segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Quem brinca com fogo...


Olha só madama, que coisa menos linda, que bela desgraça, é essa desdita que vem e não passa, num triste balanço a caminho do mal. Sim, sim, estou me referindo a essa onda que ancorou aqui nesse nosso Brasil nos últimos tempos e que insiste em não ir embora: a de vira e mexe alguns aqui, outros acolá, acharem que têm o direito de ditar censura a obras de arte, julgando que somos criancinhas que devem ser tuteladas em suas capacidades de julgar o que é bom e o que é ruim, o que é estético e o que não é, o que tem bom gosto e o que não tem. Mau gosto, madama, é acharem que podem sequestrar o meu direito de acesso à cultura e às artes, o meu poder de julgar e avaliar por conta própria, de acordo com meus próprios parâmetros.
Hitler, aquele do bigode e das raivas assassinas, mandou queimar livros. E onde se queimam livros, né, madama, logo se passa a queimar pessoas. A História está aí, para ensinar; a memória, para lembrar; e o bom senso, para nos ajudar a evitar que se repitam barbáries. O andar do processo civilizatório não pode ter a opção da marcha-a-ré. Cabe a nós darmos um freio naqueles que miram o retorno às trevas. Mas é preciso estar alerta, porque sempre aparece um novo Torquemada ou um novo Goebbels querendo extinguir os nossos direitos. Mas não passarão! Até porque, já compilei uma listinha de livros que inspiram essa gente, a serem também banidos de nossas prateleiras. Veja se a senhora concorda:
O primeiro a ir para a fogueira é o “Dom Picote”, aquela obra em que um censor anda a cavalo pela região da Mancha Gráfica, de lança em punho, picotando livros de autores consagrados, acompanhado de seu assessor acéfalo, o Sancho Tança. Outro é “A Malvina Tragédia”, em que o autor, Dante Tristieri, percorre Inferno, Purgatório e Paraíso destruindo todos os livros que encontra pela frente. Baniremos o antigo “Maudisseia”, escrito pelo grego Maumero, que traz a saga de Maulisses singrando mares e mundos a caçar escritores e livros. No âmbito da literatura nacional, destruiremos o clássico “Dom Censuro”, de Mauchado de Assaz, que nos lega a eterna dúvida sobre a conduta da personagem Vemcapitu: ela censurou ou não cesurou? “A Censura Mágica”, de Thomas Mau, eliminaremos sem dó nem piedade. Não escapará de nossa sanha piromaníaca o aclamado “Ensaio Sobre a Fogueira”, de Josué Salamargo, e daremos fim ao “Fogueira Arcaica”, do Radão Assar. Assim, madama, faremos uma limpa na biblioteca básica dos censores de plantão. Claro, não sei se vai adiantar muito, porque, afinal... censorzinho ditatorial sabe ler, hein?
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 17 de fevereiro de 2020)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Venha o pien ao prato meu


          Meus olhos brilharam no momento em que a travessa contendo meia dúzia de rodelinhas de pien atracou na nossa mesa em meio à profusão de delícias que eram arremessadas pelo garçom à nossa frente, ao ritmo da descrição automática que fazia de cada iguaria: “bígoli ao molho de pomodori, frango à passarinho, polenta brustolada, polenta frita, polenta recheada, maionese, radicci com bacon (ahhh, o radicci com bacon!!), tortéi, costelinhas de porco, queijo à milanesa, linguiça frita...”. Tudo isso após a première proporcionada pela panelona de sopa de agnoline al dente (ou será que era capeletti?), guarnecida por fofas fatias de pão colonial (aquela casca queimadinha...) e chuviscada com vigorosos arremessos de queijo ralado.
Esse festival de sabores, aromas, cores e texturas gastronômicas, tão comum nas cantinas tradicionais e típicas da região da Serra Gaúcha, faz o deleite de turistas e de nativos, que não se cansam de, de quando em vez, ou mesmo de vez em quando (que representa uma frequência maior), proporcionarem a si mesmos esses rituais de homenagem à gula, que, quando bem domesticada, pode se transformar em prazer perene e não em perigo iminente. Mas nós, nativos emprestados, oriundos de outras paragens e serranos por adoção e opção, também nos unimos a essa horda de apreciadores da gastronomia regional, caracterizada pelo assemblage sutil que mistura simplicidade com toques secretos especiais herdados de nona a nona. Certo, mas, o pien... Esse, um pouco mais raro de figurar na lista das delícias dos restaurantes, sempre que aterrissa à minha frente, faz meus olhos lacrimejarem. Mas não, madama, não chego a chorar de prazer. É a saliva mesmo que, de tão abundante, procura outros lugares para se manifestar além da boca, já totalmente inundada na antecipação do degustar da iguaria, que só vim a conhecer pela aqui, desde que passei a habitar estas paragens, quase 28 anos atrás. Ah, o pien!
Também foi ao passar a viver na Serra Gaúcha que desenvolvi o gosto pela carne lessa, pelo vinho doce oriundo das vindimas, pelo café preto pingado com graspa (há amigos serranos que tentam me aliciar ao grupo dos que invertem as doses, pingando sutis colherinhas de café preto nas generosas taças de graspa, mas minha finada vesícula me recomenda, do além, a evitar tais excentricidades), o galeto al primo canto e tantas outras atrações. Ainda não fui convertido ao crem e tampouco ao codeguin, mas o pien, madama... Ah, o pien, é pérola em rodelinhas a povoar de estrelas o céu de mina boca! Quem disse que não há poesia na hora de mangiar?
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 10 de fevereiro de 2020)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Milagres na própria aldeia


Se santo de casa continua não fazendo milagre, prefiro concluir que o problema não reside tanto no santo, mas mais na incapacidade dos fieis de detectar, reconhecer e se beneficiar com os poderes e os talentos do santo local. Santos e artistas são as categorias que mais sofrem com essa reincidente ideia de que tudo o que  vem de fora é melhor do que aquilo que foi gestado dentro dos limites geográficos de nossa aldeia, como se nossa aldeia não fosse capaz de reunir os elementos necessários para a emersão de genialidades muitas vezes até superiores às dos santos e artistas de alhures.
Dia desses, madama, presenciei in loco a repetição do mantra. Estava eu a aguardar algumas pessoas para uma reunião ali no Centro de Cultura Henrique Ordovás Filho e, como havia chegado antes do horário, aproveitei para apreciar as duas exposições de artes plásticas que ocupavam os espaços do ambiente. Uma, em um corredor, abrigava obras de artistas de Vacaria, compostas por telas que me impressionaram pela contundência, pela sensibilidade, pelo inusitado. A outra, ocupando a área da galeria principal, exibia desenhos e telas de um artista carioca, em um trabalho interessante, mas que me causou pouco impacto. Ao encontrar dois amigos no saguão, comentei sobre as mostras e recomendei que visitassem prioritariamente a de Vacaria, por julgá-la superior. Mal terminei de falar e a dupla se dirigiu direto à mostra do artista carioca. Afinal, era “de fora”. Não sei se de fato a qualidade dos artistas vacarianos era superior à do carioca, conforme eu defendia, mas uma coisa é certa: minha credibilidade enquanto crítico de arte está abaixo das polainas do cachorro.
De minha parte, sigo convicto de que, em se tratando de arte, a Serra faz milagres, sim, com a sucessão de talentos e genialidades que gesta em todas as áreas. Só para embasar, lembremos de Antonio Giacomin com suas aquarelas; de Vasco Machado e suas telas campeiras; de Rafa Schüler e sua guitarra falante; de Cibele Tedesco e Alcides Verza com sua maestria na condução de corais; de Zica Stockmans, Magali Quadros, Cleri Pelizza, João Tonus, Aline Zilli e Jonas Piccoli abrilhantando nossos palcos teatrais; da música de Selestino Oliveira; dos quadrinhos de Eduardo Cardoso; do olhar fotográfico de Mauro J. Bettiol e Liliane Giordano; da escrita de José Clemente Pozenato. E tantos, tantos outros, que chego a me empanturrar com os milagres que os talentos regionais são capazes de produzir na minha alma. Tenho o privilégio de residir em uma região cujos artistas me conectam com o mundo.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 3 de fevereiro de 2020) 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O que não vem por download

Incorporar uma nova tecnologia à nossa vida, que encontre seu lugar entre nossos sempre enraizados hábitos, não é algo assim tão simples. Por mais que prometam revoluções e mil vantagens, nem sempre nos deixamos seduzir por um botãozinho e não são poucas as vezes em que retornamos resignada, acolhedora e pacientemente aos nossos velhos e bons chinelinhos de pano, só para usar uma imagem amigável e de fácil entendimento, né, madama, porque nenhum de nós dois pensa em trocar as chinelas por um par de patins...
Lembro, milênios atrás, quando ainda morava com meus pais na sempre saudosa Rua dos Viajantes, na Ijuí de minha infância, do presente esquisito que a família ganhou certa feita: uma faca elétrica de cortar pão! Ora, bastava enfiar na tomada o plugue, posicionar o aparelho (que se assemelhava a um aspirador de pó portátil) com as lâminas sobre o pão d´água já devidamente imobilizado e apertar o botão. As lâminas iam e vinham como um serrote, exigindo apenas que o hábil provedor do café da manhã tratasse de ir aprofundando o encravamento sobre a casca e depois o miolo, produzindo uma a uma as fatias que devoraríamos com o mel, a manteiga, o schmier (que pronunciávamos “ximia”) de uva... Mas, ao fim e ao cabo, não rolou. Muito mais fácil, rápido, ágil e eficaz meter a mão na velha faca de cortar pão retirada da gaveta dos talheres e proceder aos cortes, sem cabo elétrico, sem busca por tomada. Teve vida curta a faca elétrica, jazendo esquecida para sempre em alguma das prateleiras da cozinha.
Da mesma forma as escovas de dentes elétricas. Comigo, não vingaram. Descobri, dia desses, via contatos internacionais, que fenômeno semelhante se deu nos Estados Unidos, onde a promessa de uma vida doméstica melhor por meio da aquisição de abridores de latas elétricos também foi por água abaixo. Claro que, nessa esteira, a saga dos avanços tecnológicos apresenta, no geral, um “case” de sucesso: migramos alegremente das charretes para os automóveis de câmbio automático; aposentamos as máquinas de escrever pelos teclados de computador; as máquinas fotográficas pelos fones celulares; a pena de pavão pela esferográfica; os telefonemas pelas mensagens de whats; o estrogonofe pelo risoto de alho-poró com ervas finas; a Divina Comédia pela nova edição do BBB.
Mas o que jamais será substituído por tecnologia alguma, madama, é o olho no olho em uma conversa a dois; um aperto de mão caloroso; um bom livro no colo antes de dormir; um churrasco em família e com os amigos... Ainda tem coisa na vida que não se pode medir via megabites.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 27 de janeiro de 2020)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O príncipe e o menino


Enfrentando com um sorriso as expressões de espanto exclamadas em todas as línguas do planeta, o príncipe Harry não pestanejou, dias atrás, ao decidir chutar o balde, digo, a coroa da realeza britânica e largar de mão sua participação no elenco capitaneado por sua avó, a rainha Elizabeth II, para ir reinventar a vida de forma plebeia ao lado da esposa, a atriz norte-americana Meghan Markle, no Canadá. Harry e Meghan manifestaram o desejo de viver uma vida normal, ganhando seu próprio sustento, desvencilhados do aparato advindo da ostentação (e dos impostos) da coroa britânica, claro que entendendo-se por “normal” aquilo que se pode antever de uma dupla que passa a enfrentar seus novos desafios já confortavelmente ancorada em fortunas que nossas vãs filosofias e finanças sequer sonham.
Mas vá lá: o (ex?) príncipe Harry surpreende pela ousadia de quebrar uma tradição, enfrentar as adversidades e a repercussão internacional de seu ato e mergulhar no sonho de ir em busca da felicidade pessoal. Tudo fica mais fácil, repito, quando se tem uma conta bancária capaz de ancorar qualquer loucura, mas pelo jeito a questão não era só essa. Buscar a felicidade é uma prerrogativa lícita e um direito universal, válida inclusive para príncipes e atrizes hollywoodianas, eu, você e a madama. Que sejam felizes, então, longe da rainha e sua coroa encravada.
Comungava com Harry o desejo de buscar uma vida melhor também o menino africano Laurent Barthélémy Ani Guibahi, de 14 anos, que na semana passada decidiu concretizar o desejo de abandonar seu país natal, a Costa do Marfim, e reconstruir a vida na França, país que em seu imaginário de garoto estudioso e bom filho, representava o paraíso na Terra, sabedor que era da discrepância na qualidade de vida entre as duas nações. Determinado, pôs seu plano em ação na primeira semana deste ano: fez a pé os 30 quilômetros que separam sua casa do aeroporto de Abidjan e embarcou como clandestino em um Boeing da Air France, escondendo-se perigosamente no trem de pouso. Laurent foi encontrado após a aterrissagem, no Aeroporto Charles de Gaulle, na França, porém, chegou morto ao destino de seu sonho. Os mundos internos de Harry e Laurent convergiam no anseio genuinamente humano que pauta a busca pelos sonhos. Porém, seus mundos concretos divergiam nas condições de que dispunham para viabilizar esses sonhos. A busca da felicidade tem seu preço, cabe a cada um pesar a relação entre custos e riscos. Para o pequeno africano, custou a vida. Para Harry, pouco mais que sustentar o olhar torto da rainha.
 (Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 20 de janeiro de 2020)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

O perigo da falsa autoria


Venha cá, madama, vamos falar sobre algo sério, senta aqui do lado. Pois é, precisamos conversar sobre essa coisa do “diz que me diz que”. Isso! Hein? Não, que é isso, não estou dizendo que a senhora disse que! Nada disso! Não disse isso, e é exatamente sobre isso que desejo falar: sobre quem disse o que! Pois é, a senhora veja, existe hoje muito dessa coisa de dizerem que Fulano disse tal coisa, sendo que a coisa tal jamais foi sequer aventada pela mente de Fulano, por mais imaginosa e criativa que ela seja, cabendo, na verdade, a Sicrano a autoria do dito, que acaba passando batido. Precisamos atentar a essas coisas, para evitar dizermos que disse o dito quem não o disse. Para fins de abertura séria da crônica de segunda, direi que precisamos abordar a questão das falsas atribuições de autoria.
A senhora veja, madama, como são as coisas. São de tal porte e envergadura que sequer um cronista de segunda como eu se vê livre de incorrer no erro. Vida inteira, por exemplo, atribuí a Borges (o escritor argentino, aquele), a bela reflexão que segue: “Sonhei pelo menos algumas vezes que, no dia em que chegar o Juízo Final e os grandes conquistadores, juristas e estadistas forem receber suas recompensas – coroas, lauréis, nomes gravados indelevelmente no mármore imperecível -, o Todo-Poderoso há de se virar para Pedro e dirá, não sem uma ponta de inveja ao nos ver chegando com nossos livros debaixo do braço: ‘Veja, estes não precisam de recompensa. Aqui não temos nada para lhes dar. Gostavam de ler’”. Lindo, né? Só que a sensibilidade pertence à escritora Virgínia Woolf, não a Borges. Da mesma forma, as frases erroneamente atribuídas a Bertold Brecht, referindo-se à perseguição nazista na Alemanha: “Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu não disse nada, pois não era socialista. Então vieram buscar os sindicalistas, e eu não disse nada, pois não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus, e eu não disse nada, pois não era judeu. Quando eles vieram me buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar”. Quem disse foi o pastor alemão Martin Niemöller, uma das raras vozes a se levantar contra a psicopatia assassina hitlerista na Alemanha, na época. Sabia? Nem eu!
Precisamos cuidar com as pegadinhas das falsas atribuições de autoria, para não incorrermos em injustiças e erros. Shakespeare nunca disse “Postar ou não postar, eis a questão!”. Fernando Pessoa jamais poetou que “o amor é a coisa mais linda do mundo”, apesar de ser, sim. Cuidado com as pegadinhas, madama! Essa, a senhora pode atribuir a mim mesmo!
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 13 de janeiro de 2020)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

O papa deu mais que palmadas


Confessa, madama, que a senhora também ficou escandalizada com a cena protagonizada pelo papa Francisco na última noite de 2019, semana passada, às vésperas da virada do ano, quando ele precisou dar dois tapinhas nas mãos de uma peregrina impertinente que o agarrava pelo braço exigindo bênção, na Praça São Pedro, no Vaticano. Primeiro lugar, né, madama, bênção não se exige, bênção se recebe (no máximo, se pede com educação, o que faltou à peregrina, é verdade, porém, facilmente desculpada devido à emoção que a possuía ao ver-se cara-a-cara com o sumo pontífice, de quem acabou obtendo foi o privilégio único de receber sumas e santas palmadas). Todos viram a cena, que rapidamente viralizou mundo afora, via redes sociais e, depois, mídia tradicional (a senhora mesma já assistia ao episódio papal na tela de seu smartphone poucas horas depois, em arquivo compartilhado pelas suas amigas da hora do chá, confessa), gerando espanto devido à perda da paciência por parte do papa, que, ali, descortinava seu lado humano e, ipso facto, falível (“ipso facto” significa “por isso mesmo”, madama, a senhora sabe que não resisto a um latinismo ao abordar temas papais).
Mas o espanto generalizado frente a um súbito arroubo de perda da paciência não se justifica em se tratando da ação dos protagonistas do cenário do universo cristão, onde os episódios se acumulam. A meu ver, todas as vezes em que isso aconteceu, a justificativa era válida. Jesus Cristo, ele mesmo, perdeu a paciência bonito ao entrar em Jerusalém e deparar com o templo sagrado tomado por vendilhões, aos quais tratou de expulsar a chicotadas, viradas de mesa e xingamentos. Bem que fez. Deus, no Antigo Testamento, perdeu a paciência várias vezes com a humanidade pecadora que ele mesmo havia criado, com consequências trágicas, bastando lembrar do Dilúvio e da destruição de Sodoma e Gomorra. Não há dúvidas de que o mau comportamento dos seres humanos é capaz de tirar do sério até mesmo seu Criador. Quem tinha paciência mesmo era Jó, mas daí já é querer demais de nós todos, simples mortais, pecadores e papas.
Mas se ao perder a paciência o infalível papa demonstrou ser moldado pela mesma essência que rege todo o restante da humanidade, foi ao reconhecer seu erro e vir a público pedir desculpas, já no dia seguinte, que ele revelou o aspecto que o diferencia de todos nós, madama: a senhora, eu e todos os bilhões de etceteras que nos cercam. Ele humanamente errou, sim. Mas, depois, reconheceu o erro, mostrando o caminho, que é o que esperamos de um papa. Quem de nós segue o exemplo?
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 6 de janeiro de 2020)