais de 200 jovens na madrugada do último domingo.
A sucessão de imprevidências que culminou na transformação da boate Kiss em uma armadilha mortal deriva, em seu conjunto e essência, de um pecado capital que rege a conduta e a visão de mundo da maioria dos brasileiros, fator gerador de diversos males: a inconsequência. Faz parte da (in)cultura nacional ser inconsequente, acreditar vivamente que a transgressão das regras não dá em nada, não gera reações. Mas quando algo sai errado e o ato inconsequente colhe os seus lógicos frutos, eles invariavelmente são trágicos e poderiam, sim, terem sido evitados.
É o velho pensamento de que “não vai dar nada”. Não vai dar nada soltar foguetes pirotécnicos durante o show, dentro da boate, afinal, sempre fizeram isso e nunca deu nada. Até que deu. Não vai dar nada seguir funcionando, mesmo com alvará vencido há seis meses. Até que deu. Não vai dar nada deixar de treinar os funcionários para atuar em caso de tumulto. Até que deu. Não vai dar nada hoje, mesmo que não se verifique a condição dos extintores de incêndio. Até que deu. Também não vai dar nada dirigir em alta velocidade, ou embriagado, ou ultrapassar em local proibido. Sempre se fez e nunca deu nada. Até que dá. Não dá nada ter cachorro irado em casa, pois ele nunca atacou ninguém. Até o dia em que estraçalha o filho do vizinho ou a garganta do próprio dono.
Nunca vai dar nada. Nós, brasileiros, somos super-humanos, as leis são enfeites pirotécnicos que estão aí para serem molequemente burladas por nós todos, com risinhos safadinhos, porque nunca dá nada. Até o dia em que dá. É quando queimamos a mão em decorrência da nossa soberba e inconsequência crônicas. E aí quem paga a fatura, na maioria dos casos, são justamente os inocentes, porque, um dia, acaba dando em algo. O que não dá mais é sempre tudo acabar em pizza. Que não seja esse o caso.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de fevereiro de 2013)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Goleada didática

Muito se falou, ao longo desta semana, sobre uma suposta “aula de futebol” que o time do Santos – e por tabela todo o Brasil – teria recebido em campo do Barcelona, no último domingo, na partida decisiva pelo Mundial de Clubes da Fifa, disputada no Japão. Após definir o placar em quatro a zero a seu favor (e poderia ter sido mais, como todos os que assistiram à partida, como eu, perceberam), o Barcelona levou o título e os aplausos pela qualidade do espetáculo futebolístico apresentado.
Mas o que aconteceu naquela manhã de domingo foi, em termos de futebol, apenas isso: um espetáculo. Em momento algum houve ali uma “aula” de futebol. O Brasil, leitores, convenhamos, não precisa de nenhuma “aula de futebol”. Isso é um daqueles jargões de efeito que um comentarista televisivo expele no calor do momento e, devido à criatividade intrínseca, logo se transforma em mantra repetido a torto e a direito, de norte a sul, sem nenhum pingo de reflexão. Reflitamos, então, agora, um pouco.
O Brasil não precisa de “aula de futebol”. Leva-se a sério o futebol neste país há mais de um século. Existem agremiações profissionais dedicadas à prática, ao ensino, ao treino, ao cultivo e à formação de jogadores no nobre esporte bretão em nosso país tropical e lindo por natureza desde a alvorada do século passado. Somos detentores de cinco títulos mundiais, marca até agora inigualada por ninguém outro no planeta, e a qualidade dos jogadores com RG brasileiro é cobiçada e reconhecida nos quatro continentes. Não precisamos de “aula de futebol”.
Precisamos, sim, é da verdadeira lição que o Barcelona deu em campo a todo o Brasil na manhã do último domingo. Que foi, em resumo, uma aula completa de profissionalismo, de seriedade, de comprometimento, de envolvimento, de trabalho em conjunto, de cidadania, de proatividade, de humildade, de foco, de abnegação, de método, de maturidade. Essa foi a verdadeira lição, e não poderia ser diferente, uma vez que, como também se repete à exaustão por aqui, “o futebol imita a vida”. O furo foi bem mais embaixo, senhoras e senhores. Precisamos abrir os olhos e perceber que nós, brasileiros, andamos levando goleada do mundo em muitos aspectos. Até no futebol.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de dezembro de 2011)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A utilidade do dedo

(Todos os meus dedões em ação, tentando domar a esperteza de meu telefone esperto)


Enfim, ingressei na era digital. E isso literalmente falando, porque quem me conduziu a esse novo status foi meu dedão da mão direita, que se revelou um expert em questões digitais. Agora pertenço à casta dos cidadãos planetários que utilizam o dedão para se comunicar com o mundo, dedilhando com ele as teclas do meu moderníssimo telefone celular. Ele, meu dedão, entrou em cena na condição de protagonista desde que ganhei um smartphone, que, como sugere o nome estrangeirado do aparelho, trata-se de um telefone celular esperto, cujos comandos respondem ao toque do dedo na tela (isso se chama touchscreen, ok?).
Sempre invejava a inserção tecnológica representada pela galera que manipulava seus celulares usando com destreza o dedão da própria mão que segura o aparelho. Orangotangos não conseguem fazer isso, e eu me sentia um orangotango. Mas agora desci das árvores e estou inserido via meu dedão, que, após 45 anos de existência, ganhou uma função a mais: colocar-me em contato com o hodierno mundo das comunicações.
Antes, meu dedão servia para poucas e simples funções, como produzir o sinal de “positivo” quando desejava mostrar satisfação com algo, ou de “negativo” para aplicar em situações contrárias. Ele também era fundamental para represar todos os demais dedos na posição de punho fechado sempre que eu me indignava com notícias políticas cabeludas. Agora, ele toca suavemente a tela de meu smartphone para abrir e-mails, tirar fotos, fazer ligações, navegar na internet etc. Refinou-se no uso, esse meu dedão.
Mas o problema é que ele continua sendo um grosso. Apesar de inserido tecnologicamente, segue sendo o grosso dedão que sempre foi, e insiste, devido à grossura que lhe é peculiar, em apertar duas ou três teclas ao mesmo tempo na delicada tela, causando-me constantes embaraços tecnológicos. Acabo telefonando para quem não quero, desligando o telefone na hora de aceitar uma chamada, apagando e-mail importante, desconfigurando o despertador e assim por diante. Tenho tentado colocar o dedinho nessas tarefas, mas as cãibras na mão têm me matado. Acho que não fui projetado anatomicamente para navegar com facilidade nesse admirável mundo novo digital...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de setembro de 2011)

domingo, 12 de junho de 2011

Compre um tanque

Vamos conversar sobre algumas obviedades que, apesar de serem óbvias, parecem às vezes esquecidas pelos (pseudo) cidadãos que infestam as ruas e estradas de nossas cidades serranas. Uma obviedade, quando esquecida, na verdade está sendo é deliberadamente negligenciada, porque obviedades não se esquece, é óbvio. Aí, quando se faz de conta que foram esquecidas, não se trata de esquecimento real, mas sim de sem-vergonhice mesmo.
A obviedade da civilidade no trânsito, por exemplo. Foi-se para as cucuias, junto com o espaço para transitar. É verdade que o tráfego está caótico nas cidades e nas estradas; que há veículos demais e alternativas viárias de menos; que o engarrafamento é uma constante; que não há vagas para estacionar apesar dos estacionamentos rotativos e das garagens pagas; que isso tudo gera ansiedade e estresse nos motoristas que, por isso mesmo, acabam dirigindo ainda pior. Tudo isso é verdade. Porém, nada disso justifica incivilizar-se ainda mais, assumir deliberadamente a barbárie e intensificá-la.
Tenho percebido que alguns (pseudo) cidadãos estão optando por adquirir caminhonetes enormes como se elas fossem a alternativa individual para se blindarem contra os estresses do trânsito. Pior do que isso: ao ligarem os motores e saírem às ruas, dirigem como se fossem os donos do pedaço, como se as regras de trânsito não mais se aplicassem a eles e seus bólidos. Como se tamanho passasse a ser documento, e não mais a carteira de motorista, que ainda suponho que possuem. Enfiar a carcaça motorizada por cima dos demais, abrir espaço a força, ignorar as leis da preferência é o que passa a ser a preferência de muitos desses condutores, que se julgam protegidos pela altura e pelas dimensões reforçadas do veículo que (mal) conduzem.
Não são todos, eu sei, e a culpa da guerra no trânsito não é só deles. Mas são muitos, o suficiente para gerarem um comportamento padrão e facilmente detectável. Calma, gente. Lamento informar e ter de dizer o óbvio, mas a solução para o problema comum e geral não é a aquisição de brucutus sobre rodas para enfiá-los por cima dos outros, abrindo alas à força. Isso, no final das contas, só reflete o perfil brucutu de quem os dirige.
Porém, se a ideia é mesmo essa e vingar, não vou ficar aqui chorando as pitangas. Vou abrir uma revenda de patrolas com ar-condicionado e de tanques de guerra com air-bag para circulação urbana, antes que outro empreendedor o faça e roube minha pioneira iniciativa.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 10 de junho de 2011)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Bilhões fazem pensar

Precisamos ser mais humildes em relação à importância que conferimos a nós mesmos enquanto seres individuais e enquanto espécie. Humildade significa consciência a respeito de seu real valor e significado perante a existência, e maior consciência representa libertação interior, tolerância e mais capacitação para aprimorar a convivência com nossos iguais. A humildade, analisando as coisas sob esse prisma, pode ser o mais eficaz instrumento de promoção da cidadania de que a civilização humana já dispôs. Fomentados especialmente pelas religiões e mesmo pelas conquistas científicas decorrentes do cultivo do pensamento lógico e cerebral, nós, seres humanos, temos a tendência de cultivar uma autoimagem estratosfericamente positiva a respeito de nós mesmos. Achamos que somos maravilhosos a ponto de sermos os donos do pedaço, e julgamos, entre outras coisas, ser plausível a crença de que ou somos imortais, ou viveremos em algum outro plano de existência após nossas mortes terrenas, ou reencarnaremos ou qualquer outra coisa semelhante que a divina providência (que só existe para atender às nossas vontades humanas, como bem sabemos) providencialmente providenciou para nós, esses seres tão fantásticos e indispensáveis que somos. Alta autoestima, dizem os psicólogos, não faz mal a ninguém. Porém, prepotência crônica pode levar à autodestruição. Vamos analisar uma coisinha, para fazer um pouco de água nesse canteiro de rosas filosófico em que nos embretamos. Segundo estimativas feitas pelo Population Reference Bureau, uma agência americana especializada em pesquisas relativas a questões populacionais, desde o surgimento da raça humana até os dias de hoje já viveram cerca de 107 bilhões de pessoas sobre a Terra. Usando-se como parâmetro a (super)população atual de humanos do planeta – cerca de 7 bilhões -, é fácil dimensionar que o número de indivíduos que já passeou por essas plagas é realmente enorme. Cabe tudo isso no céu, pergunto eu? 107 bilhões de pessoas se acotovelando lá entre as nuvens, engarrafando, sujando e tumultuando o paraíso? Nossa... é gente, hein? Sem falar que, desses 107 bilhões de seres, quantos deles deixaram algum sinal relativo à sua passagem pela vida? A mais absoluta maioria (99,999999%, talvez) nasceu, viveu, sofreu, sonhou e morreu sem imprimir nenhuma marca na história. Seus corpos viraram pó e sua lembrança virou fumaça. Dá no que pensar, não é mesmo? Para mim, isso tudo funciona como um bálsamo. Humildemente consciente de minha insignificância e de minha inegociável finitude, procuro aproveitar o milagre que me foi concedido e viver uma vida o mais plena possível, valorizando-a ao máximo e também a de meus semelhantes, companheiros de inexplicável aventura, respeitando-os de forma cidadã. Deveria bastar essa percepção para que o mundo fosse um lugar mais agradável e tolerante para vivermos essa tão curta, única e instigante experiência que é a vida. Se assim fosse, tenho convicção de que muita porcaria poderia ser evitada e banida de nossos noticiários. (Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 15 de abril de 2011)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Pudicos ou libidinosos?


Estou estarrecido com os mais recentes dados a respeito do desenfreado crescimento populacional que nos conduzirá, até 2012, à marca dos 7 bilhões de seres humanos no planeta. Pipocam novas pessoinhas no mundo ao ritmo de cinco nascimentos por segundo, conforme números divulgados por institutos internacionais de pesquisa demográfica. Como o índice de mortes é de duas pessoas por segundo, é esse saldo positivo de três que vai nos empurrando para um nível de superpopulação que me faz concluir uma só coisa: somos uma espécie vidrada em sexo.
Ora, cinco pessoas nascendo por segundo é a consequência de cinco atos sexuais que resultaram em óvulos fecundados com sucesso. Em um minuto, são 300 atos sexuais iguais a esses. Em uma hora, 18 mil. Em um dia, 432 mil atos sexuais que resultaram (ou resultarão, daqui a nove meses) em óvulos fecundados que proporcionarão gestações sem percalços e darão à luz novos seres humanos. Mas esse número não abarca a quantidade de atos sexuais realizados no mundo nesse mesmo período, pois, como bem sabemos, nem todo (na verdade, pequena parte) ato sexual resulta numa gravidez. O que leva à óbvia conclusão de que nós, seres humanos, praticamos muito mais do que apenas cinco atos sexuais por segundo ao redor do planeta. Façamos uma projeção empírica para ver onde nossa especulação é capaz de nos levar.
Digamos que o número de atos sexuais que resultam na fertilização de óvulos que, mais tarde, não se concretizarão em nascimentos devido a problemas de gestação, seja, pelo menos, o dobro do que o número inicial. Isso nos levaria a dez atos sexuais por segundo. Já é o suficiente para dobrar toda a conta e chegar a 864 mil atos sexuais por dia. Mas vamos além: acrescente aí o número de relações praticadas entre homens e mulheres sem preservativos, que derivem em ejaculações que simplesmente não fertilizem os óvulos. Dupliquemos, empiricamente, o número anterior, e vamos a 20 atos sexuais por segundo. O que nos dá 1.728.000 atos sexuais por dia. Junte agora, em um mesmo índice, todos os atos sexuais praticados utilizando-se algum tipo de método anticoncepcional, mais todos os atos sexuais em suas variadas formas que não contemplam como consequência a possibilidade de concepção e duplique o índice mais uma vez.
Pronto. Em minha pesquisa empírica e chutométrica, chego ao estarrecedor índice de 3.456.000 atos sexuais praticados ao redor do planeta por dia. Arredondemos o número para três milhões e meio de intercursos sexuais realizados por dia, na Terra. Levando-se em conta a convicção de que quase a totalidade desses atos é praticada entre dois indivíduos (rarissimamente mais do que isso), temos 7 milhões de pessoas dedicadas ao sexo em um dia no planeta. Somos uma raça libidinosa. Ou não? Espere um pouco.
Se somos quase 7 bilhões de seres humanos, 10% de nossa população representa 700 milhões de pessoas. E 1% significa 70 milhões. Logo, os tais dos 7 milhões de indivíduos copulantes a cada 24 horas não representam mais do que 0,1% da população planetária divertindo-se por dia nas delícias das alcovas. Os demais dormem, leem ou assistem ao BBB. Somos, a bem da verdade, portanto, uma espécie extremamente pudica. Viram como os números enganam?
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 4 de fevereiro de 2011)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Raízes enfermas

Uma das lições que o episódio do soterramento dos mineiros chilenos nos deixou é a compreensão de que o furo pode ser sempre bem mais embaixo. Nas duas últimas semanas, escrevi aqui sobre minha constante preocupação com alguns fenômenos sociais cada vez mais presentes em nosso cotidiano: os maus motoristas, os maus pedestres, as pessoas que só pensam em si próprias, integrantes de um movimento que batizei de “eucomiguismo” (pessoas que só pensam e agem de acordo com o “eu comigo”).
Mas a partir das manifestações dos leitores a respeito do assunto, refleti um pouco mais e percebi que, na verdade, tanto os maus motoristas quanto os maus pedestres, e outras criaturas congêneres, são todos frutos podres de uma mesma raiz adoentada, denominada mau cidadão. A partir do momento em que o sujeito (ou a sujeita, porque elas, tanto quanto eles, engrossam as fileiras dessa categoria humana, infelizmente) tem, em sua essência pessoal, o vírus da má cidadania a conduzir suas atitudes, todas as manifestações sociais que decorrerem de seus atos irão se enquadrar no amplo espectro do “eucomiguismo”. Nossa sociedade está cada vez mais engarrafada de maus cidadãos, transformando a convivência social em um suplício diário.
É o mau cidadão quem produz o mau motorista e o mau pedestre. Assim como é o mau cidadão quem produz o mau vizinho, o mau aluno, o mau professor. O mau cidadão são os maus pais, as más mães, os maus filhos. Vêm das raízes enfermas da má cidadania os frutos azedos dos maus chefes, dos maus patrões, dos maus funcionários, dos maus colegas. Mas não “maus” sob o aspecto da pouca competência para tais atribuições, e sim “maus” pelo quesito ético mesmo. É a condição de mau cidadão a nascente dos rios de maus políticos e de maus eleitores, de maus profissionais e de maus clientes, e ainda de maus comerciantes e de maus empresários, de maus servidores públicos e de maus profissionais privados.
Basta olhar ao redor. Os maus cidadãos estão a dois passos, muito perto. Às vezes, dentro de sua própria casa. Pior de tudo é quando ele aparece todas as vezes em que você acessa um espelho. Reconhecê-lo, talvez, seja o primeiro passo para exorcizá-lo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de janeiro de 2011)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A palavra que começa com "c"

Há uma tendência sórdida pairando nos ares do país nos últimos tempos, e seria conveniente a gente prestar atenção a isso e dar um pára-te-quieto enquanto ainda é tempo, antes de o caldo entornar e antes que derrame-se o leite. Trata-se das tentativas de resgate da censura, que vêm sendo impetradas de norte a sul no país, em diversas esferas, movidas pelos mais diversos agentes, sempre em nome de uma discutível questão ética.
Só para ficar em exemplos recentes, vale lembrar da tentativa de censura do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, que deveria ser banido das salas de aula por “conter conteúdo racista” em suas páginas. Fica mais fácil para os pseudo-guardiães da ética promover o exílio da obra do que aproveitá-la justamente para estimular em sala de aula o debate sobre a intolerância e a evolução dos conceitos morais e éticos, e de como uma ideia equivocada pode influenciar até mesmo os grandes talentos de determinada época. Mas nada de discussão, o que defendem é a censura pura e simples.
Agora andam querendo aplicar censura a filmes como “Tropa de Elite 2”, retirando a recomendação de faixa etária (“não-apropriado para menores de...”) e simplesmente impondo restrição ao acesso mesmo, ou seja, censura. Em nome da preservação dos menores de 16 anos às cenas de violência do filme. Ora, tem graça. Esses mesmos que defendem a censura ao filme devido às cenas de violência, que movam então seus esforços para banir a prática da violência na vida real, que está à solta nas ruas, nas escolas, nos shoppings, na internet, no mundo todo.
Sou contra a violência. Sou contra o racismo. Sou contra a erotização precoce. E sou violentamente contra a censura. As mazelas da sociedade, soluciona-se com debate, com discussão, aclarando as mentes, não tapando sóis com peneiras. A censura é o instrumento dos nazistas, dos fascistas, dos golpistas, dos ditadores, dos intolerantes, da Ku-Klux-Klan e de outros malfeitores históricos.
Vivemos a Era da Informação. Não dá para fazer de conta que não existiu e não existe racismo ou violência. São males que existem. Devemos conhecê-los, identificá-los, nos proteger deles, combatê-los e transformá-los. Com debate, com discussão aberta, com consciência, com informação irrestrita. Censura me causa comichões. Me dá náuseas. Me faz lembrar de José Sarney, que conseguiu censurar o último filme no Brasil, “Je Vous Salue, Marie”, de Goddard, por motivos religiosos, na década de 80. Uma atitude abestalhada e de triste recordação. Mas tem gente com saudades daquela época, como pode-se perceber.
Depois não sabem por que ranjo os dentes à noite...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 26/11/2010)